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Considerações XII

O pensador voltado à decisão e a penúria intemporal

Todo pensador que pensa rumo a uma decisão é movido, e consumido, pelo cuidado com uma penúria de todo insensível ao tempo de vida historiograficamente calculado desse pensador, medindo-se o nível de compreensão genuína de seus pensamentos pela capacidade de pensar de antemão as exigências estranhas e excessivas irradiadas pelo não-dito em suas palavras.

  • quanto mais essencial a decisão a ser pensada disclosivamente, tanto maior cresce a distância entre o pensador e uma explicação historiográfica pela via da tradição, e tanto maior o perigo de que o pensador conte, na melhor das hipóteses, como uma exceção
  • essa é a forma mais insidiosa pela qual algo decisivo é suprimido e se torna ordinário, ou, em outros termos, torna-se algo já decidido, supressão que não brota da indolência humana, mas traz o despotismo do ente enquanto ente à sua devida eficácia

Destruição e devastação, o essenciar-se e a fuga da questão da verdade

Destruição é a precursora de um início velado, mas devastação é o efeito posterior de um fim já decidido, questionando-se se a época já se encontra diante dessa decisão entre destruição e devastação, sendo, contudo, o outro início já conhecido em nosso próprio questionar.

  • enquanto o homem realiza sua essência no sentido do animal racional, enquanto continua pensando “metafisicamente” na forma da distinção entre sensível e suprassensível, ele persiste, nesse pensar, em sua fuga da questão da verdade do Seyn
  • essa fuga não brota de impulsos humanos, mas o homem foge, inconsciente de sua “volubilidade”, porque o próprio Seyn o desapropria da verdade do ser

“Vem meditar” e a superação sombria da historiografia

“Vem meditar”: essas palavras devem ser proferidas no momento certo, e não como convocação ou plano, mas como um já realizado salto adiante que agora precisa ser recuperado, tendo essa recuperação uma relação peculiar com tudo o que é essencial ao projetá-lo ainda mais adiante.

  • a historiografia parece ser superada mais radicalmente quando alguém a abandona, foge para o presente imediato e persegue o mais próximo e premente, mas, na verdade, isso é apenas uma superação fingida
  • até onde alcança o historicismo não é essencial; ele de fato equipara uniformemente todas as coisas do passado ao nível único de seu momento presente atual, podendo colunas e pórticos greco-romanos ser erguidos e operetas de 1900 encenadas como revistas americanas

O poder como sobrepoderação e a ordem como instituição maquinacional

Já que o poder é sempre um sobrepoderar e uma vontade autossuperadora de sobrepoderar, a “naturalidade” da força dos poderes assume sempre uma forma diferente, sendo “ordem” aquela instituição maquinacional de fronteiras nacionais, filiações étnicas, relações econômicas e atividades culturais.

  • todo poder deve buscar produzir de imediato uma situação de desordem para justificar sua imposição de ordem, sendo tanto mais poderoso o poder quanto mais discreta e abrangentemente isso ocorra
  • a instauração de novas ordens na era da maquinação é sempre uma questão de poder, não apenas no sentido da “implementação” de algo planejado, mas quanto à essência e ao tipo do próprio planejamento

O homem e sua vida representada extrinsecamente

A sucessão de dias e noites estende a “vida” humana em “comprimento” e deixa essa “vida”, calculada em milênios, aparecer de novo como “curta”, sendo quão inerradicável e ao mesmo tempo quão extrínseca essa representação da humanidade.

O idealismo alemão e sua germanidade metafísica

“Idealismo alemão” é rubrica muito imprecisa sob a qual ainda não apreendemos essa metafísica em sua germanidade, não significando isso uma restauração folclórica dessa filosofia a uma nacionalidade particular, mas a determinação da posição fundamental a partir da qual a nacionalidade poderia ser circunscrita.

