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A.5 Determinações da coisa

A. DIVERSAS MANEIRAS DE INTERROGAR EM DIREÇÃO À COISA

V. SINGULARIDADE E HECCEIDADE. O ESPAÇO E O TEMPO ENQUANTO DETERMINAÇÕES DA COISA

Na experiência cotidiana encontram-se incessantemente coisas singulares, e essa singularidade não significa apenas que pedra, lagarto, ramo de erva e faca sejam cada qual por si, mas que cada coisa seja precisamente esta coisa determinada e nenhuma outra, de modo que a coisidade da coisa envolve o caráter de ser cada vez esta coisa singular e insubstituível.

  • Não existe «a coisa em geral» como algo encontrado na experiência, mas apenas coisas singulares, cada uma das quais é esta coisa aqui e não outra.
  • A ciência tende a passar por cima justamente desse caráter de «esta coisa», pois o botânico considera a planta singular apenas como exemplar de uma espécie, assim como o instituto zoológico trata rãs e salamandras como espécimes substituíveis no interior de uma classe.
  • O que interessa à interrogação pela coisidade não é a enumeração interminável de cada coisa singular em sua sucessão, mas a determinação universal segundo a qual toda coisa é «cada vez esta», isto é, a cada vez esta coisa determinada.
  • Esse caráter pode ser designado por Jediesheit, termo formado para indicar a hecceidade da coisa, isto é, o fato de cada coisa ser precisamente esta e nenhuma outra.
  • A proposição segundo a qual toda coisa é esta coisa e nenhuma outra parece encontrar dificuldade diante de coisas absolutamente semelhantes, como dois baldes ou duas agulhas de pinheiro que não se conseguem distinguir pela aparência.
  • Ainda que duas coisas fossem absolutamente iguais em todas as suas propriedades, cada uma continuaria sendo esta coisa determinada porque ocuparia um lugar diferente; e, se ocupassem o mesmo lugar, somente poderiam fazê-lo em momentos diferentes.
  • Lugar e momento tornam, portanto, distintas mesmo coisas absolutamente semelhantes, conferindo-lhes o caráter de «estas coisas» determinadas.
  • Como cada coisa possui seu lugar, seu momento e sua duração, jamais haveria duas coisas absolutamente iguais consideradas em sua determinação espaço-temporal.
  • O fato de cada lugar ser sempre este lugar determinado, sua respectividade (Jeweiligkeit), funda-se no espaço, e o fato de cada momento ser este momento determinado funda-se no tempo.
  • O caráter fundamental de a coisa ser «esta coisa», enquanto determinação essencial de sua coisidade, encontra assim seu fundamento na essência do espaço e do tempo.
  • A pergunta «O que é uma coisa?» implica, portanto, as perguntas «O que é o espaço?» e «O que é o tempo?», mas a familiaridade com essa justaposição não resolve por que espaço e tempo formam uma unidade nem se apenas foram exteriormente associados um ao outro.
  • Permanece em aberto se espaço e tempo são originariamente um, se provêm de uma raiz comum ou de um elemento primeiro que não seja nem simplesmente espaço nem simplesmente tempo, por ser ambos de maneira mais originária.
  • A questão não pode ser neutralizada pelo uso habitual da expressão «espaço e tempo» como simples justaposição, pois aquilo que verdadeiramente se torna problemático é precisamente o «e» que os une.
  • A expressão Zeitraum, usualmente empregada para significar um intervalo de tempo, é aqui orientada para indicar a unidade interna de espaço e tempo e, com isso, a questão do espaço-de-tempo.
  • A precedência do tempo na palavra Zeitraum pretende indicar que ele desempenha papel particular nessa questão, sem que disso se siga que o espaço possa simplesmente ser derivado do tempo ou reduzido a algo secundário diante dele.
  • A pergunta pela coisa contém, assim, a pergunta pelo espaço-de-tempo, isto é, pela unidade enigmática de espaço e tempo na qual parece fundar-se o caráter fundamental de cada coisa ser precisamente esta coisa.
  • A determinação da coisa a partir de lugar e momento imediatamente suscita a dúvida de saber se espaço e tempo pertencem verdadeiramente à própria coisa ou se constituem apenas um quadro exterior dentro do qual cada coisa recebe coordenadas que permitem distingui-la das demais.
  • A posição espaço-temporal pode tornar cada coisa inequivocamente esta e não outra, mas isso ainda não demonstra que tal determinação diga algo acerca da própria coisa e daquilo que faz dela esta coisa.
  • A dificuldade conduz à questão fundamental de saber se espaço e tempo são apenas um sistema de coordenadas colocado exteriormente sobre as coisas por conveniência ou se pertencem de algum modo mais originário ao próprio ser da coisa.
  • Com isso, torna-se necessário perguntar se a relação da coisa com espaço e tempo é realmente uma relação exterior, questão que remete também ao problema cartesiano do espaço.
