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GA62 – ARISTÓTELES

Resumo do ANEXO III Interpretações fenomenológicas sobre Aristóteles (Indicação da situação hermenêutica)

  1. A fundamentação da tarefa hermenêutica parte da constatação de que toda interpretação possui um ponto de vista (Blickstand), uma posse de visão (Blickhabe) e uma trajetória de visão (Blickbahn), cuja explicitação é condição para que a apreensão do objeto seja objetiva e a situação da interpretação se torne transparente em sentido hermenêutico.
  2. A explicitação da situação hermenêutica não é um reflexo filosófico posterior e vazio, mas pertence à execução mais própria da interpretação, decidindo sobre as possibilidades de acesso e de trato com o objeto temático.
  3. O esboço apresentado se move em uma linha média, mostrando, a partir do familiar do questionamento fenomenológico, um questionamento mais original, sem, no entanto, expor o conteúdo objetivo das investigações a partir da problemática pura da facticidade.
  4. As investigações servem a uma história da ontologia e da lógica e, como interpretações, estão sob condições determinadas de interpretar e compreender, de modo que o conteúdo objetivo só pode falar adequadamente por si mesmo quando a situação hermenêutica é tornada disponível com suficiente clareza.
  5. A explicitação da situação hermenêutica para as interpretações seguintes e a delimitação de seu campo temático decorrem da convicção fundamental de que a pesquisa filosófica, por seu caráter de ser, é algo que uma época não pode tomar de outra, mas também algo que, tendo compreendido seu sentido de desempenho no existir humano, nunca pretenderá poder aliviar as épocas futuras do peso e da preocupação do questionamento radical.
  6. A possibilidade de efeito de uma pesquisa filosófica tornada passada sobre seu futuro nunca reside nos resultados como tais, mas fundamenta-se na originalidade do questionamento alcançada e concretamente desenvolvida, por meio da qual ela pode sempre se tornar novamente presente como modelo que desperta problemas.
  7. O objeto da pesquisa filosófica é o existir humano enquanto questionado sobre seu caráter de ser, e essa direção fundamental do questionamento não é algo externamente aplicado ao objeto, mas deve ser compreendida como a apreensão explícita de uma movência fundamental da própria vida fática.
  8. A vida fática tem o caráter de ser de que é pesada para si mesma e, em seu sentido fundamental, é difícil, de modo que o acesso genuinamente adequado a ela e o modo de sua preservação só podem consistir em um tornar pesado, enquanto todo facilitamento e toda acomodação sedutora já renunciam, em sua intenção fundamental, a ter em vista e em alcance o objeto da filosofia.
  9. A própria história da filosofia só é objetivamente presente para a pesquisa filosófica de maneira relevante quando ela oferece não curiosidades múltiplas, mas simplicidades radicais dignas de pensamento, e quando, em vez de distrair para fins de enriquecimento do conhecimento, ela impulsiona a presente compreensão de volta para si mesma, para o aumento do questionamento.
  10. A apropriação preocupada da história significa, para uma época em cujo caráter de ser a consciência histórica é constitutiva, compreender radicalmente o que uma pesquisa filosófica passada colocou em sua situação e em sua preocupação fundamental, e repetir isso originalmente no sentido da situação mais própria, o que não ocorre na assunção de teoremas e princípios, mas na crítica mais aguda e na formação de uma oposição frutífera.
  11. O existir fático é sempre apenas o inteiramente próprio, não o existir geral de uma humanidade qualquer, e a crítica da história é sempre apenas crítica do presente, devendo manter o olhar no presente para que ele pergunte de acordo com a originalidade que lhe é alcançável.
  12. A fixação da atitude histórica fundamental da interpretação decorre da explicitação do sentido da pesquisa filosófica, cujo objeto é o existir humano fático, e a caracterização concreta da problemática filosófica deve ser obtida a partir desse objeto, sendo necessária uma primeira delimitação preliminar do caráter específico de objeto e de ser da vida fática.
