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obra:ga41:a.1

A.1 Interrogações

A. DIVERSAS MANEIRAS DE INTERROGAR EM DIREÇÃO À COISA

I. INTERROGAÇÃO FILOSÓFICA E INTERROGAÇÃO CIENTÍFICA

A pergunta fundamental «O que é uma coisa?», pertencente ao núcleo das questões fundamentais da metafísica e incessantemente renovada desde o início da filosofia ocidental, manifesta a peculiaridade da interrogação filosófica precisamente por não se deixar medir pela utilidade prática nem pelo modo científico de determinação dos objetos, exigindo um deslocamento constante da posição habitual do pensamento e conduzindo a uma região em que a desorientação, o risco e mesmo o caráter aparentemente risível da filosofia pertencem essencialmente ao próprio exercício do pensar.

  • Enquanto as ciências encontram nas representações, opiniões e pensamentos cotidianos um acesso relativamente direto aos respectivos objetos e podem iniciar sua investigação a partir de um nível de questionamento previamente estabelecido, a filosofia rompe com esse nível inicial e desloca continuamente tanto a posição quanto o plano em que a questão é colocada.
  • Quando a representação cotidiana é tomada como medida única de todas as coisas, a filosofia necessariamente aparece como algo deslocado, pois a atitude própria do pensamento filosófico somente pode instaurar-se mediante um afastamento decisivo em relação às evidências e às formas ordinárias de compreensão.
  • A mudança constante de posição e de nível própria da filosofia produz inevitavelmente períodos de desorientação nos quais já não se sabe de imediato como prosseguir; essa perplexidade, longe de constituir simplesmente uma deficiência, pode ser salutar para o movimento da interrogação.
  • Uma reflexão preliminar acerca daquilo que deverá ser interrogado pode impedir que essa desorientação cresça desmedidamente, embora contenha o perigo inverso de transformar-se em discurso prolixo sobre filosofia sem que se efetue propriamente o pensamento filosófico.
  • A pergunta «O que é uma coisa?» revela sua essência precisamente na impossibilidade de ser convertida em instrumento para alguma finalidade prática: nada se pode fazer com ela, e pretender justificá-la demonstrando alguma utilidade significaria incorrer num mal-entendido fundamental acerca de sua natureza.
  • A antiguidade dessa pergunta remonta ao começo da filosofia ocidental entre os gregos e encontra expressão paradigmática na anedota, conservada por Platão no Teeteto, segundo a qual Tales, absorto na contemplação do céu, caiu num poço e foi ridicularizado por uma jovem serva trácia por desejar conhecer as coisas celestes enquanto lhe permaneciam ocultas aquelas que estavam diante de seus olhos e a seus pés.
  • A observação acrescentada por Platão, segundo a qual semelhante zombaria se aplica a todos os que se ocupam da filosofia, caracteriza a pergunta filosófica como pertencente à espécie das perguntas capazes de provocar o riso daqueles que permanecem inteiramente vinculados às exigências da experiência cotidiana.
  • A filosofia pode, nesse sentido, ser determinada como aquele pensamento com o qual essencialmente nada se pode empreender e diante do qual as servas não conseguem conter o riso, determinação que não constitui uma simples pilhéria, mas indica algo essencial acerca da distância entre o pensamento filosófico e os critérios ordinários de utilidade.
  • A imagem da queda no poço conserva ainda um sentido positivo para o próprio caminho filosófico: pensar pode significar cair numa profundidade cujo fundo não se deixa alcançar rapidamente, de modo que o risco, a perda das seguranças habituais e a demora pertencem ao próprio movimento da investigação.
  • A designação «questões fundamentais da metafísica» não pretende apresentar a metafísica como uma disciplina particular ao lado da lógica ou da ética, mas apenas indicar questões situadas no coração e no centro da filosofia.
  • A filosofia não se divide propriamente em ramos, porque ela mesma não constitui um ramo particular do saber; embora certa aprendizagem escolar possa ser indispensável dentro de limites determinados, ela jamais constitui o essencial do filosofar, e toda divisão do trabalho perde aqui, desde o princípio, seu sentido decisivo.
  • O nome «metafísica» deve, por isso, ser tanto quanto possível libertado das determinações que lhe foram acrescentadas historicamente e conservado apenas como indicação daquele percurso do pensamento em que permanece sempre presente o risco de cair no poço, isto é, de abandonar o terreno seguro das evidências habituais para aprofundar radicalmente a pergunta «O que é uma coisa?».
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