estudos:blattner:sz:morte
Morte
BLATTNER, William D. Heidegger’s Being and time: a reader’s guide. London: Bloomsbury, 2006.
-
A morte é a possibilidade de não-mais-poder-ser-aí, a possibilidade da impossibilidade absoluta do ser-aí (Dasein), cabendo à angústia a função especial de desvelar essa morte, pois a disposição capaz de manter aberta a ameaça total e constante que decorre do ser individualizado mais próprio do ser-aí é a angústia (Angst), que ao confrontar com a morte existencial abre a possibilidade de uma liberdade apaixonada para a morte, liberdade libertada das ilusões do Impessoal (das Man)
-
Isso começa a soar bastante sombrio, descobrindo-se a liberdade na angústia, cortados tanto das relações com os outros quanto da autocompreensão, confrontando uma morte solitária, descrevendo-se ainda a relação própria com a morte como antecipação, ou mais literalmente como correr-para-frente-em (vorlaufen in), questionando-se se haveria aqui participação na valorização niilista do suicídio encontrada em Ivan Karamázov ou na idealização protofascista da morte encontrada nos escritos de Ernst Jünger, o que seria decepcionante, não sendo, contudo, o caso, exigindo-se antes percorrer a ginástica linguística de II.1
-
Morte em Ser e Tempo não se refere ao término de uma vida humana, sendo antes uma condição em que o ser-aí pode se encontrar, pois a morte é um modo de ser que o ser-aí assume tão logo é
-
Morte não é evento que jaz no futuro, não sendo o morrer um evento, mas um fenômeno a ser compreendido existencialmente, não se referindo a possibilidade de não-mais-poder-ser-aí e a impossibilidade absoluta do ser-aí ao término da vida
-
Tais expressões não são possibilidades no sentido de eventos que podem ocorrer ou coisas que podem acontecer ao ser-aí, sendo as possibilidades humanas modos de conduzir a própria vida, interpretando-se a si mesmo em termos de uma possibilidade existencial ao avançar para ela, sendo a possibilidade da impossibilidade da existência um modo de conduzir a própria vida, desvelado pela angústia
Na angústia, a familiaridade com o mundo ao redor, o estar-em-casa no mundo, entra em avaria, individualizando a angústia e revelando a constituição ontológica segundo a qual sempre se confronta a questão da identidade, revelada em sua avaria, tal como a constituição ontológica dos utensílios se torna saliente quando eles apresentam mau funcionamento-
Na angústia não se pode responder à questão da identidade, deixando o mundo de fazer sentido como palco em que se pode ser si mesmo, não se estando mais em casa no mundo, sendo existir, tal como definido na Divisão I, precisamente avançar para uma autointerpretação, de modo que, na angústia, existencialmente não se pode existir, estando-se existencialmente morto
Se morte se refere a essa condição existencial de incapacidade de responder à questão da identidade, o término de uma vida humana é chamado deceso (Ableben)-
O ser-aí também tem sua morte, do tipo apropriado a tudo que vive, tendo-a não em isolamento ôntico, mas codeterminada por seu tipo primordial de ser, podendo assim o ser-aí terminar sem autenticamente morrer, embora, enquanto ser-aí, não simplesmente pereça, designando-se esse fenômeno intermediário como decesso
-
Seres humanos estão vivos, podendo assim suas vidas terminar, e de fato sempre terminam, perecendo, denotando-se terminologicamente o fim de qualquer coisa viva como perecer
-
Perecem os animais, assim como espécimes da espécie Homo sapiens, insistindo-se, contudo, em que não simplesmente perecemos, sendo o fim da vida codeterminado pelo tipo primordial de ser, isto é, por sermos ser-aí e não meramente animal, falando-se em decesso, e não meramente em perecimento, quando uma vida humana termina
O uso da palavra morte é assim exótico, embora não de todo sem precedentes, valendo-se a linguagem cristã do morrer para o mundo do mesmo uso elástico da palavra, assim como expressões do tipo ele está morto para mim-
Quando alguém está morto para nós, deixa de importar, sem que sequer se sinta raiva por essa pessoa, e quando se está existencialmente morto, a própria vida deixa de importar, não no sentido de ser barata ou descartável, mas no sentido de não se poder identificar com nenhum modo possível de seguir adiante
-
Rejeita-se que esses sejam usos meramente metafóricos da palavra morte, sob risco de degradar o tratado ontológico a algo meramente edificante, defendendo-se antes o uso do termo em bases ontológicas, sendo a morte, nesse sentido, o fim do ser-aí, assim como o decesso é o fim de uma vida humana
Num conjunto detalhado de considerações no §48, analisam-se vários modos de terminar-
