Falsidade
DE BRASI, Diego; FUCHS, Marko J. (ORGS.). Sophistes: Plato’s dialogue and Heidegger’s lectures in Marburg (1924-25). Newcastle upon Tyne, UK: Cambridge Scholars Publishing, 2016.
** Orthologia peri to me on: Heidegger sobre a noção de falsidade no Sofista de Platão **
** I. “Livrar-se das proposições” **
1. A questão decisiva do Sofista acerca da possibilidade de dizer o falso pressupõe que o não-ser, me on, de algum modo seja, pois sem essa condição a falsidade não poderia vir à existência; enquanto as interpretações modernas concentram-se sobretudo nos sentidos do verbo “ser”, nos tipos de predicação e na estrutura sujeito-predicado do logos, Heidegger procura deliberadamente afastar a análise da dimensão proposicional e “livrar-se das proposições”.
2. A rejeição heideggeriana da teoria da correspondência e da localização da verdade no juízo aparece também em Ser e tempo (Sein und Zeit) e em Lógica: a questão da verdade, onde, a partir de Aristóteles, a verdade é compreendida como desvelamento (Unverborgenheit) originado no perceber, noein, e contraposto ao pensamento discursivo, dianoein.
-
O noein não encobre nem falsifica propriamente, podendo no máximo permanecer como não-percepção ou ignorância.
-
A possibilidade da falsidade nasce da estrutura sintética do logos, que deixa ver algo como algo.
-
O logos não constitui o lugar originário da verdade, mas tampouco o lugar autônomo da falsidade, pois esta depende necessariamente do próprio ente acerca do qual algo pode ser afirmado.
-
Nas preleções sobre o Sofista, a falsidade é assim elevada ao nível ontológico, permanecendo em aberto se essa elevação corresponde adequadamente ao texto platônico.
** II. “A maneira correta de abordar os não-entes” **
3. Nas considerações introdutórias às Preleções sobre o Sofista, a verdade é determinada como desocultamento (Unverborgenheit) pertencente primordialmente aos próprios entes, enquanto o logos, entendido como apreensão desveladora, apropria-se da verdade dos entes ao tomá-los enquanto descobertos.
4. A dificuldade surge quando o logos precisa dizer o não-ser, porque todo legein ti, ao falar de alguma coisa, já coafirma que aquilo de que fala é algo e é uno, tornando problemática a própria possibilidade de dizer me on sem convertê-lo imediatamente em ente.
-
A questão deixa de ser apenas se o não-ser pode ser dito e passa a envolver a constituição do próprio logos capaz de torná-lo inteligível.
-
A formulação heideggeriana identifica o problema como orthologia tou me ontos, isto é, como “a maneira correta de abordar os não-entes” (das rechte Ansprechen des Nichtseienden).
-
O problema da falsidade exige, portanto, compreender simultaneamente como o não-ser pode possuir estatuto ontológico e como o logos pode estruturar-se de maneira a dizê-lo.
5. Como o logos é um deloun, um fazer-aparecer ou revelar, o logos pseudes apresenta uma estrutura paradoxal: é um deixar-ver que encobre, uma abertura que simultaneamente bloqueia aquilo que deveria mostrar.
-
A possibilidade de abordar o não-ser depende da própria constituição do logos.
-
O logos falso somente é possível se os não-entes puderem de algum modo ser.
-
A investigação da falsidade articula inseparavelmente o ser do pseudos e a estrutura do logos, ainda que Heidegger por vezes oscile entre esses dois níveis.
** III. A tripla koinonia **
6. A tentativa heideggeriana de resolver o paradoxo da falsidade mediante a constituição do logos organiza-se em três estágios de koinonia, correspondentes a três estruturas fundamentais do próprio discurso.
-
O primeiro estágio, onomástico, examina o logos como plegma, entrelaçamento de onoma e rhema.
-
O segundo analisa o legomenon, aquilo que é dito e descoberto como ente, distinguindo uma koinonia intencional entre logos e on e uma koinonia lógica na qual algo é abordado como algo.
-
O terceiro estágio, delótico, examina o próprio ato de desvelar e pergunta pela qualidade do logos enquanto deloun.
** III.1 Primeiro estágio: onomástico **
7. Na interpretação de Sofista 262a, onoma é compreendido como aquilo que torna manifesto o pragma, enquanto rhema manifesta a praxis, de modo que o primeiro mostra aquilo de que se trata e o segundo explicita o acontecer ou agir concernente a esse algo.
