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3.2 Ruinância

Introdução: a ruinância é definida como a mobilidade fundamental da vida fática que se forma a si mesma precipitando-se no vazio de seu próprio movimento, articulando-se com a pré-estrucção e a reluzência como expressão da intencionalidade, estrutura formal fundamental da faticidade, e exigindo que a interpretação fenomenológica assuma um pressuposto radical e uma contramobilidade que se desloca constantemente de volta a si mesma.

A. A retomada e a repetição da interpretação

A. A interpretação, ao retomar retroativamente o caminho já percorrido na análise do cuidar, não realiza uma comprovação arbitrária, mas cumpre um sentido fático executório que lhe permite depreender a ruinância como determinação categorial fundamental da faticidade, articulada em torno do caráter de derribamento (Sturzcharakter).

  • A cura não deve ser apreendida como ocorrência ou desenrolar-se objetivo, tampouco como luta pelo Dasein concebida ao modo de acontecer corrente, sob pena de se perder o sentido categorial próprio da cura.
  • As categorias de mobilidade da pré-estrucção e da reluzência revelam-se elas mesmas como algo móvel, de modo que contexto interpretativo e contexto de mobilidade coincidem faticamente como diversos modos de determinação categorial de um mesmo sentido de ser.

a) Acréscimo da cura: pré-ocupação (Besorgnis)

a) A pré-ocupação (Besorgnis) designa o modo pelo qual o cuidar toma sobre si mesmo a cura de um “ela” (es) mundano e não propriamente de um “si mesmo” originário, fazendo com que toda a mobilidade do cuidar se lance sobre si própria e se eleve no derribamento através da propensão, da extinção de distância e do fechamento.

  • No fechamento temporalizado pela pré-ocupação, a vida fática se fixa (festsorgt) em seu mundo sob a aparência de máxima atualidade e laborioso agenciamento (Betriebsamkeit), deixando de se conhecer a si mesma diante de si mesma.
  • O abandonar-se ao mundo do cuidar aparenta ser tarefa assumida com empenho, quando na verdade é um mero deixar-se levar que renuncia ruinantemente à clarificação.

b) Caracteres cairológicos

b) Os caracteres cairológicos dizem respeito à relação determinada e fática que cada modo de ocorrência do cuidar mantém com seu próprio tempo (kairós), evidenciando como a vida fática, na pré-ocupação, se anuncia através de caracteres ainda indeterminados como o atormentar e o corroer, que não devem ser confundidos com a categoria psicológica de sentimento.

  • O caráter de anúncio desses fenômenos não remete para frente ou para trás como mera indicação, mas constitui um modo fático de a própria vida lançar mão de si mesma a partir de seu sentido relacional específico.
  • O surgir histórico-factual desses caracteres mostra-se em sua sequência temporal própria: o primeiro impacto do tormento, seu retraimento, o retorno com novas exigências e, por fim, a alegação de que a vida fática “não tem mais tempo” para isso.
  • A ruinância retira o tempo da vida fática, buscando extinguir o histórico-factual, de modo que “não ter tempo” é a própria expressão executiva dessa ruinância, e os caracteres cairológicos tornam-se elementos categoriais de interpretação de sua elevação.

B. Quatro caracteres indicativo-formais da ruinância

B. A mirada interpretativa voltada à pré-ocupação permite fixar quatro caracteres indicativo-formais da ruinância — o sedutor (tentativo), o tranquilizador (quietivo), o alienador (alienativo) e o aniquilador (negativo) —, cuja ordem de enumeração não é arbitrária, mas expressa o próprio caráter de derribamento da mobilidade ruinante.

a) Função proibitiva da indicação formal

a) A indicação formal possui, além do caráter indicativo, um caráter proibitivo ou retrativo que impede que os caracteres da ruinância sejam tomados como propriedades fundamentais fixas de um ente, evitando assim a instauração de uma metafísica ontológica da vida como as de Bergson ou Scheler.

  • Tal fixação dogmática desvincularia os caracteres da ruinância do contexto, da pressuposição e do tempo próprios da interpretação, retirando-lhes sua validade fática.
  • Afirmar que a ruinância é, por exemplo, sedutora não significa que a sedução venha à vida de fora, mas que o próprio sentido de ser da vida fática a expõe constitutivamente a seu mundo.

b) O para-onde (Wohin) da ruinância: o nada

b) O para-onde do derribamento não constitui um âmbito estranho de acolhida nem um impacto contra algo objetual, mas revela-se como o próprio nada da vida fática, um nada que não deve ser confundido com o vazio (Leere) enquanto possibilidade de acomodamento de objetos.

  • O nada admite múltiplos sentidos fáticos e histórico-factuais — o nada do nada acontecer da história, o nada do não ter sucesso, o nada do não achar saída, o nada da falta de esperança —, todos acessíveis primeiramente através do nada do ser-estar-à-mão.
  • Esse nada temporaliza-se como aniquilação (Vernichtung) ou negação (Nichtung), definida formalmente como o próprio não ocorrer da vida fática no Dasein minante de si mesma.
  • Quanto mais premente o modo ruinante do cuidar, tanto mais a vida fática cuida, de modo cada vez menos expresso, para que ela mesma não ocorra para si mesma, mantendo o mundo vivido em seu caráter intransparente e enigmático.

c) A objetualidade (Gegenständlichkeit)

c) O não-poder-ocorrer da vida própria do mundo circunstante é constitutivo do caráter de resistência experimentado na objetualidade do mundo vivido, de modo que a imediaticidade do ser-dado desse mundo revela-se não como começo ou medida fundamental, mas como temporalização mediada na própria ruinância fática.

  • Os modos não teóricos do cuidar — o lançar-se disparado sobre as coisas, o atracar-se (Zugreifen), o colocar mãos à obra — constituem o mundo como experimentável de imediato justamente no sentido de ser da mobilidade ruinante.
  • Tanto o apego cego à imediaticidade quanto a mediação dialética fictícia, como a exigência hegeliana de mediação, mostram-se insuficientes frente à questionabilidade própria que a vida do mundo circunstante possivelmente já contém.

d) A questionalidade (Fraglichkeit)

d) A questionalidade da vida fática funda-se em sua propensão constitutiva à clarificação, que a interpretação filosófica leva a sério não para alcançar uma decisão absoluta e eterna, mas para temporalizar e sustentar concretamente o acesso à vitalidade fática.

  • É no próprio questionar, e não no modo teórico de autodar-se, que a vida fática alcança sua autodadidade (Selbstgegebenheit) genuinamente formável, exigindo o descarte dos ideais de conhecimento teórico-objetivo na execução do conhecimento filosófico.
  • O caráter ruinante do negativo temporaliza o nada da vida fática como possibilidade autêntica da própria ruinância, fazendo com que o derribamento encontre constantemente o nada sem que os caracteres minantes constituam estágios fixos e sequenciais.
  • A tarefa interpretativa remanescente interroga o sentido de ser da ruinância enquanto validação de uma condicionalidade (Zuständlichkeit) que se designa como indigência (Darbung), colocando à prova se sentido de objeto e sentido de ser da vida fática são categorialmente unânimes ou fragmentados.
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