3 Linguagem
BEAINI, Thais Curi. Máscaras do Tempo. Petrópolis: Vozes, 1995.
A Linguagem enquanto Poesia originária
1. Sendo que a reflexão heideggeriana empreende um retorno às origens do pensar, convém reenfoque a problemática da Linguagem em sua eclosão enquanto Metáfora, isto é, Poema, tendo como horizonte inicial o mito-poético, mais precisamente Homero.
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Para cumprir esta finalidade, é necessário retomar alguns elementos até aqui colocados para aprofundá-los.
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A época homérica essencializa-se pelo vínculo indissolúvel entre Cosmos, Ser, Sagrado, divino, manifestos no âmbito existencial dos homens, e enquanto tal, a palavra emerge como Vida que se desdobra, mantendo o ritmo musical do canto e da dança.
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É nesta sonoridade que se celebra a harmonia do ser-no-Mundo, a inserção na totalidade, em um percurso circular que empreende a reverência da gênese envolvente, no seio da qual se restringe e amplia a conciliação com a Quaternidade.
2. A língua grega é conceptualmente inseparável da música, e se a duração das sílabas longas e breves constitui um dos seus traços essenciais e originais, é manifesto que não pode ser traduzida em música, pelo fato mesmo que já é, de origem, música, constituindo verso, ritmo e música uma unidade intacta.
3. Não se deve esquecer que o caráter plurifacetado da linguagem grega exige, além disso, o domínio dos movimentos corporais, a dança, fato este que surpreende tanto mais quanto até aqui geralmente não o tomávamos suficientemente a sério, pois para nós, homens modernos, todos os elementos da linguagem e da expressão se distribuem por diversas e separadas “artes”.
A. A Linguagem grega: Poesia, Ritmo e Música
1. A Linguagem poética ocupa um lugar central na Festa, nos ritos nos quais o poeta, tendo um acesso profundo ao Sagrado e deuses, não apenas repete o passado, mas anuncia os augúrios misteriosos reservados ao futuro: é vidente.
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Sendo que a comunidade conjuntamente celebra, para agradecer ou solicitar dons, para presentificar a força sacral como restituição de plenitude diante das ameaças de ruptura ou afastamento dos primórdios, repetir e trazer para junto de si esta força contém o ritmo de inserção na totalidade, fator de coesão de um Cosmos sem o qual os homens não teriam seu lugar.
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O Sagrado, invocado por intermédio da palavra cantada e dançada, dos instrumentos musicais, reúne e mantém o princípio da vida, do qual o Ser urge.
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O ritual festivo instaura uma ordem e, enquanto participa do advento da Verdade, é a comunidade enquanto tal que advém a si na Festa.
2. Nela, o Sagrado, enviando aos homens a clarificação de sua origem, concede também o equilíbrio do destino cósmico enquanto momentaneidade e continuidade, e na Festa é a Poesia que advém, contendo em si a medida do que se retém e manifesta em meio à transitoriedade: fiel, o poeta é o mensageiro da proximidade dos deuses que protegem, regendo Céu, Terra e mortais.
3. Na linguagem grega primitiva, assinalada pelo mundo mítico, o deus primordial chama à existência um ente ao nomeá-lo.
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Resgatando este conteúdo já enfocado, convém salientar que cada ente traz, em seu Ser, o ritmo a ele concernente, sua sonoridade própria, por intermédio da qual podem ser cantados, venerando, concomitantemente, ao seu criador.
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A intervenção humana no real consistia no processo de captar a medida constitutiva de cada ente e do todo.
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Falar significava, assim, saber ouvir um ente em sua musicalidade, que o assinala desde a origem até sua extinção.
4. Somente enquanto capta o ritmo próprio de algo, o homem pode simbolizá-lo: consagrar o invisível com a plenitude corporal que, incorporando um conteúdo, eclode conjuntamente com ele, na circularidade sagrada de seu deslocar-se.
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Porque o real é constitutivamente único, os gestos humanos, obedecendo a este processo, manifestam-no no uso do corpo, captando as forças que o cercam e relacionando-se com estas, pode assimilá-las sensorial e mentalmente, interiorizando e exteriorizando-as em imagens.
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Em sua força motriz descobre a concomitância entre gestos, sistema nervoso e vigor simbólico, segundo sua espontaneidade inseparável do universal: necessita viver, gesticular, para extravasar uma realidade que se demarca juntamente com o ato humano de descobri-la.
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Este conteúdo, que se desdobra como elo místico com o Cosmos, escapa à modernidade, postada fragmentária e, às vezes, superficialmente, diante daquilo que a rodeia, tendo perdido o aspecto mágico de regularidade e coesão com o mistério.
5. Os termos que o grego empregava para caracterizar a rítmica confirmam que eles a sentiam corporalmente: pé (pé métrico), “thesis”, “arsis”, sendo o primeiro uma determinada associação de longas e breves facilmente reconhecível por uma repetição regular, enquanto thesis significa o abaixamento dos pés e arsis a sua elevação.
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A palavra que não é apenas dita ou cantada, mas também corporalmente realizada, adquire uma presença mágica, e em nenhuma das línguas ocidentais modernas encontramos nada que de longe se lhe assemelhe.
6. No mundo primitivo, o poeta recebe dos deuses a dádiva inspiradora do conteúdo por ele proferido, essencializado pela vidência e profecia, as expressa por intermédio do canto e dos instrumentos musicais, em sua indissolubilidade genética.
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Isto porque a Música sempre foi considerada como o veículo para um contacto humano com os deuses ou com os mortos.
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A Música exalta, coloca em transe: assim, quando o poeta ou o vidente sentiam em si o poder de penetrar no oculto, este era atribuído à incorporação de uma força sagrada, mágica, que os colocava de tal modo em inter-relação com o primordial, que até seus próprios aspectos se modificavam.
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Ao poeta eram confiadas as tradições genealógicas da comunidade, as quais mantinha vivas por sua Memória, conduzindo as preces de todos em direção ao Céu.
7. Por outro lado, se o compararmos em sua premonição ao xamã, veremos que este último saía do reino dos vivos, para penetrar na dimensão sombria dos que se foram, ou no clarão excelso dos imortais.
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Para cumprir seu intuito, o xamã, impregnado pelo ritmo do tambor e do canto, empreendia a dança que o transportava ao reino requerido pelo rito.
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Neste percurso, as divindades o informam acerca de seus desejos, das falhas rituais a ser alteradas, requerendo novas modalidades de sacrifício, anunciando também o momento exato para realizá-las, deslocando o mago de seu tempo presente, para situá-lo frente a frente com o futuro.
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O xamã, que toma consciência de seu dom através de uma visão, em meio ao sono ou transe causado por uma doença, é preparado em sua juventude para cumprir sua missão: conhecer o passado e saber recitá-lo nos cânticos.