  13. A pesquisa filosófica é ela mesma um determinado como da vida fática e, em sua execução, co-temporiza o ser concreto da vida, e a possibilidade dessa co-temporização funda-se no fato de que a pesquisa filosófica é a execução explícita de uma movência fundamental da vida fática e se mantém constantemente dentro dela.
  14. Na indicação da situação hermenêutica, as estruturas do objeto “vida fática” não são caracterizadas concretamente, mas a enumeração dos elementos constitutivos mais importantes da facticidade deve tornar visível o que se quer dizer com esse termo e disponibilizá-lo como pré-posse para a investigação concreta.
  15. A confusa plurivocidade da palavra “vida” e seu uso não devem levar a simplesmente descartá-la, mas é necessário seguir as direções de significado que lhe são próprias, que permitem avançar para a objetualidade respectivamente significada, tendo em vista que o termo vida significa um fenômeno fundamental no qual se centram as interpretações grega, veterotestamentária, neotestamentário-cristã e greco-cristã do existir humano.
  16. A plurivocidade do termo tem suas raízes no próprio objeto significado, e para a filosofia, a insegurança do significado só pode ser ocasião para eliminá-la ou, se ela deve fundar-se necessariamente em seu objeto, torná-la uma plurivocidade expressamente apropriada e transparente.
  17. O sentido fundamental da movência da vida fática é o cuidar, e no cuidado direcionado para algo está presente o para quê do cuidado da vida, que é o mundo respectivo, e o para quê do cuidado é o com quê do trato, de modo que o sentido de ser-real e de existir do mundo se funda e se determina a partir de seu caráter como com quê do trato cuidadoso.
  18. O mundo se articula, segundo as possíveis direções do cuidado, como mundo ambiente, mundo co-existente e mundo próprio, e a movência do cuidado manifesta múltiplas maneiras de execução e de referência ao com quê do trato, como manusear, prover, produzir, usar, possuir, manter em guarda e deixar perder.
  19. O trato cuidadoso tem seu com quê sempre em uma certa visão, e no trato está viva, co-temporizando-o e conduzindo-o, a visão de circunstância, que é ao mesmo tempo preocupada com a formação da visão de circunstância e com a segurança e o aumento da familiaridade com o objeto do trato.
  20. O com quê do trato é apreendido de antemão pela visão de circunstância como…, orientado para…, interpretado como…, e o objetual está aí como algo que significa de tal e tal maneira, de modo que o mundo encontra no caráter da significância.
  21. O trato cuidadoso tem não apenas a possibilidade, mas também a inclinação, com base em uma tendência de movência original da vida fática, de abandonar o cuidado da orientação, e nesse bloqueio da tendência para o trato preocupado, o trato se torna um mero olhar em volta sem vistas à execução, ganhando o caráter do mero olhar para, e no cuidado do olhar, da curiosidade, o mundo é dado não como com quê do trato executivo, mas apenas na perspectiva de sua aparência.
  22. O olhar se executa como determinação que fala sobre e que se dirige a algo e pode se organizar como ciência, a qual é, portanto, uma maneira de trato com o mundo, temporizada pela vida fática para si mesma, e como tal movência de trato, é um modo de ser da vida fática e co-constitui seu existir.
  23. O estoque respectivamente alcançado de perspectividade cresce com a visão de circunstância, e o olhar em volta se executa na maneira de dirigir-se e de falar sobre a objetualidade do trato, de modo que o mundo encontra sempre em uma determinada maneira de ser dirigido, de pretensão.

- Indicação da situação hermenêutica

  1. A vida fática se move em uma determinada interpretação recebida, reelaborada ou recém-elaborada, e a visão de circunstância disponibiliza à vida seu mundo como interpretado segundo as perspectivas nas quais ele encontra como objeto de preocupação, é esperado, colocado em tarefas e buscado como refúgio.
