PERCEPÇÃO E AS CIÊNCIAS COGNITIVAS (2013)
BENOIST, Jocelyn. Le Bruit du sensible. Paris: Cerf, 2013
* A filosofia da percepção contemporânea apresenta um ressurgimento impulsionado pelas ciências cognitivas e pela filosofia do espírito, marcando uma transição do paradigma linguístico fregiano para a valorização da percepção como fonte sui generis de conhecimento sobre o mundo.
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O frageanismo legou à filosofia analítica uma estrutura centrada na linguagem que negligenciava o acesso perceptivo direto.
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A emergência das ciências cognitivas promoveu debates centrais sobre a existência de conteúdos não conceituais na experiência sensível.
* A observação dos debates atuais revela que a percepção permanece tratada de forma fantasmagórica e abstrata, servindo apenas como suporte para discussões teóricas sem que sua natureza real seja efetivamente abordada.
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As discussões sobre a fineza do grão da percepção falham em capturar a realidade da experiência vivida.
* A redescoberta da percepção como fonte fidedigna de conhecimento é um desenvolvimento positivo, embora o ceticismo anterior quanto a esse ponto possa ser considerado um falso problema filosófico.
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A dúvida sobre a validade da percepção é interpretada como um tigre de papel no cenário intelectual.
* O cenário filosófico contemporâneo, especialmente o de língua inglesa, é pressionado por um naturalismo físico que gera dúvida sobre a apresentação sensível do mundo, provocando um movimento de reabilitação da percepção na filosofia analítica.
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O physicalismo impõe uma visão que frequentemente desvaloriza o testemunho dos sentidos.
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O chamado turno fenomenológico surge como uma reação necessária para vindicar a autoridade perceptiva.
* A valorização da percepção na constituição da ontologia humana é fundamental, visto que a ignorância do ancoradouro perceptual torna opacos os conceitos gramaticais que estruturam a visão de mundo.
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O reconhecimento da base perceptiva é tido como um movimento gramaticalmente salutar para a clareza conceitual.
* A redução da percepção à mera capacidade de conhecer representa uma miséria teórica que confunde o ato perceptivo com a fundamentação do conhecimento, resultando em um silêncio sobre a experiência em si.
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O teoricismo contemporâneo negligencia a natureza intrínseca do fenômeno perceptivo.
* A categorização da percepção como uma capacidade é gramaticalmente questionável, sendo mais preciso defini-la como um fato inerente à existência humana, que persiste independentemente da vontade ou de estados de consciência.
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A percepção é descrita como um dado que nasce e morre com o indivíduo, abrangendo inclusive estados de sono ou coma.
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O conceito de percepção designa o próprio ser do sensível e a realidade em sua dimensão existencial.
* A fragilidade da filosofia da percepção reside na incapacidade de tratar a realidade sensível, perdendo-se em discussões técnicas entre conjonctivistas e disjonctivistas ou sobre a natureza conceitual do conteúdo.
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O foco excessivo em disputas terminológicas afasta a investigação do sentido próprio da experiência.
* O erro fundamental das discussões modernas e clássicas consiste em identificar a percepção exclusivamente por seu papel cognitivo ou como uma justificativa para o conhecimento, ignorando sua facticidade como experiência autônoma.
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A percepção atua como razão para o conhecimento apenas quando interrogada sob essa perspectiva específica.
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A fenomenologia descreve a percepção como um preenchimento, mas frequentemente falha em abordá-la fora do escopo da cognição.
* A história da filosofia privilegia um conceito de percepção estritamente cognitivo, moldado por preocupações epistemológicas e pelos desafios céticos introduzidos por Descartes.
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A questão central tem sido a validade da percepção do objeto frente ao desafio da dúvida metódica.
* As análises contemporâneas sofrem de um ponto cego ao não interrogarem a essência do sensível, tratando os órgãos dos sentidos apenas como fontes de informação e negligenciando o que qualifica a percepção como presença em carne e osso.
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A determinação do sensível é geralmente tomada como um pressuposto não examinado.
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O termo leibhaftig selbst aponta para uma dimensão de presença que a teoria abstrata não alcança.
* A ausência de uma investigação sobre o papel do sensível na filosofia atual ocorre porque a percepção é tratada apenas como meio para o conhecimento e não como ser.
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O ser da percepção é sacrificado em favor de sua utilidade epistemológica.
* A elucidação da percepção exige uma busca em fontes externas à filosofia tradicional, especificamente na psicologia e na investigação da organização sensível do perçu.
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A Gestalt Theorie é identificada como uma sondagem fundamental na textura sensível que ultrapassa a mera definição de objetos.
* A arte oferece uma expertise indispensável para o filósofo, pois os artistas atuam como mestres do sensível que enfrentam continuamente o problema da manipulação da realidade perceptiva.
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O domínio artístico fornece uma compreensão prática da sensibilidade que falta à teoria pura.
* A obra de Merleau Ponty destaca-se no século XX por estabelecer um diálogo real com a psicologia e a arte, abordando a percepção real em vez de apenas o problema filosófico dela.
