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Virada
BARBARAS, Renaud. Le tournant de l’expérience: recherches sur la philosophie de Merleau-Ponty. Paris: Vrin, 1998.
A virada da experiência: Merleau-Ponty e Bergson
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O empreendimento bergsoniano de buscar a experiência em sua fonte não podia deixar de se impor a Merleau-Ponty, cujo projeto se apresenta desde o início como esforço de retorno a esse mundo antes do conhecimento
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a citação de Geraets segundo a qual essa orientação bergsoniana teria determinado em grande parte a leitura muito seletiva que Merleau-Ponty fez de Husserl
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o comentário de Merleau-Ponty sobre A imaginação de Sartre, vendo em Bergson um pressentimento do noema husserliano
Nas duas primeiras obras, as alusões a Bergson dão a imagem de um pensamento dificilmente situável, tornando-se o rapprochement mais presente e a discussão mais aprofundada à medida que Merleau-Ponty elabora seu projeto ontológicoAo tempo da Fenomenologia da percepção, a atitude de Merleau-Ponty é essencialmente crítica, rejeitando a filosofia de Bergson para o lado de uma psicologia introspeccionista incapaz de se libertar do realismo próprio da atitude natural-
a crítica de Bergson influenciada por G. Politzer, cujo projeto de dissolução da psicologia denunciava a esterilidade científica das correntes clássicas por adotarem sem questionamento a atitude realista
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a crítica bergsoniana do espaço permitindo, ao contrário de Politzer, reencontrar o sentido originário da interioridade, permanecendo Bergson, segundo Politzer, prisioneiro de um realismo psicológico mais refinado
Merleau-Ponty retoma essa crítica do bergsonismo por considerar que o realismo denunciado por Politzer é apenas a forma particular que assume, no campo da psicologia, o que Husserl chama atitude natural-
a citação segundo a qual Bergson subentendia o mundo objetivo como quadro lógico de suas descrições, o que ainda ocorre quando ele opõe a multiplicidade de fusão à multiplicidade de justaposição
Bergson tenta respeitar os traços fenomenológicos do tempo sob o conceito de duração sem conseguir alcançá-los, pois, prisioneiro da atitude realista, procede por dissolução, tornando a fusão temporal um mero misto imóvel-
a citação segundo a qual, se em virtude do princípio de continuidade o passado ainda é presente, não há mais passado nem presente, sendo a consciência inteira no presente como uma bola de neve
O curso de 1948-49 sobre Matéria e memória testemunha a mesma atitude, visando Bergson restaurar o corpo em seu debate com o mundo, mas postulando a identidade do esse e do percipi sem apoiá-la numa consciência constituinte-
a citação segundo a qual Bergson não vê nem coloca o problema do cogito, colocando antes o ser total e nele recortando minha perspectiva
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a citação central da crítica merleau-pontiana sobre a cegueira de Bergson para o ser próprio da consciência e sua estrutura intencional
Esse realismo é apenas a contrapartida de seu espiritualismo, não conseguindo o corpo ser sujeito, e sendo a memória, negação do universo real das imagens, compreendida por sua vez como positividade-
a citação sobre o sujeito radicalmente diferente da objetividade e ao mesmo tempo radicalmente homogêneo a ela, simples diferença de substância
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a impossibilidade de pensar a articulação entre ação atual e memória, encerrado o sujeito num presente sem horizonte temporal ou num passado fantasmático
A fecundidade fenomenológica do conceito de imagem é comprometida pela posição realista de uma Totalidade em si, à qual responde a cisão entre uma motricidade objetiva e um sujeito contemplativo-
a citação sobre o homem concebido, por preconceito herdado de Spencer, como poder animal de ação ao qual se superporia patheticamente uma faculdade dos longínquos
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Merleau-Ponty reconhecendo, porém, a força e a originalidade da tentativa bergsoniana de pensar a percepção a partir do sujeito motor, no sentido de um reconhecimento do a priori da correlação
