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CORAÇÃO
ZAMBRANO, María. Claros del bosque. 4. ed ed. Barcelona: Seix Barral, 1993.
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O coração, em sua existência carnal, possui cavidades e aberturas que o dividem, diferindo radicalmente do centro concebido pela filosofia aristotélica como motor imóvel, que, sendo ato puro e impasível, move sem se mover e sem possuir qualquer interioridade ou espaço interno.
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O centro aristotélico é um motor imóvel, ato puro e impasível, que atrai e move como objeto do desejo, mas não possui um “dentro”, uma interioridade, e não é percorrido pela vida que move.
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O coração humano, ao contrário, move-se movendo-se, possui um interior, uma modesta casa, e é sede de uma circulação que passa por ele e sem a qual a vida se estagnaria.
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A casa, como morada construída à imagem e semelhança do coração, é um lugar de liberdade e recolhimento, não de encerramento, pois seu interior é o leito por onde a vida circula, e é nesse vazio interno, verdadeiro espaço vital, que reside a conquista suprema da vida: o aparecer de um ser vivente.
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A casa, à imagem do coração que deixa circular, é lugar de liberdade e recolhimento, ao contrário da tenda, que é horizonte que limita e abriga, ensinando que o próprio do homem é ao mesmo tempo morada e cárcere.
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O interior do coração carnal é o leito do rio do sangue, onde o sangue se divide e se reúne, encontrando sua razão.
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Todo organismo vivo busca possuir um vazio interno, um espaço vital, e o ser vivente é tanto mais “ser” quanto mais amplo e qualificado for o vazio que contém.
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O coração é também centro porque é a única parte do ser que emite som, um som inalienável que sustenta o homem e cria a possibilidade de sua existência, manifestando-se como ritmo inicial que povoa e interioriza o tempo, e cuja pausa imperceptível é um respiro necessário para que o novo surja.
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O som do coração, mesmo quando não notado, sustenta o homem a um certo nível, e sua ausência o lançaria em maior obscuridade e desabrigo.
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Os passos do homem sobre a terra são a pegada do som de seu coração, que o impulsiona em procissão, gozo ou serenidade, conforme se sinta em sintonia com outras criaturas ou com o cosmos.
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O ritmo do coração povoa a extensão do tempo, interiorizando-o e vivificando-o, e sua pausa, dom do vazio, permite o surgimento do novo, sendo um respiro entre situações.
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O coração é profeta por ser um centro que está na fronteira, sempre prestes a ir além, e a palavra nova que nele habita, mas não chega a ser dita, não se perde, mas se desfaz em voz, uma voz que suspira e transcende, infiltrando-se em palavras simples que dão certeza.
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O homem padece por não ter assistido à sua própria criação e à criação do universo, um ressentimento fundamental que jaz no coração como raiz de todos os ressentimentos.
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A palavra nova que não chega a sair do coração não se perde, mas se desfaz em voz, uma voz que suspira e transcende, infiltrando-se em palavras cotidianas que adquirem firmeza.
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Há uma voz interior que se identifica com algumas palavras ouvidas de dentro, deixando o ânimo suspenso entre o dentro e o fora, no terror ou no total esquecimento de si, onde se dá a música perfeita, o canto.
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O coração pode, ocasionalmente, ensurdecer e emudecer, retraindo-se em silêncio e deixando as operações da mente agirem sozinhas, o que, entre os ocidentais, converte as percepções em juízos imperativos que podem ser inadequados se o coração não estivesse leve.
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Quando o coração se ausenta, a mente age sem assistência, convertendo percepções em juízos dentro de uma atitude imperativa, o que pode falsear o julgado.
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O peso de certos conteúdos na consciência, quando o coração não é ouvido, determina ou reforça o juízo que sobre eles recai, e a condenação sobre certos fatos ou seres poderia ser medida por esse peso.
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Existe uma linha a partir da qual o coração se sente submerso, sem encontrar resistência, pois seu latir é também um chamado, uma invocação silenciosa e indizível que busca um ouvido e transcende toda direção conhecida.
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O coração é o centro vital por excelência, que faz surgir e sustenta os centros luminosos do conhecimento, e é a condição do coração como centro que determina que nada do que chega como realidade seja anulado ou humilhado, unificando a multiplicidade em equilíbrio.
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O espaço interior (alma, consciência) não é inerte, mas profundo, grande, imenso, escuro, luminoso, e os centros que brilham na realidade exterior refletem-se e sustentam-se nos centros interiores.
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Nada do que é real chega ao coração humano deve ser anulado ou humilhado, pois até as semirrealidades podem ali ganhar a realidade que buscam.
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A multiplicidade se unifica no coração em equilíbrio, sem que nenhuma das realidades que a integram se apague, e o próprio coração pode ser mais pobre que ninguém e mais doador se acolhido.
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O coração não pode descer indefinidamente levado por seu peso sem se perder, mas quando se perde e se abisma em um abismo único onde a nadificação se dá, ele, mantendo sua condição de centro, sente-se sopro de vida sob as águas e só poderá ascender se nele se acender uma centelha de luz indivisível.
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Se o coração se perde e tarda, volta cansado e convertido em fato, e o que anuncia é uma perdição.
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O perder-se do coração pode ser um abismar-se em um abismo único, onde a nadificação o envolve, mas ele segue sentindo-se alento sob as águas da pós-criação.
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Para ascender dessas águas sem superfície, o coração precisa que nele se acenda uma centelha de luz indivisível, que o tome como sua lâmpada.
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No abismo da nadificação, onde nenhuma coisa ou sucesso subsiste e a vontade é mera potência sem desdobramento, o discernimento é impossível e o coração se equivocaria se tentasse dominar as trevas pela vontade, que só pode agir na luz do entendimento que discerne as coisas.
