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A QUESTÃO ACERCA DA VERDADE COMO QUESTÃO FUNDAMENTAL
§ 4. A verdade como “problema” da “lógica” — correção do enunciado — distorce a visão da essência da verdade
A redução tradicional da verdade a um “problema” da lógica, fundada na determinação do logos como enunciado e da verdade como correção do enunciado em sua orientação pelo ente, encobre a possibilidade de uma questão originária acerca da essência da verdade, pois transforma em problema previamente fixado aquilo que deveria permanecer aberto ao questionamento fundamental e submete de antemão sua investigação ao campo de visão constituído pela lógica desde Platão e Aristóteles.
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O “problema” distingue-se da questão filosófica autêntica por já se encontrar fixado em sua forma, de modo que resta apenas procurar respostas, modificar soluções herdadas ou conciliar opiniões existentes, enquanto o questionamento originário precisa ainda conquistar a própria questão e reconduzi-la ao fundamento de que surgiu.
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A tradição não é simplesmente arbitrária, porque conserva rastros de uma necessidade originária; esses rastros, contudo, somente se tornam visíveis quando aquilo que foi transmitido é reconduzido ao fundamento que se tornou encoberto.
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A lógica, como saber acerca do logos entendido como enunciado, recebe seu estatuto porque o enunciado se dirige ao ente, diz o que ele é e como é e pode orientar-se corretamente por ele, tornando-se, assim, o lugar tradicional da verdade e também da falsidade.
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A correção do enunciado tornou-se, na tradição, a determinação corrente da verdade: o enunciado é verdadeiro quando se retifica pelo ente e o re-presenta tal como ele é.
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A verdade passou, desse modo, a constituir uma propriedade eminente do logos, razão pela qual seu tratamento foi incorporado inicialmente à lógica e, posteriormente, à teoria do conhecimento, que permanece essencialmente determinada pela mesma estrutura lógica.
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Desde Platão e Aristóteles, a pergunta acerca da verdade percorre as vias abertas pela lógica, estrutura que continua atuante nas filosofias de Kant, Hegel e Nietzsche, embora nesses pensadores a questão da verdade não se reduza a mero interesse disciplinar pela lógica.
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O interesse humano pela verdade nasce da própria exposição do homem ao ente, mas o domínio histórico da lógica conduziu esse interesse para uma direção previamente determinada, fazendo com que mesmo perguntas surgidas independentemente da lógica fossem tratadas dentro de seus pressupostos.
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A verdade permaneceu, por isso, durante séculos, um “problema da lógica”, sem alcançar ainda o estatuto de questão fundamental da filosofia.
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Mesmo Nietzsche, ao partir da ausência de posse da verdade, perguntar por seu “valor” e investigar a origem da “vontade de verdade”, permanece vinculado ao campo previamente configurado pela lógica.
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Torna-se, assim, necessário considerar a possibilidade de que a própria lógica, por seus pressupostos essenciais, não apenas limite, mas distorça a visão da essência da verdade e nem sequer alcance a região originária na qual a questão poderia efetivamente ser colocada.
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A longa tradição lógica afastou progressivamente a pergunta acerca da verdade de seu solo originário, e o predomínio dessa tradição no pensamento moderno torna inevitavelmente estranho, e até aparentemente insensato, qualquer questionamento que procure retornar à essência originária da verdade.
§ 5. Discussão da verdade a partir da questão fundamental da filosofia juntamente com a inserção de uma confrontação histórica com a filosofia ocidental. Urgência e necessidade de um questionamento originário
A investigação da verdade como questão fundamental da filosofia exige abandonar sua redução a um problema lógico e realizar simultaneamente uma confrontação histórica com a totalidade da filosofia ocidental, não como conhecimento historiológico do passado, mas como apropriação pensante da história que permita experimentar a necessidade e a urgência de uma nova colocação originária da questão.
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A confrontação histórica não consiste em registrar ou calcular aquilo que ocorreu anteriormente, mas em atravessar pensantemente a tradição no próprio ato de questionar a verdade, tornando visível o fundamento que nela permaneceu oculto.
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A questão acerca da verdade pode parecer presunçosa porque parece pressupor a possibilidade de decidir algo primeiro e último; entretanto, sua afinação própria exige antes retração diante daquilo que é maximamente digno de questão.
