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Ontologia

BLATTNER, William D. Heidegger’s “Being and Time”: A Reader’s Guide. 2nd ed ed. London: Bloomsbury Academic, 2023.

  • A pergunta condutora de Ser e Tempo interroga o que é o ser, denominada por Heidegger de pergunta do ser (Seinsfrage), partindo da constatação de que “ser” é um gerúndio referente à atividade ou condição descrita pelo verbo “ser”
  • O ser determina os entes como entes sem produzi-los ou causá-los, distinção que Heidegger nomeia diferença ontológica (ontologische Differenz), sendo erro conceitual fundamental confundir ser com ente, erro que conduz à ontoteologia, fusão de ontologia e teologia
    • a diferença entre ser e entes é estabelecida em Problemas Fundamentais da Fenomenologia (GA24)
    • produção e causação são relações entre entes, como o raio que causa um incêndio ou o oleiro que produz um vaso
    • conceber o ser como ente onipresente leva à identificação do ser com Deus
  • O exemplo cotidiano de confundir um arbusto balançando ao vento com uma pessoa no quintal ilustra que o julgamento sobre a existência de algo depende dos padrões que constituem o ser das coisas físicas, como persistência e regularidade, não sendo uma questão epistemológica
  • Fenômenos da mecânica quântica, como partículas virtuais, que aparecem e desaparecem em frações de segundo, mostram que os padrões usados para compreender o ser variam, de modo que físicos provavelmente compreendem o ser do físico de modo diferente do leigo
  • A tentativa de alguns estudiosos de identificar o ser com o sentido do ser é insustentável, pois compreender um fenômeno é projetá-lo sobre seu sentido, e o próprio ser é projetado não sobre si mesmo, mas sobre o tempo, horizonte de toda compreensão do ser
    • a frase inicial do tratado afirma que o objetivo é elaborar concretamente a pergunta pelo sentido do ser
    • o tempo deve ser trazido à luz e concebido genuinamente como horizonte de toda compreensão do ser e de toda interpretação do ser
    • a pergunta do ser distingue três aspectos: aquilo que é perguntado, aquilo que é interrogado e aquilo que deve ser descoberto pela pergunta
    • o resultado buscado pela indagação ontológica é justamente o sentido do ser
  • Qualquer resposta à pergunta pelo ser articula o sentido do ser para quem pergunta, e como o ser não é um super-ente independente dos entes, mas antes um traço estrutural destes, não sendo um predicado real segundo o argumento de Kant, deve-se consultar os entes para destacar os traços estruturais em virtude dos quais são compreendidos como entes
    • a maçã vermelha, de interior esbranquiçado e sabor doce, não ganha um traço adicional quando se pergunta se ela existe
    • persistência e regularidade são aspectos estruturais dos fenômenos, e não traços ordinários deles
  • O caso da impressão equivocada de haver alguém no quintal revela que se possui uma compreensão do ser, o que Heidegger expressa ao dizer que o ser-aí (Dasein) é onticamente distintivo por ser ontológico, ou pré-ontológico, sendo a ontologia a investigação teórica voltada explicitamente ao sentido dos entes, cujo produto é uma ontologia, interpretação conceitual teórica do ser, de sua estrutura e possibilidades
    • a maioria das pessoas conta apenas com uma compreensão vaga e mediana do ser
    • a primeira tarefa da investigação ontológica é articular a compreensão do ser que estrutura a experiência cotidiana
  • A compreensão vaga e mediana do ser está infiltrada por teorias e opiniões tradicionais sobre o ser, que permanecem ocultas como fontes do modo prevalente de compreendê-lo, de modo que as respostas típicas à pergunta pelo ser de uma pessoa não refletem de fato a compreensão do ser presente na experiência cotidiana, havendo tensão entre a compreensão praticada e a compreensão articulada na reflexão
    • a pergunta do ser não é uma pergunta sobre o significado de uma palavra comum, “ser”
    • sentido é aquilo em termos do qual se compreende um fenômeno, e a compreensão é mais básica do que o articulado explicitamente nas asserções
  • Buscar o sentido do ser exige primeiro esclarecer o que é compreender e, portanto, tornar transparente o próprio ser do ente que pergunta, tarefa comparável a verificar os instrumentos antes de um experimento ou os fluidos de um carro antes de uma viagem
    • elaborar adequadamente a pergunta do ser requer tornar transparente em seu próprio ser o ente que interroga
  • A investigação do ser deve consultar ou interrogar determinado ente, e esse papel cabe a nós mesmos, denominados ser-aí (Dasein), ente que inclui o próprio perguntar como uma de suas possibilidades de ser
    • formular a pergunta explícita e transparentemente requer explicitar previamente um ente, o ser-aí, quanto ao seu ser
  • A escolha do ser-aí (Dasein) como ente privilegiado não decorre de considerá-lo mais fundamental do que Deus ou do que os entes postulados pela ciência natural, nem constitui idealismo, uma vez que tal idealismo seria tão ingênuo em seu método quanto o mais grosseiro realismo militante
  • Como o ser é, em seu próprio ser, uma questão para o ser-aí (Dasein), este possui certa compreensão de si mesmo em seu ser, sendo a compreensão do ser, ao menos como pré-ontologia, um traço distintivo do ser-aí, ao qual se reserva o termo existência (Existenz), e ao adjetivo existencial (existenzial) o que lhe diz respeito, ao passo que existenciário (existenziell) designa os modos concretos de existir, como ser professor ou estudante
  • O ser-aí (Dasein) compreende e interpreta tacitamente algo como o ser sempre a partir do tempo como ponto de vista, de modo que persistência e regularidade, estruturas temporais, constituem o ser dos entes físicos, sendo a articulação detalhada da estrutura temporal dos diversos entes e do ser em geral a tarefa de uma ontologia bem-sucedida, chamando-se Temporalität a estrutura temporal do ser em geral e Zeitlichkeit, temporalidade, a estrutura temporal específica da existência humana
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