Parar ou terminar, como num processo, é um tipo de fim, assim como o cumprimento, que ocorre quando algum objetivo interno foi satisfeito, podendo qualquer coisa que amadurece ou amadurece ser cumprida ou não, assim como os próprios projetos, que têm metas que podem ser alcançadas ou não
-
O ser-aí, concebido como projeto, pode muito bem ter passado de sua maturidade antes do fim, como no caso de um político que se recusa a largar as rédeas do poder muito depois de se ter tornado alheio a seus eleitores, sendo tentador, por se descrever a autocompreensão como projeção ou projeto (Entwurf), ler que o fim do ser-aí seria um tipo especial de cumprimento, leitura equivocada
Um projeto é um conjunto de atividades organizadas em torno de alguma meta alcançável, terminando quando o projeto se completa, chegando os projetos a um fim, ou então nunca terminando e permanecendo para sempre incompletos, como a Nona Sinfonia de Bruckner-
Como criança, pode-se organizar a festa de aniversário dos pais, como conselheiro de acampamento pode-se organizar um jogo de tetherball para os assistidos, como estudante pode-se propor a escrever uma tese de conclusão, podendo-se sempre perguntar se tais projetos foram completados, não sendo, contudo, o ser-aí assim
-
Por nenhum desses modos de terminar a morte pode ser adequadamente caracterizada como o fim do ser-aí, pois, se o morrer, como estar-no-fim, fosse compreendido no sentido dos términos discutidos, o ser-aí seria tratado como algo presente à mão ou à mão, não tendo o ser-aí, na morte, sido cumprido nem simplesmente desaparecido, não tendo se tornado acabado nem estando inteiramente à disposição como algo à mão
-
O ser-aí já é seu ainda-não, sendo constantemente seu ainda-não enquanto é
Há sempre mais numa autocompreensão do que em qualquer projeto, havendo uma peculiar abertura sem fim nas autocompreensões-
Ser criança, estudante ou treinador não é algo com meta definida tal que, uma vez alcançada, a autocompreensão esteja cumprida ou completa, não sendo ser treinador apenas gerenciar um time, mas um modo de compreender o próprio ser-com-os-outros (Miteinandersein) que excede os limites de qualquer projeto, e mesmo de qualquer profissão, conduzindo-se os negócios de modo treinador-like, ou mais idiomaticamente professoral, buscando guiar os outros
-
Há pessoas que ocupam a posição de treinador, plenamente qualificadas nessa profissão, mas que não são treinador-like, talvez por lhes faltar a empatia necessária para ver o que seus atletas precisam no momento, ou porque o time gira em torno de si mesmas e de seu sucesso, não do crescimento dos atletas
James Carse desenvolve uma distinção útil entre jogos finitos e jogos infinitos-
Um jogo finito é um jogo com uma meta que o encerra, havendo por isso vencedores e perdedores, jogando-se jogos finitos para vencê-los, ao passo que um jogo infinito é jogado pelo prazer de jogar, podendo os jogos infinitos conter jogos finitos sem que o fim de qualquer jogo finito defina o fim do jogo infinito
-
Distingue-se assim jogar uma partida de beisebol de ser jogador de beisebol, podendo as partidas ser completadas ou não, ao passo que ser jogador de beisebol não pode, sendo ser jogador de beisebol um jogo infinito, podendo alguém permanecer jogador de beisebol mesmo após se aposentar da prática ativa, trabalhando em transmissões esportivas, no circuito de autógrafos ou como treinador
-
Do mesmo modo, pode-se ser estudante ao estar matriculado num programa de graduação, projeto que culmina na obtenção de um diploma ou é interrompido caso se abandone, ou se seja expulso do programa, sendo ser estudante nesse sentido um jogo finito, podendo-se, contudo, ser um aprendiz vitalício, sendo o aprender um jogo infinito, jogado por si mesmo
-
Caracteriza-se o ser-aí como existindo em vista de si mesmo, o que não significa ser egocêntrico, mas viver em vista da autocompreensão em que se avança, sendo as autocompreensões jogos infinitos
As autocompreensões podem, contudo, morrer, estando morta uma autocompreensão quando deixa de funcionar como princípio orientador da vida-
Está-se morto, por exemplo, como aprendiz quando aprender deixa de importar, tornando-se inertes os significados que antes estruturavam a vida como aprendiz, os projetos que antes acenavam e as exigências antes sentidas
-
Quando não apenas esta ou aquela autocompreensão morreu, mas todas elas, morreu-se a si mesmo, sendo a morte existencial mais parecida com uma situação-limite do que com a paralisação de um processo
-