-
Heidegger evita traduzir diretamente onoma por “substantivo” e rhema por “verbo”, porque considera essa distinção especificamente aristotélica e não plenamente presente em Platão.
-
Apesar disso, atribui ao rhema uma determinação fortemente aristotélica, ao defini-lo como aquilo que estabelece temporalmente o que mostra como ente.
8. O caráter desvelador do logos depende da symploke entre onoma e rhema, pois somente quando nomes e verbos são combinados ocorre uma presentificação efetivamente desveladora.
-
A simples enumeração de nomes ou verbos não constitui ainda logos completo.
-
Heidegger considera, contudo, o deloun mais originário que essa composição linguística.
-
O fazer-aparecer é elevado à condição de determinação constitutiva do próprio ser-aí (Dasein), de modo que o discurso articulado derivaria de uma estrutura existencial mais primordial de abertura.
9. A análise filológica de Sofista 262c indica que as expressões isoladas “caminha, corre, dorme” pertencem ao conjunto dos verbos, enquanto “leão, cervo, cavalo” pertencem ao conjunto dos nomes, e que nenhum desses grupos, tomado separadamente, revela ação, inação, ser ou não-ser até que verbos e nomes sejam combinados.
-
O primeiro e menor logos surge somente quando ocorre a mistura entre as duas classes de expressões.
-
A construção platônica privilegia assim a constituição proposicional do logos, em contraste com a tentativa heideggeriana de fazer do deloun uma estrutura previamente dada.
10. O termo ousia possui no Sofista diferentes sentidos que não devem ser homogeneizados, podendo significar realidade imutável contraposta à genesis, Forma ou Ser enquanto tal e ainda o ser de algo em virtude da participação nessa Forma.
-
A oposição ousia ontos/me ontos remete às distinções anteriores entre diferentes sentidos de ser.
-
Tanto o ser verdadeiro quanto certa forma relativa de não-ser podem ser chamados entes.
-
Heidegger tende a tratar o diálogo como unidade conceitualmente homogênea e, com isso, minimiza as variações semânticas do termo “ser”.
11. Ao traduzir ousia ontos e me ontos como presença do ente e do não-ente, Heidegger omite significativamente a referência platônica à praxis e à apraxia, deslocando a passagem de uma análise da combinação de nomes e verbos para uma oposição antecipada entre logos revelador e logos falso.
-
Em Platão, conjuntos isolados de verbos não mostram se uma ação ocorre ou não, assim como conjuntos isolados de nomes também não constituem logos.
-
A condição decisiva é a combinação entre onoma e rhema.
-
Na reconstrução heideggeriana, porém, o ser do ente já tende a equivaler ao logos desvelador, enquanto o ser do não-ente é aproximado do logos encobridor.
-
A supressão da dimensão verbal torna possível antecipar uma concepção de falsidade que o texto ainda não havia estabelecido.
12. Heidegger insiste que a symploke não deve ser entendida como simples soma de onoma e rhema e atribui primazia ao deloun, embora a sintaxe grega com prin indique que a combinação entre nomes e verbos precede o ato completo de revelar.
-
A principal justificativa para a prioridade heideggeriana é a própria noção de deloun: algo deve já estar presente para poder ser revelado.
-
Entretanto, o texto platônico chama onoma e rhema de dois tipos de delomata, indicando que a relação entre nomeação, predicação e manifestação é mais complexa.
-
Afirmar que a nomeação isolada não possui caráter desvelador entra em tensão com a classificação dessas unidades como modos primários pelos quais os entes podem ser ditos.
-
A leitura heideggeriana exige, portanto, uma construção conceitual que o texto grego não exprime de maneira transparente.
13. A interpretação segundo a qual Platão teria pretendido afirmar a prioridade existencial do desvelamento sobre a composição proposicional permanece filologicamente frágil, pois o próprio modo de expressão platônico oferece pouco apoio direto a essa reconstrução.
** III.2 Segundo estágio: intencional e lógico **
14. O primeiro estágio da análise desloca a falsidade do plano onomástico para o domínio dos fenômenos, e o nível “lógico” heideggeriano não corresponde à estrutura proposicional formada pela combinação de sujeito e predicado, mas ao plano do legomenon enquanto ente unitário ainda não articulado.
-
Platão designaria essa unidade pelo perí hou, aquilo acerca do qual se fala.
-
Todo logos possui um “sobre o quê” que coincide com seu tinos, isto é, com aquilo a que intencionalmente se dirige.
15. A estrutura fundamental do logos é a intencionalidade pela qual algo é abordado como algo, e sua possibilidade depende de haver entes capazes de aparecer como diferentes daquilo que são.
