estudos:blattner:sz:culpa-2023
Culpa
BLATTNER, William D. Heidegger’s “Being and Time”: A Reader’s Guide. 2nd ed ed. London: Bloomsbury Academic, 2023.
-
Em II.2 desenvolve-se uma fenomenologia da culpa (Schuld), da consciência (Gewissen) e da resolução (Entschlossenheit), apropriando-se, como no caso da morte, dessas palavras ordinárias para dar-lhes sentidos especiais, referindo-se a culpa, na linguagem técnica, a um traço estrutural de sermos quem somos, uma vez que somos chamados a ser quem somos pelo modo como as coisas nos importam, sem poder controlar esse modo de importar, sendo esse chamado ouvido pela consciência, capaz tanto de ouvir esse chamado em geral quanto um chamado específico, dirigido a nós e não ao Impessoal (das Man), podendo-se perder no Impessoal e afastar-se desse chamado ou abraçá-lo, querer ter consciência, fenômeno nomeado resolução
Culpa Existencial: Ser-a-Base-(Nula) de uma Nulidade
-
Na linguagem cotidiana, é-se culpado quando se inflige, impõe ou de algum modo se é a origem de uma mudança negativa na condição de outrem, devendo tal privação imposta ser ilegítima, violação de alguma norma moral, legal ou política
-
Ser-a-base para uma falta em algo na existência do ser-aí (Dasein) alheio, de tal modo que esse próprio ser-a-base se determina como faltante de algum modo em termos daquilo de que é base, formaliza essa concepção cotidiana de culpa
-
Ser-a-base formaliza ser responsável por ou autor de algo, e falta formaliza tanto a dimensão negativa daquilo por que se é responsável, a privação, quanto a dimensão negativa da própria responsabilidade, sua ilegitimidade, chegando-se assim a ser a base faltante de alguma falta, reformulado como ser a base nula de uma nulidade, significando nulo (nichtig) simplesmente não-tipo, e nulidade (Nichtigkeit) não-tipicidade, constituindo essa a concepção formal de culpa
Especifica-se em seguida essa concepção formal de culpa para a constituição existencial-ontológica do ser-aí, perguntando-se de que modo o ser-aí é a base de seu ser-
Sendo-se quem se interpreta ser, interpretando-se a si mesmo em termos de possibilidades de ser, os para-o-bem-dos-quais (Worumwillen), para as quais se vive avançando, avançando-se para estas possibilidades e não outras porque elas importam de modos específicos que atraem para diante, sendo esse modo de importar a base ou o fundamento (Grund) da autointerpretação
-
Sendo-se lançado nos modos como as coisas importam, ao avançar-se na autointerpretação de quem se é, isso se faz com base no modo como possíveis modos de viver já importam, ficando o ser-aí, em ser uma base, isto é, em existir como lançado, constantemente atrás de suas possibilidades, ficando atrás delas por já importarem, chamando para diante, puxando para dentro delas
-
O ser-aí foi liberado de sua base, não por si mesmo, mas para si mesmo, para ser essa base, sendo-se liberado ou libertado para ser quem se interpreta ser, liberado como a pessoa que se descobre ser, não se escolhendo quem se descobre ser, não sendo essa liberação produto da própria agência, ainda assim sendo-se liberado para ser quem se é por se ser quem se interpreta ser
Um exemplo concreto ajuda a tornar mais tratável essa linguagem formal-
Na medida em que se interpreta a si mesmo como vizinho, há uma gama de possíveis cursos de ação, podendo-se ser vizinho prestativo ao cuidar dos animais de estimação do vizinho enquanto ele viaja, ou vizinho meticuloso ao manter o gramado bem cortado, sendo-se lançado em ser vizinho e assim liberado para uma gama de cursos de ação, não se fazendo vizinho, mas descobrindo-se já vizinho
-