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É pela inspiração que os mitos de várias tribos são assimilados, em sua vidência, ao poeta.
1. Para Homero e Hesíodo são as Musas que, geralmente durante um sonho, concedem ao homem comum, muitas vezes pastor, uma voz melodiosa e harmônica: ele se sente diferente do que era, abre a boca e canta, durante longuíssimo tempo, sem sentir necessidade de buscar as palavras certas, já que estas eclodem de seu íntimo: é um criador.
2. A linguagem atinge pelas suas raízes a camada do pré-espiritual, do instintivo, que ela determina e ordena, e os gregos exprimiram a unidade de todos os seus momentos na palavra “mousiké”, termo este que possui um significado muito mais vasto do que o nosso vocábulo “música”.
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A verificação de que o verso, a música e a dança não apareciam de início como artes diferentes e não estavam sujeitos à subjetividade da representação, permite concluir que radicam no histórico e que sua origem era sagrada.
3. A palavra poético-musicada, enquanto meio de cantar os acontecimentos presentes, referindo-se ao seu princípio mítico, tem como conteúdo a inesgotável compreensão do real: do Ser, enquanto ritmo harmônico-orientador dos homens.
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Brotando como Música que entoa o Sagrado, é o ponto mais alto de elevação comunitária, de riqueza e força des-veladora, desempenhando assim a característica eminentemente formadora dos homens.
4. Homero é poeta, mensageiro divino que ensina o povo, contribuindo para sua formação que primitivamente unia à Linguagem e Arte, os modos de comportamento, centrando-se no papel fundamental da Memória, e no cosmos homérico a Poesia, enquanto Mito, des-cerra a harmonia entre mobilidade e estabilidade, devir e permanência.
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Heidegger, procurando o sentido do Ser, enquanto velamento-des-velador, movimento essencial que comanda o devir, na Linguagem grega primitiva, volta sua atenção para Homero: ao seu dizer poético-nomeador da Ilíada (I, V. 68-72) onde Calcas surge como figura central.
5. Antes desta colocação, convém falar acerca de Calcas: a ele compete responder à pergunta de Aquiles acerca do motivo que levara Apolo a enviar a peste mortal sobre a cidade, e o adivinho, inspirado pelo deus, dá o seu vaticínio, apontando como causa a ofensa por parte de Agamenon, rei de Argos e Micenas (Ilíada I, 68-120).
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A peste, que assolava o povo durante nove dias, terá este mesmo número surgindo no poema homérico, ligado a Calcas, quando profetiza acerca da duração da Guerra de Tróia (Ilíada II, 229-332).
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Este, interpretando a mensagem de Zeus, vê uma serpente subir numa Árvore para devorar os oito pássaros escondidos em seu ninho, juntamente com a mãe, anunciando assim a todos que a Guerra se estenderá por nove anos.
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Não se dispõe de dados para saber o significado do número nove na Ilíada, mas para os pitagóricos retrata a harmonia, e por outro lado, serpente e pássaros, trevas e luminosidade, unidos à Árvore da Vida e do destino humano, retratam o embate original do ontológico, que só a Calcas é acessível.
6. De novo levantou-se Calcas, o Testórida, o mais sábio dos áugures, que conhecia o que é, o que será e o que foi antes, que conduzia até ante Tróia os navios dos aqueus, com o espírito profético com que o honrara Febo Apolo.
7. Vinculado a Apolo, o deus luminoso que purifica, regendo a harmonia do real pela Música, mas inspirado pelas Musas, Calcas é o adivinho que se identifica ao xamã pela profecia, ao poeta e sábio enquanto capta o movimento inerente ao Ser que é, será e foi (presente, futuro e passado).
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Aquilo que se des-cerra à sua visão, enquanto presente, é o ente: o que é, mostrando-se como tal.
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O que foi e o que não é ainda, designam o Ser enquanto velamento e des-velamento, em seu vínculo com o ente, e penetra assim no enigma do Ser, que se outorga e recolhe, em sua Verdade.
8. O vidente é aquele que já tem visto a totalidade das coisas que se apresenta na presença, ele está a par, e no ter visto a relação com aquilo que se apresenta já retrocedeu para trás de toda a espécie de percepção sensível e não-sensível.
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A partir daí, o ter visto está relacionado com a presença que se clarifica, e o ver não se determina a partir do olho, mas a partir da clareira do ser.
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A in-sistência nela constitui a articulação de todos os sentidos humanos, e a essência do ver enquanto ter visto é o saber, que contém a visão e permanece na lembrança da presença.
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O saber é a lembrança do ser, e é por isto que Mnemosyne é a mãe das musas, e saber não é ciência no sentido moderno, mas a salvaguarda pensante da guarda do ser.
9. Com esta colocação de Heidegger atesta-se claramente o âmbito superador da Metafísica que coloca o Homem como centro do real, a subjetividade como seu pressuposto fundamental para a elaboração teórica de conceitos, teorias lógicas.
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Enquanto o des-velar-se do Ser estabelece a medida da presença-ausência, fonte da compreensão humana, retorna-se ao mundo grego onde a ausência da subjetividade está contida no termo Theoria, o contemplar que se insere na totalidade da Physis, recebendo de seu tornar-se manifesto as diretrizes para a sua práxis poético-criadora.
10. Está-se, assim, diante do tema central sobre o qual versará este item: a superação da subjetividade.
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Calcas, o adivinho, fala de outro que não de si próprio: enuncia os deuses, a pertença ao Ser, proferindo as mensagens a ele enviadas e, inspirado pelas Musas, acena à característica fundamental do poeta em sua vinculação com a palavra.
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O poeta não visa à subordinação do Ser, e usa a palavra para falar de si, pois, visando ao que se subtrai e guardando silêncio, instaura-se na dimensão da Quaternidade.
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Por sua visão sapiente, o poeta atinge a essência de sua Tekhne, da Arte enquanto tal, tocando Atena em seu olhar clareador, ao qual o des-velamento do Ser, enquanto clareira, é a medida do que se penetra e resguarda.
11. Homero e a literatura antiga empregam indiferentemente mito e logos para designar o “verbo”, e o grego arcaico dispõe de uma série de designações para o “verbo”, cada uma das quais o designa num sentido peculiar.
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Se epos designa o “verbo” como aquilo que é falado pela voz e logos como aquilo que é pensado pelo entendimento e ponderação, quando significa mito o “verbo” tem um peso muito especial.
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Como Homero indica, não é só uma expressão mais antiga do que logos, mas também corresponde a um conceito mais antigo da essência da palavra; é “verbo”, testemunho direto do que foi, é e será, e auto-revelação do ser num sentido venerando que não distingue o “verbo” do “ser”.
12. É justamente este dado essencial que ocupa o centro da reflexão heideggeriana acerca do vínculo entre Ser e Linguagem, perdido com o advento da Metafísica e da Técnica.