-
Somente se um ente puder mostrar-se como algo que ele não é pode haver logos capaz de descobri-lo ou encobri-lo dessa maneira.
-
A possibilidade do falso é assim transferida da composição linguística para a própria estrutura ontológica dos entes.
-
O problema do logos falso converge com o problema do ser do não-ser.
16. Ao deslocar novamente a falsidade para a esfera do ente, a análise enfraquece a promessa inicial de explicá-la mediante a tripla koinonia, pois o segundo estágio já faz a estrutura sintética do logos coincidir com a ontologia do não-ser, tornando o terceiro estágio pouco decisivo para uma explicação adicional.
** III.3 Terceiro estágio: delótico **
17. No estágio delótico, o pseudos é compreendido como engano (Täuschung) e como modificação do caráter revelador do logos, sem que essa modificação possa eliminar totalmente a função de mostrar.
-
Toda modificação do legein continua sendo modificação de um legein ti.
-
O deloun nunca desaparece por completo, porque o logos não pode transformar-se em puro não-dizer ou ausência absoluta de manifestação.
-
O logos pode tornar-se não-desvelador apenas sob a forma de encobrimento, distorção, obstrução ou impedimento do ver.
-
A falsidade deixa, assim, de ser falta absoluta de revelação e torna-se uma modalidade deformada do próprio revelar.
18. Da estrutura delótica resulta que todo logos é necessária e invariavelmente desvelador ou distorcedor, embora permaneça obscuro de onde propriamente provém a distorção, constituindo esse ponto a dificuldade central da análise heideggeriana.
** IV. A presença de tauton e heteron **
19. Como o engano não pertence à simples symploke de onoma e rhema, embora não possa ocorrer sem ela, sua origem é procurada no próprio legomenon e no ti que nele se manifesta.
20. O legomenon, enquanto ti e on, encontra-se numa dynamis koinonias com o Mesmo, tauton, e o Outro, heteron, de maneira que a verdade ou falsidade dependem da forma como essas determinações aparecem no ente revelado.
-
Quando tauton está presente no ente, o ente é mostrado como aquilo que ele próprio é.
-
O desvelamento que apresenta o ente em sua mesmidade consigo mesmo constitui aletheuein e produz logos alethes.
-
Quando heteron participa do ente mostrado, este pode aparecer como outro que si mesmo.
-
Mostrar algo como diferente daquilo que ele é constitui encobrimento, distorção e manifestação deformadora, originando logos pseudes.
21. A falsidade passa a ser explicada ontologicamente pela presença de tauton e heteron no legomenon enquanto on, pois o ente previamente dado pode ser desvelado como idêntico a si mesmo ou como outro daquilo que é.
-
Heidegger procura preservar rigorosamente o logos como abertura daquilo que já está presente.
-
A presença (Anwesenheit) ou atualidade (Gegenwart) do ente torna-se determinada pela participação de tauton ou heteron.
-
A falsidade é assim retirada novamente da relação proposicional e situada na maneira como o próprio ente é manifestado.
** IV.1 A leitura heideggeriana de 263b **
22. No final das preleções surge uma quarta koinonia, na qual o legomenon, tomado como totalidade previamente dada, entra em comunhão com tauton ou heteron.
-
Teeteto sentado diante do Estrangeiro é compreendido como unidade previamente dada e como perí hou, aquilo acerca do qual o discurso fala.
-
A categoria moderna de “sujeito” não é completamente eliminada, mas desvalorizada como categoria desgastada da lógica.
-
O problema consiste em verificar se essa noção de totalidade não articulada encontra apoio efetivo no texto platônico.
23. Em Sofista 263b, o logos verdadeiro diz as coisas que são acerca de Teeteto, enquanto o falso diz coisas diferentes daquelas que são, apresentando como sendo acerca dele aquilo que não é.
-
A passagem mantém uma estrutura relacional explícita entre aquilo que é dito e aquilo acerca de que se diz.
-
O perí sou possui função decisiva porque determina o campo relativo dentro do qual uma afirmação pode ser verdadeira ou falsa.
24. Heidegger interpreta a formulação do logos verdadeiro como manifestação dos entes segundo tauton e a do logos falso como manifestação segundo heteron, atribuindo à presença do Mesmo caráter constitutivo da verdade e à presença do Outro caráter constitutivo da falsidade.