  2. A interpretação da vida, na qual ela mesma se encontra, traça as vias de execução da movência do cuidado, e nela é co-determinado um determinado sentido de existir da vida, o “como quê” e o “como” em que o homem se mantém a si mesmo na própria pré-posse.
  3. A movência do cuidado não é um processo que ocorre para si mesmo na vida em contraposição ao mundo existente, mas o mundo está na vida e para ela, não no sentido do mero ser tido como verdadeiro e ser contemplado, pois esse modo de existir do mundo só se temporiza quando a vida fática faz uma pausa em sua movência de trato preocupada.
  4. O cuidar não está apenas referido ao seu mundo, mas na movência do cuidado está viva uma inclinação do cuidado para o mundo como a tendência a se perder nela, a se deixar levar por ela, e essa tendência da preocupação é a expressão de uma tendência fundamental da vida fática de cair de si mesma e, nisso, de se perder no mundo e, aqui, de se desintegrar.
  5. Esse caráter fundamental da movência do cuidado é fixado terminologicamente como a inclinação à decadência da vida fática, que não é um processo objetivo, mas deve ser compreendido como um como intencional, e essa inclinação é o destino mais íntimo que a vida carrega faticamente, devendo o como desse carregar ser assumido como um constitutivo da facticidade.
  6. A inclinação à decadência é tentadora, na medida em que oferece à vida, a partir do mundo, possibilidades de um facilitamento idealizante e, com isso, de um errar-se a si mesma; é tranquilizadora, na medida em que mantém a vida fática fixada nas situações de sua decadência, de modo que a vida as interpreta como quase-situações de segurança descuidada; e é alienante, na medida em que, ao se perder em seu mundo preocupado, a vida se torna cada vez mais estranha a si mesma.
  7. A tendência à decadência é a movência fundamental não apenas do trato que produz e orienta, mas também da própria visão de circunstância, do olhar e do dirigir-se e interpretar que conhece e determina, e a vida fática não apenas se toma a si mesma e se preocupa como ocorrência significativa e importância do mundo, mas também fala a linguagem do mundo sempre que fala consigo mesma.
  8. Devido à inclinação à decadência, a vida fática, que é sempre a de cada um, não é vivida como tal, mas se move em uma determinada medianidade do cuidado, do trato, da visão de circunstância, do dirigir-se e falar sobre e, em geral, do tomar-mundo, medianidade que é a da publicidade respectiva, do ambiente, da corrente dominante, do como os muitos outros também.
  9. O “impessoal” é o que vive faticamente a vida individual, e a vida fática é vivida por esse ninguém, ao qual toda vida sacrifica sua preocupação, estando sempre de alguma forma fixada em tradição e costume impróprios, nos quais se esconde de si mesma, sendo a tendência à decadência o fugir de si da vida.
  10. A vida fática não é um processo, e a morte não é um cessar no caráter do interrompimento eventual desse processo, mas a morte é algo que está diante da vida fática, diante do qual ela está como algo inevitável, e a vida é de tal maneira que sua morte está sempre de algum modo aí para ela, esteja em uma visão, seja apenas na maneira de que o “pensamento nela” é recusado e reprimido.
  11. O ter diante de si a morte, tanto na maneira da preocupação fugitiva quanto na da preocupação que apreende, é constitutivo para o caráter de ser da facticidade, e no ter apreendedor da morte certa, a vida se torna visível a si mesma, dando-lhe uma visão e conduzindo-a constantemente diante de sua mais própria presença e passado.
  12. A morte, tida como iminente na maneira que lhe é própria de tornar visível a presença e o passado da vida, é, como constitutivo da facticidade, simultaneamente o fenômeno a partir do qual a “temporalidade” específica do existir humano deve ser elevada explicativamente, determinando-se a partir do sentido dessa temporalidade o sentido fundamental do histórico.
  13. Em todo fugir de si, a vida é faticamente aí para si mesma, e no “para longe de si” ela se coloca e corre atrás do perder-se na preocupação mundana, tendo o “perder-se em” uma consideração mais ou menos explícita e não confessada sobre aquilo de que foge, que é a própria vida como possibilidade fática de ser apreendida expressamente como objeto da preocupação.
