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§3. Hermenêutica como autointerpretação da faticidade

A hermenêutica não é empregada em seu significado moderno de teoria da interpretação, mas designa a unidade de realização do ἑρμηνεύειν como interpretação da própria faticidade, tarefa de tornar acessível o ser-aí em seu caráter ontológico e de aclarar a alienação de si mesmo de que o ser-aí é atingido, configurando-se como possibilidade de o ser-aí vir a compreender-se, estar desperto para si mesmo, distinto de qualquer intencionalidade cognoscitiva dirigida a outras vidas.

  • A relação entre hermenêutica e faticidade não é a de apreensão de uma objetualidade externa, mas o próprio interpretar constitui um modo distintivo do caráter ontológico da faticidade, de modo que a hermenêutica se encontra em sua própria objetualidade, tal como se as plantas mesmas fossem a botânica.
  • Essa unidade de ser situa a realização da hermenêutica antes, temporalmente, de todo colocar em obra de ciência, comportando como possibilidade fundamental inerente a eventualidade do fracasso, o que torna essencialmente instável seu caráter de evidência, descartando qualquer ideal de visão das essências.
  • O tema da investigação hermenêutica é o ser-aí próprio em cada ocasião, cuja possibilidade mais própria de ser si mesmo, mesmo sem estar aí, denomina-se existência, sendo existenciais os conceitos originados dessa explicação, os quais não constituem esquemas mas possibilidades de ser que transpõem o ser-aí para a experiência fundamental.
  • A posição prévia da interpretação não pode estar presente tematicamente como relato completo, e essa impossibilidade constitui precisamente o sinal de seu caráter ontológico, sendo uma possibilidade de ser concreta que varia faticamente conforme a situação, jamais escolhida por capricho.
  • Corresponde a essa possibilidade de ser uma questionabilidade fundamental que reluz em todos os caracteres ontológicos — cuidado, inquietude, medo, temporalidade —, sendo somente nela que algo pode assumir o caráter de fixo, desde que o fixável possua ser.
  • A interpretação parte sempre do hoje, de uma compreensão mediana da qual a filosofia vive, e o impessoal possui algo positivo enquanto como próprio do ser-aí fático, não se admitindo na compreensão hermenêutica generalidade alguma além do formal, servindo este apenas de apoio e recurso do mundo, jamais de fim em si mesmo.
  • O colocar em ação hermenêutico não pode ser inventado, mas brota de uma experiência fundamental de estar desperto de caráter filosófico, no qual o ser-aí se encontra consigo mesmo, constituindo essa autointerpretação originária da filosofia dois traços fundamentais: ser o modo de conhecer que se dá na vida fática arrancando-se inexoravelmente para si mesma, e não ter missão alguma de velar pela humanidade ou cultura universais, sendo a filosofia apenas o que pode ser enquanto é de seu próprio tempo.
  • Esse ser de seu tempo não significa buscar o mais moderno segundo necessidades publicamente propagadas pela indústria, propaganda e extorsão intelectual, e as exigências hodiernas de atenção às coisas mesmas e de plausibilidade pública para os pressupostos não passam de gritos mascarados de medo em relação à filosofia sob a aparência de objetividade absoluta.
  • A hermenêutica mesma não é filosofia, mas algo estritamente prévio e provisório que deve ser mantido o maior tempo possível, e não uma trivialidade a ser superada rapidamente, cabendo-lhe apenas submeter à consideração dos filósofos hodiernos uma objetualidade relegada ao esquecimento em meio à grande indústria filosófica e ao pretenso ressurgimento da metafísica.
  • Na determinação indicativa do tema da hermenêutica evitam-se expressões como ser-aí humano ou ser do homem, uma vez que os conceitos tradicionais de homem — como ser vivo dotado de razão e como pessoa — provêm respectivamente da experiência grega de objetualidades hierarquizadas e da exposição cristã da criatura divina, ambos fixando elementos de algo previamente dado.
  • O conceito de ser dotado de razão perde seu sentido decisivo de ζῷον λόγον ἔχον quando λόγος é traduzido por razão, uma vez que na filosofia grega clássica λόγος significa fala e conversa, de modo que o homem é o ente que tem seu mundo ao modo do que é falado, trivialização iniciada já no estoicismo e prolongada nos conceitos modernos de pessoa fundados em Kant, no idealismo alemão e na teologia medieval.
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