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2 GA65

VALLEGA-NEU, Daniela. Heidegger’s poietic writings: from contributions to philosophy to the event. Bloomington (Ind.): Indiana university press, 2018.

Contribuições à Filosofia (Do Evento) (GA65)

1. Este capítulo limita-se a uma exposição de aspectos e temas de Contribuições considerados relevantes quanto aos desenvolvimentos e mudanças no pensamento e na linguagem de Heidegger em seus escritos não públicos do evento entre 1936 e 1942, bem como quanto à própria abordagem crítica de sua obra, não podendo fazer justiça a todos os temas e palavras básicas ali introduzidos, remetendo-se o leitor, para uma introdução mais “equilibrada” a Contribuições, a livro anterior da autora, e, para o engajamento mais crítico com o pensamento heideggeriano nessa obra, ao capítulo 3.

A Estrutura de Contribuições

2. Muito antes de sua publicação em 1989, Otto Pöggeler anunciou Contribuições à Filosofia (Do Evento) como a obra maior de Heidegger, concordando Friedrich-Wilhelm von Herrmann com a pequena correção de que se trata de sua segunda obra maior (sendo a primeira Ser e Tempo), havendo boas razões para isso, embora o mais recente dos escritos poiéticos de Heidegger possa levar a pensar de outro modo.

3. Contribuições à Filosofia é o primeiro dos escritos poiéticos de Heidegger e assume abordagem mais radical da questão do ser em relação a Ser e Tempo, o que já lhe confere estatuto especial, sendo também, em comparação com os volumes seguintes, o mais estruturado deles: as seis partes, ou antes “junções” (Fugen) em que se divide convidam o leitor a percorrê-las como uma viagem pelo domínio da verdade do seer em seu desdobramento histórico transicional (de “A Ressonância” a “O Último Deus”).

  • Segundo o editor, von Herrmann, o manuscrito original preparado por Fritz Heidegger culminava na seção intitulada “O Último Deus”, tendo sido a atual última parte do volume (“Seer”) originalmente colocada após a “Perspectiva”.
  • Como Heidegger anotou considerar a parte intitulada “Seer” “mal colocada”, por constituir “uma tentativa de apreender o todo mais uma vez” e por ter sido escrita mais tarde do que o restante de Contribuições, von Herrmann tomou a decisão editorial de colocá-la ao final do volume, decisão criticada por vários estudiosos de Heidegger que (corretamente, na visão da autora) insistem em que Contribuições deveria ter terminado com “O Último Deus”.

4. Apesar da dificuldade da linguagem e do pensamento de Contribuições, essa “estrutura” torna o volume, em certa medida, mais acessível à mente academicamente treinada, fornecendo uma “grade” ou “ordem” que permite leitura mais estruturada de um livro que, pelos padrões “normais”, carece de estrutura própria, aparecendo antes como compilação de reflexões e notas.

5. Heidegger situa explicitamente o pensamento de Contribuições num caminho do primeiro início ao outro início da filosofia e da história ocidentais, caminho que se abre primeiramente nesse pensamento, sendo um pensamento transicional, um “exercício preliminar” de dizer a conjuntura (Fuge) da verdade do seer, isto é, do modo como o ser se oculta e se desvela historicamente, constituindo também uma tentativa de fornecer “uma primeira elaboração da conjuntura (A ressonância — O último deus)”.

  • A palavra alemã para elaboração, Durchgestaltung, carrega o forte sentido de dar forma a algo por inteiro, de modo que Contribuições ao menos tenta uma articulação completa das dimensões que compõem o domínio da verdade do ser em seu desdobramento histórico e transicional, permitindo isso falar de Contribuições como uma “obra”, ainda que não sistemática no sentido tradicional.
  • Heidegger escreve ainda que a focalização em questões individuais (a origem da obra de arte) precisa dispensar uma abertura e elaboração uniformes de todo o domínio da conjuntura, tomando von Herrmann isso como evidência adicional da importância fundamental de Contribuições como segunda obra maior de Heidegger, fornecendo esse volume algo como um “mapeamento” do pensamento heideggeriano da historicidade do seer ao qual outros ensaios e cursos publicados implicitamente se referem — mapeamento que não ocorre à maneira de uma obra sistemática que fornece categorias nas quais outras obras se encaixariam, mas antes à maneira da abertura das dimensões fundamentais da verdade do seer ali exploradas.

6. A conjuntura da verdade do seer possui seis junções: a ressonância (Anklang) da verdade do seer como recusa no reconhecimento do abandono dos entes pelo ser; o interjogo (Zuspiel) entre o primeiro e o outro início; o salto (Sprung) para o ser-aí (Da-sein), isto é, para o desvelamento do seer; a fundação (Gründung) dessa abertura mediante seu abrigamento em palavras, obras, atos, coisas; os vindouros (die Zukünftigen), envolvidos criativamente nessa fundação; e o último deus (der letzte Gott), cujo passar-ao-largo funda um outro início da história para um povo, sendo esses os domínios da verdade do seer em sua historicidade tal como percorridos e abertos no pensamento transicional de Contribuições.

7. Essas seis junções possuem, em certa medida, caráter sequencial relacionado tanto ao modo como a questão da verdade do seer se desdobra no caminho de pensamento de Heidegger quanto ao modo como se acredita que a verdade do seer se abre historicamente, procurando-se aqui esboçar esse caráter quase sequencial das junções de Contribuições, ciente de que muito permanecerá inexplicado.

8. Todo o domínio da verdade do seer só se abre para aqueles que possuem um senso de aflição em nossa época, que a enfrentam e por ela são desassossegados, constituindo-se a aflição pelo fato de que os entes (coisas e acontecimentos no sentido mais amplo) são abandonados pelo ser, não abrigando verdade alguma.

  • Somente quando esse abandono é experienciado como tal a verdade do seer ressoa em sua recusa, ressoando precisamente em termos de falta e retirada, levando ao mesmo tempo a meditação sobre o que ocorreu no primeiro início (grego) da história do seer a compreender esse abandono dos entes pelo ser como enraizado no modo como a verdade do seer ocorreu inceptivamente, o que por sua vez traz à baila a intimação de um outro início.
  • Tudo isso prepara o salto em que a plena amplitude da verdade do seer se abre, escrevendo Heidegger que o interjogo começa com o primeiro início jogando-se sobre o outro início, a fim de trazer este último ao jogo de tal modo que, a partir desse interjogo mútuo, se desenvolva a preparação para o salto.
  • Somente no salto o pensamento alcança mais plenamente o domínio do outro início; embora este ainda não esteja ocorrendo (o que implicaria mudança histórica no modo como o ser determina a história de um povo, evento comparável ao início da metafísica no pensamento grego), o pensamento já é determinado pela intimação do outro início.
  • No salto, o pensamento experiencia a si mesmo como lançado e respondente ao “lançar” ou “chamado” do seer, experienciando-se como apropriado (ereignet) a partir do evento (Ereignis) no ser-aí (Da-sein), na abertura da verdade do seer experienciada como o desvelamento da retirada do ser (deixando vazio e abandonado o que quer que “seja”) e como o desvelamento de que a verdade ocorre não simplesmente como desvelamento, mas mais fundamentalmente como ocultação do seer, desvelando-se a verdade do seer na relação de reviravolta (Kehre) entre chamado e resposta.
  • Ao mesmo tempo, o pensamento experiencia a necessidade de fundar, isto é, de sustentar e manter aberto o “aí” abissal, o desvelamento da verdade do seer, e assim preparar um espaço de possibilidade para que o outro início possa ocorrer historicamente para um povo, tornando-se o outro início possível, para Heidegger, mediante a fundação do Da-sein (ser-aí), à qual pertence o abrigamento da verdade do seer nos entes (palavras, atos, coisas).
  • A fundação do Da-sein requer fundadores, denominando-os Heidegger “os vindouros” (die Zukünftigen), literalmente aqueles a quem chega “a intimação e a intrusão do afastar-se e do aproximar-se do último deus”, que fundam o Da-sein por meio de palavras, obras e atos.
  • O último deus (não o Deus cristão) marca o momento mais inceptivo do outro início, marcando seu passar-ao-largo a decisão sobre a ocorrência essencial dos deuses e um outro início da história do seer para um povo.

