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Finitude

BARBARAS, Renaud. Métaphysique du sentiment. Paris: Editions du Cerf, 2016

I. Os dois sentidos da finitude

  • A marcha efetuada é essencialmente crítica e regressiva, crítica por denunciar os subentendidos falaciosos da concepção dominante do sensível como objeto de uma sensibilidade, e regressiva por conduzir da relação fenomenológica do sujeito com o sensível à determinação ontológica última do sensível como produto do mundo
    • O mundo se produz como mundo ao diferenciar-se de si mesmo como fundo, constituindo diferenças no seio do fundo, sendo os sensíveis essas diferenças, de modo que a verdade da relação de ostensão do mundo pelo sensível é a produção do sensível pelo mundo, isto é, a autodiferenciação do mundo
    • Essa regressão desenrolou-se em dois níveis, passando da constituição do sensível pelo sujeito senciente à ostensão do mundo no e pelo sensível, e desta à sua verdade ontológica de significação cosmológica, o que resulta num reversão radical da versão husserliana da correlação: o sensível é constituído pelo mundo, e não pelo sujeito
    • O caminho da fenomenalidade não vai do sentir ao sentido e deste ao mundo, mas do mundo ao sensível e deste ao sentir, sendo porque há um mundo que há sensíveis e porque há sensíveis que há um senciente, convergindo todas as dificuldades para essa passagem do sensível ao sentir
  • Toda essa marcha regressiva pode ser caracterizada como forma radical de epoché fenomenológica, neutralizando-se toda referência a um sujeito para acessar o rosto verdadeiro da fenomenalidade como aparecer de um mundo e não aparecer a alguém
    • Foi necessário passar antes por uma primeira redução no interior do próprio sujeito, reduzindo-o a seu verdadeiro sentido de ser, antes de chegar ao estatuto verdadeiro do mundo como physis e ao modo de ser autêntico do sensível como ser-produzido
    • Só um sujeito que existe no modo dinâmico está à altura da transcendência constitutiva do sensível, mostrando-se que a abertura intencional só pode ser dinâmica, caracterizando-se esse movimento, o do viver, como desejo
    • Com base nessa existência dinâmica e em virtude da hiperpertença, comunidade ontológica do sujeito e do mundo, acedeu-se ao ser processual desse mundo, avançando-se em zigue-zague, próprio, segundo Husserl, da marcha fenomenológica, indo da crítica do sujeito ao mundo, deste de volta ao sujeito como movimento, e enfim ao sentido de ser último do mundo como processo ou physis
  • A epoché distingue-se de uma negação pura por ser provisória, exigindo recuperar o que foi posto entre parênteses segundo seu verdadeiro sentido de ser, sendo a primeira etapa, crítica do sujeito clássico, já concluída, restando compreender como o desejo pode efetuar a fenomenalização secundária
    • Quanto ao segundo momento da epoché, que conduziu do ser móvel do sujeito ao ser processual do mundo, não se vê como remontar do mundo processual ao sujeito dinâmico, como encontrar no modo de ser processual do mundo a razão de sua doação a um sujeito
    • No primeiro nível, a relação é de correlação entre um viver que é desejo e o sensível como apresentação de um mundo, ao passo que no segundo nível, de pertença, o mundo não é mais o que é fenomenalizado pelo sujeito mas o que se produz como sensível, surgindo então a questão da gênese do sujeito, isto é, de sua existência mesma, e não apenas de seu modo de ser
  • Essa questão é motivada por uma diferença fenomenológica radical, quase abissal, entre a fenomenalidade retomada em sua verdade ontológica e a fenomenalidade retomada do ponto de vista do sujeito, havendo uma verdade fenomenológica no relato subjetivista da experiência do qual se partiu
    • A fenomenologia deve dar conta não só de si mesma como discurso sobre a verdade do fenômeno mas também das versões erradas dessa fenomenalidade, que devem ter sua própria origem e lugar, sendo essa ocultação, nos termos husserlianos, algo que só pode ter sua fonte na própria vida transcendental