A divergência se cristaliza na questão do tempo, capital para ambos os pensadores, sendo Bergson criticado essencialmente em nome de uma filosofia da consciência, o que não impede uma releitura futura reavaliando seu positivismoO projeto de Merleau-Ponty é retornar ao mundo percebido em sua pureza nativa, exigindo isso uma reflexão metodológica prévia chamada redução, gesto essencialmente negativo de afastar o que obstrui esse retorno-
Husserl apresentando a redução como retorno a uma consciência transcendental diante da qual o mundo se desdobra em transparência absoluta, geste que herda a tradição idealista
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a determinação do mundo da atitude natural como universo de blosse Sachen e o retorno a uma consciência transcendental não mundana constituinte sendo as duas faces de um mesmo gesto
A démarche merleau-pontiana consiste em cavar além dessa correlação rumo ao mundo perceptivo propriamente dito, apoiando-se em resultados da psicologia da forma e da fisiologia goldsteiniana-
o sujeito do comportamento não podendo ser confundido com o sujeito transparente dos atos objetivantes, substituindo Merleau-Ponty a esse face a face a cumplicidade de um sujeito encarnado e um mundo percebido
Merleau-Ponty é pouco a pouco levado a questionar esses resultados, iniciando-se no começo dos anos 1950 um movimento que desemboca na perspectiva ontológica de O visível e o invisível, rompendo com a Fenomenologia da percepção-
a citação segundo a qual os problemas colocados na Fenomenologia da percepção são insolúveis porque ali se parte da distinção consciência-objeto
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o intelectualismo sendo agora julgado a verdade de toda consciência, que tem sempre por correlato um mundo de blosse Sachen, sendo o conceito de consciência encarnada instável e autocrítico
O passo dado consiste em evidenciar uma correlação essencial entre as filosofias da consciência e uma ontologia sempre implícita, que Merleau-Ponty qualifica de ontologia do objeto-
a oposição pertinente não sendo mais entre consciência reflexiva e consciência encarnada, mas entre uma ontologia do objeto e uma ontologia de gênero novo que a leitura de Bergson permite explicitar
Essa decisão está explicitada no capítulo Interrogação e intuição, mostrando Merleau-Ponty que a fenomenologia, ao converter os entes em seu sentido, comete o erro de pensar o ser do sentido como essência, plenitude de determinação acessível à intuição intelectual-
a citação de Granel segundo a qual estabelecer que o sentido fenomenológico do Ser é a Presentação só pode ser compreendido se a Consciência for reconhecida como o Ser
É nesse ponto preciso que o caminho de Merleau-Ponty cruza o de Bergson, pois a verdade da essência reside numa decisão metafísica que Bergson explicita em A evolução criadora, a saber, a noção de nada-
a citação sobre o desdém da metafísica por toda realidade que dura vir precisamente de que ela só chega ao ser passando pelo nada
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a citação segundo a qual, se passamos pela ideia do nada para chegar à do Ser, o Ser a que se chega é essência lógica ou matemática, portanto intemporal
O reprove essencial que Merleau-Ponty dirige à eidética husserliana é que, para possuir plenamente o eidos, seria preciso situar-se do ponto de vista do nada, o que contradiz o enraizamento essencial de todo pensamento-
a citação sobre reduzir verdadeiramente uma experiência à sua essência exigindo recuar ao fundo do nada
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o texto publicado em anexo confirmando que a passagem pelo nada é a raiz do objetivismo, denunciando a confrontação da coisa com a possibilidade do nada
A releitura de Bergson caminha junto com uma inflexão do sentido da redução fenomenológica, permitindo a reavaliação do bergsonismo captar a raiz da atitude natural-
a citação segundo a qual é preciso habituar-se a pensar o Ser diretamente, sem se dirigir primeiro ao fantasma de nada que se interpõe entre ele e nós
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a redução não sendo mais neutralização da tese de existência, mas neutralização do próprio nada como preliminar dessa tese
