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Cosmologia

BARBARAS, Renaud. L’appartenance: vers une cosmologie phénoménologique. Paris : Éditions de l’Institut supérieur de philosophie Peeters, 2019.

  • A distinção entre os três sentidos da pertença (site, solo e lugar) conduz à necessidade de fundar sua unidade originária, o que exige uma dupla investigação: primeiramente, uma gênese da fenomenalidade que justifique por que o movimento, entendido como desejo, é necessariamente um fazer aparecer; e, em segundo lugar, a superação da dualidade residual entre site e solo, encontrando sua raiz comum no próprio solo.
    • A primeira questão, que é a da origem do mundo fenomenal, coloca o problema de como o aparecer pode ser aparecer do ser, no duplo sentido genitivo, sem que isso implique qualquer teleologia, ou seja, como o ser, em sua massividade e exterioridade, pode dar origem a um fenômeno que lhe é radicalmente contingente e, no entanto, é o seu próprio fenômeno.
    • A segunda questão, que é a da unidade da pertença, exige a superação da dualidade entre o site e o solo, pois o site, embora distinto, não pode ser exterior ao solo, que é o oni-englobante absoluto; é necessário, portanto, compreender como o solo pode ser a fonte daquilo que, em seu seio, faz secessão, ou seja, como a diferença do site é ainda a sua própria diferença.
  • A investigação sobre a natureza do solo revela que ele não pode ser compreendido como um suporte estático, mas sim como uma potência ontogenética, uma fonte dinâmica da qual todo ente procede, e cuja realidade ultrapassa a mera extensão, sendo a própria condição de possibilidade para que os entes se situem e se espacializem.
    • A determinação do solo como potência implica que a exterioridade do ser (o mundo) tem o sentido de uma anterioridade ontológica e, portanto, de uma produtividade, de modo que “y être” significa “en être” e “en être” significa “en provenir”, sendo o solo uma fonte que não possui o que dá, mas que passa inteiramente em suas produções.
    • Essa potência, que não é nem potencialidade nem potência aristotélica, mas uma sobrepotência ou uma exuberância, é uma potência espacializante e dispersiva, que faz ser os entes ao situá-los, dando-lhes um site, e cuja individuação se confunde, num primeiro momento, com o topos que ocupam.
    • A ontogênese da multiplicidade, como obra da potência, é um processo de diferenciação e de abertura de uma pura exterioridade, um “disparate” originário, onde a fonte, como jorro, não se distingue de suas retomadas, que são sempre um espalhamento, um processo centrífugo.
  • Três momentos ou sentidos do espaço são, assim, distinguidos: a sobrepotência espacializante originária, que é o próprio devir do ser; o espaço originário como puro disparate, a exterioridade como modo de ser dos entes situados; e o lugar, que é o espaço fenomenal desdobrado pelo movimento do ente em direção ao seu solo, uma síntese imanente que é a constituição de um ser em conjunto.
    • A inscrição do site no solo é o avesso da produção dos sites pela fonte originária, e o movimento pelo qual o ente tende ao solo encontra sua condição de possibilidade no fato de que a potência nunca foi separada de suas obras, preservando-se nelas, o que permite ao ente desejar sua origem porque ele sempre já está nela.
    • Esse solo, compreendido como potência produtora originária, é o que deve ser chamado de Natureza (physis), e a fenomenologia da pertença, ao alcançar esse ponto, se supera necessariamente em cosmologia, na qual o mundo é determinado como Natureza, uma exterioridade totalizante que recobre uma precedência ontológica e uma energia do ser.
  • Uma segunda via de acesso a essa determinação dinâmica do mundo como Natureza é a análise do movimento dos entes, que revela que a mobilidade não pode ser produzida pelo ente, mas é algo em que ele se insere, e que essa mobilidade, como tal, é um testemunho ontológico da natureza do solo, que é a própria arqui-mobilidade, a potência ontogenética da qual todo movimento procede.