  • A consideração cotidiana permite dizer que esta giz é branca, esta madeira é dura ou esta porta está fechada, mas essas determinações particulares não alcançam aquilo que pertence universalmente à coisa enquanto coisa.
  • Quando a atenção se dirige à coisidade, encontra-se primeiramente a singularidade como traço comum de todas as coisas: há uma porta, um pedaço de giz, um quadro e assim por diante.
  • Uma consideração mais precisa mostra que esses singulares são sempre «estes» aqui e agora: esta porta, este giz, e não aqueles presentes em outro auditório ou no semestre precedente.
  • A pergunta «O que é uma coisa?» recebe, desse modo, uma primeira resposta: uma coisa é sempre um «cada vez isto», e esse caráter essencial conecta-se diretamente com espaço e tempo.
  • Pela posição espaço-temporal que a cada vez lhe pertence, cada coisa é insubstituivelmente esta e nenhuma outra.
  • Permanece, contudo, a dúvida sobre se essa determinação pela posição espaço-temporal atinge a própria coisa ou apenas o quadro exterior dentro do qual ela se encontra.
  • Embora cada coisa conhecida possua sempre uma posição espaço-temporal, ainda deve ser esclarecido se essa relação é necessária e, sobretudo, se o fundamento de tal necessidade reside nas próprias coisas.
  • Caso a necessidade dessa posição se funde nas coisas mesmas, então o caráter de ser «cada vez esta» dirá efetivamente algo sobre o ser-coisa da coisa.
  • O espaço inicialmente parece exterior à coisa, mas a análise do pedaço de giz complica essa aparência, pois o espaço não apenas circunda o giz, mas também parece pertencer a ele e mesmo estar nele, na medida em que o giz ocupa e encerra em si uma determinada extensão.
  • A superfície delimita o espaço ocupado pela coisa, de maneira que o espaço não parece constituir apenas um quadro exterior ao giz.
  • A tentativa de alcançar o interior da coisa quebrando o giz, porém, conduz novamente a superfícies exteriores: aquilo que antes parecia interior torna-se exterior logo que o giz é partido.
  • O processo pode prosseguir mediante divisões sucessivas até a transformação do giz em pó e, com auxílio de lupa ou microscópio, até partículas cada vez menores, sem que se alcance um «interior» qualitativamente diferente.
  • Entre um pedaço de quatro centímetros e uma partícula de quatro micrômetros há apenas diferença de quantidade, do quanto, e não uma diferença no quê, isto é, na essência daquilo que está sendo considerado.
  • Mesmo que à divisão mecânica se acrescente a dissociação química das moléculas e, além dela, a análise da estrutura atômica, permanece-se num domínio no qual algo material ocupa espaço, repousa num lugar ou se move de um lugar a outro.
  • Desde o modelo atômico de Niels Bohr, de 1913, as relações entre matéria e espaço tornaram-se mais complexas, mas não se alterou fundamentalmente o fato de que aquilo que ocupa um lugar e toma espaço precisa ser extenso.
  • A pergunta pelo espaço «dentro» do corpo conduz sempre ao mesmo resultado: esse interior converte-se novamente em exterior para partículas cada vez menores, por menores que sejam.
  • A redução do giz a pó mostra ainda que, embora toda a massa material possa permanecer reunida, já não se tem propriamente o mesmo giz enquanto instrumento de escrever, pois já não se pode utilizá-lo no quadro da maneira habitual.
  • A procura pelo espaço interior que deveria pertencer à própria coisa permanece, entretanto, sem solução, pois cada fragmentação transforma o que era interior em nova superfície exterior.
  • Torna-se assim incerto onde começa o interior do giz e onde termina seu exterior, e também se o giz consiste ele mesmo em espaço ou apenas ocupa um espaço que lhe é concedido.
  • A concessão de espaço (die Einräumung von Raum) parece justamente pressupor que o espaço permaneça exterior àquilo que o ocupa.
  • Aquilo que ocupa espaço constitui a cada vez um limite entre fora e dentro, mas o interior parece revelar-se sempre como um exterior apenas mais recuado.
  • Rigorosamente considerada, a própria espacialidade não contém simplesmente um fora e um dentro; talvez o espaço seja antes a possibilidade de fora e dentro, sem ser ele próprio nem exterior nem interior.
  • Essa formulação permanece ainda indeterminada porque também o conceito de possibilidade admite múltiplos sentidos, de modo que a relação entre coisa e espaço continua longe de estar resolvida.
  • Tampouco foi ainda considerado o espaço próprio dos utensílios, como o espaço do giz enquanto instrumento de escrever e, de modo geral, aquilo que pode ser denominado espaço de utensílio.
  • A análise do espaço conduz provisoriamente ao resultado de que, considerada a partir da coisa corpórea e de suas partículas, mesmo a espacialidade que parecia estar dentro da coisa se mostra novamente como exterior.