9. Essa “sequência” das junções ou “fugas” da verdade do seer em transição do primeiro ao outro início não pode ser simplesmente entendida como sequencial em sentido linear, dizendo Heidegger explicitamente que as conjunturas não devem ser lidas como sequência linear que constitua “uma ascensão passo a passo do baixo ao alto” e que, em cada uma das seis junções, tenta-se dizer o mesmo sobre o mesmo, mas cada vez a partir de um domínio essencial distinto daquilo que se chama o evento.

  • E, no entanto, particularmente o salto parece sugerir certa linearidade, colocando as duas primeiras junções “antes” do pleno desvelamento da verdade do seer como evento, falando Heidegger, por exemplo, das duas primeiras junções como constituindo o preparo para o salto, e também da ontologia fundamental (Ser e Tempo) como constituindo um “preparo” para o salto.
  • Mas, uma vez que se entra na dimensão da fundação da verdade do seer, o aspecto quase linear já não se sustenta, podendo antes o caráter sequencial ser encontrado na diferenciação entre a tarefa preparatória de Contribuições (fundar o Da-sein como sítio do desvelamento da verdade) e o pressentimento de uma possível fundação histórica de um outro início da história do seer (marcado pelo passar-ao-largo do último deus).

10. Mais tarde Heidegger abandonará a noção de “salto” e criticará Contribuições por ser demasiado “doutrinária”, entrelaçando-se de fato sua tentativa de dizer a partir do evento com explicações de conceitos e reflexões sobre a diferença entre o pensamento transcendental de Ser e Tempo e o pensamento inceptivo de Contribuições, o que sugere certa tentativa de guiar os potenciais leitores rumo a seu “novo” pensamento, permanecendo além disso, em suas preleções públicas da época, nos domínios das duas primeiras junções, buscando acender no público um senso de aflição e uma reflexão sobre o primeiro início e seu término (a metafísica), a fim de preparar aqueles capazes de escutar para o “salto” rumo ao outro início.

11. A principal tentativa de Contribuições permanece, contudo, a de dizer a partir do evento, notando-se que já na última parte de Contribuições (acrescentada às seis junções pelo editor do volume) se encontra (por exemplo, na seção 267) a tentativa de dizer a verdade do seer como evento em suas múltiplas dimensões de apropriação sem recorrer às seis junções como antes, mas antes partindo da aflição dos deuses.

12. Heidegger está ciente do “perigo” de tomar a conjuntura da verdade do seer (com suas seis junções) por um “sistema”, refletindo sobre essa questão em vários pontos da “Perspectiva”, sendo também explícito quanto à impossibilidade de o pensamento seer-histórico assumir a forma de um sistema: “A época dos 'sistemas' passou. A época que elaboraria a forma essencial dos entes a partir da verdade do seer ainda não veio. No ínterim, na transição para o outro início, a filosofia precisa ter realizado algo essencial: o projeto, isto é, a fundação e abertura, do campo de jogo temporal-espacial da verdade do seer [Da-sein].”

13. Para Heidegger, a época dos sistemas passou porque tais sistemas pressupõem o pensamento metafísico em termos de ideias representadas que podem ser ordenadas como blocos de uma casa, o que não impede que obras sistemáticas continuem a ser produzidas no campo acadêmico da filosofia, embora tais obras não respondam realmente à situação histórica presente, nem, sobretudo, ao modo como o ser ocorre, ou antes, se retira, em nossa época.

  • A época do sistema começa, para Heidegger, com Descartes e o domínio do pensamento matemático em sentido amplo, pressupondo a noção de verdade como certeza, ao passo que a tentativa heideggeriana de dizer o evento, de deixar o pensamento guiar-se por uma resposta a como o seer acontece, está fundamentalmente exposta e sem fundamento no sentido metafísico.
  • Esse pensamento tenta responder não a uma ideia geral de ser ou de história, mas à singularidade de um momento histórico em que o pensamento se encontra, vindo a ser o que emerge nesse momento no próprio emergir, sendo o que emerge em nossos tempos históricos, segundo Heidegger, um sentido de abandono, de falta ou de retirada.

14. A noção de unicidade ou singularidade (Einzigkeit) do evento recorre ao longo de Contribuições e é decisiva a esse respeito, não significando a unicidade da ocorrência essencial (Wesung) do seer a ideia de um único ente compreendido como possuindo essência não temporal, nem se referindo a um evento único no tempo cronologicamente concebido, devendo antes a singularidade ser compreendida em contraste com “o geral”.

  • A ocorrência essencial da verdade do seer ocorre na singularidade de um instante tal como se desdobra no pensamento, e não na ou como a generalidade de um pensamento, devendo tudo o que se desdobra no instante e toma forma em palavras, todas as palavras fundamentais que surgem e os domínios que se abrem, ser compreendidos a partir dessa singularidade do instante, no estar-aí no “campo de jogo temporal-espacial” (Zeit-Spiel-Raum) da verdade do seer.
  • É nesse sentido que se devem compreender as seis junções de Contribuições como se abrindo no campo de jogo temporal-espacial da verdade do seer, sendo o que aparece como estrutura “idealmente” mais parecido com as estruturas de uma folha que cresce por si mesma (à maneira de ocorrências de voz média) do que com a projeção racional de ordem e causação.
  • Pensar desse modo permanece uma luta para Heidegger, que acredita que, se um dizer puder um dia unir-se à “conjuntura livre da verdade do seer” a partir do próprio evento, então a ocorrência essencial do próprio seer determinaria a “estrutura” (das Gefüge) da obra.

15. A luta de Heidegger é sempre a de afastar os modos de compreensão determinados pela racionalidade moderna, sendo os gregos, e mais especificamente os pré-socráticos, quem o ajudam a recuperar um sentido de ser como autoemergente (assim ele lê a noção grega de φύσις), donde a necessidade do pensamento transicional, do interjogo entre o primeiro início (gregos) e o outro início ainda não (historicamente) começado, mas intimado (e assim iniciado), estando Heidegger, em Contribuições, ainda em busca, mas tentando dizer “à maneira de um exercício preliminar” (Vorübung), como no outro início.

Disposições Fundamentais do Pensamento

16. Como pensar de tal modo que o pensado emerja “por si mesmo”? Como colocar o pensamento a serviço da verdade do seer em seu acontecer histórico? Diria Heidegger que isso requer “rigor” (Strenge), sendo o que permite esse rigor e uma direção ao pensamento disposições ou atitudes fundamentais (Grundstimmungen) do pensamento não fundadas na subjetividade humana, mas antes surgidas daquilo “que” clama por ser pensado.

  • Pode-se pensar as disposições fundamentais como disposições corporais afetivas que mantêm o corpo aberto, vulnerável ao que clama pelo pensar, não se experienciando, ao passarmos por essa exposição, o corpo como organismo nem como “nosso”, mas antes experienciando-se nosso ser corpóreo como extático e responsivo, alheio e íntimo a um só tempo.
  • As disposições fundamentais deslocam-nos de nosso envolvimento cotidiano com coisas e acontecimentos, abrindo um sentido finito de ser, sendo uma disposição fundamental desfundante e abissal em relação ao ser cotidiano habitual, e ainda assim fundante no sentido de deixar emergir um sentido de ser, de fato um momento de verdade (no sentido de desvelar-ocultar) que de outro modo permaneceria oculto.

17. Em Ser e Tempo (1927), a disposição fundamental exemplar de Heidegger é a angústia (Angst); em Contribuições (1936–1939), a mais frequentemente mencionada é a “contenção” (Verhaltenheit), pertencendo a verdade do ser que a contenção desvela, segundo Heidegger, ao outro início, ainda que, em termos da história de um povo ou de uma época, esse outro início ainda não tenha começado.

  • Ainda assim, ele concebe a abertura na qual o pensamento é desassossegado, aquele tempo-espaço transicional a ser sustentado no Da-sein, como um momento inceptivo para o outro início, no qual o pensamento já não está preso aos modos dominantes de ser em nossa época, encontrando-se numa situação intempestiva.