  • o idealismo alemão alcança sua genuína posição metafísica fundamental apenas em Schelling e Hegel, sendo o aspecto “alemão” a relação em salto com o início da “metafísica” ocidental
  • a filosofia da natureza de Schelling e a filosofia do espírito de Hegel realizam uma reaquisição da physis-noûs-lógos inicial, tudo isso, admita-se, ao mesmo tempo no caminho do pensamento kantiano-fichteano e também cristão-místico
  • o que é decisivo, o que por essência é subtraído a toda intromissão historiográfica, é o salto pensante para dentro da totalidade do ente enquanto incondicionado
  • a germanidade desse “idealismo” consiste numa experiência originária da essência inicial do Seyn como physis, sendo assim a essência da germanidade determinada apenas por essa capacidade característica de tal experiência
  • Schelling e Hegel só se tornarão futuramente pensadores alemães essenciais se a incondicionalidade de sua posição metafísica fundamental for retomada como questão e transposta para a meditação pensante futural

O pressuposto cristão e a hostilidade ainda cristã

O pressuposto do cristianismo é a postulação do homem como animal racional, sendo assim perseverança e refúgio na “metafísica”, permanecendo toda hostilidade ao cristianismo, mesmo a mera oposição às Igrejas cristãs, ainda cristã, e assim também uma evasão das decisões essenciais.

Nietzsche como transição e antecipação metafísica da consumação moderna

Nietzsche é transição apenas no sentido de que antecipa metafisicamente a consumação da modernidade e assim põe o fim próprio à história do ser, tornando com esse fim, que ele mesmo não pôde reconhecer como tal, possível a preparação da decisão em favor do outro início.

  • no pensamento de Nietzsche nada remete a esse início, sua penúria ou sua essência, mas seu pensamento contém tudo o que a consumação da modernidade deve realizar
  • ser “ocupado” com Nietzsche por qualquer outro motivo, ou por nenhum, é trivialização historiográfica ou pilhagem de seu pensamento para decorar alguma mentalidade “ideológica”

O “intelectualismo” e a violência normativa

“Intelectualismo” só pode ser exercido e difamado onde a pura violência do poder desencadeado se torna normativa como a suposta única forma verdadeira de “vontade”, aparecendo essa normatividade sob caráter duplo: a violência é afirmada e instalada na figura moral de comportamento intrépido, “viril”, ou é negada em seu contraponto de fuga tímida.

  • em cada caso o que prolifera na forma correspondente é “intelectualismo”, isto é, o equívoco quanto à essência do conhecimento e da meditação, e por consequência a impotência para reconhecer no conhecimento interrogativo a ação decisiva

Nietzsche e o deserto da devastação

Nietzsche, pensando adiante, entrou no deserto daquela devastação que se instaura com a incondicionalidade da maquinação e traz à luz seus primeiros “resultados” no caráter exclusivamente subjetivo do animal humano como animal de rapina.

  • o deserto é o assoreamento e a dispersão de todas as possibilidades de decisão essencial, residindo, porém, a decisividade em favor da completa impossibilidade de decisões na doutrina do eterno retorno
  • essa doutrina é o mais finito na finalização da metafísica ocidental, a última noção metafísica que podia e devia ser pensada no Ocidente
  • diferente é o caso de Hölderlin, que só pode ser chamado de “Nietzsche suábio” mediante a mais extrema e maliciosa má interpretação, pois ele se aventura de modo novo e diverso apenas na “confusão primeva”

Vitória e direito, poder e impotência

A vitória sobre o inimigo de modo algum prova que o vencedor esteja com a razão, mas essa “verdade” é letra morta se o direito é interpretado como aquilo que não apenas é confirmado e fortalecido pela vitória, mas que por ela é, pela primeira vez, posto e instituído.

  • o direito é então o poder do vencedor, o poder de sobrepoderar, um tal direito jamais poderia ser “codificado”, pois seu caráter de poder implica que, com base na vitória, anuncie ao mesmo tempo pretensões ulteriores de direito
  • o que condena o poder não é sua insuficiência ética por ofensa a um “direito em si” antes acreditado, mas antes sua cegueira frente à própria impotência, ou, pensado em termos da história do Seyn, à sua entrega à essência maquinacional do Seyn

A literatura existencial e o embotamento do espírito da época

Pessoas que naturalmente leem “Hölderlin” e “Nietzsche”, tomam nota de Spengler e Jünger, conhecem Rilke, sentem inclinações românticas para com a Igreja Católica, tornam Pascal atual e não esquecem o que é popular, poderiam ser chamadas literatas existenciais.

