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Merleau-Ponty
JBEH
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A amizade entre Jean Beaufret e Maurice Merleau-Ponty, nascida de um inexplicável clima de simpatia durante um encontro casual, foi marcada por uma fraternidade no humor e por uma comunhão de fundo que ultrapassava a necessidade de encontros frequentes, sendo selada por uma compreensão mútua sobre a filosofia da existência.
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Apesar de não terem sido “camaradas de estudos” e de terem se conhecido tardiamente, um diálogo filosófico se estabeleceu entre eles, caracterizado por uma inexplicável atmosfera de simpatia que se transformou em amizade, confirmada em reencontros durante a “guerra engraçada” e em momentos casuais após a guerra.
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A amizade não dependia de encontros constantes, pois, como observou Montaigne, a ausência não é propriamente ausência quando há como se advertir mutuamente, e cada reencontro confirmava a mesma amizade cada vez mais certa, ocupando todo o espaço.
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As conversas, muitas vezes sem um pretexto definido, ocorriam em um tempo sem duração e sem peso, perdido na magia surrealista do acaso, como numa noite em que a tentativa de roubo do carro de Merleau-Ponty os levou a conhecer o mundo das rondas noturnas e do reboque depois da meia-noite.
O existencialismo, que a princípio Beaufret associava à filosofia de Tomás de Aquino, surgiu no pós-guerra como uma reação menos poética que ética, onde a fórmula de que a “existência precede a essência” significava que a liberdade humana é mais radical do que qualquer fixação sofrida.-
A fórmula da precedência da existência sobre a essência deve ser compreendida não como uma afirmação unilateral, mas como um ponto de partida para a constatação de que o inverso também é verdadeiro, e que a liberdade é sempre “incorporada ao mundo”.
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Merleau-Ponty, em sua Fenomenologia da Percepção, institui o “renversement” dessa ideia, mostrando que a liberdade é sempre “incorporada ao mundo”, sendo um trabalho realizado sobre uma situação de fato, e não uma soberania absoluta.
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A filosofia da existência, sob a ideia do “escolha soberana”, descobre a ideia antagonista de uma liberdade que não é livre senão encarnada no mundo, e essa ideia se faz presente já em Sartre, como visto em O Ser e o Nada, onde a situação é um elemento constitutivo da liberdade.
O mundo, para a filosofia existencialista, não é o mundo plano dos objetos da ciência kantiana, mas um “paisagem de obstáculos e caminhos”, um mundo que “existimos”, e não apenas o teatro de nosso conhecimento e livre-arbítrio.-
Merleau-Ponty ilustra essa relação entre situação e liberdade com a experiência do pós-guerra, onde a “liberdade efetiva” ainda não é um dado, mas uma tarefa a ser realizada, e onde a vida social permanece um diálogo e uma batalha de fantasmas que faz correr lágrimas e sangue verdadeiros.
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A não-transparência é a própria trama da vida, e a metafísica, ao pretender esclarecer tudo, serve apenas para incitar a um combate que já estaria “ganho no Céu ou na História”, mas a filosofia da existência não se crê mais profunda que a vida.
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A filosofia que não se crê mais profunda que a vida reconhece que nada está nunca feito e que as condições da “liberdade efetiva” não nos são ditadas de antemão, cabendo ao homem estar em vigília, pois o mundo não é um “tumulto insensato” sobre o qual aparecem algumas formas frágeis, como acreditavam Barrès e Maurras.
Merleau-Ponty se opõe ao desespero reacionário com a “fé sem ilusão” do homem de esquerda, que se junta aos outros e une seu presente ao seu passado para fazer com que tudo tenha um sentido, completando em uma palavra o discurso confuso do mundo.-
A “fé sem ilusão” é a atitude que recusa o não-senso e que é uma fé no homem, e é essa fé que permite surpreender e ouvir os “signos” do mundo, sendo o signo a própria brevidade do enigma e o próprio sentido.
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O homem é o “signo dos signos”, aquele que sabe sem saber, no pleno do mundo, alma e corpo simultaneamente, e a metafísica, ao dissociar a alma do corpo, destrói o essencial para o proveito dos “fanáticos desprovidos de cérebro”.
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A alma não é a alma de um grande manequim, mas é pelo corpo que a alma do outro é alma aos olhos, e é na profundidade de um rosto aberto e animado pela palavra que a alma se revela, e nenhum sistema ou violência pode atingir o seu fundo.
O livro inacabado de Merleau-Ponty, “O Visível e o Invisível”, apontava para a busca de um “impensado” de Husserl, guiado pela luz de uma frase de Heidegger, e representava um “renversement” que remonta às fontes mesmas da possibilidade de escrever, em direção a um domínio inatingido pelo barulho e agitação dos arrivistas.-
O “impensado” de Husserl é algo que lhe pertence mas que, ao mesmo tempo, abre para outra coisa, e essa busca por um pensamento mais radical é o que orientava o projeto de Merleau-Ponty.
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A dificuldade de escrever um livro estruturado em capítulos, que não fossem apenas dissertações de agregação justapostas, foi um tema de discussão, e a ausência de uma “continuação” de Ser e Tempo, de Heidegger, foi mencionada como um exemplo de que o “renversement” para as fontes é mais essencial do que uma simples continuação.
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Heidegger, ao saber da morte de Merleau-Ponty, expressou sua tristeza e reconheceu nele um “espírito livre e franco” que sabia o que é a questão do pensamento e o que ela exige, e que havia traçado uma pista autêntica de pensamento verdadeiro até o domínio nunca alcançado pela agitação dos arrivistas.
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