18. As disposições fundamentais são complexas: na seção 5 de Contribuições, Heidegger medita mais detidamente sobre a disposição fundamental da contenção, intrinsecamente ligada tanto ao choque, permitindo o acompanhamento dessa análise das disposições fundamentais alguma percepção sobre como Heidegger chegou a articular as primeiras junções de Contribuições (a ressonância, o interjogo e o salto).

  • A disposição mencionada primeiro é o choque (Erschrecken), no qual o pensamento é reconduzido e desassossegado do habitual, de modo que o que era habitual passa a aparecer como estranho e como aquilo que aprisiona (Fesselung), sendo os humanos, no choque, “surpreendidos pelo próprio fato de que os entes são (ao passo que, anteriormente, os entes eram simplesmente entes para nós)”, isto é, pelo fato de que os entes são e de que o ser se abandonou e se retirou de todos os “entes” e de tudo que apareceu como um ente.
  • Enquanto a noção de abandono ressoa com a noção de “ser deixado vazio”, a noção de aprisionamento remete à alegoria da caverna de Platão: liberado de seus grilhões, o prisioneiro ascende à verdade do ser — exceto que, no pensamento heideggeriano, o movimento é de descenso, pois o ser se desvela como retirada e o momento primário de verdade é a ocultação, e não o desvelamento do ser como presença (que se desvela antes no espanto).
  • No choque, a ocultação se desvela; a retirada se desvela; abre-se um abismo; o ser ressoa como retirada, constituindo isso, para Heidegger, a primeira junção da conjuntura da verdade do ser — ou, destacando-se a conotação musical da palavra alemã para conjuntura, Fuge (como nas fugas de Bach) —, o primeiro tema da grande fuga da verdade do ser no outro início, ocorrendo isso num reconhecimento daquilo que Heidegger chama a aflição da falta de aflição (Not der Notlosigkeit), revelando que em nossa época estamos sem senso de necessidade — carentes de necessidade e de atenção a ela ao mesmo tempo —, revelando que os entes foram abandonados pelo ser.
  • Com essa noção de abandono, Heidegger repensa o que Nietzsche experienciou como niilismo, e, assim como Zaratustra não encontrou ouvidos ao descer de sua caverna e anunciar a morte de Deus, Heidegger encontra as pessoas surdas à aflição.

19. O choque por si só não basta para permitir ao pensamento habitar a verdade que nele se abre, sendo necessário, assim como o prisioneiro desacorrentado na caverna de Platão precisa ser forçado à ascensão, outro impulso para que o pensamento esteja presente na abertura abismal do outro início (havendo muitos modos de fuga da ausência de fundamento do ser, aplicando-se aqui também o que Heidegger escreve em Ser e Tempo sobre os modos pelos quais o Dasein busca fugir de enfrentar sua própria mortalidade, havendo conexão interna entre o desvelamento do seer como retirada e a abertura para a própria finitude).

  • Heidegger escreve que, “porque nesse choque é precisamente o autoocultar-se do seer que se abre, e porque os próprios entes, bem como a relação com eles, querem ser preservados, esse choque é acompanhado, a partir de dentro, por sua própria e mais própria 'vontade', e é isso que aqui se chama contenção”.
  • Abre-se um abismo e, ao mesmo tempo, “os próprios entes, bem como a relação com eles, querem ser preservados”, sendo esse momento de preservar a relação com os entes ao mesmo tempo em que se é deles desassossegado o que, no curso de 1929/1930, Heidegger aborda como “ser mantido em suspenso” (Hingehaltenheit).
  • Sustenta-se aqui uma tensão entre retirada e ocultação, de um lado, e entes, de outro, um espaço de diferenciação e diferimento entre seer (recusa) e entes, indicando-se que esse espaço de diferenciação é um espaçamento temporal: é o tempo-espaço que Heidegger chama de Da do Da-sein (o “aí” do ser-aí), no qual se desvela a verdade em sua dimensão mais originária (desvelar-ocultar).

20. Heidegger aborda a dimensão temporal desvelada na disposição fundamental de Contribuições mais explicitamente ao falar do pressentimento (Ahnung) como disposição fundamental, sendo o pressentimento “em si mesmo, a um só tempo, choque e exaltação”, “atravessando e medindo a totalidade da temporalidade: o campo de jogo temporal-espacial do 'aí'”.

  • Na seção 34, relaciona o pressentimento à “temporalidade primordial” (Temporalität), isto é, não à temporalidade extática do Dasein (Zeitlichkeit) do projeto de Ser e Tempo, mas à temporalidade mais originária na qual a temporalidade do Dasein (do ser humano) se funda, repensada em Contribuições como a verdade do seer.

21. No pensamento tradicional, as intimações foram concebidas como “subjetivas”, tendo a temporalidade primordial de que fala Heidegger sido interpretada como “temporalidade interior”, podendo dizer-se que seu sentido de temporalidade extática se relaciona de algum modo com o que Agostinho desenvolve no Livro XI das Confissões como “distentio animi”, um distender-se da alma.

  • Contudo, uma das conquistas de Ser e Tempo é que, ao compreender nosso ser como ser-no-mundo, como Dasein, Heidegger elimina a distinção entre interior e exterior, permitindo isso conceber a temporalidade ou tempo-espaço extáticos não a partir da subjetividade, não no sentido de interioridade, mas antes num sentido de exposição e abertura a uma relacionalidade com dimensões históricas que excedem o indivíduo e mesmo a dimensão estritamente humana.
  • Pensar o pressentimento como um “abrir-se a” ainda enfatiza, porém, certa primazia da subjetividade, devido à direcionalidade de pensamento que sugere, devendo-se antes, ao acompanhar o movimento heideggeriano de Ser e Tempo a Contribuições, pensar o pressentimento como uma disposição que vem ao pensamento.

22. O pressentimento é um dos muitos nomes que Heidegger dá às disposições fundamentais do outro início, destacando-se em cada nome um aspecto específico, falando Heidegger na maioria das vezes, contudo, de contenção, o que acompanha certa ênfase colocada na necessidade de suportar (ausstehen) a abertura abismal da verdade, destacando-se aqui certa tensão que também ressoa na noção de Inständigkeit, que substitui a noção de existir ou de êxtases em Ser e Tempo.

  • Inständigkeit significa literalmente “estar-em-pé-dentro” e pode também ser traduzida como “constância” ou (mais adequadamente para o pensamento heideggeriano dos anos 1940) “morada interior”, sendo dessa constância que o pensamento extrai seu rigor.
  • Dispostos pela contenção, os humanos são chamados (apropriados) a permanecer constantes na abertura sem fundamento da verdade do seer como o desvelar-ocultar do seer enquanto recusa, tornando-se assim fundadores da verdade do seer ou “fundadores do abismo”.

23. O suportar (assim como o choque) é apenas um momento da contenção, havendo outro momento discutido na seção 5, que marca um “voltar-se-para” a retirada na hesitação da retirada: a Scheu, que normalmente significa timidez, mas que Heidegger não quer que se entenda nesse sentido, sendo antes uma atitude de abertura hesitante diante da retirada.

  • Scheu foi frequentemente traduzida como “reverência”, mas talvez seja mais apropriadamente traduzida como “pudor”, com o que se pretende afastar a conotação de timidez, tal como o fez Heidegger, destacando antes o sentido de humildade e hesitação, relacionando-se o pudor à dimensão do último deus (última junção de Contribuições).
  • Seguindo Hölderlin, que poetiza essa dimensão em termos da fuga dos deuses, Heidegger pensa os deuses como aqueles que se afastam de si mesmos e acenam nesse afastar-se, sendo eles o que há de mais remoto e, ao mesmo tempo, podendo tornar-se o mais próximo, de modo que o passar-ao-largo do último deus possa ocorrer: “o pudor é o modo de aproximar-se e permanecer próximo do que é mais remoto como tal (cf. o último deus). No entanto, o mais remoto, em suas intimações, desde que estas sejam mantidas firmes no pudor, torna-se o mais próximo e reúne em si todas as relações do seer.”
  • O pudor marca uma intensificação da contenção, um recolhimento, como na tensão de uma corda cuja oscilação se torna tão intensa que alcança um momento de quietude.