  • frequentemente pessoas precoces dotadas de assombrosa aptidão linguística, mas sem crescimento e de fôlego curto, gente intempestiva de modo tempestivo e carente de toda necessidade originária

Refletir e ser pensador

Refletir e ser pensador são sempre distintos, sendo essa distinção precisamente velada à reflexão, que só conhece pensadores como aqueles que se ocupam do pensar, que realizam o pensamento, tendo o pensamento sido há muito determinado como o representar do representável sobre coisas subsistentes.

  • ser pensador não consiste em refletir nem surge da reflexão, pois o pensador, no máximo, funda as possibilidades de uma reflexão precisamente por meio daquilo que sempre poderia ser chamado de novo a fundação da verdade do Seyn
  • ser pensador significa fundar disclosivamente pela primeira vez uma tal clareira e nela tornar-se constante mediante o questionar, deixando toda palavra surgir apenas dessa fundação
  • ser pensador significa possuir a coragem para um questionar que questiona a fim de ser sobrequestionado, não significando essa superação um “avanço” para o próximo e “melhor”, mas o acontecer da fundação realizada

O pensador que possui o conhecimento da meditação como perturbação

Ser pensador envolve o conhecimento decisivo de que a meditação, como questionamento disclosivo dessa decisão, projeta na “vida” a mais perigosa perturbação da “vida” e renuncia a justificar-se perante essa “vida”.

  • ser pensador significa saber que a decisão não concerne à correção ou incorreção de uma “imagem de mundo” nem à vinculatividade ou não de uma “visão de mundo”
  • a partir do momento da superação da metafísica, ser pensador será possuir uma essência conforme à história do Seyn, a saber, manter o próprio Seyn livre de toda deturpação pelo ente, e fazê-lo por meio da disposição interrogativa da verdade do Seyn

A superação da metafísica mal compreendida como ateísmo

A fala sobre a superação da metafísica ainda hoje está exposta aos habituais mal-entendidos, entendendo-se essa superação, pensando em Kant ou antes na má interpretação de Kant no “positivismo”, como eliminação da fé na cognoscibilidade e realidade do suprassensível em favor do sensível.

  • a “superação da metafísica” será também facilmente identificada com “ateísmo”, especialmente se a metafísica é entendida em termos de cristianismo cultural
  • a superação da metafísica é, de fato, a-teísmo, mas em sentido indisponível a qualquer metafísica teológica: constância na desapropriação dos homens de toda prontidão para trazer a uma primeira decisão a divindade de Deus

A metafísica tornada física e o niilismo consumado

Nesse ínterim, a meta-física tornou-se física, isto é, fisiologia, tendo Nietzsche dado o primeiro passo resoluto e assim também deliberado nessa consumação da metafísica, com sua afirmação do mundo “sensível”, posto assim fora da distinção entre verdade e aparência.

  • o “niilismo” realiza a consumação da metafísica e por isso só pode ser apreendido metafisicamente e superado unicamente pela superação da metafísica
  • a meditação mais profunda de Nietzsche reside, portanto, onde ele ainda se reconhece como niilista, consistindo o limite de sua meditação em sua incapacidade de reconhecer sua tentada superação como a forma mais extrema de “niilismo”

O pensamento atento à história do Seyn e a consciência

O pensamento atento à história do Seyn nem retrata fatos subsistentes, nem descreve “estruturas”, nem vê no universal o fundamento do particular, nem põe valores e metas, dando a impressão de algo “abstrato” e vazio, sendo essa aparência apenas a omissão do ente no destino do Seyn.

