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Objetivismo

BARBARAS, Renaud. Le tournant de l’expérience: recherches sur la philosophie de Merleau-Ponty. Paris: Vrin, 1998.

Merleau-Ponty e a raiz do objetivismo husserliano

  • O propósito não é avaliar a leitura merleau-pontiana de Husserl a partir de uma suposta verdade objetiva da fenomenologia husserliana, o que recairia numa concepção estreita da história da filosofia, mas reconhecer nessa leitura um modo privilegiado de conquista do próprio pensamento de Merleau-Ponty
    • a citação segundo a qual deve haver um meio-termo entre uma história da filosofia objetiva, que mutilaria os grandes filósofos daquilo que deram a pensar aos outros, e uma meditação disfarçada de diálogo
    • a impossibilidade de que Merleau-Ponty tenha encontrado em Husserl apenas o que ali colocou, havendo sempre sinais que convidam e justificam retrospectivamente a projeção
  • A leitura merleau-pontiana de Husserl caracteriza-se por uma alternância entre rejeição e reivindicação, sendo Husserl criticado por seu objetivismo mas também reconhecido como o primeiro a ter dado o passo que permite colocar essa tradição à distância
    • esse passo, tematizado na Krisis, sendo a questão-em-retorno sobre o mundo da vida dado de antemão, solo recoberto pela matematização galileana da natureza
    • a questão de como essas duas atitudes podem coexistir em Merleau-Ponty, respondida pelo fato de que o retorno ao Lebenswelt permanece, em Husserl, gravado por uma insuficiência fundamental
  • A acusação de inconsequência dirigida a essa nova redução da Krisis percorre toda a obra de Merleau-Ponty, já desde a Fenomenologia da percepção
    • a citação segundo a qual, se a constituição torna o mundo transparente, não se vê por que a reflexão precisaria passar pelo mundo vivido, mas se ela retém algo é porque nunca despoja o mundo de sua opacidade
    • a citação de O filósofo e sua sombra segundo a qual a descida ao domínio de nossa arqueologia não pode deixar intactos nossos instrumentos de análise, nossa concepção de noese, de noema, de intencionalidade, nossa ontologia
  • Aos olhos de Husserl, a racionalidade moderna nasce de uma mutação nas matemáticas que se resume na conquista do infinito, sendo o objeto matemático produto de uma idealização por passagem ao limite num processo infinito
    • o gesto galileano consistindo em estender essa idealização à totalidade da Natureza, sendo Galileu ao mesmo tempo descobridor e recobridor, substituindo-se de imediato o mundo matemático das idealidades ao mundo da experiência
    • a citação de Galileu segundo a qual, onde quer que tal método tenha sido elaborado, também se venceu graças a ele a relatividade das apreensões subjetivas
  • A determinação husserliana do Lebenswelt é decepcionante, pois Husserl afirma uma continuidade eidética absoluta entre o mundo da vida e o da atividade científica, apenas distinguindo formas exatas e inexatas dentro da mesma estrutura eidética
    • a citação segundo a qual o mundo como mundo da vida já tem pré-cientificamente as mesmas estruturas que as ciências objetivas pressupõem como estruturas apriorísticas
    • o comentário de Granel segundo o qual os textos husserlianos fazem apenas um leve arranhão no solo de primitividade
    • a citação segundo a qual o mundo é o todo das coisas repartidas na forma mundana do espaço-tempo, o todo dos onta espaço-temporais
    • a crítica husserliana do objetivismo atingindo apenas a forma físico-matemática desse objetivismo, sem ver que ela é apenas uma manifestação entre outras de um pressuposto mais profundo, o do objeto determinado mesmo inexato
  • Um verdadeiro retorno ao mundo da vida supõe que a própria objetidade seja neutralizada, valendo para a coisa ou a unidade de sentido a mesma caracterização do processo de idealização proposta por Husserl para a idealidade matemática
    • a citação inédita segundo a qual o ser não deve ser evidenciado apenas por seu desvio em relação ao ser da Ciência, mas por oposição ao ser como Objeto, opondo-se a ambos a Offenheit de Umwelt
    • a noção de forma-limite sustentada por certa ideia de infinito como o que pode se desdobrar sob forma de processo, falando Merleau-Ponty com razão de objetivação do infinito
    • a citação segundo a qual houve passagem ao infinito como infinito objetivo, o que era tematização e esquecimento da Offenheit, do Lebenswelt, sendo preciso retomar impulso aquém
    • a idealização do infinito de Offenheit sob a forma de série percorrível sendo a matriz que comanda todas as outras idealizações
  • No capítulo Interrogação e intuição, Merleau-Ponty centra sua análise na questão das essências, mostrando que o caráter eidético da ontologia husserliana comanda e compromete toda a démarche
    • a contradição entre a determinação da essência como entidade positiva suscetível de intuição e a necessidade de proceder a uma variação para alcançá-la
    • a citação inédita de junho de 1959 sobre o eidos, invariante não como unidade fora das variações mas como unidade captada lateralmente em seu horizonte
    • a citação segundo a qual o invariante, por só ser captado pela variação, está para as variantes assim como o móvel está para o movimento
  • É porque Husserl não percebe a raiz e portanto a unidade do objetivismo que o mundo da vida permanece um mundo de objetos, resultado de uma idealização, permanecendo assim possível a segunda etapa da constituição do Lebenswelt na subjetividade absoluta