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Ambas postulam o Mito como o irracional, fabuloso, indigno de credibilidade, ao passo que no Logos reside o racional transmutado na Lógica, que possui as diretrizes para o verdadeiro e o falso.
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Por estarmos situados a uma distância cada vez maior do Ser é que Heidegger visará à retomada da unidade contida na Linguagem grega, enquanto Manhã do Mundo, recorrendo para tal à superação dos domínios que enclausuram e cristalizam o Ser, propondo uma nova postura diante do real, onde os poetas ocupam um lugar privilegiado.
13. Primeiramente não temos, segundo Heidegger, outro recurso para passar ao Ser senão a linguagem, e o esforço heideggeriano consiste desde então em passar da linguagem em que as palavras nos são dadas para o plano da realidade em que as coisas são em seu Ser, assim, passa-se do verbo “ser” ao Ser que é.
14. Para os gregos, como mostrou Heráclito, Logos traduzia o Ser e a Linguagem, enquanto pronúncia do conteúdo por ele des-velado, e pensar o Ser é a atitude daqueles que se dispõem a ouvir sua mensagem, a pronunciá-la, preservando o clareamento enquanto Verdade.
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Para tanto é necessário que se supere a Lógica, que domina tanto a Metafísica quanto a Filosofia da Linguagem.
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Todavia, somente Aristóteles dá uma interpretação metafísica mais clara do logos no sentido da proposição enunciativa, e essa concepção do logos tornou-se padrão e norma para a constituição posterior da lógica e da gramática.
C. Do Logos à Lógica
1. Após a eclosão do pensar grego, o Ser foi subjugado pela racionalidade, num horizonte no qual o Homem vem-a-ser o sujeito, medida do real.
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Perde-se assim o ontológico: o Ser torna-se apenas o des-velado, o manifesto e visível, o Ser diluído enquanto tal é esquecido: torna-se ente, objeto de domínio e manipulação.
2. O traço fundamental do pensar foi, até aqui, a representação, e segundo a antiga doutrina do pensar, esta representação termina no Logos, termo que significa então enunciação, julgamento, e a doutrina do pensar, do Logos, se chama, pois, “Lógica”.
3. O pensar surge como representação, enquanto ele caracteriza o julgamento, como sendo a representação do objeto, e para o pensar que se representa, tudo se torna um ente.
4. A Metafísica age como se o desvelamento não tivesse necessidade do velamento, mas o que na aparência é pura claridade é penetrado e regido pela obscuridade.
5. A Linguagem, emergente do encontro significativo entre Ser e Dasein (abertura), fragmenta-se em sua essência e conteúdo quanto mais é definida e aceita como um acessório humano, no inquestionável trajeto de um Tempo deturpado.
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O Ser, verbo flexionado, conceito rigidamente definido, deixando de ser interrogado quanto àquilo que é, torna-se distante, abstrato e abandonado como o Mito: algo flutuante, uma divagação passada cujos rumores não dizem nada.
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Mas o não dizer do Ser constituiria, para o Homem atento ao silêncio, a forma de falar de uma ausência que, incomodando, faz-se presença.
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Como tudo o que é pertence ao âmbito do Ser, o Cosmos enquanto tal traz cunhada na totalidade de outrora, a cada ente anseia, desde o desvio da origem, raiz da qual converge a unidade e se expressa a multiplicidade.
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Na linearidade racional que busca para si mesma novas clarezas surge a des-ordem de um Caos cujas trevas nos tragam, e cujo eixo subjaz na distância.
6. A linguagem e sua interpretação se fossilizam nessas formas rígidas, como numa rede de aço.
7. Acerca da circunscrição do que é a Linguagem e do conteúdo por ela proposto, Heidegger os expressa nos seguintes termos: “A palavra é língua, coisa de boca”, “sons articulados, um gênero da atividade humana”.
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De onde se pode concluir que a representação da palavra permanece a mesma há dois mil cento e cinco anos, ainda que os conhecimentos sobre a língua não cessaram de se multiplicar e de se modificar.
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A ele concerne, então: a comunicação de emoções e flutuações íntimas do homem, de movimentos psíquicos interiores.
8. O verbo Ser, transitando de sua exposição na palavra pronunciadora do silêncio que a gerou ao vocábulo, passa a retratar, na onto-Teologia, a Cristo: Filho existente desde o princípio com Javé, membro da Trindade, personificação da Verdade.
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O Ser enquanto Verbo oscila em seu conteúdo: deixando de ex-por a eclosão da totalidade (Physis), passa a figurar como expressão humana ou divina.
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Superar a Gramática e a Filosofia da Linguagem, embasadas na Lógica, fundamentadas na Metafísica, significa: liberar o Ser do âmbito verbal, do fechamento conceitual, da subjetividade, do ente, das frases: superar a instrumentalização da palavra enquanto meio de informação, manipulado pela Técnica.
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Isto requer a tarefa de refletir sobre a Linguagem, enquanto acontecimento da palavra proveniente do Ser, que em seu des-velar-se identifica a especificidade do Dasein como um ente ek-sistente, aberto, falante, re-velador de seu sentido.
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Este âmbito de eclosão primordial do Ser enquanto A-létheia foi vivido pelos gregos, os quais, situando-se no horizontal velador-des-velador do Ser, não podiam colocar-se diante da realidade como sujeitos.
9. A quantidade diversa de cada um dos sons estava sujeita a uma lei rígida que tornava impossíveis as oscilações subjetivas na sua aplicação retórica ou musical: era uma lei objetiva e imanente à linguagem que lhe imprimia particular rigidez.
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Deste modo, o ritmo da linguagem do grego arcaico procede diretamente da sua estrutura: é um espírito que nos surge perante os olhos independentemente da nossa vontade.
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Nenhuma intenção subjetiva determina a forma, mas algo de objetivamente idêntico a que tem que se submeter tudo o que é variável.
10. Enquanto prioritariamente oriunda do Ser, a Linguagem que o preserva articula-se enquanto modalidade privilegiada da compreensão autêntica da unidade, da des-coberta e do ser-no-Mundo.
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Conciliado com o Ser, o Dasein eclode, concomitantemente com o des-velamento-velador, como o ente que ordena um Cosmos a partir do qual pensa e poetiza, inserido em seu movimento de imanência e transcendência, mobilizando-se rumo ao acolher da diferença ontológica.
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Nesta postura, a Metafísica, Linguística, Estética e Técnica advêm à essencialização contempladora do Ser, ao qual perquirem.
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Instaura-se assim o processo circular de simbolização da qual novos aspectos do real emergem, enquanto Linguagem que, indo além da codificação dos princípios metafísicos, compreende a inesgotabilidade do Ser, engendrando a passagem da fixidez conceito-verbal à circunscrição do que se renova.
