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Carne

BARBARAS, Renaud. Le tournant de l’expérience: recherches sur la philosophie de Merleau-Ponty. Paris: Vrin, 1998.

  • A pergunta sobre o que é essencial na percepção conduz ao debate heideggeriano entre aisthesis e Leibhaftigkeit, sendo o empreendimento de Merleau-Ponty responder a essa questão evitando o inferno da distinção entre sensação e pensamento, o conceito de carne estando no centro dessa análise
    • a citação segundo a qual, com os gregos, o inferno já começou precisamente com a distinção entre aisthesis e noesis
    • a dificuldade de abordar o conceito ontológico de carne a partir do estudo do corpo próprio, fadado a desaparecer em proveito da Carne como ser de indivisão
    • a citação inédita segundo a qual nossa corporeidade não deve ser posta no centro como na Fenomenologia da percepção, sendo apenas a charneira do mundo
  • É em Husserl que se encontra pela primeira vez uma determinação do percebido como carne, procedendo a noção merleau-pontiana de carne de uma consideração rigorosa e radical do conceito husserliano de doação em carne
    • o princípio dos princípios enunciado no §24 das Ideen I, segundo o qual toda intuição doadora originária é fonte de direito para o conhecimento
    • a distinção entre atos doadores de sentido, ou significativos, e atos preenchedores de sentido, ou intuitivos, sendo a percepção definida sem referência à sensação
    • a extensão do conceito de percepção além do campo do sensível propriamente dito através da noção de preenchimento, valendo para a intuição categorial e a intuição eidética
    • a doação do passado na retenção, o souvenir primário, sendo também chamada percepção, podendo assim haver percepção do que é essencialmente ausente
  • É nessa perspectiva que Merleau-Ponty aborda a percepção em O visível e o invisível, sendo a fé perceptiva sinônima de doação em carne
    • a citação segundo a qual a fé perceptiva envolve tudo o que se oferece ao homem natural em original numa experiência-fonte, com o vigor do que é inaugural e presente em pessoa
    • Merleau-Ponty retomando radicalizando a perspectiva husserliana, sendo a doação em carne relação inaugural ao objeto mesmo quando este não está diretamente presente
  • Toda a dificuldade está em caracterizar positivamente essa doação em carne, permanecendo Husserl tributário do contexto ontológico do problema do conhecimento, sendo a carne a presença mesma do objeto como negação de uma ausência
    • o comentário de Patočka segundo o qual Husserl amalgama a relação entre vazio e preenchimento com a de doação deficiente e intuição, sendo esse um deslizamento injustificado
    • a citação de Patočka segundo a qual a intuição designa o modo de doação de um objeto, ao passo que o preenchimento pode ocorrer sem nenhum objeto destacável
    • o subjetivismo de Husserl decorrendo daí, referindo os modos deficientes de doação a atos puramente subjetivos
  • O passo dado por Merleau-Ponty consiste em compreender a doação em carne como iniciação a um sentido de ser em vez de subordiná-la a uma determinação implícita do ser como Objeto, sendo a presença carnal o fundo a partir do qual algo como um objeto pode ser dotado de sentido
    • não sendo porque podemos percorrer o curso dos escorços verificando uma concordância que temos certeza de que há algo ali, mas ao contrário
  • É necessário determinar positivamente essa doação carnal, permanecendo aqui preciosa a perspectiva husserliana, distinguindo Husserl dois sentidos da percepção
    • a percepção sensível estrita, onde o preenchimento da visada se efetua por excelência, e a percepção em sentido ampliado das categorias e essências, dadas elas mesmas
    • o termo arquétipo sendo capital, dizendo que a doação sensível é arquétipo da doação carnal sem ser nem sua única modalidade nem uma modalidade qualquer entre outras
    • o campo da doação carnal sendo mais vasto que o sensível, havendo intuição do inteligível como tal, mas a experiência sensível sendo o sentido eminente ou arquetípico da carne
  • A carne designa portanto o sentido de ser do Ser enquanto unidade arquetípica do sensível e da doação em carne, do perceptivo e do intuitivo, sendo esse excesso a si do sensível que, atestando-se no sensível, tem a virtude de liberar o que transcende a dimensão sensível
