estudos:zarader:logica-1990
LÓGICA (1990:154-157)
ZARADER, Marlène. Heidegger et les paroles de l’origine. Paris: Vrin, 1990.
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A identificação histórica entre pensamento e lógica como doutrina do pensamento correto exige ser interrogada quanto à sua origem e às suas consequências para o destino do pensamento ocidental, em vez de ser simplesmente aceita como evidência histórica.
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A lógica apresenta-se como determinação normativa do pensar.
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A mera constatação histórica não esclarece a questão.
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Heidegger pergunta pelo significado dessa primazia da lógica.
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A compreensão requer investigação da origem da lógica.
A expressão grega επιστήμη λογική, embora corretamente traduzida como ciência do λόγος, já indica uma captação particular e limitada do λόγος, condicionada por pressupostos implícitos na própria noção de επιστήμη.-
επιστήμη está ligada à τέχνη.
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τέχνη é modo de desvelamento.
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επιστήμη depende de concepção determinada de verdade.
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Tal concepção não é a mais originária.
A constituição histórica da lógica no contexto da tripartição platônica da filosofia, simultânea ao surgimento da física e da ética, manifesta-se como fenômeno de escolarização e técnica que assinala o término do impulso originário grego.-
A tripartição foi proposta na escola de Platão por Xenocrates.
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A lógica surge junto à επιστήμη φυσική e à επιστήμη ήθική.
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Nasce quando a filosofia torna-se assunto de escola.
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Heidegger sugere caráter técnico e organizacional dessa origem.
A formação de disciplinas implica uma inversão na relação entre coisa e saber, pois a disciplina passa a determinar previamente o modo como a coisa pode aparecer como objeto, submetendo-a aos seus critérios metodológicos.-
A disciplina transforma a coisa em objeto.
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A determinação parte da disciplina para a coisa.
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A disciplina decide o que pode tornar-se objeto científico.
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As disciplinas funcionam como peneiras seletivas.
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O fundamento e a verdade da coisa tornam-se subordinados ao método.
A pretensão da lógica de esgotar o sentido do λόγος confunde o fato histórico de sua normatividade com o direito de ser a única e mais originária determinação do pensamento.-
De fato, a lógica foi normativa no Ocidente.
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De direito, é apenas uma possibilidade entre outras.
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A determinação dominante é derivada.
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A origem do pensamento não coincide com essa determinação.
A constituição da lógica fixa não o começo grego enquanto aurora originária, mas o seu término inicial, cujo predomínio histórico encobriu o começo autêntico.-
O início foi compreendido a partir do seu fim.
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O fim tornou-se o início normativo.
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O começo originário ficou encoberto.
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A distinção entre aurora e declínio é decisiva.
A confusão entre começo e fim impede o acesso à origem, pois somente a meditação do impensado do começo pode conduzir à proximidade originária.-
O começo não é a origem.
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O declínio resulta do afastamento da origem.
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Misturar aurora e crepúsculo fecha o acesso à origem.
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O esquecimento da origem decorre dessa confusão.
A lógica possui caráter derivado porque toma o λόγος como fundamento sem reconhecer que esse próprio λόγος já é determinado por algo mais originário.-
O λόγος funciona como fundamento apenas enquanto resultado.
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A lógica não explica sua própria origem.
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Não pode fundar a legitimidade de sua pretensão normativa.
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O que determina o pensamento vem de mais longe que a lógica supõe.
A lógica é também ocultante porque ocupa todo o campo semântico do λόγος e, esquecendo sua proveniência, recorre à evidência como substituto da memória de sua origem.-
A concepção derivada do λόγος encobre sua proveniência.
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A lógica apresenta-se como evidente.
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As evidências preenchem o vazio do esquecimento.
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A perda de memória histórica sustenta sua autoridade.
A necessidade de examinar como a lógica concebe o λόγος decorre da exigência de medir o alcance desse esquecimento e de esclarecer a determinação efetiva do pensamento ocidental.-
É preciso analisar a definição lógica do λόγος.
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Tal exame revela os limites da interpretação dominante.
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A questão permanece aberta quanto ao sentido do λόγος para a lógica.
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