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A palavra será enfocada em um nível totalmente diverso do atual: nela não se esgota o Ser que, por isto mesmo, está sempre à espera de um encontro como o Dasein para re-significar-se.
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É a dinâmica do real, eminentemente orientadora, que volta a instaurar-se e, acenando a ângulos do verdadeiro, não pode postulá-lo como um dado definitivo, válido para todos, em todas as épocas.
11. A linguagem grega é uma linguagem de máscara: não se assemelha à expressão viva de um rosto, e faz-nos o efeito da máscara na tragédia.
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A própria referência à máscara é importante: esta representa o idêntico, o não subjetivo, e esconde o que é apenas relativo; também esta é um elemento que, em pureza, só se pode conceber no domínio a-histórico; o indivíduo isolado desaparece sob ela para reverter ao arquétipo eterno.
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Logo, porém, que a unidade primitiva se quebra, o verso, a música e a dança perdem a sua ligação num todo e deixam de ser funções parciais.
12. A Linguagem, restituída à sua proveniência nomeadora, chama os entes à existência, ao elo mágico no qual o Sagrado, os deuses, Terra e Céu, Dia e Noite, são re-conduzidos, na palavra, à Quaternidade.
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O vínculo quaternário, apreendido no des-velamento, encontra na palavra poética, gerada pela disponibilidade, espera e silêncio da entrega ao Ser, o sentido mesmo de uma essência, a ela outorgado pela mensagem na qual o real se profere.
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A linguagem poética atinge sua plenitude, enquanto salvaguarda a habitação do Mundo, perdida pela Metafísica e Técnica.
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Mas como isto só é possível a partir de um enfoque da essência humana, Heidegger em Sein und Zeit recorre a uma alegoria para circunscrevê-la, em um plano anterior àquele que a define pela racionalidade-subjetiva.
13. Quando um dia o Cuidado atravessou o rio, viu ele terra em forma de barro: meditando, tomou uma parte dela e começou a dar-lhe forma. Enquanto medita sobre o que havia criado, aproxima-se Júpiter. A ele o Cuidado solicita que dê espírito a esta figura esculpida de barro. Quando, no entanto, o Cuidado quis dar nome à sua figura, Júpiter o proibiu e exigiu que fosse dado o seu nome. Enquanto Cuidado e Júpiter discutiam sobre os nomes, levantou-se também a Terra e desejou que à figura fosse dado o seu nome, já que ela tinha oferecido uma parte de seu corpo. Os conflitantes tomaram Saturno para juiz. Saturno pronunciou-lhes a seguinte sentença, aparentemente justa: Tu, Júpiter, porque deste o espírito, receberás na sua morte o espírito; tu, Terra, porque lhe presenteaste o corpo, receberás o corpo. Mas porque o Cuidado primeiro formou esta criatura, irá o Cuidado possuí-la enquanto ela viver. Como, porém, há discordância sobre o nome, irá chamar-se homo, já que é feita de hummus (terra).
14. No Homo-Hummus descerra-se a Quaternidade: o Céu anuncia o clarão do presentificar, remetendo ao raio fulgurante do Zeus que nomeia, organizando o Cosmos.
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É o deus-nomeador que torna o Homem o ente-criador, que se essencializa na designação.
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Em sua umidade constitutiva ressaltam-se Água e Terra, pré-formal e formal, acenado à sua finitude temporal, ao velamento-des-velador do qual é oriundo, tornando-se imanência-transcendente, em seu percurso existencial.
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Estando em meio ao devir, o Homem enquanto Cuidado é busca incessante de autenticidade e compreensão, movendo-se circularmente num horizonte onde a permanência se lhe dá, escapando.
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Regido pela Lua ou Ser, instauradores da medida rítmica, vem-a-ser Memória que instaura-preservando o essencial, em seu cântico mortal, que anseia à integridade do Sagrado e à divindade: à reconciliação dos opostos complementares.
D. As metáforas contidas no pensar heideggeriano
1. Tendo como fio condutor a Alegoria ou Metáfora do Cuidado, visa-se à circunscrição das fases nas quais se erige o pensar heideggeriano.
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A primeira fase se refere aos escritos publicados em 1912 a 1930, na qual podemos ressaltar as seguintes obras: Ser e Tempo (1927), Que é Metafísica?, Kant e o problema da Metafísica, Sobre a essência do fundamento (1929).
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Em seu interior, Heidegger busca o original: o sentido do Ser que se des-vela no interior das épocas históricas, mítica, grega, metafísica, teológica e técnica, cada qual regida por um princípio diferente da outra.
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Sendo que seu intuito é a superação da Metafísica, Heidegger propõe o resgate da época grega na qual fulgura a diferença ontológica.
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Nestas obras, é por intermédio de um ente que o Ser se des-vela.
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Retornar à origem do pensar significa: recuperar a história do Ser.
2. Em Ser e Tempo, partindo do ente-Homem, assinalado pela compreensão e lidar com os entes circundantes, tem acesso ao Ser na práxis cotidiana, que des-cerra também o que é propriamente humano: o agir que contempla para poder fazer.
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Como mostrado ao enfocar a origem no período Paleolítico, o Homem essencializa-se e aproxima-se do Cosmos pelo fazer: conquista e resgate de seu ser.
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A intencionalidade contida na confecção da obra implica a necessidade dos materiais que a constituem, tendo em vista sua serventia.
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Os entes, remetendo-se uns aos outros, des-cerram, na união entre práxis e teoria, a Natureza.
3. O martelo, as tenazes, os pregos remetem em si mesmos ao aço, ferro, mineral, bosque. Por seu emprego, o utensílio utilizado faz descobrir, ao mesmo tempo, a ele mesmo, e a “Natureza”, a “natureza” revelada à luz dos produtos naturais. A natureza não deve ser compreendida aqui como um ente simplesmente subsistente, nem como uma força natural. A floresta é uma reserva de árvores, a montanha é uma pedreira, o rio uma força hidráulica, o vento uma “cortina inchada”. Ao mesmo tempo que se descobre o “mundo ambiente”, se oferece uma “natureza” por ele descoberta.
4. O Mundo é retratado como des-velamento do Ser e é no fazer, enquanto descoberta do ente, que o Dasein faz-se a si próprio.
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Unindo indissoluvelmente práxis e teoria, quebram-se as dicotomias metafísicas.
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O Dasein, em combate constante entre autenticidade e inautenticidade, Vida e Morte, chega ao sentido do Tempo, emergente do Cuidado, que o designa essencialmente.
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Se em Ser e Tempo, a Angústia designa a falta de significabilidade dos entes intramundanos, sua retirada enquanto quebra anuncia também o Nada, enquanto traço fundamentalmente humano, posto que este é um projeto finito, mortal.
5. Em Que é Metafísica?, tanto a totalidade ôntica quanto humana se resvalam no Nada que, designando o não-ente, refere-se ao Ser, prenunciando a transcendência rumo ao ontológico.