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Tratar a verdade como questão fundamental significa honrá-la pela primeira vez a partir de seu fundamento, libertando o questionamento da postura que apenas manipula um problema já constituído e de toda pretensão de posse imediata de respostas.
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A necessidade do questionamento originário precisa ser efetivamente experimentada, pois somente ela pode justificar a saída de uma determinação da verdade que permaneceu dominante durante aproximadamente dois milênios.
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A insuficiência da concepção tradicional não pode ser simplesmente afirmada exteriormente: precisa tornar-se manifesta a partir da própria determinação herdada da verdade, fazendo aparecer nela aquilo que permaneceu inquestionado e exige retorno à essência mais originária da verdade.
REPETIÇÃO
1) A questão acerca da verdade como o que há de mais necessário à filosofia na era da total ausência de questionamento
A entrada do homem na era da completa ausência de questionamento de todas as coisas e de todas as maquinações torna a filosofia, enquanto evocação questionadora do que há de maximamente digno de questão, simultaneamente o mais estranho e o mais necessário, de modo que sua tarefa fundamental se concentra na questão simples e difícil acerca da verdade, capaz de reconduzir os questionadores à própria relação com o seer (Seyn).
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A situação histórica do homem não pode ser determinada adequadamente por historiologia ou por visões de mundo, mas apenas metafisicamente, como ingresso em uma época na qual a ausência de questionamento alcança tanto as coisas quanto as maquinações.
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A filosofia torna-se tanto mais necessária quanto mais estranha aparece em uma época que perdeu a disposição para questionar aquilo que sustenta e determina o ente.
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O necessário manifesta sua máxima força no simples, entendido não como aquilo que é fácil, mas como aquilo que, apesar de parecer imediatamente evidente e palpável, permanece o mais difícil de alcançar em sua essência.
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O multifacetado favorece a dispersão e, com ela, a fuga do homem diante de si mesmo, isto é, diante de sua relação com o próprio seer, retirando do ser-aí o peso que o poderia reconduzir à reunião essencial.
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O progresso do difícil para o fácil proporciona alívio, mas justamente por isso fracassa diante do simples, que exige retorno reiterado e sempre mais enriquecido ao mesmo.
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O campo próprio do necessário somente se abre quando se ousa permanecer junto ao simples, e a questão mais simples e mais necessária à filosofia é precisamente a questão acerca da verdade.
2) O digno de questão na determinação até aqui da verdade — verdade como correção do enunciado — como o que urge para a questão acerca da verdade
A concepção tradicional da verdade como correção da representação do ente, sedimentada de modo privilegiado no enunciado e por isso incorporada à lógica, somente pode ser ultrapassada por um questionamento originariamente necessário quando se experimenta que essa determinação aparentemente evidente contém algo ainda digno de questão e cuja investigação não pode ser evitada por quem pretenda compreender o que significa verdade.
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Toda representação do ente implica um exprimir-se acerca dele, ainda que silenciosamente, encontrando no enunciado sua forma mais corrente e, consequentemente, o lugar em que a correção da representação é tradicionalmente localizada.
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A verdade torna-se, assim, correção do logos, e a determinação de sua essência passa a ser considerada tarefa da reflexão lógica sobre o enunciado.
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Uma nova questão somente se torna necessária se aquilo que parecia definitivamente estabelecido revelar em si um elemento que não pode permanecer inquestionado.
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O caráter digno de questão da correção precisa, portanto, ser examinado para determinar se nele se encontra algo que não possa ser simplesmente ultrapassado sem ser previamente reconhecido, honrado e interrogado como questão.
§ 6. A definição tradicional da verdade como correção
A definição tradicional da verdade compreende o conhecimento ou o enunciado como verdadeiro quando se orienta pelo objeto e concorda com ele, determinação expressa historicamente como rectitudo, adaequatio, assimilatio e convenientia e reconduzida a Aristóteles, segundo a qual a representação deve apresentar o ente tal como ele é, sem tornar-se materialmente semelhante à coisa representada.
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A adequação não pode significar transformação física da representação na coisa, pois uma representação da pedra não se torna pétrea, assim como uma representação da mesa não se torna madeira nem uma representação do rio se torna fluida.
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Adequar-se significa que o re-presentar deve a-presentar diante de si o ente encontrado, mantendo-o presente segundo aquilo que ele próprio é.
