User Tools

Site Tools


estudos:blattner:sz:abertura

Abertura

BLATTNER, William D. Heidegger’s “Being and Time”: A Reader’s Guide. 2nd ed ed. London: Bloomsbury Academic, 2023.

Abertura e o

  • O ser-aí (Dasein) está mais fundamentalmente em seu mundo por lhe ser familiar, cabendo à seção I.5 analisar em detalhe essa familiaridade enquanto tal, sendo estar-em-um-mundo o mesmo que ter um mundo aberto (erschlossen) a si
    • a seção I.3 explora a constituição do mundo com o qual se está familiarizado e os entes intramundanos
    • a seção I.4 descreve a dimensão social do mundo e o modo como, proximamente e na maior parte das vezes, se é um si-mesmo-impessoal, ou seja, um si-mesmo que se compreende primariamente por meio das normas médias ou padronizadas que constituem o mundo social
    • o parágrafo 28 introduz brevemente a seção I.5 e apresenta dois conceitos importantes: a abertura (Erschlossenheit) e o Aí (Da)
  • A abertura funciona como substituto heideggeriano para a concepção filosófica tradicional de consciência ou percepção, evitando-se a linguagem de consciência, experiência, percepção e intencionalidade por trazerem consigo um indesejado modelo sujeito-objeto do ser-no-mundo
    • ser consciente ou ciente de um mundo, ter representações intencionais dele, equivale a ter estados subjetivos direcionados a objetos e a um mundo objetivo
    • o modelo sujeito-objeto do ser-no-mundo “cinde o fenômeno ao meio, sem perspectiva de recompô-lo”
    • partindo-se do pressuposto de estados subjetivos, representacionais ou intencionais direcionados a um mundo, surge a questão de como se poderia “transcender” a “esfera subjetiva” para alcançar e compreender um mundo
    • a linguagem da abertura evita essa cisão prematura do fenômeno, de modo que, em vez de se falar em estar consciente de ou intencionalmente dirigido ao mundo, o mundo é dito aberto (erschlossen) a nós
    • terminologicamente, “abrir” (erschliessen) fica restrito ao acesso ao ser-aí e ao ser, reservando-se “descoberta” (entdecken) para o acesso aos entes intramundanos
  • A pergunta pelo que significa o mundo estar aberto constitui o objeto de toda a seção I.5, analisando-se a abertura como possuindo três facetas: disposição (Befindlichkeit), compreensão (Verstehen) e discurso (Rede)
    • a disposição corresponde aproximadamente à sintonia afetiva com o modo como as coisas importam
    • a compreensão corresponde aproximadamente à apreensão do espaço de possibilidades em que se age
    • o discurso corresponde aproximadamente à capacidade de articular esse mundo num meio expressivo
    • Heidegger substitui as noções tradicionais de consciência e intencionalidade por essa análise tripartite de disposição, compreensão e discurso
  • O outro conceito novo do parágrafo 28 é o Aí, termo derivado de “Dasein”, Da-sein, ser-aí
    • “aqui” e “acolá” só são possíveis num “Aí”, ou seja, apenas se há um ente que tenha feito uma abertura da espacialidade como o ser do “Aí”, ente que carrega em seu ser mais próprio o caráter de não estar fechado, e por força dessa abertura esse ente (o ser-aí), junto com o ser-aí do mundo, está “aí” para si mesmo
    • “o Aí” remete à espacialidade existencial do ser-aí discutida anteriormente, acrescentando à abertura um sentido de localização, lugar e espacialidade
    • fenomenologicamente, não se está localizado no espaço-tempo, mas a familiaridade com o mundo envolve um aqui e um acolá ou “lá adiante”, exigindo estar localizado, sentido básico que a terminologia de “o Aí” procura capturar
  • A linguagem do “Aí” também substitui as metáforas tradicionais de luz por metáforas de localização
    • a tradição filosófica sempre recorreu a metáforas de visão e da luz que possibilita a visão para captar a abertura ou consciência do mundo, e mesmo Heidegger se vale da metáfora da visão para descrever a inteligência
    • visão e luz, no entanto, incentivam a pensar-se a si mesmo como distante do mundo, no lado oposto de um abismo a ser transposto, ou como aprisionado num domínio de interioridade de onde se deveria projetar o “raio intencional” (Husserl) e lançar luz sobre os objetos
    • a metáfora de uma clareira (Lichtung) na floresta expressa a experiência de estar espacialmente situado entre os utensílios e os outros que povoam o mundo, sendo o ser um espaço aberto no qual os entes se mostram, e não uma esfera subjetiva fechada a ser transcendida
  • O trabalho com as metáforas alcança apenas até certo ponto, restando avançar para o cerne da seção I.5: as análises da disposição, da compreensão e do discurso
estudos/blattner/sz/abertura.txt · Last modified: by 127.0.0.1