6. A segunda fase é caracterizada pelas obras posteriores a 1930, estendendo-se até 1950, dentre as quais podemos citar: Sobre a essência da verdade (1930, publicada em 1943), Introdução à metafísica (1935, publicada em 1953), os textos sobre Hoelderlin (de 1936, 1941 e 1943 publicados em uma edição mais ampla em 1947 com o título Hoelderlin e a essência da poesia), Sobre o humanismo (1946), A doutrina de Platão sobre a verdade (1947), O caminho do campo (1949) Holzwege, obra de transição (1950), contendo os textos: A origem da obra de arte (1935-1936), A época da imagem do mundo (1938), Hegel e seu conceito de experiência, A palavra de Nietzsche “Deus está morto” (1936-1940), Por que poetas? (1946), A sentença de Anaximandro (1946).
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Nelas é também por intermédio dos entes falados ou da obra de arte que se dá a abertura des-veladora que institui o Mundo.
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Por intermédio da análise dos escritos de Hoelderlin, Heidegger fala de Sagrado, dos deuses, da Pátria enquanto Terra Natal e da Festa, enquanto elementos fundamentais a ser recuperados.
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Na Noite do Mundo o Homem vê-se sem caminhos por Terra ou Água: todos são Holzwege, levam somente ao combate entre Terra (velamento) e Mundo (des-velamento).
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Por intermédio de Rilke, fala do Anjo conciliador do invisível e do visível, da conciliação de Terra e Mundo no aberto do Ser.
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Nesta fase as palavras-chave são: poeta e Arte.
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A passagem do ente enclausurado como Terra ao des-velamento do Mundo surge na obra de arte enquanto esta possibilita a re-criação criadora do Ser.
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Aqui também é por meio de um ente que se des-vela Ser.
7. Em Holzwege, obra do que assinala o período intermediário, Heidegger mescla o original, descrito por intermédio dos períodos da história do Ser, da tentativa de ultrapassar a Metafísica (perpassada pela diferença ontológica) à obra de arte, que des-vela o Ser, por intermédio do ente-obra, ao originário.
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O originário surge a partir de uma nova postura no seio da qual, a luta entre Ser e Não-Ser (Nada), transcende o combate eminentemente criador.
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É somente pela abertura prioritária do Ser, que se torna possível ao Dasein e às suas obras criadoras, a instauração do Mundo.
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Trata-se agora de partir do Ser des-cerrado, aos des-velamentos, do universo do sentido aos entes significados.
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O originário é o aberto no qual toda e qualquer manifestabilidade pode ocorrer: a instauração da Verdade.
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A presença torna presentes os entes, pelo dom de sua anterioridade que consiste em, brilhando, fazer brilhar, a-historicamente, isto é, no clarão que está além das limitadas concepções epocais.
8. Em Sobre o Humanismo, Heidegger, acenando ao seu percurso, resgata e esclarece pontos fundamentais de Ser e Tempo, acenando a rumos no mesmo caminhar, ou melhor, no caminhar rumo ao Mesmo: “O pensamento futuro não é mais Filosofia, porque pensa mais originariamente que a 'Metafísica', nome que diz o mesmo”. “O pensar está na descida para a pobreza de sua essência precursora. O pensar recolhe a linguagem para junto do simples dizer. A linguagem, é assim, a linguagem do ser, como as nuvens são as nuvens do céu”.
9. Em Introdução à metafísica, recorrendo à Antígona de Sófocles, retrata o embate entre Ser (Dike) e a violência humana (Tekhne), num contexto no qual o vigor do Ser é o preponderante.
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A Angústia surge diante do estranhamento do Ser que, como abrigo humano resta incógnito em sua antiga familiaridade.
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Acenando também à linguagem poético-resgatadora do mistério e à obra de arte, prenuncia seus escritos sobre a Técnica retratada como dominação humano-exauridora da Terra, “a mais excelsa das divindades”, fazendo imperar o Não-Ser contra o Ser, o Nada e a Morte, inescapáveis de seu poder controlador.
10. As obras posteriores, situadas no período de 1950 a 1972, retratam a terceira fase de um pensar no qual não se visa mais ao original, aos entes que des-velam o Ser, mas ao Ser enquanto Ser.
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Em seu conteúdo repleto de metáforas, o pensador expõe o originário: a Physis enquanto eclosão do presente-ausente que se instaura no jogo de espelhos da Quaternidade.
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O Ser, enquanto “acontecimento-apropriação”, fala do jogo do vir-à-presença quaternária.
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Nele, clareira, A-létheia e Tempo ocupam o lugar do termo des-velamento.
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O Ser que não é, mas dá-se, fulgura poeticamente, acenando à negatividade do fazer manipulador da Técnica que, dominando, assume para si as diretrizes que norteiam a habitação de um Mundo cada vez mais distante dos homens, posto que se embasa na objetivação na qual o sentido se dilui.
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O Ser enquanto Ser é a clareira que torna o Dasein o espaço aberto (clareado) para o seu surgir, que ocorre no Tempo, enquanto des-coberta da Verdade, assunção do esquecimento no ato de despertar do sono da Noite do Mundo, em meio à qual Ser e Dasein estiveram aprisionados.
11. A Viravolta (Kehre) consiste em transformar as palavras, modificando a Linguagem na Linguagem, a partir da fulguração do Ser, erigindo-se em ultrapassar a Metafísica e os entes, na busca da origem originária na qual o sombreado essencial, naquilo que o constitui intimamente, bem como no esquecimento que cobre de trevas seu brilho, repousam no abandono da ausência.
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Retornar ao Ser enquanto Ser: esta é a meta de um caminho fecundo, embasado no silente mistério da escuta, instituindo, em seu âmago, o des-cerrado espaço metafórico.
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Passa-se então à análise do âmbito poético, rico em metáforas, que compõe o pensar heideggeriano.
12. Clareira (Lichtung), a “piedade” do pensar enquanto “agradecer”, o memorial, a Linguagem da essência e seu mistério que reina como o intraduzível Holzwege, visto por quem se coloca no “caminho do campo”, “a caminho da linguagem”, buscando o Ser do Ser em seu brilho recolhido, na escuridão-iluminadora ou no claro-escuro (do inaparente).
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A “serenidade” de quem cultiva o inaparente no “jogo” de “espelhos” da Quaternidade ou na obra de arte, penetrando na “livre amplidão” de Mundo e coisa, onde “o poeta canta” a música do Ser enquanto “Simples” ou o “Mesmo”, que sagra o Dasein como seu “pastor”.
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O Mundo expresso em termos de “Noite” e “Manhã”, na pertença circular onde fim e começo da Metafísica e da totalidade coincidem, miticamente.
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No pensar que, atento ao “recolhimento” do Ser que, iluminado, “soa e ressoa”, superam-se as trevas, o sono, o “abismo” diante do qual estamos inseridos.
