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obra:ga42:1

§1

1. A obra de Schelling e a tarefa da interpretação

a) O tratado sobre a liberdade na sinopse dos acontecimentos históricos de 1809

  • A obra “Investigações filosóficas sobre a essência da liberdade humana e os objetos com ela relacionados” foi publicada em 1809, num contexto histórico e político de profunda crise na Alemanha, marcado pela dominação napoleônica.
  • 1809 é um ano de virada: enquanto Napoleão dominava a Alemanha e a Prússia sofria a derrota de Jena (1806), o espírito alemão reagia através de figuras como Fichte, Schleiermacher e Stein, que preparavam a fundação da Universidade de Berlim e a reorganização do Estado prussiano como “Estado da inteligência”.
  • A política não é o destino, mas o espírito (Geist), e a essência do espírito é a liberdade, tese que se contrapõe à frase de Napoleão a Goethe.
  • A obra de Schelling é considerada sua maior realização e um dos trabalhos mais profundos da filosofia alemã e ocidental, contrastando com a “Fenomenologia do Espírito” de Hegel (1807), que continha uma crítica explícita a Schelling e marcou a ruptura entre os dois amigos.
  • Os três amigos de Tübingen (Schelling, Hegel, Hölderlin) seguiram caminhos distintos, mas cada um, à sua maneira, configurou o espírito alemão, cuja transformação em força histórica ainda não se completou.
  • A carreira de Schelling até 1809 foi extremamente produtiva, com obras fundamentais como o “Primeiro esboço de um sistema de filosofia da natureza” (1799) e o “Sistema do idealismo transcendental” (1800), que abriram novos caminhos para o idealismo e para a própria filosofia de Hegel.
  • Após o tratado sobre a liberdade, Schelling entrou em um longo período de silêncio editorial (45 anos), que não significou um esgotamento de sua força criativa, mas sim a dificuldade de lidar com as novas questões que o tratado suscitara.

b) Intenção imediata e procedimento da interpretação

  • O silêncio de Schelling após 1809 é um indício da novidade e da dificuldade do questionamento que ele empreendeu, e não uma falência intelectual.
  • O fracasso de Schelling e Nietzsche em realizar suas obras principais (o “Sistema” e a “Vontade de Poder”) é, na verdade, um sinal positivo, um prenúncio de um novo começo na filosofia ocidental.
  • A interpretação do tratado sobre a liberdade tem três intenções imediatas:
    • Compreender a essência da liberdade humana, elevando a questão da liberdade ao centro da filosofia.
    • Aproximar a filosofia de Schelling em seu todo e em seus traços fundamentais.
    • Alcançar uma compreensão do idealismo alemão em seu conjunto, a partir de suas forças motrizes, considerando Schelling o pensador mais criativo e abrangente dessa época.
  • O procedimento de interpretação será um acompanhamento passo a passo do tratado, desenvolvendo o que é necessário saber historicamente e conceitualmente, de modo que a obra se revele como parte do acontecimento da filosofia do idealismo alemão e seu destino mais íntimo.

c) Dados biográficos de Schelling, edições de suas obras e escritos sobre ele

  • A vida exterior de Schelling é secundária em comparação com sua obra, mas alguns dados ajudam a situá-lo historicamente.
  • Schelling nasceu em Leonberg (1775), estudou em Tübingen com Hölderlin e Hegel (1790-1795), onde foi influenciado por Kant, pela Revolução Francesa e pelo panteísmo.
  • Em 1798, tornou-se professor em Jena, por indicação de Fichte e Goethe, onde viveu seu período mais fértil (1798-1803), estabelecendo seu sistema.
  • Em 1806, mudou-se para Munique, onde permaneceu até 1841, quando foi chamado para suceder Hegel em Berlim, sem, contudo, obter o mesmo sucesso.
  • Schelling é frequentemente acusado de mudar de posição, mas na verdade lutou apaixonadamente por um único lugar (Standort) filosófico, ao contrário de Hegel, que encontrou seu sistema cedo e o desenvolveu com segurança.
  • Para o estudo de Schelling, são indicadas as “Obras completas” (ed. K. F. A. Schelling), a edição de Schröter, a seleção em três volumes da Felix Meiner, e as cartas editadas por Plitt.
  • Como obras secundárias, destacam-se a apresentação de Kuno Fischer (sólida, embora ultrapassada) e o livro de H. Knittermeyer (mais recente, mas influenciado pela teologia dialética), além dos estudos de Dilthey para uma compreensão mais ampla do espírito da época.

d) Explicação do título completo do tratado como introdução à questão do Ser (Seyn)

  • A frase-guia da interpretação é de Schelling: “Quem quer honrar um filósofo, deve compreendê-lo onde ele ainda não avançou para as consequências, em seu pensamento fundamental… [no pensamento] do qual ele parte.”
  • O título completo é “Investigações filosóficas sobre a essência da liberdade humana e os objetos com ela relacionados”, indicando que não se trata de um tratado sobre o “problema do livre-arbítrio”.
  • A liberdade não é uma propriedade do homem; o homem é, antes, propriedade da liberdade. A liberdade é a essência abrangente e determinante, na qual o homem, ao ser recolocado, torna-se homem.
  • A essência do homem fundamenta-se na liberdade, e a própria liberdade é uma determinação do Ser (Seyn) propriamente dito, que transcende todo Ser humano.
  • A investigação, ao tratar da liberdade humana, trata de uma espécie determinada de liberdade como essência do Ser propriamente dito, perguntando pela essência do homem e, para além dele, pelo Ser como fundamento do ente em sua totalidade.
  • A questão pela liberdade conduz à questão pelo Ser (Seyn) em geral, o que é indicado pelo acréscimo “e os objetos com ela relacionados”, tornando desnecessária qualquer outra justificativa externa para a escolha do tratado.
  • A filosofia só se fundamenta a partir de si mesma, e sua necessidade não pode ser provada nem refutada, sendo seu exercício um ato da mais alta liberdade.
  • A compreensão do tratado exige que se vá além dele, captando o que ele traz para além de si mesmo, o que equivale a filosofar de fato, transformando a situação de nosso existir (Dasein) na necessidade real da questão pelo Ser.

e) Schelling e Hegel

  • A apropriação filosófica do tratado de Schelling foi dificultada pela influência dominante da filosofia de Hegel, que, na “Fenomenologia do Espírito” (1807), criticou Schelling, associando seu princípio do Absoluto como identidade e indiferença a uma “noite em que todos os gatos são pardos”.
  • Apesar da cooperação inicial entre os dois, a ruptura foi consumada com a crítica de Hegel, que, no entanto, reconheceu a profundidade especulativa do tratado sobre a liberdade, embora o considerasse uma obra isolada.
  • A avaliação de Schelling ainda hoje está na sombra de Hegel, e a interpretação do tratado visa despertar sua força revolucionária e mostrar seus caminhos para o futuro, alterando, como efeito secundário, o juízo histórico sobre Schelling.
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