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Sentir

BARBARAS, Renaud. Le tournant de l’expérience: recherches sur la philosophie de Merleau-Ponty. Paris: Vrin, 1998.

O poder do visível

O sentir em Merleau-Ponty e Aristóteles

  • A primeira frase de O visível e o invisível enuncia o paradoxo do sentir, pois a percepção abre ao mundo mesmo sem que este seja um em si estranho às sensações, sendo o sentir experiência de uma indistinção do subjetivo e do objetivo que precede sua diferença, embora só possa ser pensada a partir dessa dualidade que nega
    • a sensação anunciando, ao menos como horizonte, um mundo que escapa à atualidade do sentir e um senciente que não se reduz à prova atual que dele faz
    • a tensão remetendo em última análise ao afastamento entre vivido e dito, exprimindo a continuidade entre viver e pensar
  • Uma filosofia autêntica do sentir deve pensar juntas a indivisão do senciente e do sentido e sua diferença, problema que Aristóteles enfrenta magistralmente no De Anima recorrendo à teoria do ato e da potência
    • a citação segundo a qual o ato do sensível e o do sentido são um único e mesmo ato, embora sua quididade não seja a mesma
    • o silêncio surpreendente de Merleau-Ponty a respeito de Aristóteles, apesar da grande proximidade de posição do problema, sendo tese deste estudo que essa filosofia se aproxima muito da aristotélica
  • Aristóteles parte da opinião de que a sensação é alteração, resultando de um movimento sofrido, sendo necessário distinguir a sensação em potência, faculdade de sentir, e a sensação em ato
    • a distinção entre alteração destrutiva, transformação sob a ação do contrário, e alteração conservadora, onde a transformação vale como progresso ou realização
    • a citação segundo a qual, para o ser sensitivo, a primeira mudança se produz sob a ação do gerador, possuindo então a sensação à maneira de uma ciência
    • a conclusão de que a faculdade sensitiva é, em potência, tal como o sensível já é em enteléquia, padecendo enquanto não é semelhante mas tornando-se semelhante ao sensível quando padeceu
  • Aristóteles define a sensação como o ato comum, isto é, idêntico, do senciente e do sensível, ilustrado pelo exemplo da audição e da ressonância que se produzem simultaneamente
    • a comparação com a cera que recebe a marca do anel sem o ferro nem o ouro, recebendo o sentido não a matéria mas a forma sensível da coisa
    • a citação de Malherbe segundo a qual entre o sentido e o sensível nenhuma mediação se interpõe, sendo a ação do sensível sobre o sentido o ato pelo qual o sentido passa da potência ao ato
  • A abordagem aristotélica permite superar oposições que estruturarão a concepção clássica da experiência, sendo a sensação passiva por depender do sensível e ativa por ser o sensível o termo de seu movimento de atualização
    • a teoria do ato e da potência permitindo conciliar a unidade do sentir como evento com a dualidade que ele implica como experiência
  • É difícil não notar a proximidade do projeto merleau-pontiano com a teoria aristotélica da sensação, afirmando Malherbe que a dívida de Merleau-Ponty para com Aristóteles é evidente
    • a citação de Rodrigo segundo a qual a passagem das potências à realização conjunta releva do que Merleau-Ponty analisa em termos de entrecruzamento
    • a citação segundo a qual ver é ver algo, ver vermelho é ver vermelho existente em ato, não havendo alternativa entre presença a si e presença de um mundo
    • a crítica ao intelectualismo e ao empirismo, que refazem essa unidade originária a partir de momentos supostamente respeitosos da experiência mas tornam impensável ou o sentir ativo ou o momento próprio da sensação
  • A solução de Merleau-Ponty consiste em apoiar-se na especificidade do corpo próprio, subjetividade desabada na exterioridade que escapa à alternativa simples do subjetivo e do objetivo
    • a citação segundo a qual, sob todas as acepções da palavra sentido, reencontramos a mesma noção fundamental de um ser orientado para o que não é, sendo o mundo inseparável do sujeito
    • a citação sobre o sujeito da sensação, que não é nem pensador nem meio inerte, mas uma potência que co-nasce a um certo meio de existência
    • a citação sobre o sensível que vai ser sentido colocando ao corpo um problema confuso, sendo necessário encontrar a atitude que lhe dará meio de se determinar
    • a citação sobre contemplar o azul do céu, não sendo um sujeito acósmico face a ele mas abandonando-se nele, sendo o próprio céu que se pensa
  • A descrição da sensação na Fenomenologia da percepção restitui uma cumplicidade originária da consciência e do mundo idêntica à que Aristóteles tematiza, retomando Merleau-Ponty, segundo Malherbe, em modo menor o que o grego pensara em modo maior