Poder-se-ia objetar não se ter escolhido mudar-se para o bairro e assim tornar-se vizinho, havendo aqui três pontos, primeiro que se escolhem algumas possibilidades, escolhendo-se não apenas morar ao lado de alguém, mas ser vizinho num sentido mais denso ao escolher mudar-se para um bairro de bairro, e não para uma comunidade-dormitório mais anônima, não se escolhendo, contudo, todas as possibilidades desse modo, não se tendo escolhido ser filho, irmão mais novo, angelino, descobrindo-se já nessas possibilidades antes de se poder pensar claramente sobre quem se é
-
Segundo, ao concordar em cuidar dos animais do vizinho, já se é vizinho, não se escolhendo de novo, naquele momento, ser vizinho, e terceiro, mesmo ao escolher voluntariamente uma possibilidade, isso se faz como a pessoa que já se é, tendo-se escolhido mudar para um bairro de bairro à luz de quem já se era, de como as coisas já importavam, tendo o ser vizinho apelado como confortável e familiar desde a infância, não sendo ser vizinho uma possibilidade livre-flutuante sujeita à liberdade de indiferença
Ser-a-base significa nunca ter poder sobre o próprio ser mais próprio desde o fundamento, constituindo essa a nulidade do ser-a-base, limitação sobre o poder-ser do ser-aí, uma incapacidade-
Sendo o ser-aí fundamentalmente poder-ser, um não ontologicamente apropriado a ele seria uma incapacidade, um não-poder-ser, sendo essa primeira nulidade, a nulidade do ser-a-base, a incapacidade de obter poder sobre o próprio ser desde o fundamento, a incapacidade de apagar tudo e recomeçar do zero, como uma tábula rasa, como agente radicalmente livre
O ser-aí é, além disso, a base nula de uma nulidade, sendo nula não apenas a base, mas também aquilo de que se é base, a saber, a projeção, em primeira instância a autointerpretação, sendo nula também essa autoprojeção ou autointerpretação-
Isso implica que, em poder-ser, o ser-aí está sempre numa ou noutra possibilidade, constantemente não sendo as outras possibilidades, tendo-as renunciado (begeben) em sua projeção existenciária, sendo a projeção, como lançada, determinada pela nulidade do ser-a-base, mas sendo ela mesma, como projeção, essencialmente nula
A palavra renunciar poderia sugerir que, ao escolher um caminho na vida, dever-se-ia abandonar para sempre outros caminhos, tendo-se, ao lançar-se neste romance e nesta carreira, renunciado a outros amores e carreiras possíveis, não sendo exatamente isso o que se quer dizer, pois nem sempre é verdade, retornando-se por vezes a antigos amores ou carreiras antes abandonadas-
O ponto talvez seja antes que se dispõe apenas de tempo finito na Terra, tempo e energia limitados, podendo-se avançar apenas para algumas possibilidades, não todas, exigindo-se escolhas difíceis sobre como viver, quem ser, sendo estranho extrair implicações da presumida inevitabilidade do decesso logo após argumentar que o decesso é fenômeno derivado, não sendo tampouco claro necessitar-se de nova ontologia do ser-aí para perceber que a vida é curta e que muitas vezes se deve fazer escolhas difíceis, podendo livros de autoajuda fornecer essa sabedoria
Note-se a palavra renunciado (begeben) na passagem anterior, renunciando-se a direitos ou reivindicações, havendo aí uma ressonância normativa distintiva-
Ao avançar-se para a possibilidade de ser amante, renuncia-se ao direito de ser indiferente ao amado, sendo falar em direitos rígido demais, ajustando-se melhor à fenomenologia o termo reivindicações (claims), tendo o outro, numa relação amorosa, reivindicação sobre o afeto, a lealdade, a empatia e a compaixão, experienciando-se a si mesmo como reivindicado por ele, tendo-se renunciado a outros modos de conduzir a vida e os próprios assuntos que entrem em conflito com as reivindicações constitutivas da relação amorosa
Vale incorporar brevemente ideias da filosofia moral e da filosofia da ação recentes para aprofundar a análise-