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O ventar do vento enquanto “cortina inchada”; a “diligência” do Cuidado, a “solicitude” do “ser-resoluto”, a exposição ao “luminoso”, de Ser e Tempo a O fim da filosofia e a tarefa do pensamento.
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O “aberto” que “recolhe”, “protege” o que “dá-se”, a presença que se “presentifica” tautologicamente, na “circularidade do círculo”.
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Todas estas expressões, em meio a tantas outras, acenam à Metáfora no pensar de Heidegger, con-vocando a uma re-aproximação com o “oculto reinar” dos deuses que nos “acenam”.
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O “logos”: “pousar” que “colhe e recolhe”, “medida” que “unifica”, “o que se des-cobre se cobrindo”, o “olhar face ao Sagrado no 'espelho da verdade'”.
13. Mas, aos leitores heideggerianos talvez possa soar estranha a afirmação da presença da Metáfora em seu pensar e linguagem, posto que ele escreve: “o metafórico só existe no interior da Metafísica”.
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Contudo, há dois significados contidos neste termo: o primeiro se refere às substituições das palavras, à troca do Ser pelo ente, alicerce da Metafísica; o segundo remonta à origem da Linguagem que nomeia, em Poesia, metaforicamente, a eclosão do essencial.
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Enquanto Metáfora, a Linguagem heideggeriana empreende um outro retorno à Linguagem da Essência: o Mito enquanto simbolização.
14. O pensar circular de Heidegger, voltado ao Ser enquanto Physis e A-létheia, o originário a ser retomado, apega-se ao dizer primordial, erigido em uma Linguagem nomeadora, musical, dando relevância ao poeta, acena à “gratuidade”.
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Mas a Linguagem, tendo suas raízes no silêncio, passagem do oculto ao manifesto, retraça mais sua analogia com o Mito, enquanto nelas o som criador engendra a transição das trevas à luminosidade, da Noite ao Dia e, integrando os opostos, ao nomeá-los, cria.
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Instaurando-se em um universo de totalidade que visa à harmonia, Heidegger, como os míticos, busca o horizonte que, rompendo as dicotomias, situa-se anteriormente à subjetividade.
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A Festa, da qual o poeta desabrocha em sua “inocência”, o sagra como aquele que “nomeia o Sagrado”, situando-se “entre dois” domínios: humano e divino.
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A Arte também retrata o ritual integrativo do “jogo” do Mundo, em sua clarificação.
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Seu pensar enigmático contém uma proximidade com o Mito, enquanto este escapa àqueles que querem reduzi-lo à objetividade planejadora, linear, que impera na racionalidade.
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O Mito enigmático-silencioso é transcendente, no tocante ao que diz: o símbolo é nele projeto, imagem inesgotavelmente profunda.
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Deuses e Ser, a originária origem, eclosão genética brilhante, medida do enigma da recusa-pertença à A-létheia: circulam no círculo da circularidade quaternária.
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Na interpretação dos quatro, nenhum dos elementos sobressai, todos se necessitam, e o temido Caos tornou-se real na figura impensada pelos precursores: é Cibernética-tecnicizada, excessividade des-ordenada, cujo equilíbrio-limite jaz no dissimulado, onde o Ser, oculto-latente anseia para vir-à-luz dos existentes, expondo-se no escondido-presentar-se de seu segredo.
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A originária origem, centrada no ponto dos deuses ou do Ser, é sempre um combate do fazer-vir-à-luz (clarear-se o obscuro), gerando Vida ou contemplação, re-criada criação confiada pelo deus-cantor ao cântico poético.
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O Mito encontra no pensar heideggeriano Poesia, Música e Pensar com os quais se correlaciona desde sua explosão precursora, num âmbito no qual o apelo ontológico não tem como necessário o recurso à Filosofia enquanto Metafísica.
15. Eis aí a descoberta decisiva que mostra que anteriormente à luta binária entre velamento e desvelamento, a vinda à presença efetua uma luta por nada.
16. O jogo infundamentado do Mundo supera os princípios enquanto, em seu desdobrar-se como o acolhimento que eclode enquanto Physics, anuncia-se a si mesmo.
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Talvez o espanto do que move surja, diante destas colocações acerca de um ciclo heideggeriano-mítico, mas diante da evolução da temática dos jogos ou combates, enfocados desde as primeiras linhas deste livro, a surpresa se dilua no deus criador ou celeste, representado pelo fulgurante trovão, que impera no reino visível-invisível de Noite e Aurora, acompanhado pelo ressoar ou silêncio, do que entrecorta a mesmice de tempos iguais.
17. Desde então cada qual compreende o papel da análise etimológica tendendo a restaurar um sentido “arcaico”, o pensar fazendo-se por assim dizer “arqueológico” de parte em parte, a menos que não se prefira qualificá-lo de “mitológico” porque ele manifesta sua preocupação constante no tocante à palavra mais antiga.
18. Como dito desde o início, o zelo mítico com a palavra ou som próprio de cada ente reside em, nomeando-o como nas origens, chamá-lo à pre-sentificação, do mesmo modo que o Cosmos ou o Ser, explosões luminosas que, iluminando o silêncio, fazem ressoar o que desabrocha.
19. Na língua grega não se fala da ação de ver, de videre, mas daquilo que luze e brilha. Só pode, porém, brilhar, se a abertura já é garantida. O raio de luz não produz primeiramente a clareira, a abertura, apenas percorre-a. Somente tal abertura garante um dar e um receber, garante primeiramente a dimensão aberta para a evidência, onde podem demorar-se e devem mover-se. Todo o pensamento de Filosofia, que, expressamente ou não, segue o chamado “às coisas mesmas”, já está, em sua marcha, com seu método, entregue à livre dimensão da clareira.
20. Mas não há luz alguma, nem claridade sem a clareira. Mesmo a sombra dela necessita. Como poderíamos, de outra maneira, penetrar na noite e por ela vagar?
21. Des-velado, o ente torna-se visível, para entrar no reino ausente da invisibilidade, quando de sua retração.
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Contudo, como foi colocado no capítulo III item 3, e nas reflexões que compõem este capítulo, o poeta, enquanto mais habilitado a penetrar no inaparente, transcende.
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A palavra poética, purificada e remetida à sua gênese, em seu poder de vidência, instaura o real, unindo-se aos elementos diurnos contidos na visão, na Luz, no Dia, na nomeação integradora daquilo que a Noite dissolve.
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O Ser, ao eclodir, faz surgir o Cosmos.
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No Mito, o Ser é oriundo da palavra, e esta significa: o elemento divino-humano, posto que contém e decifra o real.
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Podemos, assim, estabelecer uma analogia entre a palavra primordial e o Ser que dela emana, desabrochando como Cosmos.