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A luz desce e se curva como serva, infiltrando-se até onde as trevas são cimentos, mas aí abandona o coração, e todo referencial se perde.
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O discernir é impossível onde o vislumbrar se acaba, e o coração se equivocaria se tentasse dominar as trevas pela vontade.
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A vontade só pode, quando pode, na luz do entendimento que discerne as coisas, mas na nadificação nada subsiste e a vontade não pode se desdobrar.
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A reiteração do trabalho do coração revela-se como pulsação do centro da vida, uma notícia inolvidável que aguarda revelação, e a fidelidade a esse sentir primário mostra sua vulnerabilidade e sua relação com o nada ou com a morte, enquanto a mente, sem essa fidelidade, opera com conceitos gerais, não com nomes próprios.
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A percepção da pulsação do coração como centro da vida é uma notícia inolvidável que aguarda ser revelada.
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O que acomete nesse sentir é a estranha vulnerabilidade da pulsação, seu brotar no confim da nada, com o vazio, com o não ser ou com a morte.
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Sem fidelidade a esse sentir, tudo são nomes, termos do falar, conceitos gerais, e não nomes próprios, que conferem presença, desatam a súplica ou estouram no gemido.
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A fidelidade a esse sentir fundador faz da reiteração do coração uma vitória da vida, um centro sem palavra alguma, ante o qual toda razão fica sem razão e a verdade se aproxima apenas como prometida.
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É difícil para o coração encontrar sua própria realidade em pureza e unidade, sem se refletir ou buscar complemento, mas há um gênero de solidão em que, despossuído de toda propriedade, ele se recolhe em uma revelação de sua interioridade quase transparente, onde inteligência e coração se identificam em um ser que é vida vivificante.
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A solidão que permite ao coração estar em si mesmo não é isolamento, mas despossessão de toda propriedade e abolição da lei da apropriação.
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Nesse estado, o coração está em si mesmo, recollido em uma revelação de sua interioridade, sem necessidade de sustentar ou ser sustentado.
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O pensamento, quando se recolhe e cessa seu discurso, identifica-se com o coração, formando um ser que late e alenta, capaz de manifestar seu ser sem reflexão.
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O silêncio revela o coração em seu ser, um ser sem qualificação, que guarda um segredo e guarda o ser onde mora, e o tempo passa nesse silêncio sem deixar resíduo, sem trânsito.
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Os movimentos próprios do ser do coração são pura qualidade, atribuídos à divinidade como espejo de perfeição, mas no humano aparecem como intenção, vanglória ou desvanecimento, e só em raros instantes privilegiados o coração pode repousar em si mesmo, inocente, no silêncio de seu ser, como uma presença que acolherá toda presença e ausência.
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Os movimentos do ser são qualidade pura, provenientes do toque do absoluto na experiência humana, e são atribuídos à divindade como perfeição, enquanto no humano aparecem como intenção ou decadência.
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No humano, nenhum movimento, mesmo o do coração, é livre de intenção, exceto em instantes privilegiados, e a falta de inocência se faz sentir nesses movimentos anteriores a toda moral.
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Em raros momentos de ventura, o coração pode respirar no silêncio de seu ser, sem pretensão ou intenção, em um lugar que não é vazio nem escuridão, uma presença inocente e transitória que, ao cessar, acolherá toda presença e ausência.
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Há uma correlação íntima entre inocência e universalidade: só o homem de coração inocente poderia habitar o universo.
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O coração é o vaso do dolor, que o guarda por um tempo e depois o oferece como um cálice, e é então que, ao sorver lentamente o dolor, a razão começa a circular com ele, unida e como que por ele revelada, ao contrário do que ocorre quando a impasibilidade necessária ao conhecimento racional impede que a razão seja advertida no dolor.
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O risco da impasibilidade exigida pelo conhecimento racional é impedir que a razão seja advertida primeiramente no dolor, unida a ele.
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Quando o dolor não circula e não é assimilado, torna-se um fato quase acidental, sem essência ou substância, sem razão.
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Na oferta do coração, o padecer se atualiza, convertendo-se em ato, enquanto a razão em exercício se desembaraça desse padecer e a vontade consegue ensurdecer o próprio coração, centro da audição por excelência.
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O coração é simultaneamente vaso e centro, centro que se move padecendo e que, receptivo, dá continuidade à vida, submetendo-a a número e ritmo, e, sendo sede do sentir, é mediador sem pausa, escravo que governa, filho do tempo que profetiza um reino que o sobrepuja nos instantes de êxtase, dor sem limites ou plenitude.
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O coração é passividade ativa, mediador sem pausa, escravo que governa, que conduz o tempo e faz presentir um além do reino temporal.
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Como filho de Cronos, o coração profetiza um reino que ultrapassa o tempo, revelado nos instantes privilegiados de êxtase, dor sem limites ou plenitude.
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Tudo passa pelo coração e ele tudo faz passar, mas algo deve passar nele que não se vá com o rio da vida, algo que se faça escondidamente em sua escuridão e que, na quietude final, se abra e se dê por inteiro, um sonho de escape e de derramamento que, enquanto se reitera, o mantém cego, impossibilitado de ser livre sem se conhecer.
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Algo deve fazer-se escondidamente na escuridão do coração, algo invulnerável e luminoso, que, no instante em que ele se quedar quieto, se abrirá e se dará por inteiro.
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O coração sonha em escapar-se e derramar-se, mas enquanto sonha assim, reitera-se e a violência é sua cadeia, arrastando-o cego.
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O coração não pode ser livre sem se conhecer, e esse conhecimento seria o diálogo silencioso da luz com a escuridão, onde o coração, como casca que contém o embrião de luz, anseia por desentranhar-se e perder-se até identificar-se no centro sem fim.
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