Os estatutos deônticos tradicionais de obrigação, permissão e proibição são estreitos demais para capturar a paisagem normativa em que se vive, tendo professores razão para ficar até mais tarde ajudando um aluno com dificuldades, embora não sejam obrigados a isso, destacando os professores, ao lançar uma greve branca de trabalhar apenas as horas pagas, todo o trabalho extra, supererrogatório, que de fato realizam
-
Um aluno tem razão para pedir a um professor que fique depois da aula para ajudá-lo, dando tais pedidos ao professor razão para fazê-lo, não podendo, contudo, o aluno exigi-lo, chamando alguns estudiosos esses tipos de razões de razões comendatórias, que recomendam em vez de exigir
-
A paisagem normativa navegada não é rigidamente definida pelos estatutos deônticos tradicionais de permissão, obrigação e afins, sendo uma paisagem variegada de muitas valências normativas distintas, não se falando muito de razões, mas falando-se de bases ou fundamentos para como se avança na vida, e do modo como cursos de ação importam ao ser-aí e do que está em jogo (auf dem Spiel) em seu comportamento
-
Sem essa apreensão das razões comendatórias, seria difícil compreender o modo como os para-o-bem-dos-quais chamam para agir de modos determinados, sendo um professor obrigado a avaliar o trabalho dos alunos com justiça, mas não obrigado a ficar até mais tarde para ajudar um aluno, ouvindo, contudo, mesmo ao decidir não ficar, o chamado, o pedido, como lhe dando razão para ficar, não sendo interpretar-se a si mesmo como professor apenas falar de si mesmo de certo modo, mas ouvir e responder ao que está em jogo na situação de ação, fazendo-o de modo professoral
Ser chamado a fazer uma coisa envolve inevitavelmente ser chamado a não fazer outras, sendo isso simplesmente o que é viver numa paisagem normativa-
Ao avançar-se para uma possibilidade, é-se solicitado a agir de um modo, desencorajado a agir de outro, solicitando a trilha bem batida à frente, ao caminhar, como caminho sensato, e desencorajando o amontoado de pedras ao lado como caminho perigoso
-
O mesmo amontoado de pedras poderia solicitar uma criança de oito anos como algo empolgante, ao passo que a trilha a desencorajaria como entediante, dependendo o modo como se é chamado a agir numa situação tanto de si mesmo quanto da situação, sendo o si mesmo nessa equação quem se descobre ser, por sua vez desvelado pelo modo como as coisas importam, sendo a abertura (Erschlossenheit) do ser-aí projeção lançada
A culpa existencial é, então, ser lançado em ser uma pessoa determinada, com base na qual se avança na vida, não se podendo obter controle sobre quem se descobre ser desde o fundamento, a nulidade da base, devendo-se, ao avançar em ser quem se é, renunciar a outras possibilidades que conflitem normativamente com aquelas que acenam, sendo o fenômeno existencial-ontológico da culpa ser a base nula de uma nulidadeConsciência
-
Para poder responder às solicitações discutidas, o ser-aí deve primeiro ser capaz de ouvi-las, capacidade nomeada consciência (Gewissen)
-
Ao se analisar a consciência mais penetrantemente, ela se revela como um chamado, sendo chamar um modo de discurso, tendo o chamado da consciência o caráter de um apelo ao ser-aí, chamando-o a seu poder-ser-si-mesmo mais próprio, feito por meio de convocá-lo a seu ser-culpado mais próprio
Frequentemente se pensa a consciência como uma voz interna, por vezes a voz internalizada de algum mentor ou figura parental, voz que orienta em situações moralmente carregadas-
Espera-se ser dito algo atualmente útil sobre possibilidades asseguradas de agir disponíveis e calculáveis, tendo essa expectativa sua base no horizonte do modo de interpretar próprio da preocupação do senso comum, modo de interpretar que força a existência do ser-aí a ser subsumida sob a ideia de um procedimento comercial regulável