  • O tempo parece ainda mais exterior às coisas do que o espaço, pois o giz possui seus momentos de estar aqui ou ali sem que o próprio tempo pareça localizar-se nele.
  • O tempo parece correr sobre as coisas como uma correnteza sobre pedras, com a diferença de que a água modifica fisicamente as pedras, enquanto o simples transcorrer das horas aparentemente não toca a coisa.
  • Que o tempo transcorra das 5h15 às 6h não parece produzir por si mesmo qualquer efeito sobre o giz, embora se diga que «com o tempo» e «no decorrer do tempo» as coisas mudam.
  • A conhecida «ação corrosiva do tempo» permanece, por isso, problemática: percebe-se que as coisas mudam no tempo, mas não se observa diretamente de que maneira o próprio tempo as «corrói» ou age sobre elas.
  • Nem mesmo nas coisas destinadas a indicar o tempo este se deixa encontrar, pois numa relógio veem-se mostrador, ponteiros e mecanismos, mas não se encontra ali o próprio tempo.
  • A regulagem do relógio por sinais temporais fornecidos por um observatório, como o observatório naval alemão de Hamburgo, tampouco resolve a questão de onde o tempo é propriamente obtido.
  • A indicação temporal pode ser transmitida, medida e regulada, mas o próprio tempo não aparece como uma coisa localizável no instrumento que o mede.
  • Se nem mesmo numa coisa destinada à medição temporal o tempo pode ser encontrado, reforça-se a impressão de que ele nada tenha a ver com as próprias coisas.
  • Entretanto, não se pode simplesmente negar que o relógio fixe efetivamente o tempo, pois sem essa determinação temporal desmoronariam a ordem cotidiana, os cálculos técnicos, a história, a memória e a própria possibilidade de decisão.
  • A relação entre as coisas e o tempo permanece, assim, obscura, e cada tentativa de determiná-la reforça inicialmente a impressão de que espaço e tempo são apenas domínios exteriores emprestados às coisas para indicar suas posições.
  • Ainda que permaneça em aberto onde e como esses domínios existem, parece seguro que somente por meio da posição espaço-temporal as coisas singulares se tornam estas coisas determinadas.
  • Consideradas, porém, apenas a partir delas mesmas e não de seu quadro espaço-temporal, as coisas talvez não sejam necessariamente insubstituíveis «estas coisas», pois pode haver muitas coisas semelhantes.
  • A singularidade insubstituível parece, nesse horizonte, depender precisamente da referência ao espaço e ao tempo.
  • Leibniz contestou, contudo, a possibilidade de existirem duas coisas absolutamente semelhantes e formulou o principium identitatis indiscernibilium, o princípio da identidade dos indiscerníveis, segundo o qual duas coisas completamente indistinguíveis não podem ser duas coisas, mas devem ser uma e a mesma.
  • A fundamentação leibniziana dessa tese depende de sua determinação metafísica do ser das coisas como ser-criado por Deus no sentido da teologia cristã.
  • Se existissem duas coisas absolutamente iguais, Deus teria criado duas vezes exatamente o mesmo ente, isto é, teria repetido mecanicamente uma produção idêntica, o que seria incompatível com a perfeição do criador absoluto, a perfectio Dei.
  • A impossibilidade de duas coisas absolutamente semelhantes deriva, assim, da essência do ente enquanto criado e de determinadas concepções acerca da perfeição do criar e do produzir.
  • O princípio leibniziano repousa, portanto, sobre determinações fundamentais do ente em geral e de seu ser, bem como sobre uma compreensão teológica da criação.
  • Ainda não há preparação suficiente para decidir acerca do princípio de Leibniz nem acerca de sua fundamentação, mas sua simples consideração mostra novamente até que distância conduz a pergunta aparentemente imediata «O que é uma coisa?».
  • Mesmo que a fundamentação teológica do princípio já não seja aceitável, independentemente da verdade do cristianismo no âmbito da fé, permanece decisiva a questão de saber de onde se deve fundamentar o caráter singular e determinado das coisas.
  • A determinação de cada coisa como singular e como «esta» revela-se finalmente dependente da questão do Ser.
  • Torna-se então inevitável perguntar se Ser ainda significa ser-criado por Deus e, caso não signifique, o que deve significar, ou mesmo se o próprio termo «Ser» deixou de dizer algo determinado.
  • A dificuldade extrema concentra-se, portanto, na pergunta por quem ou pelo que pode decidir acerca do Ser e de sua determinabilidade.
  • A investigação permanece inicialmente dirigida às coisas mais próximas que cercam a experiência cotidiana e que se mostram como singulares e como «estas coisas».
  • A referência a Leibniz evidencia, contudo, que o caráter de cada coisa ser precisamente esta pode receber uma fundamentação diferente daquela oferecida por sua posição espaço-temporal, a saber, uma fundamentação a partir do próprio ser das coisas.
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