    • A diferença entre o movimento ôntico dos entes e o movimento ontológico do solo é que, enquanto os primeiros são movimentos de um ente, o segundo não é um movimento do qual o solo seja sujeito, mas a própria mobilidade como potência, a fonte de todo sujeito, que, ao se separar em entes situados, dá lugar aos movimentos pelos quais eles tentam retornar à sua fonte.
    • A dualidade entre site e solo, que fundamentava o movimento espacializante, não é mais irredutível, pois os entes agora aparecem como procedentes de um solo cuja verdade é uma sobrepotência, e o movimento de avanço do ente é o avesso de um movimento em sentido contrário, pelo qual a sobrepotência se pluraliza em entes.
    • A verdade da pertença e o fundamento de sua unidade residem, assim, na participação, que não é uma participação em uma coisa, mas em um ato que está se realizando, e do qual os entes participam ao assumir sua própria existência e, com ela, a existência do Todo.
  • A caracterização da fonte (o solo) como potência ontogenética exige que se pense seu modo de ser, pois, embora ela não seja um ente (não possui o que dá), ela também não é o nada, e sua realidade só pode ser concebida como o próprio advento do ente, como um evento que é a sua própria produção, ou seja, um archi-evento que é o nome do ser em uma cosmologia fenomenológica.
    • A fonte, como condição do ente, escapa à entidade e não pode possuir a menor positividade, sendo seu defeito ôntico o avesso de um excesso metafísico, uma profusão absoluta, e sua realidade é o próprio fazer-ser, o evento de uma saída ou de uma perda que não é perda de nada, mas a incessante deiscência que desenha o ser da fonte.
    • Esse evento, o archi-evento do advento do ente enquanto ente, é a “diferença cosmológica” que deve substituir a diferença ôntico-ontológica, e ele é a in-diferença entre a potência de advento e o ente que ela deposita, onde a fonte perdura no ente e o ente permanece envolvido em sua fonte, de modo que o jorro é a única realidade, e a fonte e o ente são momentos abstratos.
  • A caracterização do arqui-evento como “deflagração” é a que melhor exprime o sentido último do solo: uma explosão primeira que é o ser como explosão, que se realiza como uma dispersão de estilhaços (os entes), e que, como arqui-evento, é eterna, estável em sua instabilidade, de modo que a mobilidade dos entes é a herança e o prolongamento da potência dessa deflagração originária.
    • A deflagração não se abole em seus depósitos, mas perdura nos estilhaços sob a forma de uma mobilidade que é o eco da sobrepotência originária, e que constitui a potência de movimento dos entes; essa mobilidade é tanto maior quanto mais próximo o ente estiver do foco originário, e a imobilidade relativa da pedra, por exemplo, expressa um afastamento da deflagração.
    • A deflagração é o nome do mistério da multiplicidade, do ininteligível e necessário advento do múltiplo a partir do Um, e a diferença entre os entes, enquanto qualitativa e individual, remete à gradação interna da deflagração, que deposita estilhaços a distâncias diferentes de seu centro, sendo a contingência absoluta a fonte dessas diferenças.
  • A potência da deflagração perdura nos entes como sua própria potência de movimento, de modo que a mobilidade não é uma simples atualização, mas a herança e a continuação da arqui-mobilidade, e o movimento do ente, por estar inscrito na origem, é necessariamente um movimento de retorno a ela, uma tentativa de reconciliação ontológica que explora a proximidade primeira.
    • O movimento centrífugo da deflagração se inverte, assim, em um movimento centrípeto dos entes, que, ao prolongar a mobilidade herdada, remontam à sua fonte, e essa remontagem não é posterior à retomada, mas é a própria retomada, de modo que a distensão processionária tem como avesso uma tensão da inteligência em direção à sua origem, como no pensamento plotiniano.
    • Essa compreensão cosmológica esclarece as distinções iniciais da pertença: o site é para o solo como o estilhaço é para a deflagração, e o movimento fenomenalizante, a intencionalidade que desdobra um lugar, é a versão fenomenológica da situação cosmológica de inscrição e retorno do ente à sua origem explosiva, sendo a maneira como se realiza e se manifesta a pertença dinâmica ao evento originário.
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