  • A redução no sentido merleau-pontiano consistirá, ao contrário, num retorno ao mundo da vida, chamado Ser selvagem ou vertical, isento de toda idealização e excluindo por conseguinte toda possibilidade de constituição
    • a filosofia definida como redução a operar sobre todas as idealizações e a ontologia como elaboração das noções que devem substituir a de subjetividade transcendental
    • a necessidade de compreender primeiro o que funda o pensamento objetivo, captar o gesto fundamental de que procedem as categorias comuns ao Lebenswelt husserliano e à ciência
  • Herdando de Bergson, Merleau-Ponty situa na atitude fundamental do recurso ao princípio de razão suficiente a raiz do pensamento objetivo, resumindo Bergson em A evolução criadora as duas ilusões fundamentais do pensamento na ideia de nada
    • a citação bergsoniana segundo a qual digo a mim mesmo que poderia, deveria mesmo não haver nada, e então me admiro de que haja algo
    • o desdém da metafísica pela duração decorrendo de que uma existência que dura não é forte o bastante para vencer o nada, daí a determinação essencialista do Ser
  • Uma leitura atenta de O visível e o invisível mostra que é sob esse ângulo que são criticados os diversos pensamentos ali abordados, residindo a raiz última e a unidade do objetivismo na precessão implícita do nada sobre o Ser
    • a citação sobre reduzir verdadeiramente uma experiência à sua essência exigindo recuar ao fundo do nada
    • a citação sobre a coisa natural, longe de ser a coisa de nossa experiência, sendo apenas a imagem obtida ao confrontá-la com a possibilidade do nada
    • a nota inédita de fevereiro de 1959 reconhecendo que Bergson tem razão na crítica ao nada, errando apenas por não ver que o ser que obtura o nada não é o ente
    • o positivismo da essência que caracteriza o pensamento husserliano sendo a contrapartida de um negativismo radical inerente ao pensamento metafísico, ao qual Husserl também pertenceria
    • essa atitude sendo inerente ao pensamento metafísico por ser um traço da ação, que vai sempre da ausência à presença, do vazio ao pleno
  • Podemos agora retomar os momentos constitutivos do objetivismo ou positivismo husserliano: sendo o ser definido como essência, isto é, como possível, a aparição só pode ter o sentido de uma atualização, de uma existência pura
    • a citação inédita de setembro de 1958, labirinto da ontologia, segundo a qual essa subordinação do possível lógico não é de modo algum um atualismo, sendo antes reabilitação do possível
    • a bifurcação entre atual e possível, consequência do primado do nada, impedindo pensar tanto a existência quanto a essência em seu sentido próprio
  • A atualidade pela qual o aparecer é definido é a negação do que nesse aparecer aparece, devendo a essência, intemporal por definição, estar presente em outro lugar, o que define a função exata da consciência
    • a citação segundo a qual a fenomenologia é uma ontologia que sujeita tudo o que não é nada a se apresentar à consciência
    • o comentário de Granel segundo o qual essa atitude dissolve o parecer e o sempre-já de sua articulação ontológica material pela suposição de uma noite da indeterminação
  • A posição prévia do nada está na origem de um positivismo ontológico que se apresenta sob três formas articuladas por um jogo de compensações alternadas: positivismo da essência, positivismo da localização, positivismo da subjetividade
    • a absoluidade do nada inicial tendo por contrapartida a plenitude de determinação da essência, negada na existência atual, por sua vez negada na positividade da consciência
  • O infinito, raiz de toda idealização, vem deter esse jogo de compensações abstratas articulando o que fora inicialmente separado, sendo a objetivação última que permite pensar unitariamente os momentos abstratos nascidos da posição inicial do nada
    • a citação segundo a qual o verdadeiro infinito não pode ser esse, devendo ser o que nos ultrapassa, infinito de Offenheit e não Unendlichkeit, infinito negativo
    • a nota inédita sobre estar à distância do percebido, o que não é um transcendente pois por princípio não pode ser posto fora de sua distância
  • A redução merleau-pontiana radicaliza o gesto husserliano ao evidenciar o solo dessas idealizações que são a essência, a existência, o sujeito ou o infinito, excluindo toda negatividade e não podendo consistir numa atitude de instalação acima da pré-doação de validade do mundo
    • a citação inédita de junho de 1959 sobre admitir uma espécie de redução, não redução ao sentido mas redução à Weltthesis prepessoal e metapessoal, ao há, ao não há nada
    • ao abandonar o conceito de essência, abandona-se também a determinação da existência como simples atualidade, reconhecendo o mundo como universalidade que envolve todo possível
    • a citação sobre a variação eidética não fazendo passar a uma ordem de essências separadas, mas dando um invariante estrutural cuja Erfüllung só se encontra na Weltthesis deste mundo
  • É essa existência no modo singular do parentesco ou da generalidade concretas que o conceito de carne nomeia, podendo a ontologia do último Merleau-Ponty ser descrita como ontologia da carne, ainda que ela permaneça, em sua elaboração, tributária de uma meditação incessante sobre Husserl
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