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§2. O conceito tradicional de hermenêutica

A expressão hermenêutica indica o modo unitário de abordar, concentrar e acessar a faticidade, isto é, de questionar e explicar, remontando etimologicamente obscura a ἑρμηνεύειν e relacionada a Hermes, o deus mensageiro, cujo significado originário se transforma ao longo da tradição desde os gregos até Dilthey.

  • Em Platão, o intérprete (ἑρμηνεύς) designa aquele que comunica e transmite o que outro pensa, sendo os poetas mensageiros dos deuses e os rapsodos mensageiros dos mensageiros, de modo que a hermenêutica constitui a notificação do ser de um ente em seu ser em relação a alguém.
  • Em Aristóteles, ἑρμηνεία substitui διάλεκτος, o falar coloquial a respeito de algo, sendo esse falar o modo fático de realizar-se o λόγος, cuja função é o ἀληθεύειν, o desocultar e tornar acessível o que antes estava encoberto, razão pela qual o escrito Περὶ ἑρμηνείας recebeu com razão esse título, ainda que não tenha sido atribuído pelo próprio Aristóteles.
  • Através dos bizantinos, ἑρμηνεύειν generaliza-se no sentido de significar, e em Fílon e Aristeu aproxima-se de traduzir e comentar, tornando acessível em língua própria o que se encontra em língua estranha, equivalendo nas igrejas cristãs a comentário e exegese.
  • Agostinho produz a primeira hermenêutica em estilo grandioso, exigindo do intérprete temor de Deus, conhecimento linguístico e conhecimento de objetualidades naturais para dirimir as passagens obscuras da Escritura.
  • No século XVII, sob títulos como Hermeneutica sacra, a hermenêutica deixa de ser a própria interpretação para tornar-se teoria das condições, objetualidade, meios e aplicação prática da interpretação, como evidenciam as quatro partes de Rambach sobre fundamentos, sentido interno, sentido externo e literal, e descoberta legítima do sentido.
  • Schleiermacher restringe a ideia de hermenêutica à arte da compreensão da fala de outros, relacionando-a formalmente com a gramática, a retórica e a dialética, e distinguindo a hermenêutica geral das hermenêuticas especiais teológica e filológica, posição que Boeckh incorpora à sua Enciclopédia das ciências filológicas.
  • Dilthey adapta o conceito de Schleiermacher como método da compreensão fundado numa análise da compreensão enquanto tal, mas sua restrição funesta esquece épocas decisivas como a Patrística e Lutero ao seguir a hermenêutica apenas do ponto de vista da metodologia das ciências do espírito, posição já mais elevada do que a de seus seguidores sistematicamente diluídos, como Spranger.
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