  14. Todo trato tem sua visão de circunstância, que lhe traz seu com quê na respectiva propriedade alcançável na visão condutora, e o ser da vida acessível na própria facticidade é de tal tipo que só se torna visível e alcançável pelo desvio sobre o movimento contrário ao cuidado decadente.
  15. O movimento contrário como preocupação com o não se perder da vida é a maneira em que se temporiza o possível ser próprio apreendido da vida, e esse ser de si mesmo acessível na vida fática para ela mesma é designado como existência, sendo a vida fática, como preocupada com a existência, desviante.
  16. A possibilidade de apreender preocupadamente o ser da vida é ao mesmo tempo a possibilidade de errar a existência, e a possível existência da vida fática é, como passível de ser errada, fundamentalmente questionável para a vida, não podendo a existência ser perguntada direta e geralmente, tornando-se inteligível apenas na execução do questionamento da facticidade.
  17. O movimento contrário à tendência à decadência não deve ser interpretado como fuga do mundo, pois a toda fuga do mundo é próprio não intencionar a vida em seu caráter existencial, mas formá-la em um novo mundo tranquilizador, e pela preocupação com a existência nada se altera na situação fática da vida respectiva, mas sim o como da movência da vida.
  18. A preocupação da vida fática com sua existência não é um refletir egocêntrico, sendo o que é apenas como movimento contrário à tendência à decadência da vida, ou seja, está justamente na movência concreta do trato e do cuidado, e o como do “não” testemunha uma prestação originária constitutiva do ser, tendo a negação, quanto ao seu sentido constitutivo, o primado original sobre a posição.
  19. A facticidade e a existência não dizem o mesmo, e o caráter fático de ser da vida não é determinado pela existência, sendo esta apenas uma possibilidade que se temporiza no ser da vida que é designada como fática, e isso significa que na facticidade se centra a possível problemática radical do ser da vida.
  20. Se a filosofia não é uma ocupação inventada que apenas acompanha a vida, mas, como conhecimento questionador, é a execução genuína e explícita da tendência interpretativa das movências fundamentais da vida, e se ela está decidida a trazer a vida fática para si mesma a partir de suas próprias possibilidades fáticas, então ela é fundamentalmente ateia e tem como objeto a vida fática com relação à sua facticidade.
  21. O como de sua pesquisa é a interpretação desse sentido de ser sobre suas estruturas categoriais fundamentais, ou seja, as maneiras em que a vida fática se temporiza e, temporizando, fala consigo mesma, não necessitando a pesquisa filosófica de enfeites de visão de mundo, desde que tenha compreendido que com seu objeto lhe são confiadas as condições originárias de possibilidade de toda visão de mundo.

- Ontologia e Lógica da Facticidade

  1. A problemática da filosofia diz respeito ao ser da vida fática, sendo a filosofia, nesse aspecto, ontologia principial, de modo que as ontologias regionais mundanas recebem seu fundamento problemático e seu sentido problemático da ontologia da facticidade, e a filosofia é, como ontologia da facticidade, simultaneamente interpretação categorial do dirigir-se e do interpretar, ou seja, lógica.
  2. Ontologia e lógica são reconduzidas à unidade originária da problemática da facticidade e compreendidas como os desdobramentos da pesquisa principial que se deixa designar como a hermenêutica fenomenológica da facticidade.
  3. A pesquisa filosófica tem de tornar categorialmente transparentes as interpretações concretas da vida fática, as da visão de circunstância do cuidado e da visão da preocupação, com relação à sua pré-posse e à sua pré-apreensão, e a hermenêutica é fenomenológica, o que significa que seu campo objetual, a vida fática com relação ao como de seu ser e de seu falar, é visto tematicamente e metodologicamente como fenômeno.