24. Mais adiante em Contribuições, Heidegger falará com menos frequência do pudor, mas antes de manter-se em silêncio (Verschweigung), que (segundo diz na seção 5) cresce a partir do pudor, preparando o manter-se em silêncio “a grande quietude” para o passar-ao-largo do último deus, sendo o silêncio, ao mesmo tempo, a dimensão originária da linguagem.

  • O dizer (Sagen) do evento precisa ser diferenciado do falar ou proferir palavras sobre algo, surgindo de uma escuta e pertencimento (gehören) atentos à mais oculta e abissal dimensão do seer, tratando-se de um dizer poiético e originário que carrega o silêncio inceptivo no qual ressoam recusa e ocultação.
  • O dizer poiético é intrinsecamente um Erschweigen, um portar-o-silêncio, referindo-se Heidegger a esse portar-o-silêncio como a “lógica” do pensamento inceptivo e como emergindo da origem da linguagem, encontrando-se na seção 13 expressão dessa dimensão do silêncio que recorda sua leitura muito posterior do poema “A Palavra”, de Stefan George: “as palavras nos faltam… as palavras ainda não vêm de modo algum à fala, mas é precisamente ao nos faltarem que chegam ao primeiro salto. Esse faltar é o evento como intimação e incursão do seer.”
  • Assim, manter-se em silêncio responde à recusa do seer, ao modo como ao pensamento não é (ainda?) concedido um simples dizer do seer, relacionando-se, no entanto, também ao momento mais inceptivo do evento, que carrega em si a possibilidade da decisão sobre os deuses, decisão marcada pela quietude do passar-ao-largo do último deus.
  • Em Contribuições, Heidegger não escreve muito explicitamente sobre linguagem e silêncio, e, no entanto, a luta desse livro é precisamente o dizer do evento.

A Aflição de Nossa Época: Maquinação e Vivência

25. Que o pensamento ainda não tenha concedido um dizer próprio do evento tem, para Heidegger, razões históricas; que ele se encontre ao mesmo tempo necessitado a tentar um dizer do evento também tem razões históricas — razões históricas não no sentido de fatos históricos, diria Heidegger, mas em termos de determinações que dirigem como um mundo e relações mundanas se desdobram, permanecendo toda a discussão das disposições fundamentais em Heidegger algo indeterminada enquanto não se aprofunda o olhar sobre a aflição de nossa época.

26. Heidegger aborda a aflição de nossa época especialmente na junção “ressonância”, meditando sobre ela em relação a toda a história da filosofia ocidental, encontrando-se as raízes da maquinação, para Heidegger, já na Grécia Antiga, marcadas pelo momento em que a noção de τέχνη sobrepuja a φύσις, quando o ser passa a ser abordado em termos de fabricabilidade.

  • Concomitantemente, um sentido de verdade (ἀλήθεια) como desvelamento “desmorona” e cede lugar à noção de verdade como correspondência — a correspondência entre coisa e intelecto —, sendo o ser experienciado e compreendido a partir dos entes presentes (o ser desta ou daquela coisa) e tornando-se meramente algo representado que o intelecto ou apreende corretamente ou não consegue apreender.
  • O ser (no primeiro início, o presenciar, o vir-a-presença de algo) retira-se “por trás” dos entes presentes e apresentados, que assim permanecem “abandonados” pelo ser.

27. A história do primeiro início é a história do abandono dos entes pelo ser, que corresponde à história da maquinação em sentido mais amplo, abordando Heidegger isso especialmente na seção 61, “Maquinação”, onde diz que a maquinação designa um modo pelo qual o ser ocorre essencialmente.

  • O nome maquinação (Machenschaft) refere-se ao fazer (Machen), que por sua vez remete às noções gregas de τέχνη e ποίησις, passando a φύσις (o modo como o ser foi experienciado pelos gregos) a ser compreendida em relação à τέχνη como um “fazer-se a si mesma”.
  • Na Idade Média essa compreensão do ser é reforçada na medida em que o ser é compreendido como criação de Deus e todos os entes são essencialmente compreendidos como entes criados, somente na era moderna, contudo, vindo propriamente à tona o domínio da maquinação (no sentido mais estrito), agora com base na subjetividade e na racionalidade moderna, passando todo desvelamento dos entes (o ser dos entes) a estar sob o signo da fabricabilidade, da calculabilidade (a ciência moderna e a matematização da natureza) e da produtividade da mente racional.

28. Heidegger não pensa que o domínio da maquinação seja falha humana nossa, mas antes uma consequência necessária do modo como o ser inicialmente ocorreu na história ocidental, sendo em nossos tempos atraídos a pensar em termos de fabricabilidade e produtividade, encontrando-nos respondendo ao impulso de produzir mais eficiente e rapidamente, sendo atraídos a planejar e calcular cada vez mais antecipadamente.

  • Esse estado de ser é tão óbvio e avassalador em nossos tempos que dificilmente se precisa ser convencido dele, falando a seção 58, onde Heidegger escreve sobre os modos pelos quais o abandono dos entes se encobre, ainda mais a nossos tempos do que aos de Heidegger, nomeando ele a calculabilidade, a prevalência da organização (em vez de uma mudança de livre crescimento), o constante aumento de velocidade, o “florescer do maciço” (tornar tudo disponível a todos).
  • Todos esses são, para Heidegger, sintomas de um acontecimento mais profundo que se retira da apreensão representacional, a saber, a recusa do seer.

29. O traço básico da maquinação, no qual os entes sempre já nos interpelam, é (segundo Heidegger) reforçado e ao mesmo tempo velado pela “vivência” (Erlebnis), fornecendo a seção 63 indicação concisa de como se deve compreender isso: relacionar os entes representados a si mesmo como centro relacional e assim incorporá-los à “vida”; o que pode contar como efetivamente “sendo” é apenas o que é ou pode ser objeto de uma vivência, o que se impõe no âmbito da vivência, o que os humanos podem trazer a si mesmos e diante de si mesmos.

30. Heidegger compreende a vivência a partir de uma relação representacional (vorstellungshaft) com as coisas, significando a palavra alemã Vorstellung, literalmente traduzida, colocar algo diante de si, enfatizando isso uma diferenciação sujeito-objeto que se torna cada vez mais marcada na metafísica ocidental, de modo que finalmente, na filosofia moderna, o sujeito autoconsciente se compreende em oposição ao mundo.

  • O mundo torna-se um “outro” em relação ao sujeito pensante, tornando-se calculável, explicável, fabricável (maquinação), mas também um meio para o próprio gozo, sendo a vivência um modo de experienciar que, assim como a maquinação em seu estágio final, permanece presa à subjetividade.
  • O que é vivido é incorporado ao sujeito que o vive, sendo a experiência de fato considerada um assunto subjetivo, algo que acontece “em nós” e “conosco”, mas de tal modo que somos o “centro relacional” de toda experiência.

31. A vivência reforça a aflição do abandono dos entes pelo ser porque, na vivência, os humanos pensam estar de fato mais próximos da vida, sentem-se mais vivos e assim não experienciam aflição alguma, o que fecha qualquer necessidade de questionamento, qualquer possibilidade de serem chocados e desassossegados rumo a uma relação mais profunda com a verdade, agora compreendida como desvelamento-ocultante do seer em sua retirada.

32. Para abrir outras possibilidades ao desdobramento da história, modos pelos quais os entes deixem de ser abandonados e um sentido mais pleno e mais originário de ser possa ressoar — em outras palavras, para abrir a possibilidade de um outro início — a aflição de nossos tempos (o abandono dos entes pelo ser) precisa ser experienciada e reconhecida, de tal modo que — no choque — o pensamento seja desassossegado para a situação intempestiva de estar-aí na abertura do autoocultar-se do seer, sendo essa abertura intrinsecamente a abertura de um tempo-espaço de decisão.

