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Metafísica do Sentimento

BARBARAS, Renaud. Métaphysique du sentiment. Paris: Editions du Cerf, 2016.

  • A motivação fundamental deste trabalho consiste na vontade de conferir à poesia sua envergadura metafísica máxima, abordando-a sob seu aspecto mais radical, o que implica reconhecer nela não um gênero literário entre outros, mas uma experiência e um modo de existir nutrido dessa experiência
    • A escolha do termo poético designa esse modo de existir, dotado de uma dimensão revelante cujo modo de ser significa necessariamente abertura a um outro que ele mesmo
    • A poesia tenta dizer algo do real de maneira singular, num dizer a serviço de um mostrar, de um ver ou de um fazer ver, o que confere ao poético uma vertente ontológica de acesso, pelo e no seio da linguagem, a uma dimensão que transcende essa linguagem e pertence ao próprio mundo
    • Essa dimensão constitutiva do mundo, à qual o poético dá acesso, identifica-se com o sensível como tal, tornando indispensável esclarecer a ideia de um ser sensível que, longe de repousar sobre a sensibilidade, a torna possível, fazendo do poeta o aliado, senão o guia, do fenomenólogo
    • O acesso ao sensível não se dá de modo algum imediatamente, permanecendo o sensível no horizonte como aquilo que o dizer poético visa sem poder se apropriar, pressentido antes que possuído, tocado antes que visto, o que se atesta pela incessante renascença da poesia
    • A prova poética constitui uma separação fundamental face ao mundo, uma finitude que a poesia se empenha em revelar ao mesmo tempo em que tenta superá-la, sendo o poético a um só tempo prova do exílio ontológico e tentativa de ultrapassá-lo
  • A separação fundamental atestada por numerosos poetas, entre os quais Bonnefoy, para quem a linguagem é nossa queda, compromete a linguagem nesse exílio, não como sua causa mas como manifestação privilegiada dele
    • Essa privilégio se entende em duplo sentido: o que manifesta a radicalidade da separação e o que permite, no entanto, superá-la, fazendo da linguagem um recurso contra uma separação da qual ela é, ao mesmo tempo, a primeira manifestação
    • A poesia realizaria essa essência da linguagem ao tentar, diferentemente de outras obras de linguagem, ir até o fim dessa condição singular, buscando uma forma de reconciliação com o sensível no interior mesmo da linguagem, levando-a ao seu próprio limite e transformando-a em recurso contra si mesma
    • Duas questões correspondem às duas etapas essenciais da demonstração: em que consiste exatamente essa separação que a poesia revela como aquilo contra o qual ela se constitui, em que profundidade deve ser apreendida e em que medida a linguagem nela encontra sua própria possibilidade
    • A segunda questão diz respeito ao modo como o poético pode ser pensado como tentativa, sem dúvida a única, de superar essa separação, ou seja, de reencontrar um pertencimento nativo ao sensível, aparecendo como espécie de remédio ao exílio e recurso da linguagem contra si mesma
    • Nesse ponto impõe-se evidenciar, no cerne do poético, uma forma de prova originária daquilo de que somos radicalmente separados, uma abertura primeira cuja alcance excede inteiramente o plano dos entes mundanos, abertura que será nomeada sentimento, vertente propriamente afetiva do poético, embora num sentido renovado da afetividade, cujo estatuto e significação se encontrarão reformulados à luz dessa prova originária
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