    • Merleau-Ponty concluía corretamente que é preciso renunciar à própria partilha entre o natural e o transcendental, o que equivale a compreender, a partir do sensível, como este pode dar lugar a um relato subjetivista, devendo uma fenomenologia consequente também dar conta fenomenologicamente da não-fenomenologia
  • O sensível descrito, como modo específico de doação da transcendência do mundo, nunca corresponde a um sentir verdadeiro, sendo antes o que sente ele mesmo o mundo, relevando de um aparecer anônimo, puro ou sem sujeito, que não pode aparecer a ninguém
    • Um sujeito que coincidisse com o sensível puro teria acesso ao próprio mundo, mas ao preço de dissolver-se no anonimato desse mundo, destruindo-se como sujeito, sendo então a caracterização do sensível como ostensão do próprio ser distante da experiência efetiva que dele temos, de ordem perceptiva
    • Não encontramos primeiro um mundo através de um elemento sensível, mas coisas que decompomos depois em qualidades sensíveis, sendo o rosto original da experiência perceptiva que conduz à ideia de sensação, resultado de uma decomposição do objeto percebido
  • A primeira descrição do sensível como modo de ser do ser não é conforme à experiência efetiva, precisamente porque se trata de um sensível anônimo, uma pura abertura ao mundo em que nenhum sujeito preside, sendo o próprio mundo que se abre a si mesmo
    • A apreensão da coisa enquanto tal, e por consequência do sensível como aspecto da coisa, é a contrapartida exata do surgimento do sujeito, que só existe para si mesmo na medida em que se dá um objeto e esbarra nele em vez de ser despossuído pelo mundo
    • Como Rilke mostrou, sujeito e objeto nascem da oposição como tal, do surgimento de um face a face, da abertura de uma falha no movimento da vida que liga o sujeito ao mundo, sendo o refluxo do sensível rumo à coisa rigorosamente correlativo do sujeito que o põe à distância
    • A experiência propriamente dita, perceptiva, procede de uma cisão no seio do aparecer originário, cisão entre o sensível e o mundo que ele entrega, sendo o sujeito, correlativo da percepção, o outro nome dessa cisão, cujo evento é o advento do sujeito desse aparecer
  • O afastamento entre o que se disse do sensível e a situação efetiva da percepção deve-se ao surgimento do sujeito, ausente do sensível como tal, distinguindo-se então do sensível propriamente dito o sentido
    • Enquanto o sensível procede do mundo e a ele pertence, o sentido procede do sujeito, sendo o que o sensível em si se torna ao sair do anonimato de uma ostensão pura para apresentar-se a um sujeito, arrancando o sentir o sensível de sua inscrição mundana
    • A intencionalidade interior ao ser de que falava Merleau-Ponty, abertura do mundo pelo sensível ao título de sua própria profundidade íntima, distingue-se da intencionalidade do sujeito senciente, que mantém o sensível à distância ao percebê-lo como objeto
    • O advento do sujeito, desde o nível da percepção, antes mesmo da palavra, implica uma perda do sensível como tal, podendo definir-se o sujeito, em qualquer nível de existência, como perda do sensível, substituição ao sensível do percebido ou do falado
  • Chegar-se-ia à mesma conclusão considerando o próprio fato da linguagem, pois esta não seria possível se o mundo não se prestasse a ela, devendo os recortes que ela institui, a começar pelos conceitos, preceder-se no seio do mundo sob forma de objetos
    • O rosto do aparecer primário e anônimo, estranho à categoria do objeto, é impróprio à colocação em palavras, sendo certo que essa perda do mundo, própria da percepção, se realiza por excelência na linguagem, que nos separa não das coisas mas da transcendência opaca do mundo
    • Falar é apostar no recorte, numa diferenciação levada até o fim de si mesma, instalando-se numa realidade de contornos nítidos e pondo à distância o mundo como potência obscura e indiferenciada, restando saber se essa ruptura procede do próprio ato da linguagem ou remete a um evento mais originário
  • Segue-se dessa observação que é possível distinguir dois sentidos ou dois níveis de finitude bem distintos, articulados pela estrutura geral da fenomenalidade
    • Há primeiro a finitude do ser ou do mundo, inerente ao fato de envolver por essência sua manifestação, implicando esta que aquilo que se manifesta se retire dela, ausentando-se do que o apresenta, o que significa que o fundo se mundaniza ao diferenciar-se, dando lugar a entes finitos
