estudos:beaufret:towarnicki:consciencia-bewusstsein-1992
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Interrogado sobre a conferência de Dourdan, Philosophie et science, de 1966, e a expressão husserliana Wir, die Subjekte, “nós outros, os sujeitos”, explicativa do que é intrinsecamente o homem dos Tempos modernos, o sujeito, responde remetendo ao título mais adequado ao conjunto da filosofia de Husserl, as Méditations cartésiennes, conferências proferidas em Paris em 1929
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Sobre a estranheza que a noção de consciência como centro de referência de toda realidade representaria para outras civilizações, como a grega, confirma que os gregos não tinham consciência, o que não significa que fossem inconscientes
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Evocando o seminário de Le Thor de 1969, no qual Heidegger concordara com a fórmula segundo a qual para os gregos as coisas aparecem, ao passo que para Kant, Descartes e o homem dos Tempos modernos as coisas me aparecem, esclarece que a expressão grega emoi phainetai, “isso me aparece assim”, não tem o mesmo sentido violento que o pronominal cartesiano
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Para os gregos, as coisas aparecem, e por isso me aparecem, por serem mais ricas do que eu; para Descartes, ao contrário, é aquilo em que as coisas me aparecem que determina sua verdade mais íntima, invertendo a fórmula de Protágoras, “o homem é a medida de todas as coisas”, que era um suspiro de limitação e não uma afirmação imperialista como em Descartes
Quanto ao pedaço de cera examinado por Descartes na Segunda Meditação, resume a fórmula cartesiana segundo a qual a cera nada mais é que me cogitante enquanto o eu a ego-cogitaConfirma que esse ponto de vista seria incompreensível, inadmissível e surpreendente para os gregos, que viam as coisas em liberdade no aberto, ao passo que Descartes as atrai para a rede da cogitatio e as reduz mediante o intuitus, termo de redução estranho a Platão-
A questão que se coloca é saber se a dimensão em que os gregos experimentavam a presença das coisas, mencionada por Platão como exodos tes epistemes, o êxodo da episteme, cujo fundo é a aletheia, presença a descoberto, não teria simplesmente desaparecido, dando lugar ao homem ego-cogitativo cartesiano, cuja subjetividade, ausente ainda em Descartes mas presente desde Kant, alcança Schelling, Hegel e, segundo Heidegger, também Nietzsche e a fenomenologia de Husserl
Confirma que essa atitude está na origem do que Heidegger chama o projeto matemático da natureza, fundador dos Tempos modernos, por ser a interpretação matemática o que mais satisfaz o olhar ego-cogitativo, reduzindo tudo à pergunta “quanto”Sobre o étant tomado como alvo e contabilizado, intimado a responder, confirma que o étant é o alvo e o butim do ego cogito, tornando o homem o mestre e possuidor da natureza de que falava Descartes, traço característico dos Tempos modernos ao qual nascemos habituados e que permanece inteiramente estranho aos gregosDistingue, na atitude grega diante do surgimento do étant, o maravilhamento mais que o espanto, ao passo que para o homem moderno impera a certeza, mutação que Heidegger chama da verdade em certeza, remontando à diferença entre aletheia, presença a descoberto, e veritas, termo latino que a escolástica definiu como adaequatio intellectus et rei, adequação do entendimento à coisaEsclarece que ainda não há sujeito e objeto propriamente ditos na época da verdade como adequação, distinguindo, segundo santo Tomás, a adequação das coisas criadas ao entendimento divino da adequação do entendimento humano às coisas criadas por Deus-
Observa que a homoiosis grega, traduzida em latim por adaequatio, era sustentada e banhada pela aletheia, ao passo que a adaequatio latina se basta a si mesma, o que levará Descartes, ao filosofar sem a luz da fé, a buscar novo fundamento para a adequação na certeza do ego que ego-cogita todas as coisas
Confirma tratar-se da essência mesma do projeto matemático da natureza, do olhar científico e da técnica, triunfo do olhar científico sobre o mundo, ao ponto de a filosofia contemporânea julgar-se subordinada à autorização das ciências, inversão completa da relação grega em que a filosofia, pela reciprocidade de ousia e aletheia, tornava possíveis as próprias ciências, de modo que dois e dois somam quatro por razões opostas para Platão e para Descartes-
Recorda ter perguntado a Heidegger qual dimensão, na filosofia grega, desempenhava o papel da abertura do campo transcendental kantiano, ao que Heidegger respondera tratar-se não do olhar lançado pelo je pense, mas da abertura da aletheia
Sobre o sentido pleno de aletheia, define-a como aberto sem retração, nada permanecendo inaparente, adelon, segundo o termo de Aristóteles-
Observa que a adaptação do ego cartesiano ao conhecimento é operação tardia e ambígua, distinguindo a experiência interior, fortuna do século XIX e mera posteridade indigente do cogito sum cartesiano nas palavras de Heidegger, do olhar ego-cogitativo propriamente dito, cujo centro é o olhar científico, sendo a psicologia problema lateral
Confirma não se tratar de contestar a ciência ou o ego, mas de compreender a transformação de um olhar e de uma relação com o étant em detrimento de outras possibilidades, remetendo à grande descoberta heideggeriana por volta de 1935 de que as coisas não se reduzem ao que delas diz a ciência, ilustrada pelas aquarelas de Cézanne representando a montanha Sainte-Victoire, que não são teoremas sobre o equilíbrio dos sólidos-
Situa na arte, e sobretudo na poesia, o revelador desse outro ser das coisas, incluindo nela tanto as artes plásticas quanto a palavra poética, a ponto de Notre-Dame de Paris poder ser dita poema tanto quanto qualquer verso de Victor Hugo
Interrogado sobre o momento em que surge em Heidegger a abordagem da obra de arte, situa-a não em Sein und Zeit, onde a única referência artística é um breve poema latino sobre o cuidado, de interesse meramente antiquário, mas no curso de Friburgo do semestre de verão de 1935, Introdução à metafísica, onde se lê que filosofia e pensamento estão na mesma ordem apenas com a poesia-
Situa também em 1935 a conferência de Friburgo Der Ursprung des Kunstwerkes, A origem da obra de arte, marcando a chegada do poema ao centro do pensamento heideggeriano, precedida contudo pela importância já antiga de Hölderlin e de Trakl em sua vida
Sobre a fórmula segundo a qual a palavra poética salva a aparição, esclarece tratar-se da aparição da coisa na desmedida de sua presença, na plenitude do que os gregos chamavam aletheia, remetendo à ideia de Baudelaire de que só a palavra poética restitui as coisas à deslumbrante verdade de sua harmonia nativaestudos/beaufret/towarnicki/consciencia-bewusstsein-1992.txt · Last modified: by 127.0.0.1
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