1 Filosofia como existência
ABBAGNANO, Nicola. Introduzione all'esistenzialismo. Milano: Bompiani, 1942.
A natureza da filosofia e o destino do homem
1. Tratar hoje da natureza da filosofia pressupõe como firmemente estabelecida a necessidade do filosofar para o homem, pelo que ele é e deve ser, pois a filosofia não é o jardim de Epicuro onde se viveria à parte dos acontecimentos e dos golpes duros, nem exercício aristocrático de poucos espíritos ociosos, nem região estratosférica de refúgio e consolo para os males da vida, mas, num sentido muito antigo, identifica-se com a própria existência do homem, a ponto de, como queria Platão, não se poder ser homem sem ser filósofo, significando existir propriamente filosofar, embora filosofar nem sempre signifique fazer filosofia, pois filosofar é enfrentar de olhos abertos o próprio destino, colocar claramente os problemas da relação consigo, com os outros e com o mundo, escolher, decidir, empenhar-se, apaixonar-se, viver autenticamente e ser autenticamente si mesmo, recebendo desse filosofar originário, verdadeiro e eterno uma ajuda preciosa do trabalho técnico dos filósofos, cujas doutrinas são meios e não fins, cabendo por fim ao homem singular decidir e responder às perguntas que a vida lhe coloca.
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As doutrinas filosóficas sucessivas dão ao homem instrumentos indispensáveis para entender e interpretar a si e ao mundo e assumir a atitude do verdadeiro filosofar, isto é, do existir autêntico.
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Toda ação de certo relevo é uma resposta, e a cada resposta o mundo sai um pouco da névoa e toma forma diante do homem, enquanto recusar-se a responder é lançá-lo de volta à névoa.
2. À filosofia o homem pode e deve pedir compreender-se um pouco melhor, e os homens entender-se um pouco melhor entre si, pois a compreensão de si e a inteligência recíproca fundamentam toda obra e todo trabalho humano e formam a trama da vida cotidiana do indivíduo e da vida histórica da humanidade, e de nada serviriam as experiências mais duras, as dores e as tragédias se delas não se tirasse um ensinamento, que só a filosofia pode formular, extraindo das experiências da história o estímulo para uma compreensão mais profunda e mais humana do homem.
Passagem do sentido restrito da filosofia como doutrina ao sentido próprio da filosofia como existência
3. É preciso libertar-se do preconceito de que a filosofia seja apenas uma disciplina particular, trabalho de um círculo restrito de pessoas que refletem sobre certo gênero de problemas e elaboram, aceitam ou retomam uma doutrina, o que ela também é, mas não apenas, pois limitá-la a esse sentido leva a restringir sua validade e julgá-la insuficiente para a autocompreensão que o homem nela busca, surgindo assim orientações sempre renascentes que julgam toda doutrina ou sistema estreito demais para exprimir o sentido da vida e procuram sua concretude em experiências espirituais mais vastas e profundas, quando na verdade o ato de considerar os limites de um sistema e alcançar, além dele, uma forma de experiência que o complete e restabeleça o sentido total da vida é justamente o ato autêntico do filosofar, que não é a doutrina reconhecida como estreita, mas o ato de compreensão que supera essa estreiteza e alcança o significado total da vida.
4. A crítica da filosofia, no que tem de positivamente significativo, é o restabelecimento da concretude plena do filosofar e da liberdade do homem diante de toda doutrina, e dessa liberdade nasce o problema da filosofia, que não é o de uma doutrina ou tipo de trabalho, mas o da justificação e do fundamento humano de toda investigação e doutrina, isto é, do que a filosofia é em seu significado humano, do qual toda doutrina deve derivar sua verdade, pois, se há filosofia como doutrina, deve haver filosofia como ato humano, momento ou natureza da existência humana, em que toda doutrina encontra seu fundamento.