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O pensamento orienta-se ou se retifica pelo ente para fazê-lo aparecer no enunciado tal como ele é.
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A relação entre representação e objeto parece tão natural que quase desaparece como questão, sobretudo para uma compreensão ainda não perturbada pelas construções da teoria do conhecimento.
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Mesmo o engano e a ilusão pressupõem a orientação normativa pela coisa, porque somente é possível enganar alguém que já se move na expectativa de uma representação correta do ente.
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A correção permanece, portanto, normativa inclusive para a incorreção, razão pela qual a concepção tradicional de verdade se consolidou como evidência aparentemente indiscutível.
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Sua fórmula corrente permanece: verdade é a concordância do conhecimento, da representação, do pensamento, do juízo ou do enunciado com o objeto.
§ 7. A contenda entre idealismo e realismo sobre o solo comum da verdade como correção da representação
A oposição entre idealismo e realismo não atinge a determinação fundamental da verdade, pois ambos permanecem sobre o mesmo solo ao concebê-la como correção da representação, divergindo apenas quanto ao alcance do representar — se este alcança a própria coisa ou somente aquilo que é representado na consciência — e deixando, portanto, inquestionado o fundamento comum que torna possível sua própria disputa.
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A dúvida idealista acerca do acesso à própria coisa restringe o representar ao representado enquanto conteúdo da consciência, mas continua exigindo que a representação se oriente corretamente pelo que nela é representado.
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Mesmo quando o conhecimento é concebido como ligação de representações que ocorre inteiramente na consciência, continua pressuposto algo normativo pelo qual a atividade representativa precisa orientar-se.
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O idealismo sustenta que o representar se relaciona apenas com o perceptum ou a idea; o realismo, por sua vez, afirma que o representar alcança a res e seus realia.
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A oposição entre ambos não altera a concepção fundamental segundo a qual a relação do homem com o ente tem a forma do representar e sua verdade consiste na correção desse representar.
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Kant conserva expressamente a determinação tradicional da verdade como concordância do conhecimento com o objeto, sem que isso faça dele uma testemunha do realismo, pois o próprio realismo continua alcançando a res pela via da representação, da idea.
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Idealismo e realismo constituem, assim, posições extremas derivadas de uma mesma pressuposição, e as numerosas doutrinas intermediárias são apenas modificações, misturas ou formas híbridas desse mesmo campo.
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A disputa entre essas posições pode prosseguir indefinidamente sem chegar à meditação essencial porque nenhuma delas questiona o solo sobre o qual a própria controvérsia se movimenta.
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Quanto mais evidente parecer a definição da verdade como correção, mais simples e, simultaneamente, mais difícil será apreender aquilo que nela permanece digno de questão e reconduzi-lo ao fundamento encoberto.
§ 8. O campo de jogo da abertura quádrupla e una. Primeira referência ao que há de digno de questão na definição tradicional da verdade como correção
Toda correção da representação pressupõe uma abertura quádrupla e ao mesmo tempo una — abertura da coisa, do âmbito entre coisa e homem, do homem para a coisa e do homem para o homem — que não é produzida pela representação correta, mas já vigora como seu fundamento, solo e campo de jogo, tornando digna de questão a própria determinação tradicional da verdade como correção.
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Para que um enunciado como “a pedra é dura” possa orientar-se pela pedra, a própria coisa precisa estar previamente patente e disponível como medida normativa da representação.
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Também precisa estar aberto o âmbito intermediário no qual o movimento de orientação entre o homem e a coisa pode ocorrer e no qual aquilo que caracteriza o ente pode ser apreendido representativamente.
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O homem que representa precisa estar aberto àquilo que vem ao seu encontro, pois somente nessa abertura pode encontrar o ente e orientar-se por ele.
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O homem também precisa estar aberto para o outro homem, a fim de que a comunicação do enunciado permita uma co-representação e uma concordância compartilhada sobre a coisa no ser-com.
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Essas quatro dimensões não constituem aberturas isoladas, mas pertencem a uma única abertura articulada na qual correção e incorreção podem entrar em jogo.
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A abertura não resulta da correção; ao contrário, a correção somente pode acontecer porque já se encontra sustentada e envolvida por essa abertura.
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Ao considerar a correção como algo último e autoevidente, a concepção tradicional da verdade ignora o fundamento que a torna possível e permanece, nesse sentido, desprovida de solo.
