obra:ga42:5
§5
PRIMEIRA PARTE: PARA A POSSIBILIDADE DE UM SISTEMA DA LIBERDADE. A INTRODUÇÃO DO TRATADO DE SCHELLING (I. Abt., VII, 336-357)
PRIMEIRO CAPÍTULO: O conflito interno no pensamento de um sistema da liberdade. A introdução da introdução (336-338)
§ 5. A nova abordagem no Idealismo Alemão: a filosofia como intuição intelectual do Absoluto
a) O passo para além de Kant. O conhecimento no sentido da intuição intelectual
-
A filosofia, para Kant, é a teleologia da razão humana; para o Idealismo Alemão, ela é a intuição intelectual (intellektuelle Anschauung) do Absoluto, um conhecimento não sensível do ente em sua totalidade (Deus, mundo, homem).
-
Se as ideias de Kant (Deus, mundo, homem) não são meras ficções, elas devem ser conhecidas por um tipo de conhecimento que não as toma como objetos (Gegenstände) dados pelos sentidos, mas como algo não-objetual (ungegenständlich), embora não seja um nada (nicht nichts).
-
Esse conhecimento do todo do ente é um saber que não tem o Absoluto como objeto fora de si, nem como um pensamento dentro de si (no sujeito), mas é um conhecimento no qual o Absoluto é tanto o que conhece quanto o que é conhecido, em uma unidade originária.
-
A intuição intelectual é a faculdade de ver o universal no particular, o infinito no finito, unidos em uma unidade viva; é a “evidência em toda evidência, a verdade em toda verdade” (Schelling), que supera a oposição entre pensar e ser.
-
A exigência da intuição intelectual não é um retorno ao dogmatismo pré-crítico, pois, para o Idealismo Alemão, o Absoluto não é uma substância dada, mas se mostra no saber absoluto, que é a unidade do pensar e do ser no conhecimento.
-
O Idealismo Alemão, portanto, não nega a crítica kantiana, mas a radicaliza ao mostrar que o conhecimento do Absoluto não é um conhecimento de objetos, mas um saber que é, ele mesmo, o Absoluto em sua manifestação.
b) Retrospecção sobre o trabalho no “sistema”
-
A filosofia é agora concebida como intuição intelectual do Absoluto, superando as dificuldades kantianas, pois o Absoluto não é um objeto, mas a própria unidade do pensar e do ser, que se manifesta no saber.
-
A filosofia do Idealismo Alemão supera o dogmatismo não por negar o Absoluto, mas por compreendê-lo como a unidade do ser e do pensar no saber, onde o Absoluto não está nem fora (como objeto) nem dentro (como pensamento subjetivo), mas é a própria relação.
c) A história como caminho do saber absoluto para si mesmo
-
A história, para o Idealismo Alemão, torna-se pela primeira vez um objeto metafísico de compreensão: não mais uma sucessão de eventos ou opiniões, mas o caminho do saber absoluto para si mesmo, a auto-realização do espírito.
-
A história da filosofia é compreendida como o movimento necessário do espírito, e os próprios filósofos do Idealismo Alemão se veem como épocas necessárias nessa história.
-
Essa compreensão da história como a auto-configuração do espírito é uma grande descoberta da época, que transforma a filosofia em uma compreensão de seu próprio movimento histórico.
obra/ga42/5.txt · Last modified: by 127.0.0.1