  • toda “consciência” e todo ser-consciente-de-algo constituem o preenchimento do abismo da clareira do Seyn, juntamente com uma reivindicação contemporânea sobre esse abismo, sem jamais experimentar seu domínio aberto como tal
  • a explicação do “inconsciente” com base na consciência é tão impossível quanto a caracterização da “consciência” como mero epifenômeno do inconsciente

A germanidade velada e o guerreiro como primeiro anúncio da história

A germanidade velada: o sacrifício dos caídos deve ser inviolável, devendo todos, mesmo os que falam disso posteriormente, saber que o guerreiro foi mais essencial do que o escritor jamais poderia ser, precisando, contudo, arriscar uma meditação que torne visível uma constrição perniciosa do pensamento sério sobre o efeito do espírito do combatente da linha de frente.

  • o mais essencial jamais poderia ser realizado se esse espírito fosse simplesmente transferido do marcial para o político, de modo que ambos, coincidindo em essência, determinassem por completo todo o comportamento humano
  • essa humanidade tem, de fato, sua primeira vocação histórica no fato de lhe ter sido retirado todo apoio no ente, e de que nenhum desespero perante o Seyn pôde, contudo, entrincheirar-se
  • o perigo do acidente da completa ausência de fundamento do ente espreita no poder incondicional da maquinação, não se tratando de que acidentes e infortúnios individuais ameacem pessoas individuais

O filósofo científico e o pensador

O “filósofo científico” distingue-se do pensador: o primeiro calcula um “sistema”, que supostamente abarca e explica até mesmo o pensamento alheio ao “pensamento sistemático”, esforçando-se por uma expansão constante de suas doutrinas.

  • na verdade, isso é apenas transferência do procedimento “matemático” moderno da ciência aos “objetos” da filosofia, apreendidos e postos como absolutos numa forma determinada aliada à ciência moderna
  • o pensador sabe que mudanças imprevisíveis são essenciais, que há colapsos constantes que não decorrem uns dos outros e que cada um recai abissalmente no caminho das decisões buscadas

O antropomorfizar-se do homem enquanto animal sensível

Quanto mais a essência metafísica do homem, o animal racional cheio de sentimentos, isto é, de “vivências”, chega ao poder no curso inevitável da capacitação incondicional da maquinação, tanto mais claramente também se impõe, dentro da massividade da humanidade, a universalização dessa essência.

Os filósofos como soberanos e sondadores

Filósofos deveriam ser soberanos e administradores, mas onde estão os palácios, onde a terra em cuja paisagem os palácios se erguem? é preciso primeiro tornar essa terra cultivável, primeiro visível e pressentível, sendo necessário sermos questionadores de longa preparação.

As decisões como apropriações e não como convicções

Decisões não surgem de intuições; antes, elas mesmas se tornam intuições, desde que estas sejam entendidas como visões clareadoras e desveladoras do velado e inexplicável, sendo as decisões preparadas pela meditação, o questionamento disclosivo daquilo que há de ser decidido.

  • decisões parecem realizações humanas, mas na verdade são sempre apropriações do homem em relações essenciais, sendo, como tais apropriações, “intuições”, podendo tornar-se um saber que precede todos os conhecimentos

A crescente indiferença perante a essência do ente

Com a crescente esperteza dos homens (esperteza entendida metafisicamente como a mais alta capacidade de resolução planejada e instituída de problemas), a essência do ente cai na indiferença, parecendo justificar a presunção de que a meditação um dia será excluída do presente como um monstro fabuloso.

  • o “vínculo com o povo” das editoras de hoje conduz a negócios comparáveis apenas às práticas hediondas dos “especuladores de guerra”

Os “intelectuais” como inimigos da meditação

Os “intelectuais” são expoentes da busca tradicional de conhecimento e posse de saber, sendo criticados e difamados enquanto as massas ainda não se tornaram “intelectuais”, processo que só terá êxito lenta e inconspicuamente ao rebaixar o domínio do intelecto ao nível das reivindicações e vivências das massas.

  • os “intelectuais” ocupam posição ambígua em relação à “metafísica” e às massas humanas, contando como exceções aloofadas, até impertinentes, na posse do saber, sendo eles, precisamente por isso, os piores inimigos de toda meditação

O “pragmatismo” como consequência do racionalismo extremo

“Pragmatismo” é a doutrina de que o verdadeiro deve ser buscado no, e posto como, útil, sendo essa utilidade concebida como o fomento e asseguramento daquele estado da vida humana que se toma como subsistente e dado.

