estudos:barbaras:start
Barbaras
Renaud Barbaras (1955)
-
O projeto filosófico de Renaud Barbaras se apresenta como uma das propostas contemporâneas mais vigorosas e originais de refundação da fenomenologia, renovando a concepção da experiência do mundo, do ser e da própria atividade filosófica, ao elucidar o sentido profundo da intencionalidade perceptiva em termos de uma relação de pertença que supera a separação entre o olhar e o visto.
-
A filosofia barbarasiana critica a atitude filosófica de sobrevoo e a ignorância da vida, propondo uma refundação da filosofia como ato que interroga o modo de ser que o sustenta, e a obra “Introdução a uma fenomenologia da vida” radicaliza esse triplo eixo de investigação através de análises críticas da grande tradição filosófica.
-
O projeto original de Barbaras, que se revela como uma fenomenologia da vida e se cumpre como fenomenologia do desejo, atribui à questão da vida um lugar singular e estranho na fenomenologia, sendo ela omnipresente e ausente, inevitável e impossível de assumir, necessária e obscura, constituindo uma das tarefas mais próprias e um dos maiores impensados dessa corrente filosófica.
-
O tema da vida se distingue do conhecimento científico biológico, pois o nível objetivo sempre remete a um nível fenomenológico irreduzível que antecede e institui a própria análise científica, colocando em jogo o problema do a priori universal da correlação entre o ente transcendente e seus modos subjetivos de doação, o que exige pensar a condição da própria intencionalidade e a equivocidade do ente, um sujeito que não está no mundo como os demais entes, pois seu existir implica contribuir para o surgimento dos outros entes.
-
Merleau-Ponty denunciou as respostas clássicas do empirismo e do intelectualismo, que compartilham o pressuposto de um “em si” absoluto, e reconheceu que, no nível da experiência perceptiva, nada responde a essa divisão dualista, impondo-se questionar o sentido fenomenológico do enlace, da relação de mútua pertença entre o corpo e o mundo.
-
A tarefa de pensar essa relação exige uma releitura do projeto husserliano, pois Barbaras critica Husserl por opor a consciência como esfera de ser absoluta à realidade do aparecer do mundo, correndo o risco de perder a consciência em uma irrealidade fora do mundo, quando o que se impõe é investigar como a correlação revela um sujeito em que consciência e mundo não são polos alternativos, pois o sujeito, para contribuir ao surgimento do mundo, deve pertencer a ele e ter um parentesco ontológico com o que há.
-
A dificuldade está em pensar o modo de ser de um sujeito que é “ir para o mundo” e também “ir no mundo”, que é condição do surgimento do mundo e também condicionado como um ente intramundano, mostrando simultaneamente o desajuste entre o que é seu e o que é do mundo, e a existência compartilhada com o mundo.
-
Segundo Barbaras, o modo de ser do sujeito só pode ser verdadeiramente compreendido como “viver” (vivre), termo que exprime simultaneamente “estar vivo” e “viver algo”, unindo-se a algo ao vivê-lo, superando a distinção entre Leben e Erleben, e revelando que o modo de ser vivo do sujeito é sempre uma pertença viva ao que experimenta, o que significa que a vida não pode ser pensada sem a consciência, e a consciência não se compreende sem a vida que a constitui, redefinindo a consciência como ação, despossessão e abertura ao outro, e a vida como capaz de consciência, visão e acolhimento. [Luís António Umbelino, Universidade de Coimbra]
estudos/barbaras/start.txt · Last modified: by 127.0.0.1