    • a citação segundo a qual não está excluído que encontremos na fé perceptiva um movimento em direção ao que não poderia nos ser presente em original, cuja ausência irremediável conta também entre nossas experiências originárias
    • o sensível designando a forma universal do Ser bruto, não sendo apenas as coisas mas tudo o que nelas se desenha, mesmo em oco, mesmo como afastamento ou certa ausência
  • Essa leitura de Husserl fornece os eixos de uma caracterização da carne: o originário é o mundo sensível, mas há doação em carne do inteligível, sendo necessário pensar o sensível de tal modo que sua originariedade se estenda ao que não é ele
    • o sensível escapando ao princípio de identidade, contendo sua própria negação, sendo ele mesmo apenas por ser mais vasto que si mesmo, pré-individual ou supra-individual
    • a citação segundo a qual ver é sempre ver mais do que se vê, sendo a visão do visível ao mesmo tempo visão de um invisível
    • a citação segundo a qual o sentido é invisível, mas o invisível não é o contraditório do visível, tendo o visível uma armação de invisível
  • Retornando ao §8 de Erfahrung und Urteil, Husserl mostra que toda experiência de uma coisa singular tem seu horizonte interno, correspondendo a pré-conhecimento inerente à experiência à apreensão de um a priori que prescreve um espaço de jogo para variantes possíveis
    • esse rouge se dando de saída como concreção de certo estilo que permite antecipar certa textura, o que vale igualmente para os horizontes externos
  • Essa análise permite concluir que a doação em carne é ao mesmo tempo doação de uma típica, de uma generalidade, isto é, de um invisível, mas Husserl, ainda prisioneiro da acepção empirista da sensação, restringe a doação em carne ao momento propriamente sensível
    • a citação sobre a experiência tendo, para além desse núcleo quiditativo determinado dado em carne e osso, seu horizonte próprio
    • Husserl projetando a dualidade abstrata da sensação e do objeto, vendo no horizonte apenas a atestação de sua relação, ao passo que Merleau-Ponty compreende essa típica como o sentido de ser verdadeiro do percebido
    • a citação segundo a qual o horizonte não é mais que o céu ou a terra uma coleção de coisas tênues, mas um novo tipo de ser, ser de porosidade, de prenhez ou de generalidade
  • O sensível só se dá como cristalização ou variante de certo eixo de equivalência sobre o qual se produzem as antecipações, residindo o sentido último do sensível nas charneiras ou articulações que ligam um aspecto a outros aspectos
    • o carnal podendo ser caracterizado como estilo, generalidade existente, horizonte anterior à distinção entre o sensível pontual e o que nele se perfila
  • O conceito de dimensão permite dar conta da dupla doação no cerne da carne, não sendo o invisível um sentido positivo que finalizaria a antecipação, mas confundindo-se com suas próprias variantes
    • a citação segundo a qual esse afastamento que, em primeira aproximação, faz o sentido, não é um não do qual me afeto, mas uma negatividade natural, instituição primeira sempre já ali
  • Inversamente, é na medida em que apresenta o invisível que o sensível se apresenta como sensível, sendo os sentidos aparelhos de fazer concreções com o inesgotável
    • a plenitude carnal do sensível fundando a doação em carne do invisível ao garantir sua invisibilidade, e inversamente a invisibilidade do sentido garantindo a transcendência do sensível
    • a citação sobre a transcendência da coisa obrigando a dizer que ela só é plenitude por ser inesgotável, não estando toda atual sob o olhar mas prometendo essa atualidade total
  • Pensar o percebido como carne é pensar a percepção como fundação (Stiftung) em vez de referi-la aos atos de um sujeito, nomeando a fundação exatamente essa implicação originária do derivado no originário
    • a citação inédita segundo a qual, em vez de dizer ser percebido e percepção, seria melhor dizer ser bruto ou selvagem e fundação
    • a Carne não sendo fato nem quididade mas o Advento, a Instituição primeira que abre uma dimensão de retomada, sendo ela mesma apenas em virtude dessa reativação
    • Merleau-Ponty apreendendo a fundação como testemunho de um sentido originário do Ser, pensando a própria Carne como fundação, fundação do invisível sobre o visível e do visível pelo invisível
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