  • “pragmatismo” é assim a consequência inelutável e o suplemento essencial de um “racionalismo” extremo que necessariamente exige garantias asseguradas de sua própria pretensão de certeza
  • por que “pragmatismo” é “doutrina” e “visão de mundo” que encontraram seus adeptos e floresceram especialmente na “América”? não porque os americanos estejam particularmente voltados ao “útil”, mas porque fundam a humanidade no assegurar racional

O historicismo e a insensibilidade ao impulso de meditação

Toda a história historiograficamente determinável e produzível transcorre como irreflexão frente a um pensamento decisivo que funda o próprio ser numa verdade ou lhe retém essa verdade, estendendo-se essa irreflexão, na forma da falta de necessidade de meditação, antes de tudo a si mesma.

  • não obstante, o essenciar-se do Seyn requer, em cada caso, indivíduos capazes de retrair seu olhar dos níveis da história comum e pública, vindo assim a conhecer eventos que não são historiograficamente apreensíveis

Os “alemães expatriados” e o obstáculo à automeditação alemã

O que mais severamente obstrui e propriamente condena uma automeditação alemã é o agitar-se, a vaidade e a confusão mental dos “alemães expatriados”, sendo Herder ainda seu paradigma, e sua relação com Kant fornece simultaneamente o modelo de como todos esses renovadores lidam com obras e assuntos alemães.

Os combatentes e o combate pela história do ser

Combatentes dividem-se, de um lado, entre aqueles que sempre necessitam de um oponente e, na sua falta, o inventam, fingindo a si e a outros como oponentes, e, de outro, entre aqueles que atendem apenas àquilo pelo que combatem e não necessitam de oponentes.

  • a mais alta batalha desses combatentes é aquela que possibilita suportar as decisões essenciais, não sendo a batalha sobre posses e resultados, nem sobre poder e fruição, mas sobre um início da história do ser

A “política” moderna e a maquinação total

Age “politicamente”, no sentido moderno, quem, por exemplo, obtém o pagamento prometido, embora inicialmente retido, por trair outro país, e o obtém especificamente utilizando a mediação amistosa do próprio país que traiu.

  • “política” já não tem nada a ver com a pólis nem com a moral, e menos ainda com “tornar-se povo”, sendo, na era da completa des-divinização, a única forma básica apropriada de reunião forçada de todos os meios de poder
  • essa política é “total”, não porque abrange tudo, mas porque, por essência, funda-se na execução da entidade do ente

As ciências como indústria da maquinação irrestrita

Na era da maquinação irrestrita, as ciências assumem o caráter de uma indústria dedicada ao conhecimento da natureza e dos povos, sendo essa indústria uma instituição da “tecnologia” em sentido essencial, isto é, ao mesmo tempo instituição da historiografia.

A humanidade ocidental sem abrigo em domínios familiares

A história dos homens ocidentais avançou lentamente a uma situação em que todos os domínios até então familiares, “pátria”, “cultura”, “povo”, mas também “Estado” e “Igreja”, “sociedade” e “comunidade”, recusam-se a oferecer abrigo, por terem sido degradados a meros pretextos.

  • como poderia ainda despertar, nessas circunstâncias, um traço da angústia que reconhece que precisamente a supremacia do subsistente e a ausência de necessidade de decisões já constituem devastação e não meramente destruição

O bolchevismo, a raça e a metafísica moderna

“Bolchevismo” nada tem a ver com a Ásia, e menos ainda com a eslavicidade dos russos, ou por isso com a essência básica do ariano, mas surge antes da metafísica racional moderna ocidental-mais-ocidental ainda.