5. Por ser o filosofar um ato humano, aspecto essencial da existência, seu problema é o que o homem coloca a si mesmo sobre si mesmo, é o próprio ser do homem como problema de si, e, mal o filosofar é subtraído a uma esfera circunscrita e abstrata e reconhecido vital e eficiente na vida do homem, define precisamente o ser do homem como o ser que é problema de si mesmo, que busca o ser e por isso pergunta, duvida, teme e age para dominar o futuro.
A existência sobre o fundamento da indeterminação problemática
6. Só ao homem pertence o ser nessa forma problemática, que define a existência propriamente humana, pois, quando realizo um ato importante da existência, como iniciar ou concluir um trabalho a que está ligada boa parte da vida, ligar o destino ao de outra pessoa ou enfrentar um dano ou perigo em vista de um interesse superior, esse ato, que se chama decisão, mas que não é só ato de vontade, pois empenha todo o ser, e melhor se diz ato existencial, implica uma indeterminação real em seu alcance e resultado e portanto um risco, podendo o trabalho ter maior ou menor êxito, a obra concluída encarnar ou não o sentido e o interesse que a sugeriram, o vínculo contraído influir de modos diversos, o ato de coragem ser inútil ou irrelevante, e em todos esses casos pode-se perder tudo o que importa e constitui o sentido da vida.
7. Essa indeterminação real, essa problematicidade fundamental, é própria de todos os atos existenciais, e quanto mais importante a decisão e maior seu relevo para a existência, mais nítida se revela a alternativa nela implícita.
8. A natureza dessa indeterminação ou problematicidade está em que ela se faz presente em todo ato existencial como saber efetivo que determina de dentro a natureza do ato, pois sei sempre que enfrento um risco, e esse saber está presente na decisão como elemento necessário, não acrescentado de fora como consideração abstrata, mas constituindo-a por ter sido tomada sobre o fundamento da problematicidade e do risco, de modo que a indeterminação não vem depois da decisão, mas está dentro dela, e todo ato existencial é um ato de indeterminação problemática.
9. A indeterminação problemática exprime a natureza do ato existencial, que não se esgota em si, mas vai além de si num movimento que une a fase inicial à final, pois a decisão, quando autêntica e não mero desejo ou veleidade, tende a fazer com que o futuro seja como se quer e avança para ele com a pretensão de soldá-lo ao passado numa unidade que realize seu sentido total, pretensão fundada numa indeterminação efetiva, a possibilidade de as coisas ocorrerem diversamente, e na assunção desse risco e das garantias possíveis, de modo que a problematicidade interna do ato une uma situação anterior, passada, a uma situação futura que deve ser, pela virtude do próprio ato, a garantia da continuação e realização do passado, e esse movimento, que unifica passado e futuro no presente da decisão e constitui no futuro uma situação que pode não ser, mas deve ser, fundamento e justificação da situação que foi, pode chamar-se estrutura.
10. A estrutura exprime a natureza do ato existencial enquanto ato de indeterminação problemática, sendo o movimento que põe e justifica uma situação futura, significado autêntico e valor da situação de onde parte a decisão, não eliminando a indeterminação, mas constituindo-a, pois a decisão tem sentido porque há algo indeterminado a decidir, mas tende a encaminhar a indeterminação para um sentido preciso, o único em que pode revelar seu significado inteiro, realizando a estrutura o significado da temporalidade, a unidade de passado e futuro, num ato que põe no futuro o significado do passado, movimento sempre completo e perfeito em si e sempre aberto adiante, não forma imóvel, plano ou desígnio determinado, nem preordenação definitiva da existência, mas a própria existência em sua absoluta liberdade, fora de todo caráter amorfo e de toda indiferença, instaurando a decisão uma situação final problemática que é o dever-ser da situação inicial, como a decisão de unir o próprio destino ao de outra pessoa tende à realização de uma vida a dois que realize e funde o significado do amor que a sugeriu.
11. Como o movimento da estrutura, em sua contínua completude, está continuamente aberto ao futuro, a decisão que o constitui nunca é tomada de uma vez por todas, o risco nunca é eliminado e a indeterminação nunca é abolida, devendo a decisão ser renovada, como exige a natureza problemática da estrutura, pois nada há de definitivo na existência humana, no sentido de não poder ser perdido, revogado em dúvida, dispensar decisão e coragem ou ser conservado sem esforço.