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Por outro lado, como o Cosmos, enquanto unidade e totalidade, designa o Ser, a clareira fulgura enquanto palavra: articulação do sentido, princípio do outorgar existência aos entes.
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Esta postura foi também a dos gregos que, perpetuando o Ser, mantiveram o des-velado no Logos.
22. Linguagem seria: recolhido deixar-estendido-diante daquilo que se presenta em sua presença. De fato: os gregos habitavam a essência da linguagem. Mas eles nunca pensaram esta essência da linguagem; nem mesmo Heráclito. Os gregos teriam pensado a essência da linguagem a partir da essência do ser, até mesmo como o próprio ser. Pois ho Logos é o nome para o ser do ente.
E. O nomear poético e a frase musical
1. Heidegger, mostrando o vínculo fundamental entre Ser e palavra no âmbito pré-socrático, assinala, concomitantemente, a tarefa de seu pensamento originário, em um Tempo indigente, ápice da Viravolta, buscando prenunciar sua luminosidade na pronúncia do que é subjacente.
2. Nosso pensar de hoje tem como tarefa receber o que foi pensado de modo grego, e pensá-lo de uma maneira ainda mais grega.
3. Aquele que profere uma palavra arraigando-se ao Ser enquanto Ser, ou a partir do Ser, é o poeta essencial.
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Re-velando o que permanecera oculto, e salvaguardando sua relação com as coisas, formadoras da Quaternidade e companheiras do Dasein, o poeta, em seu processo criador, captando o Ser enquanto nascente profunda, nomeia o originário.
4. Só a palavra confere ser à coisa. O poeta experimenta o ofício de poeta no sentido de uma vocação com a palavra, entendida como a origem do ser. Elas são as palavras pelas quais o que já é e passa por ente, torna-se compreensível e denso, a tal ponto que, daqui em diante, resplandece e floresce, e assim reina por todo o país como beleza. As palavras são palavras que exibem. O poeta, ele mesmo, é poeta a partir da exigência que o faz nomear os nomes.
5. O poeta nomeador está, como o artista, postado no seio de Techne: saber iluminador que, engendrado na passagem do obscuro ao claro, no jogo de espelhos no qual se erige a Quaternidade, é favorecido pelo raio de Zeus ou pela inspiração de Dioniso, a anunciar sua mensagem protetora do Ser.
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O poeta atinge a essencialidade de sua essência no canto: eco da voz divina que ressoa, propagando-se no ar.
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Dia (nomeação) e Noite (canto) fundem-se neste conciliador dos opostos, no seio da unidade ontológica.
6. A palavra não obscurece na falta de energia da impotência do dizer. O poeta não diz adeus à palavra. Ele canta canções. A canção canta o segredo da palavra de maneira admirável, isto é, em colocando, no poema, questões.
7. Delimitando o poeta como cantor que circunscreve o real, Heidegger penetra no reino originário dos primórdios, em cujo âmbito a Linguagem é Poema, juntura que ex-põe a união entre Ser e Verbo (Homero), pronunciando o Logos (Heráclito) que impera em um dizer não-subjetivo, que se desdobra como ritmo e Música.
8. Pensando-reunindo-amando, tal é o dizer: inclinar-se tranquilamente na felicidade do regozijo, venerar no júbilo, celebrar, cantar o louvor; laudare. Laudes é o nome latino para os cantos. Dizer os cantos significava cantar. O cantochão é o recolhimento onde o dizer se reúne em canto. Se desconhecemos o sentido profundo do cantochão enquanto dizer, então ele se torna simples “colocar em música” daquilo que é falado e escrito.
9. Depois o poeta deve responder a este segredo apenas pressentido, a este segredo que só lhe é possível pressentir, sonhando. E isto só pode ter bom êxito se a palavra poética ribombar sobre o tom do canto.
10. A palavra cantada é, por excelência, Poema-sinfônico, ode grega que, estruturando-se em estrofes, verso e métrica, análogas, compostas pela similitude de sílabas e ritmo, entoam seu significado, melodicamente.
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Remonta, assim, à gênese da Música, às trevas noturnas iluminadas pela Lua ou Fogo, senhores do ritmo.
11. O ritmo deste canto é tão magnífico que é claro. A ele é suficiente dar a entender por uma indicação. Ritmo, entretanto, não quer dizer rio ou fluxo, mas juntura. O ritmo é o elemento repousante que junta e dispõe o pôr-a-caminho da dança e do canto, e assim deixa-os repousar em si. O ritmo concilia o repouso.
12. A Música é a expressão do Ser próprio do Ser, posto que este se desdobra sendo, des-velando àqueles que sabem ouvir.
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É o mostrar-se da circularidade expressa em dança, ronda sagrada de um movimento cantado, no estrondo da resposta que encaminha ao Céu, aqueles que se fixam, batendo seus pés na Terra.
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O canto, enquanto hino de louvor, habitação sonora do Mundo, é medida, métrica ritmada, harmonia, repetida volta ao início mítico: momento no qual se profere o aberto do Ser em timbres, nos quais ecoa o silêncio de um mistério perene, salvaguardado: motivos que circulam ao longo da melodia eterno-finita, ontológico-poética, onde os deuses criadores são presença, no andamento instaurado e renovado da unidade musical.
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O ritmo único, puro, é brilho sinfônico, associação primordial do Dasein à realidade, escala de afinidade com o limite do fluxo do existir.
13. O reino da palavra fulgura como colocar a origem da coisa. A palavra começa a luzir como a reunião que conduz, enfim, à sua presença, o que vem à presença. A palavra mais antiga para o reino da palavra assim pensada, para o dizer, é: Logos, die Sage, o que, dando a ver, deixa aparecer o ente em seu ele é. Escutamos o poema. Nos tornamos, presentemente, ainda mais pensativos, em relação à possibilidade que, na escuta mal-entendemos, do mesmo modo que mais facilmente o poema ressoa, em toda simplicidade, sob o modo do canto.
14. O Ser que, em seu emergir, dispõe e ordena, no percurso próprio da passagem de ausência à presença, é ritmo dinâmico, movimento propulsor de sair do mistério indissolúvel que, unido ao Dasein, o convida a pronunciá-lo em seu silêncio, limite não-ultrapassado do originário presentificar-se da Verdade (A-létheia), no Tempo.
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O poeta-cantor, vinculado ao Ser enquanto Physis, no ato criador (Poiesis), insere-se no eixo do clarão que o identifica ao artista e pensador: músicos da pronúncia dos recantos inaparentes, que reconciliam seu Tempo indigente com a composição harmônico-silenciosa do Ser.
15. Enigma permanece uma tal palavra poética, da qual o dizer, depois de muito tempo, retornou ao silêncio (o silêncio de calar-se).
16. É justamente no silêncio cortado pelo som propulsor que o Caos inaugural, até então amorfo, desdobra-se em entes oriundos de seu explodir, gerado pela nomeação.