O Estar-em-Decisão

33. “Decisão” é um dos conceitos predominantes especialmente na “Perspectiva” de Contribuições, sendo a tarefa fundamental de Contribuições, tal como Heidegger a articula explicitamente, preparar um fundamento, um sítio (o tempo-espaço do Da-sein) para a decisão sobre o outro início, que seria marcado pela quietude do passar-ao-largo do último deus.

  • Trata-se, para Heidegger, de uma decisão sobre a possibilidade de uma outra história no sentido da história do ser, uma vez que o abandono dos entes pelo seer alcança seu estágio final, de modo que se torna questionável se o seer pode uma vez mais acontecer inceptivamente e encontrar sítio terreno-mundano por meio do abrigamento da verdade do seer nos entes, o que por si só abriria uma nova era de um mundo histórico.

34. O pensamento intempestivo de Contribuições, que se encontra desassossegado numa experiência do seer em sua recusa, encontra-se precisamente desassossegado num espaço de decisão sobre a história do seer, sendo o pensamento inceptivo nesse sentido, ainda que por si só não possa iniciar a inceptividade de uma outra época.

  • A decisão sobre um outro início da história está ligada, diz Heidegger, “à concessão ou retenção daqueles eminentes e distintos que chamamos de 'os vindouros'”, indo os vindouros desde os primeiros pioneiros que “fundam antecipadamente os sítios e momentos para os domínios dos entes” (poetas e pensadores como Hölderlin e Heidegger), passando por “aqueles numerosos afiliados” que seguem os pioneiros e tornam visíveis suas descobertas, até um povo unido por sua origem terrena e mundana comum.
  • Heidegger não fala explicitamente dos alemães aqui (ao passo que o faz em seu curso de 1934/1935 sobre Hölderlin), talvez tendo o desencanto com o movimento nacional-socialista algo a ver com isso, sendo certo, como os Cadernos Negros tornam evidente, que os alemães ainda não são o povo ao qual é concedida a fundação de um outro início.

35. Na seção 44, Heidegger lista muitas decisões que acompanham a decisão de um outro início, referindo-se aqui apenas a algumas delas: “se o ser humano deseja permanecer o 'sujeito', ou se o ser humano funda o Da-sein”, sendo digno de nota que Heidegger nomeia essa decisão primeiro, parecendo de algum modo reconfirmar a necessidade de sua abordagem mais antiga (Ser e Tempo) à questão do ser.

  • Enquanto nos experienciarmos e pensarmos a nós mesmos como sujeitos, agentes, entes volitivos agindo sobre um mundo concebido como exterior a nós, todo o domínio do evento permanece fechado, sendo somente ao sermos desassossegados para o desvelamento sem fundamento do seer como recusa, e ao experienciarmos nosso ser como ao mesmo tempo exposto e apropriado, que se pode responder — dispostos pela contenção — ao chamado apropriador de estar-aí (Da-sein) e assim fundar um outro espaço de ser.

36. “Se a verdade como correção degenera na certeza da representação e na segurança do cálculo e da vivência, ou se a essência inicialmente infundada da ἀλήθεια vem a ser fundada como a clareira do autoocultar-se” — destaca-se essa decisão também por sua centralidade na obra de Heidegger, concernindo especialmente ao interjogo entre o primeiro início (grego) e o outro início.

  • A leitura heideggeriana da noção de ἀλήθεια como desvelamento é passo importante para pensar o ser em termos de um evento desvelador (temporalizante, presenciante), abrindo também o pensamento da ocultação que pertence ao ser, prenunciando ainda o ensaio “Da Essência da Verdade” o deslocamento (“reviravolta”) da abordagem transcendental do seer (no projeto de Ser e Tempo) ao pensamento do seer em sua historicidade.
  • Compreender a verdade como correção significa permanecer no âmbito do pensamento representacional, na dualidade de sujeito e objeto, pensamento e pensado, sendo essa tendência de pensamento, segundo Heidegger, historicamente determinada e consequência da recusa do seer, de sua retirada “por trás” da representação dos entes (entidades no sentido mais amplo).
  • Trata-se de um modo de alienação que nos distancia do mundo, mas de tal maneira que não notamos a alienação, acreditando-nos antes certos na proximidade das coisas ao contarmos com elas e delas usufruirmos (vivência), ao pensarmos “pragmática” e “realisticamente” e tentarmos resolver nossos problemas cotidianos, sendo difícil suportar experienciar a verdade como desvelar-ocultar sem fundamento e sem base sólida, transformando isso completamente nossa relação com o mundo, constituindo de fato a própria ocorrência da verdade como desvelamento-ocultação um espaço de decisão.

37. “Se a natureza é degradada a um domínio explorável de cálculo e organização e a uma ocasião para 'vivência', ou se, como terra que se resguarda a si mesma, ela sustenta o domínio aberto do mundo sem imagem” — destaca-se essa decisão apesar de Heidegger falar muito pouco de natureza e terra em Contribuições, mencionando a terra em sua relação com o mundo com mais frequência do que a natureza, devendo-se ter em mente que o importante ensaio “Da Origem da Obra de Arte” foi escrito na mesma época que Contribuições e deve ser lido como desenvolvendo certo aspecto desse pensamento (a tarefa da obra de arte de pôr a verdade em obra e assim fundar o Da-sein), destacando-se essa decisão porque a destruição da natureza e o papel que nela desempenhamos os humanos torna-se cada vez mais visível, permitindo Heidegger uma reflexão sobre as raízes dessa ocorrência.

38. “Se a ausência do divino nos entes celebra seus triunfos na cristianização da cultura, ou se a aflição da indecidibilidade quanto à proximidade e ao afastamento dos deuses prepara um espaço de decisão” — está, para Heidegger, o pensamento da fundação (a decisão de um outro início) inextricavelmente ligado ao divino, permanecendo a compreensão do “advento e afastamento dos deuses” bem como do “passar-ao-largo do último deus” uma das questões mais difíceis, abordada aqui sobretudo negativamente, isto é, em termos do que Heidegger não quer (não pode) dizer.

  • Os deuses e o deus não são entes nem forma alguma de presença; de fato, carecem de ser, não são; qualquer forma de representação deve fracassar, encontrando Heidegger um sentido deles em sua leitura de Hölderlin, sendo o poeta, para Heidegger, aquele que recebe os acenos dos deuses e os transmite em fala poética.
  • O que Hölderlin escreve é a perda dos antigos deuses (os deuses da Grécia, mas talvez também o Deus cristão), sendo essa perda ou falta o que também prevalece no pensamento heideggeriano, ainda que precisamente a experiência da “fuga” dos deuses carregue um sentido de sua possível chegada — é assim que se compreende por que Heidegger sempre escreve “fuga e chegada” ou “proximidade e afastamento” e nunca “fuga ou chegada”, “proximidade ou afastamento”.
  • Poder-se-ia também acrescentar como o anúncio nietzschiano do niilismo acompanha a “notícia” da morte de Deus, compartilhando Nietzsche, segundo Heidegger, a experiência do abandono dos entes pelo ser e alcançando de algum modo o domínio da decisão, mas sem ainda conseguir “saltar” para um outro pensamento, permanecendo preso à metafísica.

39. Ao pensar a decisão em termos da decisão de um outro início da história para um povo, é difícil não voltar a pensar de modo sequencial, quase linear, levando inevitavelmente a isso a seção 45 de Contribuições, que fala da necessidade dos vindouros (e de um povo).

  • Mas, se se segue o pensamento heideggeriano da decisão até seu núcleo, ele conduz a outro espaço de pensamento, um estar-em-decisão que deve permanecer “cego” ou incapaz de projetar o que ocorrerá, tal como nos acontece ao nos encontrarmos no espaço de uma decisão que inevitavelmente, e ao menos em certa medida, não depende de nós.
  • Há momentos em que tudo o que se pode fazer é suportar o espaço da indecisão, valendo essa comparação com modos mais comuns de estar-em-decisão, de perspectiva heideggeriana, apenas até certo ponto, pois o pensamento de Heidegger tem uma “tarefa” histórica; ao tornar-se inceptivo, segue uma necessidade (Not), a saber, a de pensar o seer a partir da verdade do seer, não sendo o pensamento do evento passivo, mas uma adesão rigorosa àquilo “que” necessita o pensamento, ao que clama por ser pensado, ao “que” quer ser dito e só é nesse ser dito.