O ato existencial como decisão autêntica
12. O ato existencial descrito é o autêntico, decisão de que fazem parte integrante a consideração do risco e a responsabilidade que ele implica, mas são possíveis também atos em que a decisão falta, em que o homem prefere evitar o risco e não enfrentar a responsabilidade de uma escolha decisiva, deixando-se viver sem decidir, sem escolher, sem buscar a junção entre passado e futuro nem propor-se justificar no futuro o sentido do passado, vivendo no estado de dispersão, sem possuir-se nem possuir suas possibilidades, sem que sua existência se feche no círculo da estrutura, se complete ou se abra verdadeiramente ao futuro, implicando a estrutura para ele apenas um apelo à decisão e à escolha, não uma decisão efetiva.
13. Na decisão constitutiva da estrutura, o homem identifica-se com a possibilidade que escolhe, põe-se, reconhece-se e realiza-se nela, possuindo-se ao possuí-la na ação decidida, sem mais oscilar entre possibilidades diversas nem persegui-las ao acaso, pois a reconheceu como sua, constitutiva de sua personalidade, realizando nela sua unidade, decidindo sobre si no sentido dessa unidade e substituindo a riqueza aparente do múltiplo disperso pela riqueza verdadeira, interior e profunda, da unidade e da vida intensa, de modo que o movimento estrutural é a realização da unidade da personalidade, em que o homem se empenha e permanece fiel a si, adquirindo um destino, pois a escolha que o constitui é a escolha de si mesmo, decisão de decidir, possibilidade que deve ser escolhida para ser si mesmo, movimento que vai de uma possibilidade à possibilidade dessa possibilidade, a possibilidade transcendental, fortalecimento e fundação na possibilidade inicial em seu significado inteiro, definitivo e projetado ao futuro, que constitui o verdadeiro eu, elimina a dispersão das possibilidades rivais ao fundá-las e unificá-las, e é a única via da liberdade, enquanto a alternativa oposta, a subtração à decisão e a permanência na dispersão, exprime o não-possuir, a unidade anônima, a não-liberdade, embora quem decidiu deva ainda decidir e quem não decidiu possa ainda decidir, dirigindo-se o apelo da estrutura ao homem em qualquer circunstância.
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A fidelidade exprime verdadeiramente o sentido da estrutura, na qual o homem decide ser fiel a si, ser verdadeiramente si mesmo, possuir-se.
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Pela possibilidade transcendental o homem subtrai-se ao arbítrio e ao acaso da dispersão e realiza-se inteira e unicamente como si mesmo.
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O homem que não decide não se realiza, permanece no anônimo e renuncia à liberdade, que só existe na escolha e na possibilidade transcendental.
A decisão autêntica como fundação da relação com o ser
14. Na estrutura decido sobre mim e meu próprio ser, constituindo-me como individualidade autêntica dotada de destino, mas esse ato é também aquele pelo qual me transcendo, pois só decido sobre mim enquanto decido sobre o que devo ser, entrando o ser em minha decisão como eu mesmo, sendo definido em minha finitude por uma esfera que me transcende e constitui, de modo que a escolha constitui minha unidade finita e, no mesmo ato, uma esfera do ser que se torna meu possesso, ancorando a individualidade finita numa esfera que a transcende e da qual ela extrai todo seu significado, e a possibilidade singular de que tomo posse só se torna minha por deixar de ser apenas minha e pertencer a uma esfera além de minha finitude, sendo a possibilidade ôntica tal por ser ao mesmo tempo possibilidade ontológica, a decisão a instauração de uma relação entre ambas e a escolha essa própria relação, que funda no ser minha possibilidade, tornada possibilidade do ser, enquanto o ser vem ao meu encontro para fundá-la sem perder a problematicidade fundamental da relação, revelando-se a estrutura como constituição de um ser que, na concretude de suas esferas, garante o valor de tudo o que sou e possuo.
