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Do Existencialismo a Heidegger

JBEH

  • Beaufret reconhece ter durante muito tempo tomado Heidegger apenas como pano de fundo do que lhe parecia essencial, Sartre, empreendendo a viagem a Friburgo ainda movido pela curiosidade de saber o que tornara possível L'Être et le Néant
  • Relata ter ouvido falar de Heidegger primeiro por Sartre e por Corbin, tradutor de Qu'est-ce que la métaphysique?, sem contudo tê-lo lido, ensinando filosofia de modo acadêmico no liceu francês de Alexandria em 1937, sem qualquer abertura à fenomenologia
    • Menciona o reencontro com Merleau-Ponty na escola de Estado-Maior de Compiègne durante a mobilização de 1939, quando este lhe mostra um texto datilografado de Husserl, Umsturz der kopernikanischen Lehre, observando que isso ainda não bastava para ingressar na fenomenologia
  • Relata sua feitura como prisioneiro, evasão, nomeação para o liceu de Grenoble, e o empréstimo de Husserl na biblioteca da universidade após o Dia de Todos os Santos de 1940, atribuindo porém o evento decisivo à leitura do ensaio de Sartre sobre a intencionalidade em Husserl
    • Descreve o mergulho nas Ideen, a leitura mais superficial das Logische Untersuchungen, e a compreensão súbita, ao sair de um banho no rio Creuse durante as férias de verão de 1942, de que a paisagem é sólida, citando a frase de Sartre segundo a qual tudo está fora, no mundo, entre os outros
    • Contrasta essa descoberta com o percurso anterior, fatalmente cartesiano, passando pelo Deus de Descartes, saboreando semanas a fio a alegria de perceber que a filosofia não tem por objeto inicial duvidar da existência das coisas exteriores
  • Relata a desconfiança inicial diante de Heidegger, sucessor de Husserl em Friburgo desde 1928, conhecido apenas por ouvir dizer, e cuja terminologia da angústia e do nada lhe parecia suspeita, talvez romantismo
    • Conta ter encomendado Sein und Zeit após as férias de 1942, já professor no liceu Ampère em Lyon, texto do qual seu amigo Joseph Rovan, virtuose de documentos falsos, já traduzira algumas páginas para a revista Arbalète, descobrindo rapidamente em Heidegger filosofia bem distinta daquela que lhe ensinaram
    • Relata quase dois anos de trabalho com Rovan e outros, até a partida destes para Dachau, sendo surpreendido em 6 de junho de 1944, ao vigiar o baccalauréat e decifrar Sein und Zeit, pela irrupção de um inspetor anunciando o desembarque
  • Situa nesses anos de leitura a origem dos artigos publicados entre 1944 e 1946 na revista Confluences, nos quais busca explicar Husserl e Heidegger
  • Relata, de modo anedótico, ter avistado certa manhã, em Terre des hommes, fotografia de Heidegger conversando com soldados aliados sob a legenda “Qu'est-ce que la métaphysique?”, identificando mais tarde, no Coq d'Or, um dos soldados presentes, Towarnicki, animador cultural junto a de Lattre de Tassigny, e revelando que o autor da fotografia era Alain Resnais
  • Menciona Palmer, jovem germanista encontrado por Beaufret em Grenoble, que se dirige a Friburgo portando uma carta cujo rascunho ainda conserva, na qual escreve a Heidegger que com ele a filosofia se liberta de toda platitude e recupera o essencial de sua dignidade
  • Situa na primeira visita de Jean Beaufret em 1946 o início do diálogo desejado por Heidegger em sua resposta de 23 de novembro de 1945, segundo a qual o pensamento fecundo requer, além da escrita e da leitura, a synousia da conversa e do ensino recebido tanto quanto dado
  • Conclui que as páginas seguintes testemunham soberbamente um pensamento que se realiza pelo pensamento de outro
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