  • todo pensamento racial é moderno e move-se no caminho da concepção do homem como subjectum, consumando o pensamento racial o subjetivismo da modernidade mediante uma assimilação da corporeidade ao subjectum
  • a essência alemã é de novo lançada bem para trás, e quantas vezes ainda será assim lançada, num sinistro velamento, faltando-lhe ainda a clareza e a coragem para a soberania a partir do silêncio da outorga da suprema luta no próprio Seyn

O “niilismo” turgueniano e o niilismo metafísico

A cunhagem da palavra “niilismo” e a atribuição de seu significado ligam-se a Turguêniev, que assim designou a forma russa do positivismo ocidental, apreendendo-se com isso o núcleo metafísico essencial do niilismo, ainda que não compreendido em seu fundamento.

A palavra pura e a ossificação da linguagem

Uma palavra é pura se surge da constância no Seyn, levando a mera eliminação de palavras estrangeiras mediante a fabricação de “traduções” a uma deterioração das palavras e a uma ossificação da linguagem.

  • dificilmente é acidente que os dois pensadores que consumam a metafísica ocidental, Hegel e Nietzsche, recaiam na concepção mais superficial da linguagem e na interpretação mais vazia de sua essência

O “radicalismo” genuíno como preservação da origem

“Radicalismo” é de essência genuína como preservação da origem, não sendo preservar reter alguma posse já disponível nem trazer historiograficamente algo do passado, mas antes arriscar o salto que, no primeiro início da história do ser, saltou à frente de tudo futural.

  • “revoluções” são formas simuladas de “radicalismo” e rapidamente impulsionam o poder agora desencadeado daquilo contra o qual se revoltaram

O poder da maquinação e a angústia perante o Seyn

O poder da maquinação, a erradicação até da impiedade, o antropomorfizar do homem em animal, a exploração da terra, o cálculo do mundo, passaram a um estado de definitividade, sendo agora meras fachadas as distinções de povos, nações e culturas.

  • jamais na história humana o ser compeliu, tão incondicional e uniformemente, em investida frenética e contudo inteiramente oculta atrás do ente presentemente perseguido, a totalidade do ente à ausência de decisão
  • lançado à impotência mesmo em relação à impiedade, o homem cambaleia, equipando-se continuamente para isso através da historiografia e da tecnologia, rumo à animalidade e afirma a “vida”

A essência dos alemães subtraída ao cálculo historiográfico

A essência dos alemães, seu destino histórico, é subtraída ao cálculo historiográfico por meio do folclore ou da erudição histórica, e surge apenas no momento que decide o que subjaz mesmo aos incidentes “histórico-mundiais”.

A raça como princípio maquinacional da história

Que a era da maquinação eleve a raça a “princípio” explícito e expressamente instituído da história (ou apenas da historiografia) não é invenção arbitrária de indivíduos “doutrinários”, mas antes consequência do poder maquinacional que deve subjugar o ente, em todos os seus domínios, ao planejamento e cálculo.

  • seria tão absurdo, isto é, uma perversão das relações essenciais mais íntimas, querer combater o bolchevismo por meio do princípio da raça, quanto se esforçar por salvar a russidade por meio do fascismo

O simples ordinário e o simples essencial

O que é “simples” e o que é simples: o primeiro é aquilo que imediatamente “ocorre” à opinião cotidiana mais grosseira, mais superficial e sempre transitória; o segundo é aquilo que emerge à meditação mais profunda e prolongada a partir de uma luta essencial e permanece fundamento insondável.

  • o simples em sentido essencial é raro e tem predileção pela autorrestrição, pois tal simplicidade deve ser, em cada caso, expressamente arriscada e individualmente alcançada

O sem-sentido dos incidentes histórico-mundiais

O sem-sentido dos incidentes “histórico-mundiais” não deveria surpreender agora nem no futuro, uma vez decidido o abandono do ente pelo ser em favor da irrestrita supremacia do ente em sua maquinação.

  • se o deus necessita do Seyn, e se o homem, enquanto Dasein, funda disclosivamente a verdade do Seyn, e se um mundo surge do abismo e a terra se abre para sustentar, terá então chegado a hora de um início

Hölderlin como poeta da decisão única

Hölderlin é o poeta dessa decisão única, e assim é alguém único, incomparável; como poeta, funda de antemão a essência dessa decisão, sem pensá-la como decisão pertencente à história do Seyn, sendo, contudo, seu poetizar já uma superação de toda a metafísica.

