estudos:barbaras:fenomeno:conclusao
Conclusão
BARBARAS, Renaud. De l’être du phénomène. Grenoble: Jérôme Millon, 1991
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A tarefa que Merleau-Ponty assume, na esteira de Husserl, é conduzir à expressão pura de seu próprio sentido a experiência ainda muda, sendo a meditação husserliana atravessada por uma inegável tensão entre o retorno às coisas mesmas e a fundação do aparecer na constituição transcendental, permanecendo Husserl na ingenuidade por não reconhecer na atitude natural uma decisão ontológica mais fundamental partilhada pelo intuicionismo eidético
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a citação segundo a qual se trata de amenizar à expressão pura de seu próprio sentido a experiência ainda muda
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o reconhecimento tardio, por Husserl, da necessidade de um retorno ao Lebenswelt como solo de todas as produções idealizantes, sem que abandonasse a necessidade de uma segunda redução conduzindo o mundo pré-dado à vida da subjetividade transcendental
A ontologia de Merleau-Ponty não recobre senão a tentativa de restituir o mundo da vida em si mesmo, sem pressuposto, exigindo pensar juntas a possibilidade de significar o mundo e a pertença de toda significação a ele, sendo ontologia do Lebenswelt que retoma o ponto de chegada husserliano como ponto de partida-
a citação segundo a qual é preciso considerar como último e inexplicável, portanto como mundo por si mesmo, o conjunto de nossa experiência do ser sensível e dos homens
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a crítica radical da objetividade desenvolvida por Merleau-Ponty, que não conduz à afirmação de um abismo de não sentido mas impõe uma gênese do universo objetivo
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a ontologia caracterizada como ciência da pré-ciência, expressão do que é antes da expressão e a sustenta por trás, tendo sentido apenas como intra-ontologia
A filosofia só está à altura de sua exigência de radicalidade se toma consciência de seu próprio enraizamento, sendo o Ser falando em nós, fé perceptiva se interrogando sobre si mesma, situando-se no oco do quiasma onde se faz a conversão do silêncio em palavra e da palavra em silêncio-
a citação segundo a qual a filosofia não pode ser tomada total e ativa, possessão intelectual, pois o que há a apreender é uma despossessão, ela não estando acima da vida mas abaixo dela
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a ontologia devendo se instalar dos dois lados ao mesmo tempo, questionando ativamente a possibilidade de distinguir um sujeito e um objeto, falando dessa mistura do mundo e de nós
A dificuldade de uma palavra nomear o que a precede é superada ao se reconhecer que falamos porque o mundo se fala em nós, a palavra filosófica podendo exprimir o que a precede porque a linguagem não é apenas conservatório de significações fixadas mas poder de antecipação-
a citação segundo a qual entre o Lebenswelt como Ser universal e a filosofia como produto extremo do mundo não há rivalidade nem antinomia, pois é ela que o desvela
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a filosofia caracterizada como criação que é ao mesmo tempo reintegração do Ser, criação em sentido radical que é adequação
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o reconhecimento de que tal perspectiva exige uma mutação do discurso filosófico, questionando se a filosofia como reconquista do Ser bruto pode se realizar pelos meios da linguagem eloquente
Não se deve concluir apressadamente que Merleau-Ponty se aproxima de Heidegger em O visível e o invisível, pois embora seu pensamento o conduza aos arredores de Heidegger, ele nunca se reivindica dele, reconhecendo antes um eco de seu próprio pensamento, sua ontologia sendo antes a realização do projeto husserliano de um retorno ao Lebenswelt-
a citação segundo a qual não se pode fazer ontologia direta, o método indireto pelo ser nos entes sendo o único conforme ao ser, filosofia negativa como teologia negativa
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a ontologia de Merleau-Ponty sendo uma ontologia do visível, reivindicando-se de Husserl por sua filosofia resultar numa reabilitação ontológica do sensível
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a censura a Heidegger pelo caráter radical e por isso abstrato de sua interrogação sobre o Ser, cujo silêncio crescente se deve a ter sempre buscado uma expressão direta do fundamental
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o Ser sendo, em Merleau-Ponty, sinônimo da invisibilidade, não remetendo a um invisível absoluto mas confundindo-se com a própria visibilidade
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a citação de A. De Waelhens segundo a qual a história do Ser é intrínseca ao encontro do homem e das coisas, a distinção entre Ser e ente não sendo renegada mas limitada
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a diferença entre o hegelianismo de Merleau-Ponty, para quem a tensão da consciência para seu outro se abole no Espírito, e a diferença radical que atravessa o Ser merleau-pontiano sem chegar à oposição
A ontologia de Merleau-Ponty não atesta aproximação com Heidegger, situando-se antes além da interrogação heideggeriana como denúncia em ato do que a interrogação do Ser enquanto Ser comporta de abstrato-
a citação de M. Richir sobre a insistência heideggeriana em empurrar a interrogação num único sentido como forma de abstração herdada da filosofia clássica
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o objeto da ontologia não sendo o Ser em si idêntico a si na noite, mas o Ser que contém também sua negação, seu percipi
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a comparação entre o gesto de Merleau-Ponty em relação a Heidegger e o parricídio de Platão em relação a Parmênides, reintegrando ao Ser heideggeriano a possibilidade de uma fenomenalização sem resolvê-lo na idealidade
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