A transcendência do ser como fundamento da compreensão coexistencial
15. O ser que é mais meu, por me definir no que verdadeiramente sou e devo ser, define-me transcendendo-me e por isso já não é só meu, tornando-se zona de encontro e comunicação com o outro homem com quem coexisto, possibilidade e fundamento da coexistência e das individualidades coexistentes, pois um ser que me pertencesse isolando-me me anularia, enquanto o ser que me define me abre à coexistência e determina uma esfera infinita de possibilidades de encontro, inteligência e compreensão, como o artista que se exprimiu e foi si mesmo em sua arte determinou um mundo aberto aos outros e rico de possibilidades de compreensão recíproca, ao passo que o artista que não se exprimiu nem criou nada vital falhou tanto na realização de sua individualidade quanto na criação de uma esfera que ofereça compreensão aos outros.
16. O ser que me constitui transcende-me, mas não transcende minha estrutura, na qual é posto como fundamento da constituição autêntica e da compreensão coexistencial, e a relação entre possibilidade ôntica e ontológica realizada na estrutura, constitutiva de minha finitude e do ser coexistencial, é a possibilidade transcendental, que dá ao movimento da estrutura todo seu significado, sendo a possibilidade de que minha possibilidade se torne, como minha, possibilidade do ser e da comunidade coexistente, fundamento último da constituição do indivíduo, do ser que o define e da coexistência que nesse ser se realiza.
A possibilidade transcendental como norma constitutiva do homem
17. A possibilidade transcendental não está no mesmo plano das possibilidades ôntica e ontológica, oferecidas indiferentemente à escolha, mas as funda e justifica, estando num plano diverso e superior e chamando-as ao ato quando o homem, decidindo, instaura a relação que o constitui, de modo que a decisão lhe é sugerida pela possibilidade transcendental, dever-ser do homem em sua individualidade autêntica, do ser e da comunidade coexistente, que o subtrai à indiferença das possibilidades, o engancha no ser e o insere na comunidade, tornando a estrutura dever-ser, normatividade, empenho do homem para com o ser que deve ser seu e para com a comunidade com que deve compreender-se, sendo a possibilidade transcendental a norma da constituição autêntica do homem, além dele por empenhá-lo no ser que o transcende e presente em sua intimidade mais profunda por ser o dever-ser de sua finitude, de modo que o que devo fazer é o que devo ser, e para ser eu mesmo devo fazer meu o que me transcende, o que se impõe com a força de um valor superior e instaura entre mim e os outros a possibilidade de inteligência efetiva, e, se o homem dissesse que a norma está nele, a rebaixaria e anularia como norma, quando ela é o que o homem verdadeiramente deve ser, o próprio ser que o funda em sua finitude, o justifica e o leva à realização integral.
O mundo como determinação fundamental da estrutura do homem
18. Por sua essência normativa, a estrutura explica a estreita conexão entre o homem, o ser do homem e a comunidade coexistente, definidos no mesmo ato de decisão e escolha, e a necessidade dessa relação faz do homem um ente no mundo, que, realizando-se pelo movimento estrutural, se põe numa totalidade que o compreende junto com os entes coexistentes e o ser dos entes.
19. Na coexistência e na participação comum no ser, o homem implica a copresença de si, dos outros e do ser numa totalidade incondicionada, o mundo, determinação fundamental da estrutura do homem, que, transcendendo-o, o põe em relação necessária com o ser e os homens, sendo condição dessa copresença simultânea a corporeidade, o pôr-se de homens e ser numa multiplicidade conexa e exteriorizada, própria dos corpos, irredutível, que não pode ser reduzida a aparência, desvalorizada, anulada ou negligenciada, nem entendida como véu da espiritualidade, pois realiza um aspecto fundamental da estrutura, e dessa conexão manifestada na corporeidade decorre que o homem, como corpo, precisa das coisas do mundo, exprimindo a necessidade, nos limites da corporeidade, a conexão do homem com seu ser constitutivo, sendo o mundo o domínio do conhecimento das coisas, da percepção e utilização das coisas como instrumentos e da ciência que as observa e mede em sua instrumentalidade.
