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0 Introdução

XOLOCOTZI YÁÑEZ, Ángel. Heidegger: lenguaje y escritura. Primera edición ed. Ciudad de México: Editorial Fontamara, 2018.

O acontecer da linguagem e o poder da escrita

1. A linguagem abre um caminho entre a profundidade sensível e a elevação do espírito, pois o som da voz e os sinais da escrita tornam audível e visível um sentido que, ao articular terra e céu, mantém aberto o âmbito no qual o ser humano habita o mundo.

2. As diferentes vertentes do realismo contemporâneo questionam princípios filosóficos estabelecidos da modernidade à pós-modernidade, reunindo-se na crítica ao princípio de correlação, segundo a qual a investigação da consciência e das relações entre sujeito e objeto teria deixado de abordar a realidade enquanto tal.

3. A fenomenologia ocupa uma posição decisiva na filosofia continental por ter aberto múltiplos caminhos de investigação no século XX, mas permanece sob a crítica do novo realismo por assumir a correlação como fundamento, explicitamente reconhecido por Husserl na formulação do a priori de correlação.

4. O pensamento heideggeriano parte da fenomenologia husserliana e transforma progressivamente seus elementos constitutivos, alcançando na passagem da ontologia fundamental ao pensamento onto-histórico uma radicalização vinculada à possibilidade de pensar para além da correlação entre sujeito e objeto, inclusive quando essa estrutura parece subsistir em determinadas interpretações da intencionalidade.

5. A ontologia fundamental distingue a subjetividade dos modos de abertura do Dasein para libertar a compreensão dos modos de ser das determinações modernas, embora preserve uma correspondência entre presença e representação, enquanto o pensamento onto-histórico aprofunda a historicidade dessa questão e procura pensar o ser a partir de seu acontecer como Ereignis, âmbito oscilante em que ser humano e ser alcançam sua essência ao perderem as determinações metafísicas, mediante um mostrar-se que simultaneamente se retrai e cuja possibilidade permanece vinculada ao encobrimento.

6. O âmbito oscilante do Ereignis não constitui uma realidade simplesmente dada, mas uma construção em equilíbrio para a qual o pensamento recebe da linguagem sua possibilidade de trabalho, pois a própria linguagem realiza a oscilação frágil e delicada que mantém articulado esse acontecer.

7. A linguagem participa da construção do âmbito do Ereignis sem se reduzir a instrumento de comunicação ou informação, exigindo ultrapassar tanto a expectativa de um desvelamento racional completo quanto a afirmação de uma inacessibilidade absoluta, pois essas alternativas conservam uma estrutura dicotômica que transforma a linguagem em meio exterior de ligação entre palavras e coisas.

8. A crítica heideggeriana dirige-se à tendência metafísica de petrificar o acontecer em determinações substantivas, fixando em coisas aquilo que originariamente acontece e reduzindo a linguagem à função de nomear entes previamente constituídos, de maneira que a investigação ontológica procura recuperar uma relação com o mundo encoberta por essa estabilização.

9. A separação aparentemente evidente entre palavras e coisas pressupõe uma determinação metafísica na qual a razão ilumina o obscuro e torna nomeável aquilo que antes permanecia oculto, admitindo como pensável apenas o que pode ser alcançado por essa iluminação e compreendendo a linguagem como transmissão do que foi previamente desvelado.

10. O retorno ao acontecer exige interrogar o próprio modo humano de estar no mundo, ultrapassando a oposição entre multiplicidade e unidade permanente, pois o ser-no-mundo não corresponde à inclusão de uma coisa fechada dentro de outra, e a abertura do Dasein já antecipa a oscilação que o pensamento posterior procura explicitar.

11. O Dasein não possui o fechamento de uma subjetividade delimitada por uma essência fixa, pois sua abertura atravessa as regiões estabelecidas pela metafísica e ultrapassa a localização espacial ou a interioridade, como mostram tanto a possibilidade de estar voltado para alguém distante quanto a corporeidade do gesto, cujo sentido não se encerra nos limites materiais do corpo.

12. A abertura do Dasein manifesta um modo de ser que não se deixa acomodar às categorias metafísicas tradicionais, permitindo compreender a existência como estar fora de si e também como ultrapassagem das determinações ontológicas que procuram encerrar o humano em limites previamente estabelecidos.

13. O pensamento onto-histórico compreende essa incompatibilidade a partir do acontecer da abertura e da constituição histórica das regiões metafísicas, nas quais os entes são previamente postos como realidades delimitadas por essências fechadas, identificáveis em suas diferenças, mas submetidas ao mesmo modo de ser da presença.

14. A tradição metafísica determina cada ente pelo conteúdo de sua essência e o insere no âmbito comum da presença, de maneira que coisas distintas, como um vaso e um cão, permanecem ontologicamente niveladas enquanto algo presente, apesar das diferenças que permitem identificá-las.

15. A investigação da linguagem e da escrita encontra na fenomenologia hermenêutica heideggeriana possibilidades abertas tanto pela ontologia fundamental quanto pelo pensamento onto-histórico, tornando visível a importância da escrita na prática e na reflexão do filósofo, especialmente quando a mão é compreendida a partir da palavra e o manuscrito como manifestação dessa relação essencial que caracteriza o humano.

16. A palavra escrita, enquanto testemunho da essência humana, permite reconsiderar a complexa relação de Heidegger com seus próprios escritos e a articulação entre vida e obra, suscitando a questão de sua possível proximidade com a interpretação nietzschiana segundo a qual os livros também podem ocultar aquilo que um pensador guarda em si.

17. A experiência filosófica do eremita põe em dúvida tanto a expressão integral das convicções nos livros quanto a existência de opiniões últimas e definitivas, pois cada fundamento pode abrir um abismo mais profundo e cada formulação pode simultaneamente revelar e ocultar, fazendo da filosofia um encobrimento de outras possibilidades e da palavra uma máscara.

18. A relação entre pensamento, escrita e ocultamento permanece uma questão aberta, cuja investigação permite desdobrar seus diferentes aspectos sem exigir uma resposta definitiva que encerraria a complexidade do problema.

19. A reunião de capítulos anteriormente publicados envolve sua atualização e revisão, acompanhadas por um trabalho de leitura crítica cujos comentários e sugestões contribuem decisivamente para o aperfeiçoamento da investigação.

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