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obra:ga56-57:1

§1

Zur Bestimmung der Philosophie. 1. Die Idee der Philosophie und das Weltanschauungsproblem (post war semester 1919); 2. Phänomenologie und transzendentale Wertphilosophie (SS 1919); 3. Anhang: Über das Wesen der Universität und akademischen Studiums (SS 1919) [1987]

§ 1. Filosofia e visão de mundo

A) A visão de mundo como tarefa imanente da filosofia

A tentativa inicial de compreender o sentido do tema do curso revela que a filosofia, ao se elevar acima das visões de mundo triviais e cotidianas para constituir-se em pensamento próprio e autônomo emancipado dos dogmas religiosos, cumpre sua tarefa mais própria justamente na formação de uma visão de mundo, de modo que toda grande filosofia culmina em metafísica e o “e” do título do curso não é mera justaposição, mas expressão da identidade essencial entre filosofia e visão de mundo.

  • Os grandes pensadores são reconhecidos como “grandes” não apenas pela agudeza e coerência de seu pensamento, mas sobretudo pela profundidade e pelo alcance com que apreendem o mundo em seu sentido último e em sua origem.
  • A partir do conhecimento das ciências particulares, da vida artística, literária e sociopolítica, tais pensadores alcançam uma compreensão última desses domínios do espírito, conduzindo natureza e espírito, ora a uma origem comum (Deus, extra mundum ou idêntico ao ente), ora à redução de um ao outro.
  • No âmbito dessas concepções fundamentais do mundo, o homem encontra explicações apropriadas à sua vida individual e social, e a cultura se revela como sentido e fim da existência e da criação humanas.
  • A visão de mundo, assim, não se justapõe à filosofia como tema externo, mas exprime com maior precisão a essência e a tarefa desta última, de sorte que o exame do problema se converte em exame histórico-filosófico de como a filosofia sempre desempenhou essa tarefa.

B) A visão de mundo como limite da ciência crítica dos valores

Em oposição à primeira interpretação, a teoria do conhecimento contemporânea, situada na esteira do pensamento kantiano, reduz a possibilidade de uma metafísica no sentido tradicional e funda a filosofia como ciência crítica dos valores, da qual decorre uma visão de mundo científica compreendida como interpretação do sentido da existência humana referida a um sistema de valores válidos absolutamente.

  • A filosofia encontra fundamento científico na teoria crítica do conhecimento, sobre cujas intuições fundamentais se assentam a ética, a estética, a filosofia da religião e a própria lógica, todas remetidas a valores últimos e validades absolutas ordenáveis sistematicamente.
  • O sistema dos valores fornece os meios científicos para o desenvolvimento de uma visão de mundo crítica e científica, em oposição rigorosa a toda especulação não crítica e a todo monismo construtivo.
  • Mantendo-se fiel ao criticismo gnosiológico, a filosofia permanece no domínio da consciência, cujos três modos fundamentais de atividade — pensar, querer, sentir — correspondem aos valores lógico, ético e estético, unificados na valoria do sagrado.
  • A formação dessa visão de mundo depende também da tomada de posição pessoal do filósofo diante da vida, do mundo e da história, ainda que tal posição deva regular-se pelos resultados da filosofia científica, da qual a subjetividade pessoal permanece excluída, tal como ocorre em toda ciência.
  • A visão de mundo não constitui, aqui, tarefa própria da filosofia científica no mesmo sentido em que o é o sistema dos valores; ela se situa antes no limite imediato da filosofia, unida a esta apenas na personalidade do filósofo.

C) O caráter paradoxal do problema das visões de mundo. Incompatibilidade entre filosofia e visão de mundo

A decisão crítica entre as duas concepções expostas favorece claramente a segunda, de orientação científica, tal como atestam as correntes filosóficas contemporâneas mais influentes, o que conduz à questão formal de saber se essas duas formulações esgotam todas as concepções possíveis do tema, revelando ao final um paradoxo autêntico que compromete toda a filosofia até então e que consiste em perguntar se a formação de uma visão de mundo pertence de algum modo à filosofia.

  • A história da filosofia mostra que esta, em suas formas mais diversas, conserva sempre alguma conexão com a questão da visão de mundo, de modo que as concepções possíveis do tema diferem apenas quanto ao modo dessa conexão.
  • Permanece em aberto a possibilidade de que não haja conexão alguma entre filosofia e visão de mundo, hipótese que exigiria um conceito inteiramente novo de filosofia, inteiramente desligado das questões últimas da humanidade, privando-a assim de seus privilégios mais antigos.
  • Mesmo a filosofia científica, como ciência crítica dos valores fundada nas atividades da consciência, manifesta em seu próprio sistema uma tendência última e necessária a constituir-se em visão de mundo, o que agrava o paradoxo.
  • O problema das visões de mundo adquire então nova significação: seria preciso demonstrar a completa alteridade da visão de mundo enquanto tal, e não apenas desta ou daquela visão particular, o que só pode ocorrer confrontando-a com a filosofia por meio dos próprios métodos filosóficos.
  • O nó do problema reside, por fim, na própria filosofia, cuja essência e conceito se tornam a questão cardeal, formulada como a ideia da filosofia enquanto ciência originária.

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