MORTE (LM)
ARENDT, Hannah. A Vida do Espírito. Tr. Antônio Abranches e Cesar Augusto R. de Almeida e Helena Martins. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000 [ARENDTVE] / The Life of the Mind: the Groundbreaking Investigation on How We Think. Boston: Houghton Mifflin Harcourt, 1981 [LM]
* A dissolução da distinção entre sensorial e suprassensorial implica a perda do próprio horizonte visível do mundo das aparências, pois ao abolir o “mundo verdadeiro” identificado por Nietzsche como símbolo do suprassensível, desaparece também o mundo que se mostra aos sentidos, conforme a tradição inaugurada por Parmênides e reinterpretada em O crepúsculo dos ídolos e A gaia ciência [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar Introdução].
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O suprassensorial — Deus, Ser, archai, Ideias — era considerado mais real do que o que aparece.
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A crítica ao niilismo ignora que o sensível positivista depende da distinção abolida.
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Nietzsche afirma que, eliminado o mundo verdadeiro, elimina-se também o mundo aparente.
* A distinção kantiana entre Vernunft e Verstand redefine o campo da visão intelectual ao separar significado e cognição, libertando o pensamento da dependência exclusiva do conhecimento verificável e ampliando a reflexão para além do que pode ser visto ou comprovado sensorialmente [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar Introdução].
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A razão enfrenta o “escândalo” de pensar o incognoscível.
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Deus, liberdade e imortalidade pertencem ao domínio do pensamento.
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A separação entre pensar e conhecer desloca o eixo da metafísica tradicional.
* A experiência temporal do aparecer e desaparecer estrutura a visão humana do mundo, pois o intervalo entre nascimento e morte molda a percepção do tempo vivido em contraste com o tempo objetivo que permanece indiferente às variações da experiência individual [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 1].
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O intervalo vital determina a medida subjetiva da duração.
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O tempo do mundo pressupõe permanência além da vida individual.
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A consciência da morte altera a percepção do ritmo temporal.
* A atividade do pensamento introduz dúvida sobre a realidade do que aparece, pois o cogito cartesiano não garante a existência do eu que pensa e a própria visão do mundo pode revelar-se ilusão, como indicam Nietzsche, Kant, Heidegger e Wittgenstein [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 7].
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O pensamento alcança conteúdos, mas não assegura sua realidade.
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A dúvida cartesiana parte da hipótese do Deus enganador.
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Wittgenstein formula a possibilidade de que o mundo termine com a morte do sujeito.
* A autonomia das atividades espirituais evidencia que a visão interior transcende as condições sensíveis do mundo, embora permaneça ligada a ele enquanto horizonte de aparecimento e desaparecimento [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 9].
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O pensamento separa-se do mundo das aparências.
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Heráclito afirma que o espírito é separado de todas as coisas.
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Kant concebe seres racionais sem aparato sensorial humano.
* A afinidade entre filosofia e morte revela que a retirada do filósofo do mundo visível é compreendida como antecipação do desaparecer, conforme Platão no Fédon, Zenão segundo Diógenes Laércio, Schopenhauer e Heidegger [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 9].
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Platão descreve o filósofo como alguém que busca a morte.
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Zenão aconselha “tomar a cor dos mortos”.
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Heidegger vê na antecipação da morte acesso ao eu autêntico.
* A metáfora da morte exprime a retirada do pensamento do campo do visível, pois o filósofo, ao afastar-se das aparências, parece abandonar o mundo sensível para alcançar a contemplação do invisível, como ilustram Platão, Aristóteles, Valéry e Descartes [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 10].
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A separação entre alma e corpo libera o espírito.
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A contemplação visa verdade, justiça e beleza.
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O corpo é percebido como obstáculo à visão intelectual.
* O movimento circular do pensamento, descrito por Aristóteles na Metafísica e retomado por Hegel e Heidegger, sugere uma visão que não produz resultados finais, mas acompanha a vida até a morte como busca incessante de significado [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 13].
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A noesis noeseos é atividade que tem fim em si mesma.
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Hegel descreve a filosofia como círculo que retorna a si.
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Heidegger formula a questão fundamental como retorno constante.
* A substituição da imortalidade dos deuses pelo Ser eterno em Parmênides e Heráclito redefine a visão filosófica da permanência, deslocando-a da narrativa mítica para a concepção ontológica de duração sem nascimento e sem morte [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 14].
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Anaximandro introduz o apeiron como princípio eterno.
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Heráclito identifica o kosmos como ordem sempre viva.
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O Ser torna-se a nova divindade filosófica.
* A introdução cristã de uma história linear com início e fim redefine a visão do tempo e da morte, substituindo o ciclo antigo por uma narrativa escatológica centrada na ressurreição e na salvação individual [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 1].
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O nascimento de Cristo torna-se ponto decisivo.
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A vida eterna depende da vontade e da fé.
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A história adquire direção retilínea.
* A descoberta paulina do conflito interior entre carne e espírito inaugura uma nova visão da vontade e da morte, em que a justiça não pode ser alcançada pela lei, mas apenas pela graça [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 8].
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A lei desperta o pecado.
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A morte é salário do pecado.
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A graça resolve a tensão insolúvel.
* A consolação estoica, exemplificada por Epiteto, propõe uma visão que neutraliza o medo da morte por meio da disciplina da vontade, transformando felicidade em ausência de perturbação [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 9].
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O medo da morte é a verdadeira ameaça.
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A vontade deve querer o que acontece.
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A serenidade substitui a eudaimonia clássica.
* A reflexão agostiniana sobre tempo e vontade desloca a visão do mundo exterior para o interior da consciência, onde a vida aparece como corrida inevitável em direção à morte [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 10].
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O tempo torna-se enigma intrincado.
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A vontade é faculdade do começo.
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A vida é movimento entre ser e não-ser.
* A interpretação hegeliana da morte como momento constitutivo do espírito transforma a visão temporal em síntese entre passado, presente e futuro, convertendo o fim em condição do pensamento [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 6].
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A antecipação da morte paralisa a vontade.
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O futuro gera o passado.
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O nunc stans torna-se presença permanente.
* A concepção heideggeriana da morte como redoma que preserva a essência humana redefine a visão do desaparecer como abrigo do Ser no jogo do mundo [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15].
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A lembrança transforma o morto em relíquia.
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A existência é demora entre duas ausências.
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O errar substitui a culpa como marca do Dasein.
* A crítica pascaliana ao solipsismo evidencia a fragilidade da visão racional isolada, pois a distinção entre sonho e realidade permanece indecidível apenas pelo pensamento [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 13].
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O duvidar não assegura certeza.
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A natureza sustenta a razão impotente.
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A vida pode ser concebida como sonho.
* A reflexão sobre a Idade do Ouro e o retorno cíclico, retomada por Marx e Nietzsche, revela persistência da visão antiga de tempo em meio à crença moderna no progresso e na entropia formulada por Clausius [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 16].
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O princípio da entropia sugere morte térmica do universo.
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O ciclo reaparece como esperança de renovação.
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A ação humana recupera sentido no retorno.
* A análise kantiana do gosto como faculdade reflexiva mostra que a visão julgadora depende da comunicabilidade pública, distinguindo entre o que pode ser exposto e o que deve permanecer oculto, inclusive no contexto da morte e do luto [Arendt, Vida do Espírito Apêndice O Julgar].
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Aprovação e desaprovação são re-pensamentos.
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O critério é a possibilidade de tornar público.
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O julgamento relaciona prazer ao mundo compartilhado.