  4. A estrutura do objeto que caracteriza algo como fenômeno, a intencionalidade plena, não é outra senão a do objeto com o caráter de ser da vida fática, e a intencionalidade, tomada meramente como referência a, é o primeiro caráter fenomênico destacável da movência fundamental da vida, que é o cuidar.
  5. A fenomenologia é a própria pesquisa filosófica radical e, se nela se vê apenas uma ciência preliminar para fins de fornecimento de conceitos claros, não se apreenderam seus motivos mais centrais, como se se pudessem esclarecer conceitos filosóficos fundamentais descritivamente sem a orientação fundamental central e sempre renovadamente apropriada ao objeto da problemática filosófica.
  6. A ideia da hermenêutica fenomenológica da facticidade inclui em si as tarefas da doutrina formal e material do objeto e da lógica, da doutrina da ciência, da “lógica da filosofia”, da “lógica do coração”, da “lógica do destino”, da lógica do “pensamento pré-teórico e prático”, não como conceito coletivo sintetizador, mas em virtude de sua força de efeito como abordagem principial da problemática filosófica.
  7. Na ideia da facticidade está o fato de que apenas o próprio, no sentido literal, o da própria época e geração, é o objeto genuíno da pesquisa, e devido à sua inclinação à decadência, a vida fática vive na maioria das vezes no impróprio, no recebido, no que lhe é trazido e que ela se apropria de maneira mediana.
  8. A hermenêutica fenomenológica da facticidade, dentro de sua própria situação fática, necessariamente parte de uma determinada interpretação pré-dada da vida fática, que a sustenta inicialmente e da qual ela nunca pode se desvencilhar completamente, e o que é tido como evidente e não discutido nessa interpretação é o que mantém a força de efeito dominante da pré-dádiva do problema e da condução do questionar.
  9. O dirigir-se e o interpretar que a própria vida fática executa sobre si mesma se deixam pré-dar a trajetória de visão e a maneira de falar pelo objetual mundano, e onde a vida humana é objeto do questionar que determina interpretativamente, essa objetualidade está na pré-posse como ocorrência mundana, como “natureza”.
  10. A filosofia da situação atual se move em grande parte impropriamente na conceitualidade grega, cujos conceitos fundamentais perderam suas funções expressivas originais, recortadas para regiões de objeto determinadamente experimentadas, mas, apesar de toda analogização e formalização, mantém-se um determinado caráter de origem, na medida em que neles ainda se comprova a direção de significado para sua fonte objetual.
  11. A filosofia da situação atual, ao estabelecer a ideia do homem, dos ideais de vida e das representações de ser sobre a vida humana, move-se em ramificações de experiências fundamentais que a ética grega e, sobretudo, a ideia cristã do homem e do existir humano temporizaram, e mesmo as tendências anti-gregas e anti-cristãs se mantêm fundamentalmente nas mesmas direções de visão e maneiras de interpretação.
  12. A hermenêutica fenomenológica da facticidade, na medida em que quer ajudar a situação atual a uma possibilidade radical de apropriação mediante a interpretação, vê-se remetida a desmontar a interpretação recebida e dominante segundo seus motivos ocultos e tendências não expressas, e a avançar, no retorno desconstrutivo, até as fontes motivacionais originárias da explicitação, realizando sua tarefa apenas pelo caminho da destruição.
  13. A pesquisa filosófica, na medida em que compreendeu o modo de ser e de objeto de seu para quê temático, é conhecimento histórico em sentido radical, e a confrontação destrutiva com sua história não é um mero anexo para fins de ilustração, mas o caminho próprio em que o presente deve encontrar suas próprias movências fundamentais, sendo a crítica que surge da execução concreta da destruição dirigida não ao fato de se estar em uma tradição, mas ao como dela.

- A Destruição Fenomenológica e a História da Antropologia

  1. A imbricação das forças constitutivas decisivas do caráter de ser da situação atual, com vistas ao problema da facticidade, é designada como a interpretação greco-cristã da vida, na qual também devem ser incluídas as tendências interpretativas anti-gregas e anti-cristãs por ela determinadas, sendo que a ideia do homem nela estabelecida determina a antropologia filosófica de Kant e do idealismo alemão.