    • a crítica de Malherbe segundo a qual apenas Aristóteles fora suficientemente fino para pôr a diferença do sentido e do sensível sem atentar contra a identidade simples de seu ato, faltando a Merleau-Ponty essa conceitualidade
  • Esse diagnóstico deve ser matizado, havendo de fato um descompasso na Fenomenologia da percepção entre descrições que restituem a unidade do sentir e tentativas de tematização tributárias das filosofias racionalistas do sensível
    • Merleau-Ponty continuando implicitamente a pensar em termos de consciência e objeto, o que o conduz a reconstruir o aparecer sensível a partir de uma relação entre termos já constituídos
    • a questão que permanece em suspenso ao término da Fenomenologia da percepção sendo como conciliar o viver e o dizer, como pensar juntas a unidade do sentir como evento e a dualidade que ele implica como experiência dizível
  • As pesquisas que seguem a Fenomenologia da percepção visam mostrar que a vida perceptiva caracteriza toda vida possível, exigindo um duplo aprofundamento de onde procede o projeto de uma ontologia
    • Merleau-Ponty descobrindo que as categorias de consciência e objeto que utilizava espontaneamente já são idealizações remetendo a um solo mais primitivo
    • no Visível e o invisível, o sensível sendo concebido em e por si mesmo, dotado de sentido de ser originário, do qual deriva a dualidade da consciência e do objeto
    • não havendo visão possível senão se o Ser se presta a essa visão sob a forma de uma visibilidade em si, sendo essa visibilidade intrínseca que porta a possibilidade da subjetividade
    • a citação segundo a qual a carne do mundo é Ser-visto, eminentemente percipi, sendo por ela que se pode compreender o percipere
  • O objetivo de Merleau-Ponty é pensar juntos os traços aparentemente contraditórios do sentir, caracterizado pela unidade de uma prova subjetiva e de uma transcendência efetiva, sendo a experiência abertura a uma transcendência que não remete a uma positividade
    • a citação segundo a qual ver é sempre ver mais do que se vê, sendo a visão o que existe como abertura ao que a engloba
    • a citação segundo a qual o sentido é ao mesmo tempo cúmulo de subjetividade e cúmulo de materialidade
  • Merleau-Ponty define o visível como o que comporta uma dimensão de invisibilidade absoluta, não distinta do visível, sendo a própria visibilidade que comporta uma não visibilidade
    • a citação segundo a qual o invisível está ali sem ser objeto, transcendência pura sem máscara ôntica
    • a possibilidade de afirmar que não há identidade nem não identidade, havendo dentro e fora girando um em torno do outro, definindo-se a transcendência pura como identidade na diferença
  • É legítimo tentar apreender positivamente o sentido de ser desse Ser sensível, devendo ser reintroduzida no cerne do Ser sensível a dimensão da potência que Aristóteles colocava no princípio de sua filosofia do sensível
    • existir em potência sendo existir como negação e já anúncio do que se será, permanecendo em retraimento sobre si mesmo
    • a citação da nota inédita de 17 de setembro de 1958 sobre a reabilitação de um novo possível, ingrediente como tal do ser, contra o atualismo e o possibilismo
  • Essa potência excede o quadro aristotélico dominado pela ontologia da substância, não sendo adossada a um substrato permanente mas sendo ao mesmo tempo solo e modo de emergência do individual
    • a citação de Patočka sobre a radicalização do conceito aristotélico de movimento que já não é definido por um suporte comum
    • a potência passiva se confundindo com a potência ativa, que se confunde ela mesma com sua obra, não havendo prenhez senão como parturição
    • a citação sobre a explosão estabilizada ou o único estalar de ser que é para sempre, mantendo em si a obscuridade de que procede
    • a citação de F. Rouger sobre a atualização indefinida cuja infinidade paradoxal exclui toda passagem à atualidade plena
  • A filosofia de Merleau-Ponty não é retomada poética mas radicalização especulativa da abordagem aristotélica, libertando os conceitos de ato e potência da metafísica da substância e reconduzindo-os a seu solo fenomenal
    • Merleau-Ponty situando-se no próprio cerne do processo de atualização, onde a potência está sempre já em vias de realização e sempre ainda reconduzida naquilo que a atualiza
    • situando-se assim além da alternativa, ainda presente em Aristóteles, entre a diferença do aparecer e do aparecente e sua identidade
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