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Fenomenologia e Vida
BARBARAS, Renaud. Introducción a una fenomenología de la vida: intencionalidad y deseo. Madrid: Ediciones Encuentro, S.A., 2013
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A vida ocupa um posto singular na fenomenologia, estando no centro das grandes filosofias fenomenológicas, mas nunca é objeto de uma autêntica interrogação, funcionando como um conceito operativo e metafórico, o que gera uma sensação ambígua de omnipresença e ausência.
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A noção de vida é invocada para qualificar a atividade do sujeito transcendental, mas a vida dos seres vivos, objeto da biologia, cai sob o golpe da epoché fenomenológica, de modo que a vida transcendental é apenas uma vida emprestada ou metafórica, e não se consegue ver em que é verdadeiramente uma vida.
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A referência à vida na fenomenologia é inevitável e inaceitável, necessária e obscura, e essa situação parece dever-se ao desajuste entre o que a fenomenologia deve pensar em razão de seu projeto fundador e a trama conceitual que estabelece para pensá-lo, como se o gesto fundador abrisse o espaço da vida para logo o fechar.
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A dificuldade da fenomenologia em definir a vida pode remeter ao próprio movimento da vida, que no pensamento se separa de si mesma, de modo que o sujeito do pensamento não pode, sem dificuldades, tornar-se objeto de si mesmo, e uma filosofia da vida digna desse nome não pode evitar refletir sobre a relação entre pensamento e vida e sobre a eventual distorção da vida ao se fazer pensamento.
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A questão da vida é a questão filosófica por excelência, pois o pensamento é sempre obra da vida, e a interrogação sobre a vida aprofunda até sua própria raiz, colocando-se do lado do perguntado e contendo-se a si mesma, o que exige um retorno ao projeto constitutivo da fenomenologia para compreender sua dificuldade em se apropriar conceitualmente da vida.
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Husserl explicita o thaumazein filosófico como a correlação entre o ente transcendente e a diversidade de suas aparições subjetivas, um a priori universal de correlação que implica uma estrutura ternária: o que aparece se dá a um sujeito em um desdobramento de aparições.
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A necessidade eidética dessa correlação, segundo a qual a relatividade do ente às suas aparições subjetivas é constitutiva de sua essência, é a lei de sua entidade e a condição de sua transcendência, abrindo o caminho da fenomenologia e exigindo a epoché para acessar essa evidência, neutralizando a ideia ingênua de um ente em si.
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A intencionalidade caracteriza o ser do sujeito como visada do transcendente e dá nome à correlação por sua vertente subjetiva, mas a autêntica dificuldade é o sentido do ser dos termos da correlação, especialmente do sujeito, que não pode existir como os demais entes, o que exige reconhecer uma equivocidade do ente.
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Husserl acentua essa equivocidade ao opor a consciência como esfera de ser absoluta à realidade que aparece como relativa, o que arroja a consciência para fora da realidade e lhe recusa toda forma de mundaneidade, mas essa posição é inaceitável, pois o sujeito não constitui o mundo em detrimento de sua transcendência e não poderia fazê-lo aparecer se fosse alheio a ele.
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A lição de Merleau-Ponty é que o sujeito só pode fazer aparecer o mundo se já estiver sempre do lado dele, possuindo um parentesco ontológico, o que força a reconhecer uma forma de univocidade do ente, exigindo pensar o ser do sujeito de modo que, embora condição da aparição do mundo, ele pertença ao mundo que constitui e exista como os outros entes intramundanos, conjugando univocidade e equivocidade.
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A aparição é um acontecimento do que aparece e tem lugar em seu seio, de modo que o sujeito, para ser condição do aparecer, deve também ser condicionado, o que impõe uma reconsideração radical da relação entre condição e condicionado.
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A fenomenologia se encontra em uma situação paradoxal, pois, ao mesmo tempo que reconhece um sentido do ser inédito para o sujeito da correlação, persiste em tematizá-lo com categorias dualistas da tradição metafísica, que são inadequadas e que o convidam a renunciar, gerando uma tensão constitutiva entre o campo aberto por seu gesto peculiar e as categorias aplicadas.
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Essa tensão anida no coração do movimento fenomenológico e é o motor de seu desenvolvimento pós-husserliano, manifestando-se nas críticas a Husserl e na tentativa de respeitar a figura verdadeira da fenomenicidade, mas as fenomenologias posteriores, como a de Merleau-Ponty, não se livram realmente dessas divisões, deslocando-as ao determinar o sujeito como corpo e criando conceitos como entrelaçamento e carne para compensar a separação inicial.
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Diante da inadequação das categorias, é preciso suspendê-las e tentar captar o sujeito da fenomenicidade a partir de si mesmo, descrevendo a existência subjetiva sem pressupostos e reformando as categorias ontológicas, evidenciando a ontologia subjacente como uma ontologia da morte, que reprime a vida e instaura divisões que desconhecem o viver.
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O sujeito da correlação deve ser definido como viver, um verbo que em português tem o duplo sentido de estar vivo e de sentir ou fazer a experiência de algo, o que implica que o sujeito, por viver, está em vilo entre a consciência e a exterioridade, sendo o ponto de articulação da equivocidade e da univocidade do ente, onde a relação entre o mesmo e o outro se desdiz.
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O importante é não reconduzir o viver à dualidade entre o vivo e a vivência, pois essa dualidade já expressa as divisões abstratas da metafísica, e a unidade do viver indica um sentido originário em comparação com o qual a distinção entre vivo e vivência é derivada e deformadora.
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A fenomenologia, por ter como objeto o sentido do ser do sujeito da correlação, é essencialmente uma interrogação sobre o viver, e o que ela se propõe é suspender a distinção entre Leben e Erleben para descrever o núcleo do viver conforme a indistinção originária da transitividade e da intransitividade, pensando a identidade originária da consciência e da vida.
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Essa fenomenologia possui um alcance ontológico, pois o sentido do ser do sujeito repercute sobre o do mundo ao qual pertence, e o reconhecimento do viver implica abandonar a ideia de um mundo puramente extensivo e alheio ao viver, exigindo caracterizar o mundo da vida como indistintamente mundo para a vida e mundo em que os seres vivos vivem, acolhendo a vida que o abre.
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A fenomenologia atesta uma consciência da tensão entre o campo aberto pela correlação e a ontologia na qual Husserl a inscreve, remetendo sempre à vida como seu horizonte mais próprio, e por isso é necessário examinar as modalidades segundo as quais o sujeito da correlação é reconsiderado pelas fenomenologias que buscam superar essa dificuldade.
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