A “metafísica” entre os mal-entendidos da lógica e do mito

“Metafísica” em sua essência está constantemente presa a diversos, embora inter-relacionados, mal-entendidos, sendo buscada historiográfico-doutrinalmente na forma de um edifício conceitual e de princípios dele destacáveis.

  • na verdade, porém, a metafísica contém o fundamento de algo bem decisivo: a única, embora ainda não explicitamente apreendida, verdade e forma soberana do Seyn, forma disponível apenas ao pensamento mais alto e mais simples

A publicidade como semblante enganoso do domínio aberto

Publicidade jamais é o domínio aberto da clareira, mas sempre a aparentemente autoexpansiva deturpação e obstrução da clareira, sendo publicidade o semblante mais insidioso do domínio aberto e por isso o refúgio de toda operação do abandono do ente pelo ser.

  • “publicidade” pertence à “subjetividade” humana; sempre que o homem, como subjectum, se coloca sob os holofotes, também põe a publicidade como esses mesmos holofotes

A historiografia como explicação da história pela influência

A historiografia está primariamente preocupada em estabelecer uma sequência de incidentes, uma sequência do que passa, explicando o posterior por meio do anterior e encontrando que a “história” é determinada por “ideias”.

  • na era do “individualismo” incondicional, surge a mais conspícua aparência de que o homem faz a história e que toda adesão formativa ao “historiográfico” se tornou supérflua, celebrando então o historicismo seu supremo, e último, triunfo

O confronto com Nietzsche como historicização da metafísica

O confronto com o pensamento fundamental nietzschiano da “vontade de poder” deve apreender esse pensamento, de antemão e historicamente, apenas como a consumação do primeiro início do pensamento ocidental, mas deve experimentar esse pensar como a história mais velada do Ocidente.

  • esse confronto é a única forma essencial de uma superação fundacional da metafísica, isto é, ao mesmo tempo, uma historicização da metafísica rumo à inatacabilidade

A angústia perante o pensamento e a supremacia do ente maquinacional

Existe justificação melhor para o mundo de fé do cristianismo cultural do que a prova cada vez mais favorecida de que toda “metafísica” repousa, de fato, num mito? por que a era da consumação da metafísica ocidental avança para a instauração de um completo mal-entendido da essência da metafísica?

  • o que impulsiona essa angústia é a supremacia do ente como maquinação, supremacia que impede toda fundação de uma decisão, mas só pode fazê-lo como forma da soberania do Seyn

A possibilidade do último deus e a fundação de uma impiedade

No momento da decisão entre a supremacia do ente e a soberania do Seyn, a possibilidade de um deus torna-se única e o divino torna-se mais difícil, mas o homem, em sua constituição e posição anteriores, é desviado de curso e privado de todo poder fundante.

  • resta, contudo, a ainda velada capacidade de pensamento disclosivo, capaz de reunir o domínio decisivo em saber essencial e estar à altura da única possibilidade do último deus através daquilo que é mais difícil: a fundação de uma impiedade

Criadores e fundadores

Criadores ainda não são fundadores; criadores podem emergir na produção do costumeiro e necessário e podem justificar-se historiograficamente, tornando-se então um dia obstáculos essenciais a toda fundação.

  • fundadores fundam decisões; os essenciais tornam-se, antes de mais nada, compelidos a pensar disclosivamente o domínio da decisão através da penúria “do” Seyn

O homem entre o animal e Deus, arrancado de seu fundamento

O homem: todo pensamento metafísico, e assim o pensamento ocidental anterior em toda a extensão de sua história, determina o homem como ser vivo relacionado a Deus como causa do mundo, colocando o homem entre animal e Deus.

  • o homem permanece por toda parte arrancado de seu fundamento essencial, que, como abismo, é sua penúria, e como penúria é seu mais profundo abalo, e como abalo é sua mais extrema preparação para a apropriação “do” Seyn
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