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A abordagem merleau-pontyana é considerada superior por evitar a abstração desvinculada da experiência.
* A relação com a Fenomenologia da percepção e o conjunto da obra de Merleau Ponty caracteriza-se por uma influência profunda e duradoura, apesar de certas ambiguidades quanto ao seu fundamento fenomenológico.
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O convívio intelectual com o autor persistiu de forma discreta ao longo de décadas de trabalho.
* O afastamento do discurso da fenomenologia permite uma análise crítica que reconhece o valor de Merleau Ponty na superação de aporias tradicionais, ao mesmo tempo em que aponta sua permanência em certos limites da concepção clássica.
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A libertação da hipoteca fenomenológica possibilita uma fala mais franca sobre o autor.
* Merleau Ponty defendeu um intentionalismo fraco onde o sensível deve obrigatoriamente possuir um sentido, falhando em distinguir a idealidade do sentido da realidade do sensível e incorrendo em um narcisismo transcendental.
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O esforço para tornar o sentido sensível é visto como uma limitação da perspectiva fenomenológica.
* O esgotamento das possibilidades do conceito de percepção pode exigir o abandono do próprio termo para que se possa apreender o sensível, conforme sugerido pelas últimas pesquisas de Merleau Ponty voltadas para a arte.
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A investigação aponta para uma orquestração do sensível que transcende os problemas tradicionais da intencionalidade.
* O objetivo colateral do presente trabalho é prestar homenagem a Merleau Ponty, reconhecendo seu papel fundamental na construção da inteligibilidade do conceito de percepção.
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O livro busca elucidar termos correlatos em diálogo com a herança do filósofo.
* A origem do questionamento aqui proposto não é merleau-pontyana, mas deriva de uma estratégia de desermeneutização da fenomenologia desenvolvida no final da década de 1990.
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O realismo perceptuel foi inicialmente buscado como alternativa ao modelo da significação linguística.
* A reflexão concentrou-se na especificidade da intencionalidade perceptiva em relação à intencionalidade de significação, acreditando-se que o modelo de doação da coisa mesma superaria a mera visada.
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John McDowell apresenta posições que guardam semelhança com esse estágio inicial da investigação.
* A suspeita de um círculo vicioso no desdobramento das intencionalidades precedeu a compreensão de que a percepção poderia não ser estruturalmente intencional.
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A dualidade das intencionalidades ocultava uma inconsistência teórica.
* O encontro com Charles Travis e a exposição de Sandra Laugier em 2002 foram decisivos para a ruptura com o dogma da intencionalidade da percepção.
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O questionamento de Charles Travis sobre a necessidade de visar o que já se tem por meio da percepção gerou uma mudança de paradigma.
* A obra The Silence of the Senses forneceu os elementos analíticos para uma crítica ao representacionalismo e para a compreensão da percepção fora do modelo intencional.
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O texto de Charles Travis promoveu uma releitura de Austin e uma oposição ao pensamento de John McDowell.
* A influência de Charles Travis foi decisiva para o abandono da fenomenologia no campo da percepção, revelando a radicalidade austiniana como alternativa viável.
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O desprendimento da estrutura fenomenológica ocorreu onde ela parecia mais inexpugnável.
* A rejeição da intencionalidade não implica a substituição pelo conceito de être au monde, que é considerado apenas outra nomenclatura para o mesmo erro, nem pela noção de relação, que se mostra uma metáfora inadequada.
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A crítica estende-se a tentativas de salvar a intencionalidade sob novos rótulos.
* A análise gramatical proposta assume que há uma componente fundamentalmente não intencional na percepção que é essencial para a economia do conceito comum.
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A recusa de conciliar a percepção com a intencionalidade é um passo necessário para a clareza filosófica.
* A interpretação da componente não intencional segue um caminho próprio, afastando-se de Charles Travis em direção a uma ontologia e poética do sensível.
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A divergência ocorre quanto às implicações metafísicas da ausência de intencionalidade.
* A influência de Claude Imbert foi determinante para a crítica radical à fenomenologia e para a compreensão da intencionalidade como uma tentativa tautológica de domesticar o sensível.
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O recurso a Baudelaire e Lévi Strauss permitiu pensar a variedade do agir com o sensível fora dos moldes construídos pelos filósofos.
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Claude Imbert revelou os elementos em Merleau Ponty que resistem à estrutura fenomenológica e a transcendem.
* A gratidão a Claude Imbert justifica-se pelo auxílio na superação do problema da percepção, oferecendo uma libertação da escolástica contemporânea.
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A filosofia de Claude Imbert é apresentada como um caminho para além dos impasses tradicionais.
* A redescoberta do sensível é acompanhada por uma celebração de sua plenitude, reconhecendo a alegria e a exaltação que essa dimensão confere à condição humana.
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O Salmo 150 é evocado para ilustrar a jubilação diante da realidade sensível.
* O sensível é simultaneamente o lugar da plenitude e o testemunho do dénuement humano, onde a memória da carência se manifesta na crueza dos sons e das experiências mais simples.
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A referência a Jacques Prevert sublinha o caráter terrível e real da experiência sensível no contexto da fome e da memória.
