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Biemel
Walter Biemel (1918-2015)
Entrevista a Walter Biemel. Raúl Fornet-Betancourt y Klaus Hedwig. Concordia, nº 15, 1989.
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O entrevistado, alemão nascido na Romênia, decide estudar com Heidegger após ler Ser e Tempo em Bucareste, impressionando-se com a obra mesmo sem compreendê-la totalmente, e ao solicitar visto na embaixada alemã é advertido de que Heidegger estava gravemente enfermo
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Chegando a Friburgo na primavera de 1942, seu primeiro seminário com Heidegger versou sobre os progressos da metafísica de Leibniz a Wolff, surpreendendo-se ao descobrir que o homem que limpava o quadro era o próprio Heidegger
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a explicação de Heidegger sobre o Iluminismo como modo pelo qual o século XVIII se compreendeu a si mesmo, e sua observação irônica de que Wolff fora mais professor de filosofia que filósofo, como nós
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o cuidado de Heidegger em ensinar a ler profundamente, exemplificado no seminário avançado sobre a Fenomenologia do Espírito de Hegel, onde interrogou os alunos sobre a expressão partes infinitas
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a comparação entre o estilo de Heidegger e o de Husserl, sendo para aquele a estrutura e disposição de um texto sempre muito importantes, como se fosse uma fuga musical
Os alunos estavam intimidados diante de Heidegger, que preferia as aulas de sua juventude quando era contestado continuamente, chegando a testar os estudantes dando interpretações erradas de propósito para ver se acreditavam cegamente na autoridade-
Heidegger interpelando pessoalmente os participantes, conhecendo seus nomes rapidamente e perguntando a quem parecesse entediado o que se passava
É difícil fixar um julgamento global sobre a relação das diferentes gerações de discípulos com Heidegger, que sempre foi cético quanto a toda tentativa de repetição de seu pensamento-
a citação de Heidegger segundo a qual talvez os hegelianos não tenham entendido nada de Hegel nem os heideggerianos nada de Heidegger
Heidegger foi absolutamente um homem da palavra escrita, preparando suas aulas palavra por palavra com sublinhados coloridos indicando entonação, sem nunca confiar na inspiração espontânea-
a discussão com Cassirer sendo quase uma exceção, preferindo Heidegger geralmente retirar-se após suas exposições sem debate
Na relação de Heidegger com a tradição filosófica, trabalhou Aristóteles por pelo menos dez anos, depois se aproximou de Kant em Marburgo e dedicou cinco anos a Nietzsche, concebendo a história da metafísica não como campo de opiniões contraditórias mas como certa continuidade-
a crítica de Heidegger à história da metafísica decorrendo de nela identificar o conceito de vontade e a tendência do homem a se tornar senhor do ser, conduzindo à concepção técnica
O termo destruição é conceito perigoso que Heidegger usa não no sentido de eliminação mas de redescoberta do ímpeto originário, podendo ter sido tomado de Duns Escoto-
a vantagem desse acesso sendo permitir atualizar Aristóteles, mostrando que há nele aspectos ainda por descobrir
Diferentemente de Husserl, que pensava poder recomeçar do zero, Heidegger estava convencido de não poder ignorar a história, estando esta dentro de nós mesmos-
a preferência pelos pré-socráticos explicando-se por neles reluzir subitamente a importância da alétheia, experiência da abertura que possibilita o acesso ao ser
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a presença constante do Mestre Eckhart e seu conceito de Gelassenheit até a obra tardia, questionando-se se não estaria presente quando Heidegger fala de Deus e do Divino
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o trabalho de Brentano sobre os múltiplos sentidos do ser em Aristóteles tendo sido o núcleo detonador do pensamento heideggeriano, sendo o conceito de Seiendheit tentativa de traduzir ousía
Outros filósofos importantes para a gênese do pensamento próprio incluem Kierkegaard, Kant e Schelling, situando-se essa gênese entre 1917 e 1921, época da elucidação dos momentos da facticidade e da vidaO termo hermenêutica da facticidade se explica porque para Heidegger tratava-se de interpretar o que sucede na existência, ampliando a perspectiva hermenêutica para além do texto até a própria existência humana, termo que depois abandonou-