De um lado, a crítica de Merleau-Ponty a Bergson denuncia seu positivismo em nome de uma filosofia transcendental; de outro, a caracterização bergsoniana da metafísica permite evidenciar o fundamento último da eidética fenomenológica-
a citação segundo a qual Bergson tem razão em sua crítica ao nada, errando apenas ao não ver que o ser que obtura o nada não é o ente
Essa inconsequência de Bergson decorre da orientação de A evolução criadora, atento sobretudo à imutabilidade da essência lógica, sem tematizar que essa imutabilidade procede da plenitude de determinação-
a citação de Lebrun segundo a qual o bergsonismo é menos crítica da metafísica que deslocamento de sua tópica, tendo o Ser apenas mudado de conteúdo
A abordagem merleau-pontiana do Ser no período de O visível e o invisível procede inteiramente desse cuidado de ir ao Ser sem nada interposto-
a citação sobre a filosofia do algo, algo e não nada, linha divisória entre a ontologia objetivista e a fenomenológica
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a nota inédita segundo a qual esse não-nada só dá o Ser eminente se se pensa a partir do nada, sendo preciso pensar a partir do não-nada, o Ser não-oculto
Dizer que o Ser não sai do nada é compreender que permanece à distância, transcendente, não por um afastamento superável mas porque a transcendência constitui seu próprio ser-
a citação sobre a aparência sensível do sensível sendo o único meio de o Ser se manifestar sem se tornar positividade
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a citação sobre o verdadeiro nada sendo o Ser como distante e como não-oculto, isto é, também oculto
O ser fenomenal se caracteriza por uma mistura originária do Ser e do nada, sinônimo de sua distância constitutiva, não podendo uma apreensão imediata sem nada interposto atingi-lo senão à distância-
a conclusão do capítulo segundo a qual o imediato está no horizonte e só permanecendo à distância permanece ele mesmo
Embora Bergson utilize o vocabulário da coincidência e da fusão, seria incorreto concluir que ele ignora essa distância interior ao Ser, exprimindo antes essa reivindicação sua ruptura com as doutrinas recebidas-
a citação segundo a qual o verdadeiro sentido da filosofia bergsoniana é menos eliminar a ideia de nada do que incorporá-la à ideia de Ser
Isso explica a reavaliação a que a teoria das imagens é submetida nos textos dos anos 1950, representando ela, aos olhos de Merleau-Ponty, a indicação do sentido verdadeiro do ser percebido-
a citação sobre as coisas visíveis repousando em si mesmas, seu ser natural parecendo envolver seu ser percebido
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a citação sobre não haver coincidência real quanto ao ser do passado, mesmo na lembrança pura, havendo passado mas não coincidência com ele
Bergson reconhece que a percepção pura é apenas de direito, correspondendo a um instante impensável nunca realizado, havendo portanto apenas coincidência parcial-
a citação sobre as dificuldades da coincidência não serem apenas de fato, devendo a verdade não ser definida pela coincidência total
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a citação sobre o que é uma coincidência apenas parcial, sendo antes recobrimento de um oco e um relevo que permanecem distintos do que fusão real
A Natureza em Bergson não é apenas a coisa percebida fascinante da percepção atual, mas um horizonte do qual já estamos distantes, uma indivisão primordial e perdida-
a citação sobre o Absoluto se revelando muito próximo de nós, de essência psicológica, durando como nós mas mais concentrado
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a duração sendo compreendida como ser nascente, unidade do Mesmo e do Outro, elemento onde se realiza a identidade do Absoluto e do finito
A verdade mais profunda do bergsonismo residiria na tentativa de pensar essa virada como o próprio sentido da experiência humana, virada sempre já iniciada e nunca acabada-
a citação final sobre a luz nada iluminando se nada lhe fizesse anteparo, sendo o pré-humano o fundo de transcendência de que se alimentam a experiência e a ação
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