40. Seguir o pensamento heideggeriano até o espaço do estar-em-decisão leva ao próprio coração do evento, não estando aqui a decisão ainda articulada num ou-ou, mas sendo o tempo-espaço onde tais articulações emergem, pensando Heidegger o evento na e como uma reviravolta.

  • Ao abordá-lo (como Heidegger sugere, por exemplo, na seção 122) com uma meditação sobre o que ocorre no pensamento, quando a reviravolta do evento é “descoberta”, pode-se dizer o seguinte: desassossegado por uma aflição, o pensamento ocorre na experiência de uma recusa que necessita (clama por) um suportar ou perdurar dessa recusa, encontrando-se assim o pensamento já respondendo ao seer em sua recusa (havendo uma relação de reviravolta entre chamado e resposta, tal que não há um momento precedendo o outro no tempo).
  • O perdurar da retirada e a resposta do pensamento à necessidade do seer permitem que a recusa seja de algum modo retida, tornando-se uma autorrecusa hesitante (zögerndes Sichversagen), desvelando-se nessa hesitação a verdade como desvelar-ocultar, havendo então uma relação de reviravolta entre a verdade do seer e o seer da verdade.
  • A abertura desse evento é o Da-sein: o ser-aí, exigindo o Da-sein que o pensamento esteja (n)o aí do desvelar-ocultar, experienciando-se o pensamento como apropriado a estar-aí, sendo o Da-sein o instante, o tempo-espaço apropriado (ereignet) que desvela e mantém aberto o evento da verdade, sendo assim o ponto pivô da reviravolta no evento, o lugar da decisão (Entscheidung) no sentido de cisão, diferenciação, mas também de encontro e pertencimento.

41. A de-cisão como a qual a verdade do seer ocorre no Dasein de-cide humanos e deuses em seu encontro e abre o que Heidegger chama a contenda de mundo e terra (tendo-se aqui um precursor da quadratura posterior de mortais e divindades, céu e terra), significando isso que não basta pensar o evento como a relação de reviravolta entre o seer e os humanos.

  • A autorrecusa do seer carrega em si a fuga dos deuses (na seção 267, Heidegger fala mesmo da aflição — Notschaft — dos deuses), tornando-se, porém, quando mantida em hesitação, um sítio de decisão sobre o afastamento e o advento dos deuses, havendo muitos lugares em que Heidegger aborda a necessidade de fundar o Da-sein não simplesmente falando da autorrecusa do seer ou do abandono dos entes pelo ser, mas antes partindo dos deuses, isto é, de sua fuga e de como necessitam o Da-sein.

42. Na seção 7, Heidegger diferencia a abertura do sítio de decisão sobre os deuses da ocorrência do evento que traz humanos e deuses a um encontro, escrevendo primeiro que, se, por meio de um deslocamento, os humanos vêm a estar no evento e nele permanecem constantes na verdade do seer, ainda assim se encontram apenas à beira do salto para a experiência decisiva de se, no evento, a permanência ausente ou a intrusão do deus decide a favor ou contra os humanos.

  • Heidegger fala aqui de como a verdade do seer primeiramente se desvela de modo transicional, ainda sem envolver a decisão sobre o deus; um pouco mais adiante escreve que o evento consigna [übereignet] o deus ao ser humano ao designar [zueignet] o ser humano ao deus, sendo essa designação consignadora o evento apropriador [Diese übereignende Zueignung ist Ereignis], nele se fundando a verdade do seer como Da-sein (transformando-se o humano, lançado à decisão entre o ser-aí [Da-sein] e o ser-ausente [ Weg-sein ]), e a história toma do seer seu outro início.
  • Aqui Heidegger parece pensar adiante o modo como o evento aconteceria historicamente, caso aconteça, sendo a consignação do deus e a designação dos humanos (outra relação de reviravolta), pode-se dizer, intimadas como possibilidade a partir de um senso de necessidade.

43. Heidegger fala continuamente nesses diferentes registros em Contribuições: por um lado, articula a abertura transicional, ainda que já inceptiva, da verdade do seer, onde o seer permanece em sua recusa e os entes são abandonados pelo ser, sendo aqui a recusa suportada de tal modo que o Da-sein e, nele, a verdade do seer se desvelam; por outro lado, pensa adiante a ocorrência do evento em termos do início (fundação) de uma outra história, quando os entes não mais seriam abandonados pelo ser.

  • Com o passar-ao-largo do último deus, a verdade do seer seria “abrigada” (geborgen) nos entes, encontrando a verdade um sítio mundano-terreno.

Beyng e Entes: Fundação e Abrigamento

44. Isso conduz à problemática da fundação (Gründung) em relação ao caráter inceptivo e ainda assim preparatório do próprio pensamento heideggeriano, sendo necessário, para que o evento ocorra inceptivamente e inicie uma nova época da história do seer, que a verdade do seer seja fundada no Da-sein, o que traria a verdade para o aberto de um mundo e a colocaria na terra.

  • Para ser fundada no Da-sein, a verdade precisa ser abrigada nos entes, requerendo isso que os humanos, respondendo ao chamado apropriador e tomando assim a diretriz do próprio evento, abriguem a verdade em palavras, obras ou atos, sendo a tentativa de dizer o evento uma tentativa de abrigar a verdade em palavras.
  • Se e em que medida Heidegger é bem-sucedido nesse empreendimento é questão a abordar mais adiante, destacando-se por ora que o pensamento inceptivo, quando é um pensamento fundante, abriga a verdade ao trazer o seer e os entes à sua “simultaneidade”, não no sentido de ocorrerem ao mesmo tempo linearmente, mas no sentido de ocorrerem juntos no evento.

45. A simultaneidade de seer e entes marca diferença decisiva entre o modo como Heidegger aborda a questão do ser em Contribuições e o modo como a abordou em Ser e Tempo, aproximando-se a obra anterior do ser não apenas pela transcendência do Dasein (designando aqui Dasein mais estritamente o ser dos humanos), mas também pela articulação da diferença ontológica.

  • Heidegger distingue a relação ôntica com o ser, isto é, como o ser é factualmente experienciado (e na maior parte esquecido na vida cotidiana), da abordagem ontológica (questionar e desnudar estruturas fundamentais do ser subjacentes a todos os modos ônticos de ser), deixando ao mesmo tempo claro que a própria abordagem ontológica ao ser, isto é, perguntar pela questão do ser, é uma possibilidade ôntica da existência humana, possibilidade aberta onticamente somente na disposição fundamental da angústia.
  • Heidegger critica toda a filosofia ocidental anterior (a metafísica) por não questionar o ser como tal, isto é, por nunca alcançar explicitamente a questão ontológica do ser, permanecendo a metafísica ôntica na medida em que permanece orientada pela presença do que se mostra: os entes.
  • A metafísica pensa o ser apenas como a determinação mais geral de todos os entes, isto é, como “eidade” (Seiendheit), e não a partir de seu horizonte temporal (o vir-a-presença, a verdade do ser), sendo ao mesmo tempo determinada por e incapaz de questionar a diferença ontológica entre o ser (em seu horizonte temporal) e os entes, permanecendo, contudo, também a própria abordagem ontológico-fundamental de Heidegger estruturada pela diferença ontológica ao distinguir estruturas existencial-ontológicas de modos ônticos concretos de ser.

46. Em Contribuições, Heidegger funde essas duas “camadas” fundacionais (a ôntica e a ontológica) e tenta permanecer numa experiência autêntica de ser e falar a partir dessa experiência, não havendo, então, diferença estrutural operante entre modos ôntico e ontológico de pensamento.

47. Isso, contudo, não abole a diferença entre seer e entes, refletindo Heidegger, na seção 266 de Contribuições (perto do fim da última parte do livro), sobre a diferença ontológica, sobre como é necessária para abrir caminho da pergunta diretriz da metafísica (o que são os entes) à pergunta fundamental (da verdade do seer), mas dificulta precisamente um pensar a partir do evento.