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Logo que a abertura é reconhecida como possibilitação e fundamento da correção, a própria determinação da verdade como correção deixa de ser evidente e torna-se efetivamente digna de questão.
§ 9. A concepção da verdade e a concepção da essência do homem. A questão fundamental acerca da verdade
a) A determinação da essência da verdade em sua conexão com a determinação da essência do homem
A determinação tradicional da verdade como correção encontra-se historicamente vinculada à determinação igualmente tradicional do homem como animal rationale, pois a compreensão da razão como apreensão imediata do ente faz do homem essencialmente aquele que apreende e representa o ente, abrindo a questão ainda indecidida sobre se a concepção da verdade depende da concepção da essência humana ou se, inversamente, é a compreensão do homem que depende da concepção previamente dominante da verdade.
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A ausência de questionamento acerca do fundamento da correção torna-se compreensível quando se considera que a relação representativa e apreensiva do homem com o ente adquiriu desde a Antiguidade a aparência de relação mais natural e imediata.
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O predomínio dessa relação foi tão profundo que a própria essência do homem passou a ser compreendida a partir dela.
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A antiga definição do homem como animal rationale não significa apenas “animal dotado de razão”, pois, metafisicamente, ratio e nous remetem à apreensão do ente.
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O homem é, assim, determinado como aquele ente cuja essência consiste em apreender o ente, estabelecendo-se uma ligação histórica profunda entre a concepção da verdade como correção e a antropologia metafísica tradicional.
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Permanece aberta a questão decisiva acerca da direção dessa dependência: se a essência da verdade é determinada a partir da essência do homem ou se a própria essência do homem somente pode ser determinada a partir de uma concepção previamente estabelecida da verdade.
b) A questão acerca do fundamento da possibilidade de toda correção como questão fundamental acerca da verdade
A passagem da verdade como simples correção para a verdade como questão fundamental exige investigar o fundamento que torna toda correção possível, isto é, a abertura múltipla e una anteriormente indicada, cuja essência, consistência, raridade histórica e possível experiência pelo homem permanecem ainda obscuras, mas cuja investigação se torna inevitável precisamente porque a concepção tradicional da verdade já não pode ser aceita como definitivamente suficiente.
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O elemento digno de questão descoberto na concepção tradicional precisa ser reconhecido não como detalhe secundário, mas como fundamento da própria possibilidade de toda correção.
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Perguntar por esse fundamento significa deslocar a investigação de um problema lógico já constituído para a questão fundamental acerca da verdade.
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A referência à abertura permanece ainda provisória e exterior, servindo apenas para mostrar que a definição tradicional contém algo cujo fundamento não foi esclarecido.
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Ainda não se sabe propriamente o que é essa abertura quádrupla e una, onde ela se funda, como permanece em sua essência nem por que foi tão raramente pressentida ao longo da história.
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Também permanece indeterminado o que acontece ao homem quando a ex-periência desse fundamento se realiza em toda a sua amplitude.
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A duração histórica de aproximadamente dois milênios e meio da concepção da verdade como correção não elimina a necessidade de questioná-la, mas torna ainda mais urgente compreender por que ela pôde permanecer suficiente durante tanto tempo.
REPETIÇÃO
1) A relação entre pergunta e resposta no âmbito da filosofia
No âmbito da filosofia, a relação entre pergunta e resposta não se mede pela rápida obtenção de proposições definitivas, pois o decisivo encontra-se no exercício efetivo do questionamento, comparável à subida de uma montanha em que somente a realização dos passos, com seus avanços, recuos, escorregões e até quedas, permite aproximar-se daquilo que se busca e experimentar a própria coisa em sua elevação.
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A filosofia não consiste na proclamação de verdades eternas, mas na realização de um questionamento cuja correção precisa ser conquistada no próprio percurso.
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Aquele que exige imediatamente respostas perde a estrutura própria da investigação filosófica, na qual a pergunta não é simples preparação descartável para uma solução, mas dimensão constitutiva do acesso à coisa.
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Assim como não se sobe uma montanha permanecendo no plano e falando sobre ela, não se alcança a questão filosófica permanecendo no âmbito da opinião habitual e formulando juízos externos sobre aquilo que deveria ser realizado.
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A aproximação do cume exige iniciar a subida mesmo quando, durante o percurso, o próprio cume deixa de permanecer continuamente visível.