    • Essa primeira finitude, correspondente à limitação das aparições, é o avesso exato da infinitude do ser, condição de sua preservação, sendo sinônimo de retirada ou distância e não podendo por princípio ser superada, ao contrário da concepção clássica que via no sensível a marca de nossa finitude antropológica
    • A fenomenologia reconhece ao contrário na finitude antropológica uma finitude ontológica: é porque o ser é intrinsecamente sensível que somos seres sensíveis, sendo nossa constituição corporal chamada pela essência da manifestação e não determinante do que se manifesta
  • Dessa primeira finitude é preciso distinguir uma segunda, não tanto antropológica quanto fenomenológica, já que concerne a todos os viventes, correspondendo a primeira ao que se nomeou manifestação primária, na qual as aparições ainda não são para ninguém
    • A manifestação dita subjetiva corresponde a um desprendimento de segunda potência, pelo qual aquilo que aparece não apenas se delimita mas se separa, deixando atrás de si o ser de que é aparição em proveito dessa aparição mesma, implicando uma perda do mundo
    • A delimitação torna-se separação, a diferenciação no seio do fundo torna-se diferenciação em relação ao fundo, o que significa que a aparição secundária, subjetiva, é doação de um sentido, não havendo presença do sentido senão pela ausência daquilo de que é sentido
  • Encontra-se aqui um ponto decisivo: numa perspectiva tradicional, ainda a de Husserl, a perda do mundo é correlativa da obra de uma subjetividade, sendo o sentido constituído pelo sujeito e o aparecer algo que sobrevém ao sujeito
    • Essa abordagem repousa no pressuposto de um modo de ser subjetivo positivo, o do vivido, que concentra o problema em vez de resolvê-lo, e, sendo o sentido obra do sujeito, encontra-se absolutamente separado daquilo de que é sentido, colocando-se o problema da relação do sentido ao ser
    • Para escapar aos pressupostos do subjetivismo, é preciso inverter a marcha clássica e compreender o sentido a partir da separação em relação ao fundo, e esta a partir da perda do mundo: é porque o mundo se perde que o ente dele se destaca, e é ao destacar-se que acede ao sentido e aparece a alguém
    • Longe de ser obra de um sujeito, o aparecer propriamente subjetivo é algo que sobrevém àquilo que aparece, não se rompendo o vínculo originário do sentido ao ser, sendo o próprio mundo que torna possível a relação a um destinatário ao produzir cisão em seu seio
  • Confronta-se assim um segundo sentido da finitude, de estatuto bem distinto do primeiro, implicado pelo aparecer subjetivo enquanto separação daquilo de que é aparecer e, portanto, perda do mundo
    • Essa finitude significa que o ente não se dá tal como é, que a relação de ostensão própria do aparecer primário se encontra quebrada, confundindo-se com a prova da separação em relação ao rosto verdadeiro do ser
    • Recusar que a subjetividade seja a artesã da manifestação secundária é recusar que seja causa da separação, sendo antes porque somos separados, porque o mundo se ausenta, que somos sujeitos, decorrendo a finitude de nossa existência da finitude do aparecer, e não o inverso
  • Reforça-se essa posição pela necessidade de conservar um sentido unívoco de finitude, devendo a separação correspondente à subjetivação, finitude de segundo grau, situar-se na mesma linha da finitude do ser, sem poder proceder do surgimento de uma existência singular chamada sujeito
    • Coloca-se então o problema da articulação entre os dois sentidos da finitude, qual pode ser o sentido de uma finitude que afeta o ser, significando sua perda, sem contudo confundir-se com a finitude do ser
    • Trata-se de dar conta da chamada finitude antropológica a partir do próprio ser, fazendo do aparecer sensível a consequência não da constituição singular do homem mas de uma peripécia do ser: não é o homem que dá lugar à modalidade sensível do aparecer, mas o que advém ao ser, em seu aparecer, que dá lugar ao homem
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