25. A reconstrução heideggeriana exige, contudo, uma forte torção sintática, porque tanto o logos verdadeiro quanto o falso possuem objetos diretos e, se hos estin for identificado a tauton no primeiro caso, a estrutura paralela obrigaria a compreender o logos falso como aquele que apresenta coisas diferentes como idênticas, não simplesmente como aquele que apresenta entes enquanto diferentes.
-
O resultado contradiz a própria formulação heideggeriana segundo a qual o falso mostra o ente como heteron.
-
A estrutura proposicional do texto resiste, portanto, à redução da falsidade à simples presença ontológica do Outro.
26. A omissão heideggeriana do perí sou é igualmente problemática, pois essa qualificação pertence explicitamente à proposição verdadeira e deve ser recuperada por paralelismo também na falsa.
-
As expressões “entes acerca de ti” e “coisas diferentes dos entes acerca de ti” pressupõem uma articulação predicativa relativa a Teeteto.
-
Perí sou não pode referir-se apenas a uma totalidade unitária previamente dada, mas a Teeteto enquanto sujeito acerca do qual múltiplas determinações podem ou não ser verdadeiras.
-
A passagem enfraquece, assim, a concepção de um legomenon inteiramente não articulado.
27. Em Platão, verdade e falsidade não decorrem simplesmente da presença isolada de tauton ou heteron, mas da relação entre o que é dito e aquilo que efetivamente é acerca do sujeito, exigindo pelo menos alguma estrutura de correspondência.
-
Essa necessidade entra em conflito com a concepção heideggeriana do logos como puro desvelamento de uma totalidade previamente dada.
-
Para preservar sua posição, Heidegger desloca então o potencial de engano para o próprio heteron.
-
Os exemplos platônicos de alteridade, contudo, não sustentam que a alteridade em si mesma seja enganadora.
** IV.2 A interpretação heideggeriana de heteron **
28. A investigação dialética do Sofista estabelece que cada coisa é outra relativamente às demais não por sua natureza categorial isolada, mas por participar da Ideia do Outro, e Heidegger interpreta essa participação como posse da “visibilidade do ser-outro”.
-
Cada genos seria heteron porque contém em si a possibilidade de seu ser-outro tornar-se visível em relação a outro.
-
Essa possibilidade é associada à dynamis koinonias.
-
A Ideia é reinterpretada fenomenologicamente como visibilidade da alteridade.
29. A leitura de heteron como estrutura de visibilidade capaz de sustentar o engano encontra apoio sobretudo na etimologia heideggeriana de idea e não em formulações explícitas do próprio Platão.
-
O Sofista não afirma que heteron implique engano ou Täuschung.
-
A alteridade abre logicamente a possibilidade da falsidade, mas não se identifica com falsificação.
30. Quando o Movimento participa do Outro e é dito “não o Mesmo”, a presença de heteron apenas estabelece que Movimento difere da Mesmidade, sem introduzir qualquer forma de engano.
-
A alteridade torna o Movimento separado do Mesmo.
-
Dizer corretamente que Movimento não é o Mesmo constitui uma proposição verdadeira.
-
A simples presença de heteron não pode, portanto, funcionar como causa suficiente da falsidade.
31. O mesmo ocorre em proposições negativas como “Sócrates não é belo”, nas quais a antítese não significa o contrário absoluto do ser, mas somente aquilo que é outro relativamente a determinada propriedade.
-
Heteron e antithesis podem estruturar uma negação perfeitamente verdadeira.
-
A relação com o Outro não implica necessariamente distorção ou encobrimento.
-
O fato de a falsidade depender de alteridade não autoriza identificar a alteridade enquanto tal ao engano.
32. A interpretação heideggeriana tem o mérito de destacar o potencial desvelador do logos platônico e os problemas ontológicos envolvidos no paradoxo da falsidade, mas sua luta contra a lógica proposicional moderna leva a minimizar justamente as passagens em que Platão torna indispensável a estrutura proposicional da verdade e da falsidade.
-
O paradoxo da falsidade possui efetivamente implicações ontológicas que não podem ser reduzidas à teoria moderna da proposição.
-
Entretanto, algumas categorias da lógica proposicional continuam necessárias para compreender adequadamente a orthologia peri to me on.
-
Eliminar inteiramente essas categorias compromete a interpretação da ontologia platônica, porque o próprio Sofista articula o ser do não-ser à maneira pela qual algo é predicado acerca de algo.
-
A limitação fundamental da leitura heideggeriana reside, assim, não em ter ontologizado excessivamente a falsidade em si mesma, mas em fazê-lo à custa da estrutura proposicional que Platão conserva como condição de sua inteligibilidade.