A morte existencial é a situação-limite do ser-possível (Möglichsein), do poder-ser (Seinkönnen), pois na morte não se pode exercer essa capacidade, revelando-se assim um limite da existência, não havendo autocompreensão imune a ser solapada pela angústia, podendo qualquer coisa tida como certa sobre si mesmo ser dissolvida pelos efeitos corrosivos da angústia
-
A finitude existencial do ser-aí, sua limitação, é sua vulnerabilidade constante, por ser essencial, à angústia e à morte, sendo assim a morte o fim do ser-aí no sentido da situação-limite em que a finitude do poder-ser do ser-aí é exposta
Poder-se-ia temer que ler a morte existencial como a condição em que não se pode compreender a si mesmo não se conforme ao sentido preferido do termo possibilidade quando aplicado ao ser-aí, sendo uma possibilidade existencial um modo de conduzir a vida, um para-o-bem-do-qual em que se avança ou se vive-
Na morte, ou mais especificamente em ter a morte por verdadeira, compreende-se a si mesmo como ser-possível vulnerável a ruptura radical, mostrando a discussão posterior da resolução (5.iv) que compreender-se assim exige abertura para retomar, isto é, para abandonar a autointerpretação fática atual e perseguir outra
-
Antecipar a morte, assim como autenticidade e inautenticidade, não é ela mesma um modo concreto de viver, mas um modo em que se pode viver qualquer possibilidade concreta em termos da qual se possa compreender a si mesmo, sendo, como autenticidade e inautenticidade, um modo existenciário essencial da vida fática
A morte é ainda caracterizada como certa, indeterminada, não relacional, inultrapassável e mais própria, considerando-se cada um desses aspectosCerteza: contrasta-se a certeza como atitude perante a evidência com a certeza como postura existencial-
Como atitude epistêmica perante a evidência, estar certo é estimar a probabilidade de um evento em cem por cento, podendo-se estar epistemicamente certo do próprio decesso, embora talvez algum dia se encontre modo de vencê-lo, o que sugeriria ser o decesso apenas empírica ou relativamente certo, não exatamente cem por cento provável
-
Concede-se esse ponto, comentando-se que o fato de o decesso, como evento que ocorre, ser apenas empiricamente certo em nada é decisivo para a certeza da morte, pois por morte não se entende o evento do próprio decesso, sendo irrelevante a probabilidade de sua ocorrência, e por estar certo não se entende uma atitude epistêmica perante a evidência, caracterizando-se antes a certeza como ter-por-verdadeiro, estando certo da morte quem mantém aberta a intuição ontológica de estarmos vulneráveis à morte e à angústia como questão de nossa constituição existencial
Indeterminação: a certeza da morte é glosada pela noção de indeterminação, indo junto com a certeza da morte a indeterminação de seu quando, sendo ela possível a qualquer momento-
Isso parece falar da morte como evento que pode ocorrer a qualquer hora, mas já se disse que a morte não é um evento, significando antes que nada nos protege ou nos blinda contra a angústia existencial, pois se os seres humanos estivessem configurados para sempre se importar com algo determinado, a angústia não seria sempre possível
-
Se, como no imaginário popular, o instinto parental, mais comumente instinto materno, ou o desejo sexual estivessem programados na psicologia humana, não haveria por que temer que pais abandonassem filhos ou que alguém perdesse o interesse pelo sexo, mas há de fato essa preocupação, porque, no sentido relevante, nada disso faz parte da natureza humana, sendo ter a morte por certa desvelá-la como um modo em que se pode encontrar (des)orientação no mundo simplesmente em virtude da constituição ontológica, sendo a morte sempre possível porque sempre se pode desvelar a morte existencial como aspecto do próprio ser
Inultrapassabilidade: essa vulnerabilidade à ruptura radical revela como qualquer possibilidade da vida humana pode ser ultrapassada-
A autocompreensão do metalúrgico chegou a um fim abrupto no vale do Rio Monongahela, nos arredores de Pittsburgh, no início dos anos 1980, não podendo mais quem se compreendia assim fazê-lo, pois o contexto o despojou dessa vivibilidade, podendo qualquer para-o-bem-do-qual em que se esteja engajado tornar-se irrelevante por nenhum deles estar programado na ontologia do ser-aí, podendo todas as possibilidades fáticas ser ultrapassadas
-
Estamos, contudo, sempre vulneráveis à morte, o que significa que antecipar a morte é sempre possível, não podendo a morte ser ultrapassada
Não relacionalidade: a morte existencial é também não relacional, pois quando o ser-aí assim se põe diante de si mesmo todas as suas relações com qualquer outro ser-aí foram desfeitas-