  2. Fichte, Schelling e Hegel vêm da teologia e trazem de lá os impulsos fundamentais de sua especulação, teologia que está enraizada na reformadora, da qual apenas em pequena medida se deu uma explicitação genuína da nova posição religiosa fundamental de Lutero, posição que, por sua vez, cresceu de sua interpretação originalmente apropriada de Paulo e Agostinho.
  3. A doutrina de Deus, da Trindade, do estado original, do pecado e da graça da escolástica tardia trabalha com os meios conceituais que Tomás de Aquino e Boaventura forneceram à teologia, o que significa que a ideia do homem e do existir da vida, estabelecida de antemão em todos esses âmbitos problemáticos teológicos, fundamenta-se na “Física”, “Psicologia”, “Ética” e “Ontologia” aristotélicas.
  4. Ao mesmo tempo, Agostinho e, por meio dele, o neoplatonismo e, por meio deste último, novamente Aristóteles, em uma medida maior do que comumente se supõe, atuam decisivamente, mas falta uma interpretação genuína com a fundamentação central na problemática filosófica fundamental exposta da facticidade.
  5. A estrutura hermenêutica da comentaçãodas Sentenças de Pedro Lombardo, que até Lutero sustenta o desenvolvimento próprio da teologia, não está desvelada, e para ter uma medida para essas transformações, é necessária uma interpretação da antropologia agostiniana que não se limite a extrair sentenças sobre psicologia segundo o fio condutor de um manual.
  6. O centro de tal interpretação de Agostinho sobre as construções ontológico-lógicas fundamentais de sua doutrina da vida deve ser tomado nos escritos sobre a controvérsia pelagiana e sua doutrina da igreja, cuja ideia atuante do homem e do existir remete à filosofia grega, à teologia patrística fundamentada gregamente, à antropologia paulina e à do Evangelho de João.
  7. No contexto da tarefa da destruição fenomenológica, o importante não é mostrar figuradamente as várias correntes e dependências, mas, nos pontos de virada decisivos da história da antropologia ocidental, trazer à tona, no retorno original às fontes, as estruturas ontológicas e lógicas centrais, tarefa que só é realizável quando uma interpretação concreta da filosofia aristotélica, orientada pelo problema da facticidade, estiver disponível.
  8. À luz do problema da facticidade estabelecido, Aristóteles é apenas a consumação e a conformação concreta da filosofia precedente, mas, ao mesmo tempo, em sua “Física”, ele ganha uma nova abordagem fundamental principial, a partir da qual crescem sua ontologia e sua lógica, sendo o fenômeno central, cuja explicitação é tema da Física, o ente no como de seu ser movido.
  9. A forma literária em que a pesquisa aristotélica é transmitida oferece o solo adequado para os intentos metódicos das interpretações seguintes, e no retorno a partir de Aristóteles, a doutrina do ser de Parmênides se torna determinável e compreensível como o passo que decidiu o sentido e o destino da ontologia e da lógica ocidentais.
  10. As pesquisas para a realização da tarefa da destruição fenomenológica têm como alvo a escolástica tardia e o período teológico inicial de Lutero, e desse ponto de vista, a atitude fundamental em relação à história e a direção do olhar para Aristóteles são determinadas.
  11. Toda interpretação deve sobressaltar seu objeto temático segundo o ponto de vista e a direção do olhar, tornando-o determinável adequadamente quando se consegue vê-lo com nitidez a partir do conteúdo determinativo acessível e, assim, retornar a uma delimitação adequada ao objeto, podendo a interpretação, como sobressaltante, não reivindicar uma objetividade fantástica no sentido do conhecimento histórico, como se atingisse um “em si”.