20. As possibilidades do homem tornam-se imediatamente necessidades, utilizações atuais ou possíveis das coisas como instrumentos, e sua decisão é por isso ação no mundo, fabricação, utilização, técnica, produção e trabalho, não lhe sendo possível retirar-se do mundo, pois só pode ser si mesmo na conexão com o ser e com os homens, no mundo.
A temporalidade como essência da finitude do homem
21. O movimento estrutural, como relação entre possibilidade ôntica e ontológica, é por sua problematicidade o movimento do tempo, pois o ato pelo qual o homem tende a constituir no ser sua possibilidade é também aquele pelo qual o ser vem ao seu encontro para fundá-lo em sua finitude, e esse vir ao encontro, problemático e sem eliminar o risco, é o futuro, sendo a problematicidade, em seu aspecto temporal, a nulidade possível das possibilidades do homem, a possibilidade de não conseguir fundar-se no ser e perder-se, e a decisão autêntica empenha e garante o homem em sua constituição sem eliminar a aceitação da problematicidade e do risco, isto é, de sua finitude, já que temporalidade significa finitude, sendo o tempo que mantém o homem finito na problematicidade da relação transcendental e o presente temporal o próprio ato pelo qual ele é ente finito, finitude que só adquire significado pleno, e a temporalidade, que pode ser superficialidade e dispersão, só se torna historicidade, concentração significativa, quando o homem decide no sentido de sua finitude, assumindo-a como sua natureza e permanecendo-lhe fiel.
A liberdade como libertação do pecado
22. A estrutura da existência instaura o homem na natureza autêntica de sua finitude apenas pela decisão e escolha do próprio ente, pois o apelo que o ser do homem lhe dirige só se realiza por sua escolha e nada acontece verdadeiramente na existência sem ela, sendo a estrutura essencialmente liberdade, não indiferença, mas normatividade, dever-ser da personalidade finita, do ser universal que a funda e da comunidade que nele encontra terreno de encontro e inteligência recíproca, e o homem encontra-se continuamente diante da alternativa crucial entre ser e não ser, entre possuir-se em suas possibilidades e dispersá-las e banalizá-las, entre vida anônima e insignificante e vida intensa e significativa enraizada na história, alternativa oferecida não na indiferença, mas no apelo real e renovado da possibilidade autêntica que o dirige à historicidade, garantindo-se a liberdade por esse apelo incessante, que o homem pode não ouvir, possibilidade efetiva que é a do pecado.
23. O pecado é a dispersão, a superficialidade, o abandono, o lançar-se à vida como vem, a incapacidade de coordená-la e dominá-la e portanto de dominar-se e possuir-se, possibilidade efetiva inerente à estrutura e ligada à temporalidade, fundamento da nulidade possível da constituição do homem, que, banalizando e dispersando suas possibilidades, torna sua vida anônima e insignificante, impede a constituição da personalidade e o isola e esconde do ser e da coexistência, sem tornar impossível o apelo que o ser lhe dirige, pela norma, do interior de sua estrutura, de modo que a estrutura, destinada a garantir a unidade autêntica do homem em sua relação com o ser e com os outros, é justamente por isso e ao mesmo tempo a possibilidade do pecado.
A paixão como autolimitação do homem em sua própria finitude
24. Subtrair-se ao desespero e vencer o pecado só é possível por uma escolha que decida a fidelidade do homem a si, isto é, à sua finitude, que não deve ser desconhecida nem renegada, mas reconhecida, aceita e realizada até o fim, pois, renegada, é corrente arrastada sem saber que trava todo movimento e impossibilita toda criação, e, aceita, torna-se a substância da liberdade, autolimitando-se então o homem em sua finitude e tornando-se capaz de paixão, excluindo tudo o que o distrai e dispersa, vivendo na concentração de seu esforço e aceitando plenamente seus riscos, pois o que o homem pode verdadeiramente fazer só pode fazê-lo com paixão, única via de liberdade em e por sua finitude, realizando-se numa complexidade tanto mais rica e profunda quanto mais exclui dispersão e extensão, sem que nenhuma consideração estranha o detenha, decidindo continuamente com escolha livre e apaixonada que o mantém fiel a si e o instala em seu destino, e apresentando-se então diante dele, em toda sua clareza, o risco fundamental da existência, a morte.