Como caracterização de como as pessoas confrontam ou imaginam o decesso, isso é altamente duvidoso, morrendo algumas pessoas nos braços de entes queridos, confortadas por um sentimento de plenitude e de vida bem vivida, não se pretendendo negar isso, já que a morte não é decesso
-
O ponto é antes que os outros não podem ser de nenhuma ajuda na angústia, estando-se cortado deles, sem poder recorrer a eles para orientação ao elaborar a autocompreensão
Afirma-se ainda não se poder ser representado na morte, não podendo ninguém tomar para si o morrer alheio-
Se se entende morte como o fim de uma vida humana, o decesso, então alguém pode certamente morrer no lugar de outro, sacrificando a própria vida, o que reduziria a reflexão sobre a morte à piada de Delmore Schwartz de que existencialismo significa que ninguém pode tomar banho por outro
-
Há muitas coisas que outros não podem fazer por nós, incluindo tomar banho, ter dor de cabeça, levar pontos ou falecer, sendo o ponto antes que ninguém pode tirar de nós a angústia, o que é verdadeiro em dois sentidos, primeiro porque na angústia os outros são inúteis por deixarem de importar, e segundo porque, quando se está existencialmente morto, é a própria vida que deixa de fazer sentido, não a de outra pessoa
-
Um dos benefícios significativos dessa abordagem do conceito de morte é evitar atribuir teses descabidas, como a de que nossas vidas sempre terminam sozinhas ou a de que ninguém pode sacrificar a vida por outrem
Mais própria: somando-se os dois últimos pontos, conclui-se que, na morte existencial, o ser-aí é individualizado-
A morte não apenas pertence ao próprio ser-aí de modo indiferenciado, mas reivindica-o como ser-aí individual, individualizando o caráter não relacional da morte, tal como compreendido na antecipação, o ser-aí até si mesmo, sendo essa individualização um modo pelo qual o aí (Da) se desvela para a existência, tornando manifesto que todo ser-em-meio-às-coisas de que nos ocupamos, e todo ser-com-outros, falhará quando estiver em questão o poder-ser mais próprio
-
O ser do ser-aí é em cada caso meu, o que significa que, em certo sentido, o próprio ser pertence a si mesmo, devendo o que quer que seja isso operar tanto na morte existencial quanto na vida cotidiana, sendo tudo o que é próprio na morte apenas a questão da identidade, não qualquer resposta a ela, confrontando o ser-aí a questão da identidade não importa como mais se compreenda, mesmo quando não pode se compreender de modo algum em termos do mundo, sendo por isso a morte mais própria por ser sempre possível, não importa quem concretamente se seja
Ser a morte mais própria não significa que todas as demais possibilidades, como ser estudante, filho ou colega de time, sejam farsas ou encobrimentos-
Um modo de ouvir a linguagem de autenticidade e propriedade de si é associá-la à sinceridade ou a ser fiel a si mesmo, exigindo essa fidelidade primeiro ser honesto consigo quanto a quem se é, quais as reais aspirações e sentimentos, podendo-se pensar, com essa retórica em mente, que nenhuma das identidades práticas socialmente construídas ou dos para-o-bem-dos-quais em termos dos quais se compreende a si mesmo seria realmente autêntica, envolvendo qualquer modo de conduzir a vida vender-se ao Impessoal e aquiescer numa persona pública que falsifica quem se é
-
Essa é uma versão do personalismo romântico, não implicada pela análise da morte como mais própria, podendo-se alternativamente pensar que a tese de que a morte é a possibilidade mais própria do ser-aí significa ser-se realmente nada e ninguém, não restando nada uma vez individualizado até a própria essência particular
-
Há certa plausibilidade nessa leitura, que se conecta a formulações como a de que o próprio cuidado (Sorge), em sua essência, está permeado de nulidade através e através, podendo ter sido assim que Sartre leu essa filosofia, sendo-se no fim nadidade, visão capturada no próprio título de seu tratado de fenomenologia existencial, O Ser e o Nada
-
Esse não é, contudo, o ponto em questão, sendo antes um pouco diferente, a saber, que a capacidade mais própria é simplesmente o próprio ser-possível, confrontado de modo cru na angústia e na morte, sendo todos os para-o-bem-dos-quais em termos dos quais se compreende a si mesmo socialmente mediados, sendo tudo o que é peculiarmente próprio esse ser-possível em virtude do qual se avança para quem se é, avançando para algum conjunto de possibilidades oferecido pela cultura
-
Não se segue daí ser-se realmente nada, ou que quem se é verdadeiramente se revele na angústia e na morte, sendo-se antes quem quer que se descubra ser no curso da própria vida, restando voltar-se à culpa e à consciência em II.2
estudos/blattner/sz/morte.txt · Last modified: by 127.0.0.1
-