  12. A pergunta pelo “em si” significa desconhecer o caráter de objeto do histórico, e concluir da não encontratibilidade de tal “em si” para o relativismo e o historicismo cético é apenas o reverso do mesmo desconhecimento, sendo a tradução dos textos interpretados e dos conceitos fundamentais decisivos nascida da interpretação concreta e contendo-a como que in nuce.

- A Ontologia Aristotélica e o Ser da Vida Humana

  1. A pergunta condutora da interpretação deve ser: como qual objetualidade e com qual caráter de ser o ser-humano, que está na vida, é experienciado e interpretado, e qual é o sentido de existir no qual a interpretação da vida estabelece de antemão o objeto homem, ou seja, em qual pré-posse de ser essa objetualidade se encontra, e como esse ser do homem é explicitado conceitualmente.
  2. O campo objetual que fornece o sentido de ser original é o dos objetos produzidos e utilizados no trato, não o campo de ser das coisas como uma espécie de objeto apreendida teorética e objetivamente, mas o mundo que encontra no trato produtivo, executivo e que usa é o para quê em que a experiência original de ser visa, sendo o que ficou pronto no produzir e que chegou à sua disponibilidade para uma tendência de uso o que é.
  3. Ser significa estar produzido e, como produzido, ser relativamente significativo e disponível para uma tendência de trato, e quando o ente é objeto da visão de circunstância ou mesmo da apreensão que olha por si mesma, ele é abordado segundo sua aparência, e a apreensão que olha se explicita no dirigir-se e no falar sobre, sendo o “o quê” abordado do objeto e sua aparência de certa forma o mesmo.
  4. O que é abordado no logos como tal é o ente propriamente, e o logos traz em seu objeto de pretensão o ente à preservação em sua consistência de ser segundo a aparência, tendo a ousia, porém, o significado original, ainda atuante em Aristóteles e posteriormente, de estado doméstico, posse, do que está disponível para uso no mundo ambiente, significando a posse.
  5. O que no ente vem à preservação em termos de trato como seu ser, o que o caracteriza como posse, é o seu estar-produzido, e na produção, o objeto do trato chega à sua aparência, sendo o campo de ser dos objetos do trato e a maneira de se dirigir a eles, um logos caracterizado de determinada maneira, que marcam a pré-posse de onde são extraídas as estruturas ontológicas fundamentais.
  6. As estruturas ontológicas surgem como explicitações de uma determinação que se dirige e olha, ou seja, pelo caminho de uma pesquisa que toma em determinadas perspectivas o campo de ser trazido à pré-posse por uma experiência fundamental e o articula nessas perspectivas.
  7. As pesquisas cujo objeto é experienciado e tido no caráter do ser-movido, em cujo “o quê” é co-dado algo como movimento, devem proporcionar o acesso à fonte motivacional própria da ontologia aristotélica, tal pesquisa está presente na “Física” de Aristóteles, que deve ser tomada interpretativa-metodicamente como fenômeno pleno.
  8. A pesquisa é uma maneira de trato que olha e tem sua gênese determinada a partir do trato preocupado e orientado, tornando-se compreensível apenas a partir deste com relação à maneira de seu trato, que é o questionar de algo sobre seu “em vista de quê” e seu “a partir de onde”, sendo a visão nessa gênese fornecida pela interpretação prévia de Metafísica A 1 e 2.
  9. O compreender que olha e determina é apenas uma maneira em que o ente vem à preservação: o ente que é necessária e na maioria das vezes o que é, e um possível trato no sentido do refletir preocupado que orienta existe com relação ao ente que também pode ser diferente do que é no momento.
  10. Aristóteles interpreta as diferentes maneiras de esclarecimento do trato, segundo as regiões de ser correspondentes, em uma conexão problemática original como maneiras de execução da pura percepção que, em geral, dá visibilidade, sobre sua possível prestação fundamental de apropriação e preservação do ser, e pela interpretação dessa parte deve-se ganhar de antemão o horizonte fenomênico no qual a pesquisa e o conhecer teórico devem ser colocados.
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