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O resvalar, o retrocesso e até a queda pertencem à possibilidade de uma confrontação autêntica, porque somente quem efetivamente sobe pode cair.
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Filosofia, arte e toda confrontação criadora com o ente não podem ser julgadas pelo chamado entendimento humano saudável, pelo suposto instinto natural ou pela mera argúcia intelectual, pois somente se tornam acessíveis em sua realização efetiva.
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Apropriar-se de proposições isoladas sem acompanhar a sequência interna dos passos significa não acompanhar o pensamento, pois somente o encadeamento do percurso permite que a coisa mesma se descerre.
2) A determinação corrente da verdade como correção da representação e a abertura quádrupla e una como fundamento digno de questão da possibilidade da correção da representação
Apesar da variedade histórica das teorias do conhecimento, inclusive da oposição entre idealismo e realismo, permanece dominante a definição da verdade como correção da representação, mas essa aparente evidência repousa sobre a abertura quádrupla e una da coisa, do âmbito entre coisa e homem, do homem para a coisa e do homem para o homem, abertura que antecede toda orientação representativa e constitui o fundamento ainda obscuro e digno de questão da possibilidade da própria correção.
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Idealismo e realismo não divergem quanto à essência da verdade, mas apenas quanto à amplitude do representar: o realismo sustenta o acesso à res e à realitas, enquanto o idealismo restringe a representação ao perceptum e à idea.
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Ambas as posições mantêm a mesma determinação normativa da verdade como correção da representação e, por isso, permanecem inseridas no mesmo horizonte lógico e epistemológico.
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A correção somente pode ocorrer porque a coisa já se encontra aberta, porque existe um âmbito aberto entre ela e o homem, porque o próprio homem está aberto ao ente e porque existe abertura entre os homens.
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O orientar-se ou retificar-se pela coisa não cria essa abertura, mas nela se insere a cada vez como em uma dimensão que já vigora previamente.
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A abertura é, portanto, fundamento da possibilidade da correção e torna-se justamente por isso aquilo que deve ser interrogado quando a verdade deixa de ser tratada como evidência lógica.
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A longa duração histórica da determinação tradicional pode parecer motivo para abandonar o questionamento, mas constitui antes a dificuldade específica diante da qual precisa ser conquistado o acesso ao fundamento até então encoberto.
c) A questão acerca da verdade como o mais questionável de nossa história até aqui e como o que há de mais digno de questão de nossa história por vir
A situação histórica do Ocidente transforma a questão acerca da verdade de simples problema lógico no que há de mais questionável de sua história passada e de mais digno de questão de sua história futura, pois a perda ou o encobrimento das metas, a alternativa entre destruição do que existiu e resistência a essa destruição e a necessidade de decisões fundadoras exigem um novo estabelecimento de metas cuja possibilidade depende da meditação sobre o fundamento da verdade.
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A multiplicação de correções não garante a posse da verdade, podendo precisamente encobrir a possibilidade de que, em meio a inúmeras determinações corretas, a própria verdade tenha sido perdida.
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A situação metafísica do Ocidente caracteriza-se pelo encobrimento das metas e pela busca de saídas diante da alternativa entre destruição daquilo que vigorou e resistência contra essa destruição.
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Encontrar uma saída não equivale ainda a tomar uma decisão, porque decisões históricas extremas exigem metas que ultrapassem toda utilidade e toda finalidade imediata.
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Somente metas dessa ordem podem conferir urgência a um novo criar e fundar, e sua instauração pressupõe um solo e um campo de visão nos quais a própria decisão possa ser preparada.
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A questão decisiva passa a ser se o homem ocidental chegou sequer à proximidade de tal decisão ou à preparação de suas condições.
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Sob essa perspectiva, a verdade já não pode permanecer confinada à lógica, pois seu questionamento toca a própria possibilidade de fundação histórica do futuro.
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A tarefa daqueles que não pretendem regressar ao que foi nem simplesmente aderir à ideia de “progresso” consiste em avançar para o interior de um futuro ainda encoberto mediante uma meditação primeira, constante e derradeira.
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Como o questionamento acerca da verdade já se encontra historicamente envolvido em confusões e afastado de sua direção originária, torna-se necessário começar por uma meditação sobre aquilo que é fundamental na própria questão da verdade.