  • Reafirma então uma diferença entre ser e entes (não em termos da diferença ontológica, contudo) dizendo: “como fundada, a relação com o ser [ Sein ] é constância no Da-sein; significa permanecer dentro da verdade do seer (como evento)… a relação com os entes [Seiendes] é a conservação criativa da preservação do seer nos entes que, em conformidade com tal preservação, se colocam como entes na clareira do 'aí'.”
  • Em ambas essas frases, a relação deve ser compreendida a partir da relacionalidade constitutiva do ser humano, e não como vínculo entre entidades discretas, desvelando-se, para os humanos, o ser no estar-aí, na abertura da verdade, ao passo que a relação com os entes emerge do ser ao criar e preservar no falar, agir, cuidar, e assim abrigar o desvelamento e a ocultação do ser em palavras, atos e coisas, ocorrendo a relação com os entes dentro da (relação com o) ser no ser-aí.

48. Pode-se, contudo, abordar a diferença entre seer e entes em Contribuições de outro modo, pensando-a a partir da decisão (no sentido literal de cisão ou diferenciação) como a qual a verdade do seer se desdobra inceptiva e ainda assim transitoriamente, requerendo isso alerta para a emergência de um espaço de decisão no qual alguém se encontra como participante, e não como agente, um alerta que não objetifica nem o espaço de decisão nem a si mesmo.

  • O espaço de decisão em que Heidegger pensa é também o espaço de diferenciação entre seer e entes, significando a indecisão, o estar-em-decisão do pensamento inceptivo, que ainda não é fundante em sentido pleno, e as palavras (entes) não dizem ainda plenamente do evento (vom Ereignis).
  • Heidegger tenta de fato articular a abertura inceptiva do aí do Da-sein, o vir a ser abrigado, o ainda-não-ser dos entes em sentido pleno, conduzindo isso a uma das passagens mais difíceis e centrais de Contribuições, a seção 242, “Tempo-Espaço como Fundamento Abissal”.

49. O “aí” do ser-aí primeiramente se desvela como fundamento abissal, como “o afastar-se do fundamento” (GA65: 379), referindo-se esse afastar-se ao abandono dos entes pelo seer, experienciado como um modo de deixar não cumprido, vazio (Heidegger começou a pensar isso como o ser-deixado-vazio constitutivo do tédio profundo em 1929/1930).

  • Esse vazio é também uma abertura disposta e atenta de modo singular pelo próprio vazio, podendo abordar-se esse pensamento por analogia — o vazio deixado pela morte de alguém próximo, ou o vazio deixado quando os filhos deixam a casa, ou ao mudar-se para um novo lugar — havendo em cada caso um sentido de “perda”, de “vazio”, um vazio específico que possui, por assim dizer, um “sentir” próprio, estando-se na atração do que ou de quem não mais está ali.
  • Pode-se também pensar no processo da escrita criativa, quando se tem o sentido de que há “algo” (isto é, ainda não algo) que quer ser dito, mas “isso” se retém e nos deixa buscando enquanto permanecemos atentos a essa retenção.

50. De modo análogo, o pensamento de Contribuições encontra-se na atração da autorretenção historicamente determinada do ser, e nessa atração ocorre um clareamento do fundamento abissal, um clareamento (Lichtung) da ocultação, sendo esse clareamento da ocultação (verdade) a recusa hesitante do seer.

  • A noção de hesitância é decisiva aqui, pois não ocorre mera recusa (que desapareceria), mas uma tensão e um “espaçamento” em relação à recusa, na qual reside uma intimação (Wink) que acena (apropria) o ser do aí (Da-sein), o sustentar e (por meio desse sustentar) a constância do clareamento ocultante.
  • É assim que a verdade do seer é fundante do Da-sein e o Da-sein se funda na verdade do ser, encontrando-nos chamados a suportar a atração do vazio, de modo que a recusa do seer se clareia e encontra um sítio, um momento de constância, no ser-aí (Da-sein).

51. O clareamento do seer ocorre a partir de um vazio que dispõe o pensamento (e, acrescente-se, dispõe também nosso ser corpóreo), meditando Heidegger mais sobre esse vazio disponente como constituindo o clareamento ou abertura escancarada do tempo-espaço, falando de “um bocejar originário aberto na autorretenção hesitante”, o que lembra quase o Caos no início da Teogonia de Hesíodo, sendo o clareamento do tempo-espaço um temporalizar e um espacializar a um só tempo.

52. Heidegger escreve que a autorretenção cria um vazio “que é em si mesmo transportador [ entrückend ], isto é, transportador para o 'porvir' e assim, simultaneamente, rompendo o que foi”, constituindo este último, ao impactar-se junto com o porvir, o presente como um mover-se para o abandono que rememora e espera.

  • Clareia-se aqui um sentido de tempo que não é um tempo linear, mas antes a temporalidade extática e suspensa de um instante (Augenblick), um momento de decisão, tendo esse momento também um aspecto espacial, ainda que não no sentido de espaço extenso e mensurável, mas antes como um espaço que comumente se interpretaria como “interior”.
  • Na medida em que se mantém em hesitação, a autorretenção do seer é “captação” originária (Berückung) num “abraço” (Umhalt), escrevendo Heidegger: “essa captação é o abraço no qual o instante e, assim, a temporalização são mantidos firmes… essa captação também torna possível uma concessão como possibilidade essencial, concedendo à concessão um espaço. A captação é a espacialização do evento. Através da captação, o abandono é um estabelecido a ser suportado.”

53. Poder-se-ia dizer que, para Heidegger, o temporalizar marca mais o aspecto extático do tempo-espaço, isto é, a abertura da recusa e o transporte para essa recusa, ao passo que o espacializar marca mais o “manter aberto” que ocorre num suportar que permite ao clareamento do tempo-espaço ter constância.

54. No transporte para a recusa do seer e na captação no abraço (que implica suportar e assim manter aberta a recusa), abre-se um tempo-espaço de decisão, a decisão sobre a possibilidade de um outro início, sendo aqui que o pensamento de Contribuições é inceptivo (anfänglich), que o pensamento sonda (ergründen) o tempo-espaço da verdade e pensa inventivamente (erdenken) e diz essa mesma ocorrência, cada vez de novo, cada vez na singularidade de uma experiência do seer.

  • Ao menos é isso o que Heidegger tenta fazer; se é bem-sucedido, “suas” palavras (as palavras que surgem a partir do evento) abrigam a verdade, “suas” palavras fornecem um sítio para a ocorrência da verdade como desvelar-ocultar (e não simplesmente como presença de algo).

O Aspecto Performativo da Escrita de Heidegger

55. Gostaria de concluir as seções expositivas sobre Contribuições com algumas observações sobre o aspecto mais performativo da escrita de Heidegger, não permitindo a ênfase em explicar o que ele tenta fazer que transpareça plenamente o caráter tentativo e buscante de sua escrita, os muitos pontos de interrogação e interpolações que insere no texto, e as inúmeras repetições de pensamento especialmente em relação a conceitos como evento, verdade, Da-sein, pensamento inceptivo, decisão, ressonância, abandono pelo ser, maquinação e vivência, interjogo, primeiro e outro início, salto, seer e entes, ocorrência essencial (Wesung) do seer, tempo-espaço, filosofia, havendo mais a dizer sobre as partes intituladas “Ressonância” e “Interjogo”, mas retornando os temas relacionados a essas junções em Besinnung, o próximo dos escritos poiéticos, a ser tratado mais detidamente no capítulo 3.

56. A densidade das seções de Contribuições é desigual, entendendo-se por densidade, por exemplo, seções muito compactas e complexas, como a sobre tempo-espaço e abismo já mencionada, que pensam “de dentro” de uma experiência de um instante de decisão e buscam cuidadosa e lentamente as palavras apropriadas.