Essa é uma afirmação exagerada, não sendo a vida cotidiana apenas um conjunto de procedimentos comerciais reguláveis, podendo-se, contudo, extrair dela um núcleo útil, esperando-se, na vida diária, orientação da consciência, esperando-se que ela dê conselhos específicos sobre como agir ou conduzir a vida, não sendo isso verdadeiro quanto à consciência existencial descrita em II.2O chamado da consciência não fornece quaisquer injunções práticas, unicamente porque convoca o ser-aí à existência, ao seu poder-ser-si-mesmo mais próprio-
Podem-se extrair duas dimensões distintas dessa análise da consciência existencial, podendo-se, seguindo Quill Kukla, publicando como Rebecca Kukla, chamar um dos elementos consciência transcendental
-
Retomando-se toda a gama de razões comendatórias discutida antes, pode-se pensá-las todas como chamados para agir de algum modo particular, exigindo-se, para ser sensível e responder a tais chamados, ser capaz de ouvi-los, sendo esse um modo de usar consciência em II.2, a saber, como a estrutura formal de tal chamado e resposta
-
A consciência chama o ser-aí para diante de suas possibilidades, dizendo nada não por ser vazia ou sem valor, mas por ser estrutura formal, buscando-se capturar um traço da experiência de agir no mundo
-
É verdade que às vezes se detém a marcha, ou se é detido por outros, e se reflete sobre como agir, deliberando-se, chegando-se a uma conclusão e agindo-se a partir dela, mas na maior parte das vezes simplesmente se responde às necessidades e oportunidades de uma situação
-
Ao dirigir por uma rua movimentada, surgindo uma abertura no trânsito da faixa da esquerda, aproveita-se a oportunidade, geralmente sem ponderar e decidir, o que, se feito, provavelmente faria perder a oportunidade ou causaria um acidente, respondendo-se a uma solicitação do ambiente para agir de certo modo, respondendo-se à solicitação de confortar um amigo enlutado ou de tomar novo rumo ao explicar algo a alguém
-
Geralmente, a situação chama para agir de modo específico, ouve-se o chamado e se responde, não se ajustando bem esse uso estendido de consciência caso se a pense como fenômeno especificamente moral, podendo-se, contudo, considerando toda a gama de razões comendatórias, ver que todas chamam a agir de algum modo específico, sendo a consciência moral apenas uma forma de consciência nesse sentido estendido
-
Pode-se identificar a estrutura formal desse chamado e resposta como fenômeno ontológico, capacidade necessária para se ser ser-aí de todo, fenômeno transcendental, a consciência transcendental
Em Ser e Tempo, consciência não se refere apenas a essa estrutura formal, conduzindo a uma segunda dimensão da consciência, convocando ela o ser-aí a seu ser-culpado mais próprio-
Aqui a consciência opera no nível dos modos existenciários essenciais da existência, autenticidade e inautenticidade, perguntando-se o que significa convocar o ser-aí a seu ser-culpado mais próprio, sendo ser-culpado ser a base nula de uma nulidade no sentido antes elaborado
-
Mais próprio (eigenst) está intimamente relacionado a autêntico (eigentlich), podendo-se pensar o ser-culpado mais próprio como ser-culpado que se assumiu (owned), assumindo-se na fala ordinária a própria culpa ou o próprio crime ao reconhecê-lo e submeter-se à punição apropriada
-
Assumir a culpa existencial é abraçá-la e lançar-se nela, chamando assim a consciência existencial a assumir a culpa existencial, a abraçá-la, respondendo-se ao que seria assumir a culpa existencial com o conceito de resolução
estudos/blattner/sz/culpa-2023.txt · Last modified: (external edit)
-
-