Dilthey sendo figura significativa tratada com muito respeito, e Rilke importante sobretudo no tema da morte, tendo Heidegger notado que Ser e Tempo apareceu no ano da morte de Rilke
A correspondência entre Heidegger e Husserl foi destruída em 1940 durante o ataque a Antuérpia, mas sabe-se que Husserl reconheceu cedo a importância de Heidegger, chamando-se a si mesmo de amigo paternal-
a ruptura ocorrendo após a publicação de Ser e Tempo, pois Husserl acreditava que Heidegger apenas aplicava a fenomenologia à história, reprovando-lhe já antes que o ego não fosse tomado fenomenologicamente mas simplesmente postulado
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Ser e Tempo tendo constituído verdadeiro choque para Husserl, que não compreendeu o que Heidegger realmente perseguia, falando depois de correntes irracionalistas no epílogo às Ideen
Quanto à evolução interna do próprio Heidegger, distingue-se um primeiro grande período culminando em Ser e Tempo, uma nova etapa iniciada em 1930 com Da essência da verdade, a Kehre em 1936, e a filosofia tardia com os conceitos de Ereignis, Geviert, Ding, Seinsgeschick-
os cursos de 1933-34 sobre Hölderlin marcando a primeira vez que um poeta e não um filósofo é tema de curso, tornando-se central o diálogo entre poesia e pensamento
A filosofia tardia possui certa unidade refletida nos conceitos de Wohnen, Lichtung, Gestell, na interpretação da técnica como culminação da metafísica e do niilismo como ocultação do serQuanto ao fracasso do primeiro início, Heidegger pensa que há uma espécie de subtração ou retirada do ser, dupla dimensão em que a alétheia desaparece e isso se dá também pela intervenção do homem-
o ser necessitando do homem sem que este possa determinar quando ou como acontecerá uma nova revelação do ser, havendo em Heidegger uma espécie de expectativa de salvação
A continuidade entre o primeiro e o segundo início reside em que a condição para este é a compreensão da história da metafísica, não podendo o outro início ser tentado sem antes pensar tudo o que ela contém-
essa crítica da técnica sendo crítica da situação de desamparo das coisas, em que o homem já não conhece nada sagrado
Quanto à citação de Hölderlin sobre o perigo e o que salva, o entrevistado expressa dúvidas pessoais, pois o perigo sozinho não basta para que aconteça uma virada salvadora, podendo o perigo já ser tão grande que torne impossível um giro retificadorHeidegger recorre à poesia e à arte porque nelas o acontecimento da verdade sucede de forma mais decisiva, explicando isso sua proximidade com Hölderlin, poeta não-metafísico, chamando o entrevistado Heráclito e Hölderlin de interlocutores privilegiados de Heidegger-
o novo vocabulário da arte, palavras como habitar ou pátria, não vindo da metafísica, devendo assinalar a outra relação com o ser
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Heidegger conhecendo bem a poesia e, em pintura, sobretudo Klee e também Picasso
Quanto à ausência de ética em Heidegger, a questão decisiva era ver como o homem entra em relação com o ser de modo a possibilitar um habitar autêntico, deixando então de se colocarem as questões éticas clássicas-
não se tratando de mero saber platônico, mas de realização efetiva dessa relação devida com o ser, havendo já em Ser e Tempo certa ética nas análises sobre a assistência ao outro
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a diferença clássica entre filosofia teórica e prática desaparecendo porque, para Heidegger, o pensar autêntico já é ação
Quanto a Heidegger e a política, é manifesto que em 1933 ele teve a ilusão de uma verdadeira revolução, tendo se deixado levar a ponto de dar conferências hoje incompreensíveis, embora o discurso de reitorado não fosse nacional-socialista no sentido corrente por seu núcleo ser o conceito de alétheia-
o livro de Farías sendo criticado por reduzir Heidegger ao período entre abril de 1933 e fevereiro de 1934 e por não se ocupar da obra escrita, falando Heidegger dos nazistas como criminosos quando o entrevistado estudava com ele
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