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Conversações

JBFT

Frédéric de Towarnicki

  • A obra de Heidegger constitui um questionamento radical sobre o destino dos Tempos modernos e da era da técnica, questionamento cujo encontro entre Jean Beaufret e Heidegger em 1946 em Todtnauberg situa como convergência de todo o caminho iniciado com Sein und Zeit em 1927 rumo à interrogação sobre a técnica
  • O propósito heideggeriano não é sociológico, mas um espanto diante da primazia do cálculo matemático desde Galileu e Descartes e da transformação do mundo em objeto de domínio pela técnica, remetendo à afirmação de 1936 segundo a qual o ser é ameaçado pelo ente e à passagem sobre Nietzsche em que o ser só é acessível na sombra projetada pelo ente
  • A natureza da técnica permanece enigmática e impensada quando reduzida à visão instrumental de simples aplicação da ciência, sendo atitude ingênua atacá-la, já que o trabalho fenomenológico heideggeriano busca compreender seu desdobramento planetário para um dia permitir uma relação mais livre com ela
  • O livro Der Arbeiter de Ernst Jünger, publicado em 1932, anunciava a linguagem universal da técnica e a mobilização total do mundo sob a figura do Trabalhador, revelação comparável a Les dieux de la Grèce de Walter F. Otto, que orientou a análise heideggeriana do mundo moderno como cumprimento técnico da metafísica cartesiana e pós-cartesiana
  • Para sondar o enigma da época, Heidegger remonta à fonte grega da filosofia, buscando a significação pré-técnica do pensamento ocidental já presente no Poema de Parmênides
  • Interroga-se a mutação pela qual o homem contemporâneo vê o mundo, e a si mesmo, como engrenagem ou matéria-prima, questionando a preeminência do sujeito sobre o objeto e a precedência do método sobre o saber e do procedimento sobre a experiência, ao passo que o domínio calculante da natureza avança e uma dimensão essencial parece esquecida em favor do fazer técnico
  • A dimensão do ser, jamais explicitamente posta em linguagem, é evocada na afirmação de que em parte alguma a questão do ser foi colocada de modo desamarrado, sendo a meditação sobre o sentido, a verdade e o lugar do ser, e não o investimento renovado do ente, a preocupação central de Heidegger
    • Jean Beaufret, no seminário da Maison des Lettres do inverno de 1976-1977, recorda que a verdade do ser como Lichtung significa que o ser difere do ente retirando-se enquanto se desvela nele, o que Heidegger chama Ereignis
    • Em conversa preparatória para os Chemins de la Connaissance em maio de 1981, Jean Beaufret distingue a metafísica tradicional, entendida como onto-teologia em Platão, Aristóteles, Hegel, no marxismo e em Nietzsche, cada qual lançando de passagem um olhar sobre o ser, da questão de Sein und Zeit sobre o sentido do ser, não dito pela metafísica
  • O salto heideggeriano não configura nova concepção de mundo nem sistema filosófico, mas preparação de uma tarefa inteiramente nova ante os dois mil e quinhentos anos de filosofia desde Heráclito, tarefa destinada a suscitar uma disponibilidade humana para um possível de contorno obscuro e futuro incerto
  • Jean Beaufret adverte contra a leveza e a presunção de pretender pensar fora da metafísica, lembrando que, segundo a Lettre sur l'humanisme, é necessário ainda falar a linguagem da metafísica para dela sair, e que o ressouvenir na metafísica evocado em Nietzsche II não é superação nem desmistificação à maneira de Marx, mas Verwindung, descida mais funda no próprio segredo, expressão de Proust, abrindo-se ao segredo do ser que se retira ao desvelar-se no ente
  • Na epígrafe da edição conjunta de seus livros e cursos, Heidegger inscreveu a fórmula Wege — nicht Werke, caminhos e não obras, recusando que em um pensamento rigoroso os resultados prevaleçam sobre o caminhar
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