A morte como possibilidade delimitante. A fidelidade à morte
25. A seriedade de uma doutrina filosófica mede-se pela consideração que faz da morte, pois uma doutrina em que a morte não possa entrar sem desordenar seu quadro é exercício abstrato, não filosofia, já que a existência humana é caracterizada pela morte não como fato inevitável da ordem natural, mas como possibilidade sempre presente e ligada a todas as possibilidades humanas, estranha como fato e determinante como possibilidade de toda nossa natureza e existência, sendo o sentido da morte o sentido da problematicidade e da temporalidade da existência, pois todas as possibilidades do homem e ele mesmo podem não ser, e a problematicidade temporal pode deixar de ser problematicidade e degradar-se, de modo que o homem não é o que é com a possibilidade da morte a mais, mas é o que é em virtude dela.
26. Essa possibilidade deve ser reconhecida e aceita, pois ignorá-la seria forjar a corrente da própria escravidão, mas reconhecê-la não significa assumi-la como possibilidade própria, viver para ela e considerar a existência com base numa decisão que a antecipe, pois ela é condição de toda possibilidade determinada, a própria possibilidade transcendental em sua natureza última, que não pode tornar-se possibilidade ôntica nem alternativa particular a escolher, e temê-la fora do perigo, como queria Pascal, é apenas aceitá-la como risco fundamental da existência, reconhecido como próprio de sua essência, pois toda possibilidade pode a cada instante cair no nada, e ignorar esse risco é cair na ilusão vulgar, enquanto fazer da morte a perspectiva dominante é inverter essa ilusão sem escapar dela: quem decide não pensar na morte persegue afanosamente possibilidades sem possuir nenhuma nem possuir-se, quem pensa na morte como única alternativa perde também suas possibilidades e a si mesmo e dispersa-se na angústia, e quem aceita a morte e a teme fora do perigo permanece ligado à possibilidade escolhida, fazendo dela sua missão e tarefa fundamental com todas as suas forças e além delas, exprimindo a fidelidade à morte a autenticidade da existência realizada na estrutura, em sua relação necessária com o ser universal e a comunidade coexistente, única atitude digna do homem.
Autoprojetar-se da filosofia como existência
27. Dessas análises resulta clara a natureza da filosofia e o que o homem pode esperar do filosofar, que é a própria constituição estrutural interna da existência humana, mais ou menos esclarecida pelo trabalho dos filósofos, mas presente em nós a mover e organizar a vida, sem exigir um passo além de nós para ser encontrado, mas exigindo ultrapassar-nos continuamente para filosofar, pois só nos realizamos realizando o ser que é nosso, enraizando-nos numa universalidade que defina e funde nossa personalidade finita, universalidade que é dever-ser e querer, na qual coexistimos com outros sujeitos enraizados no mesmo ser, coexistência que exprime todo o significado da existência, pois queremos compreender-nos para compreender o outro e ser compreendidos por ele, fundando-se nessa constituição o amor, a amizade, a solidariedade nacional e humana e até a necessidade de solidão, busca, fora da multidão anônima, da compreensão que ela não dá e manifestação aguda da necessidade da coexistência, mas só compreendemos os outros e lhes damos meio de nos compreender na medida em que nos compreendemos, realizando-nos na estrutura pela fidelidade a nós mesmos, à nossa finitude, à morte, e essa inteligência concreta e íntima, que as doutrinas exprimem apenas imperfeitamente, mas forma nossa substância de homens, é o verdadeiro ato do filosofar, cujo fortalecimento, aprofundamento e esclarecimento por análise precisa e lúcida é a tarefa de toda investigação filosófica, que redime toda técnica mais abstrusa e compensa o trabalho de investigação mais penoso.