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Sendo que os deuses agem pelo canto, estabelecendo a Linguagem humana como veículo que conserva intacta a divindade, ao nomeá-la, o mago-poeta preocupa-se, desde o princípio, no estabelecimento e manutenção da plenitude deste mesmo conteúdo, de modo que, nele, o angélico não seja exaurido.
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Buscando continuamente o resgate do significado originário, o poeta não se intimida diante dos recursos de que dispõe; pelo contrário, visa sempre à purificação da Linguagem e, para cumprir sua finalidade, recorre à Música, como Heidegger o fez.
17. A fórmula se complica então de uma ininteligibilidade de sílabas e termos, dos quais uns são imputados às línguas estrangeiras e outros são formados de todas as peças, com os sons que têm o ar de não poder sair de uma interpretação humana: entre esta última, as interjeições breves, as vogais acabam por suprimi-las, tanto mais que elas constituem uma verdadeira notação musical. Não temos lugar para nos perguntar a que ponto o estudo geral das religiões primitivas corrobora a idéia de uma semelhante regressão, nos é suficiente notar que ao lado do caráter ininteligível, abracadabrante, das fórmulas rituais, das quais nenhuma sai por isto dos limites normais do canto, encontram igualmente lugar diversas espécies de ruídos vocais, que reúnem a música instrumental pelas formas inferiores de percussão.
18. Recorrer às metáforas, Música, Poesia e Arte, é uma empresa daqueles que, refletindo, não temem correr o risco de estar atentos ao inesperado fulgor, integrando, na totalidade humana da racionalidade, a emoção inspiradora.
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Heidegger o fez, buscando na frase musical o momento de superação da subjetividade imersa no dizer, que ousará, a partir de então, erigir-se como pronúncia nomeadora na qual eclode a identidade do Ser com o Verbo.
19. A frase musical, acompanhada pelos instrumentos, opõe-se à frase gramatical, construída e submetida às oscilações da inteligência do sujeito falante; mas, ao contrário, a saber, uma realidade autônoma que conduz o músico, que se elabora, se desenvolve e se modifica, até que o espírito seja inteiramente submetido à sua vontade.
20. Por intermédio do dizer de Goethe, citado por Bettina von Armin no livro Correspondência de Goethe com um menino, Heidegger diferencia a frase musical da gramatical, revelando a importância da Música, que pode ser melhor assimilada à frase poética.
21. A frase musical é uma articulação sonora, organizada e composta por ritmo, pontuação, desenvolvimento de uma idéia temática que, unindo-se ao silêncio, compara-se com a frase que compõe a Linguagem.
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É discurso coerente, ordenado, que, sendo repetitivo, remete-se, como visto no capítulo II, item 1, ao Mito e à Poesia.
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Enquanto sonoridade, é vibração transmitida ao ouvido noturno, remetendo, concomitantemente, à divindade diurna, e, atendo-se à origem fecundada, nos envia ao âmbito da Quaternidade.
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A sensação física, causada pela Música, é diferente da leitura de um texto, na qual o conteúdo é submetido à apreciação intelectual.
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A Música primitiva, tal como a Poesia, é a primeira forma de Linguagem que contém em si um sentido eminentemente sagrado: a criação.
22. A Música, que muitos comentadores de Heidegger denunciam como ausente em seu pensar, nele se des-cerra como modo de exprimir a íntima solidão individual, a profundidade do incompartilhado, descrita na frase escrita que tenta comunicar, participativamente, seu encontro inexprimível com o des-velado.
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A Música-Poema-Pensar-Arte é o recurso fundamentalmente humano de mostrar o que a ele fulgura na contemplação, conteúdo que, por vezes, perde-se, sem diluir-se, no ouvido daqueles que não permitem o seu ressoar rompente dos cânones estabelecidos.
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Obra sem fracasso, porque eminentemente criadora, sem troca dialogante com seus leitores, que não busca aprovação ou aplausos, posto que se satisfaz em ser comunhão que, sem o recurso ao vento, arrepia, arrebata.
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A Música-Poética, em sua ausência de porquês, como o próprio Ser, cria, gerando.
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Supera seu momento histórico em metáforas sonoras, que des-cerram o encontro poético com a invisibilidade de um Ser, na tentativa de dar a ver o que, por ele tendo-sido-visto, é inspiração, transcendência, grau supremo de abertura à con-vocação do Ser que instaura o Dasein, poético-sonoramente, no horizonte do símbolo.
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Nele, o homem atento é projeto que visa à complementaridade, ao elo do indissolúvel vínculo que estreita a totalidade do Ser.
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Não teme o vazio caótico, o abissal, o Nada, posto que se erige na busca questionante, maduro-silente que, aguardando uma mensagem, expressa a unidade do Ser na multiplicidade dos entes: o músico-poeta arraiga-se, assim, ao essencial, ao Ser do Ser que “foi, é e será”, na especificidade de um movimento captado por Homero e legado à contemporaneidade como questão a ser re-pensada, no processo vigoroso no qual o real emana das raízes da Árvore, centrado na medida, enquanto eixo que, atento aos excessos, re-instaura a ordem inerente ao ontológico.
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O poeta, em sua voz, libera o cântico oriundo do Ser, boca divino-aberta, que des-cerra a pertença ao resplandecente relâmpago clareador do essencial.
23. No tocante à Música, vemos que este processo criador é oriundo do silêncio, eclodindo como som organizado e expressivo.
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Seu acontecimento contém em si o recolhimento humano no Ser e, movendo-se em meio ao silêncio, entrega-se, após o canto, ao silêncio que o gerou.
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Música, Linguagem e Arte, tal como Heidegger as compreende, são processos elevados de dar forma ao silêncio que, vindo-a-ser rítmico palpitar do Ser, é outorgado ao ouvido.
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Nesta trilogia se des-venda e con-suma o Tempo: compasso do des-velado, mostrar-se que perpetua a A-létheia.
24. No ritmo, enquanto o que é constante, o equilíbrio da obra dá-se, estruturalmente, em seus acentos: manifestações da circularidade do Ser, na cadência do Tempo.
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O Tempo, em sua curvatura, é a oscilação do silêncio aos sons suaves e fortes, onde plenitude e repouso estão unidos.
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Música, Arte e Poesia são, assim, essencialmente rítmicas: jogos sonoros ou cores ordenadas compondo uma totalidade que, contendo a multiplicidade, não pode ser divisível.
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No ritmo, impulso do vínculo entre Ser e Dasein, ressoa o movimento da organização do Cosmos, articulado na clareira de onde brota o Belo, que solicita a abertura contemplativa-auditiva daqueles que, postados diante dela, nomeiam novamente seu significado global.
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Re-criando a criação, penetram no âmbito do Ser que se abre, circunscrevendo, eles também, cada qual à sua maneira, o universo Quaternário do real.