  • Há também seções menos densas, como aquelas em que Heidegger critica modos metafísicos de pensamento ou trabalha com as noções de maquinação e vivência, reunindo as seções mais densas o pensamento rumo às suas tentativas mais radicais de dizer o evento.
  • Há, contudo, muitas outras seções em que Heidegger explora temas mais acessíveis ao leitor, soando algumas dessas seções mais como se falasse consigo mesmo, elaborando seu pensamento por escrito (como muitas seções da “Perspectiva” o fazem), parecendo outras seções ocorrer a partir de sua preocupação em bloquear mal-entendidos ou abrir caminho para que outros encontrem acesso a seu pensamento, por exemplo, refletindo sobre Ser e Tempo ou trabalhando com conceitos dessa obra anterior.
  • Mencionou-se antes que, mais tarde, Heidegger criticaria Contribuições por ser demasiado “doutrinária” e por aderir em excesso à diferença entre pergunta diretriz (metafísica) e pergunta fundamental, tendo ele em mente aqui, ao que parece, as seções menos densas e mais acessíveis de Contribuições.

57. Grande parte do pensamento de Contribuições dedica-se à preparação da transição para o outro início, estabelecendo Heidegger parâmetros através da sequência de junções e colocando ênfase nas duas primeiras (a ressonância e o interjogo), sugerindo também o salto certo sentido de ruptura entre reflexões e experiências preliminares preparatórias, de um lado, e a plena imersão no pensamento do evento, de outro.

  • O próprio Heidegger “salta” entre diferentes níveis de engajamento com um dizer do evento, fazendo sentido, então, que em A História do Seer diga: “'Contribuições' ainda são armação, mas não uma conjunção.”
  • Parece, contudo, que ao menos em 1938 Heidegger ainda tinha em mente uma “obra” que substituiria a primeira tentativa em Ser e Tempo, talvez não uma obra no sentido tradicional, mas certamente uma articulação da “posição básica para a questão da verdade do seer”, como sugere “Um Olhar Retrospectivo sobre o Caminho” (escrito em 1937–1938), no apêndice de Besinnung, onde Heidegger diz também que, com Contribuições à Filosofia, “a forma ainda não foi alcançada, a qual exijo precisamente aqui para uma publicação como 'obra'; pois aqui o novo estilo de pensamento deve primeiro se anunciar — a contenção na verdade do seer; o dizer do portar-silêncio — o amadurecer para a essencialidade do que é simples.”

58. Heidegger não está, então, satisfeito com o “estilo” de pensamento em Contribuições, por não considerá-lo disposto pela contenção de maneira adequada, encontrando-se contenção ressoando especialmente através do uso frequente de palavras como “suportar”, “perdurar”, “sustentar”, “permanecer em…”, e “constância”.

  • Considerem-se algumas passagens exemplares: “o Da-sein é humanamente suportado e sustentado na constância que suporta o 'aí' e pertence ao evento”; “a contenção do Da-sein primeiro funda o cuidado como a constância que suporta o 'aí'”; “a necessidade da filosofia como meditação consiste no fato de que ela não pode afastar essa aflição, mas deve antes suportá-la, fundá-la, e fazer dela o fundamento da história da humanidade”; “a tarefa do questionar (resolução para a meditação e para suportar a aflição)”; “Da-sein: suportar a abertura do autoocultar-se”; “daí a constante suportação da ocorrência essencial da verdade do seer. Essa dualidade conflitante o enigma. Portanto o Da-sein o 'entre' — entre seer e entes”; “o que significa 'permanecer' na clareira da ocultação e suportá-la? A disposição fundamental da contenção. A extraordinária irrepetibilidade histórica dessa constância, que aqui primeiro, e somente aqui, decide-se sobre 'o que é verdadeiro'. Que espécie de constância está envolvida nessa constância? Ou, para colocar a pergunta de outro modo: quem é capaz de ser Da-sein, e quando e como?”

59. Na seção “Seer e Entes: Fundação e Abrigamento” acima, Heidegger falou da contenção como a “vontade” que se une ao choque que desloca o pensamento da cotidianidade e desvela o abandono dos entes pelo seer, tendo essa “vontade” sido interpretada em relação ao suportar que Heidegger considera necessário, havendo, contudo, também outro momento por ele mencionado quanto à disposição básica do pensamento inceptivo, a saber, o pudor (Scheu), menos marcada por tensão e mais por atenção, um recolhimento em direção ao silêncio.

60. É interessante que há menos passagens em Contribuições dedicadas ao pudor e ao silêncio do que ao suportar e seus cognatos, havendo, além das seções 37 e 38, nas quais Heidegger fala mais sobre a necessidade do portar-silêncio (Erschweigen), apenas poucas passagens em que menciona explicitamente o silêncio.

  • Há uma seção (31, “O Estilo do Pensamento Inceptivo”) que traz indicação do que Heidegger entende por “estilo”: “estilo: a autocerteza do Dasein em sua legislação fundante e em seu suportar da ira… a contenção está a serviço da medida suave — suportando-a através do silêncio [es erschweigend] — e sofre a amarga ira; ambas — pertencentes uma à outra — encontram-se de diferentes modos, tanto a partir da terra quanto a partir do mundo. O estilo como certeza crescida é a lei da execução da verdade no sentido do abrigamento nos entes.”
  • Heidegger pensa a contenção como um “estilo”, relacionando estilo à certeza (devendo-se supor que não fala de certeza no sentido cartesiano) e à lei, permanecendo, contudo, na seção acima, “medida suave” e “portar-silêncio” ligados à “amarga ira” e assim, novamente, a um sentido de tensão.

61. Heidegger associa estilo à fundação no sentido de abrigar a verdade nos entes, como ocorre na obra de arte, sendo o abrigamento da verdade, contudo, precisamente aquilo que Contribuições ainda não pode fazer (segundo Heidegger), não possuindo ainda o pensamento o estilo, a certeza, e a medida firme.

  • Há, no entanto, passagens em Contribuições em que Heidegger afirma já conhecer (Wissen) e decisão (Entschiedenheit) no espaço transicional de Contribuições, por exemplo na seção 237, “Crença e Verdade”: “se a essência da verdade é a clareira para o autoocultar-se do seer, então o conhecer é uma permanência nessa clareira de ocultação e é, assim, a relação básica com o autoocultar-se do seer e com o próprio seer. Esse conhecer não é então ter por verdadeiro apenas algo ou outro que por acaso seja verdadeiro, ou mesmo algo preeminentemente verdadeiro; é antes, originalmente, uma permanência na essência da verdade. Esse conhecer, o conhecer essencial, é então mais originário do que qualquer crença, pois esta apenas se ocupa de algo verdadeiro [isto é, de um ente e não do próprio ser]; portanto, se a crença há de escapar da cegueira absoluta, precisa necessariamente saber o que significa ser verdadeiro e ser uma verdade! O conhecer essencial é uma permanência na essência. O que se pretende expressar com isso é o fato de que tal conhecer não é mera representação de um encontro; é persistência dentro do irromper de um projeto que, na própria abertura, vem a conhecer o abismo que o sustenta.”

62. Heidegger repensa aqui a noção de conhecer fora do âmbito da representação, não sendo o conhecer a presença imediata de um objeto de pensamento, mas a relação constante com o que se oculta a si mesmo (a verdade como desvelar-ocultar), caracterizando também, na seção 26, o conhecer como renúncia: “o mais alto conhecer é aquele que se torna forte o bastante para ser a origem de uma renúncia”, não apenas “mantendo firme” essa renúncia, mas também trazendo à luz “através de luta e sofrimento” o “entre”, o tempo-espaço de decisão para um outro início.

63. O que Heidegger retém da compreensão mais comum do conhecer é — novamente — um sentido de constância, de permanência e firmeza em meio à luta, sendo o portar-silêncio também caracterizado por esse sentido de conhecer, e o questionar ocorrendo dentro desse conhecer.

64. Por que essa persistência de disposições e atitudes que enfatizam o manter-se firme, o suportar, a constância, o conhecer e assim por diante? Heidegger dá resposta clara: por causa da aflição de nossa época, por causa da urgência diante da possibilidade de um completo abandono dos entes pelo ser no nivelamento de todos os modos de ser e de desvelamento dos entes através do domínio exclusivo da maquinação e da vivência.

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