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1 Introdução

VALLEGA-NEU, Daniela. Heidegger’s poietic writings: from contributions to philosophy to the event. Bloomington (Ind.): Indiana university press, 2018.

Introdução aos Escritos Poiéticos de Heidegger

A Regressão à Fonte

1. Os volumes 65 a 72 das obras completas de Heidegger contêm a tentativa de repensar a questão do ser de modo mais radical do que em Ser e Tempo, não tendo sido concebidos para compreensão pública, mas voltados à busca de uma linguagem para pensar e dizer o ser de maneira mais originária (ursprünglich), sendo Contribuições à Filosofia (Do Evento) [Beiträge zur Philosophie (Vom Ereignis)] o primeiro da série e considerado por muitos a segunda obra maior de Heidegger.

  • Segundo o testemunho do editor das obras completas, Friedrich Wilhelm von Herrmann, Heidegger afirmou que Besinnung (1938/1939), Über den Anfang (1941), Das Ereignis (1941/1942) e Die Stege des Anfangs (1944) estão estreitamente ligados a Contribuições à Filosofia (1936–1938), na medida em que repensam por inteiro e sob nova abordagem a conjuntura (Gefüge) dessa obra.
  • A Superação da Metafísica (Die Überwindung der Metaphysik, 1938/1939) e A História do Seer (Die Geschichte des Seyns, 1939/1940) mantêm igualmente estreita relação com Contribuições, reunindo todos esses volumes — além de notas adicionais e, ao menos em parte, dos Cadernos Negros redigidos concomitantemente — a tentativa de pensar o ser como e em seu acontecer histórico, agora denominado Ereignis (o evento).
  • Tal pensamento é seynsgeschichtlich, “seer-histórico”, visando não objetificar ou representar o ser, mas responder-lhe em seu acontecer histórico de modo que, nessa resposta, o ser histórico se abra e se articule originariamente, tornando-se, quando bem-sucedido, sítio de desvelamento do ser em sua historicidade, e não mera representação subjetiva (distinguindo-se aqui Historie, a historiografia objetificante, de Geschichte, a história como evento), razão pela qual se grafa “seer” (Seyn) com “y” em alemão.

2. Por não ser o ser histórico algo pronto e apenas posteriormente pensado, mas algo que ocorre somente no pensar, denominam-se “poiéticos” os escritos seer-históricos (seynsgeschichtlich) de Heidegger, ainda que esse pensar não seja poesia, aproximando-se dela, contudo, em sua abordagem.

3. Já no início dos anos 1930, ao buscar nova linguagem para pensar e dizer o ser em sua historicidade, Heidegger reflete sobre a proximidade entre poesia e pensamento (Dichten und Denken), tornando-se central a poesia de Hölderlin para sua busca de uma nova articulação do ser, sendo em diálogo com ela que Heidegger começa a articular o seer em sua historicidade e a enquadrar a história do ser em termos de um primeiro e de um outro início, tudo isso no contexto do início dos anos 1930, quando a Alemanha é tomada por uma nova ressurreição após a Primeira Guerra Mundial e por uma promessa de grande história, febre que também contagiou o pensar e o agir de Heidegger.

Impasses no Projeto de Ser e Tempo

4. Heidegger foi levado a conceber a necessidade de um pensar (a partir) do evento, procedendo de um desvelamento originário do próprio ser, em razão dos impasses encontrados no projeto de Ser e Tempo, no qual já se tentava pensar o ser a partir do tempo, isto é, resituar a pergunta metafísica “o que é…?” no “é”, de modo que o ser fosse compreendido temporalmente, não mais como essências atemporais, mas como questionamento do “é”, do ser-sendo das coisas.

  • A filosofia deveria ser reconduzida de seu enraizamento na epistemologia neokantiana à questão do sentido do ser, apontando Heidegger continuamente como, no pensamento ocidental tradicional, o ser como tal (Sein) é sempre questionado a partir de um ente (Seiendes), de modo que a pergunta “o que é um ser vivo” recebe resposta enquadrada como essência atemporal com base em um ente vivo particular representado.
  • O pensamento ocidental desenvolve-se como um representar (Vor-stellen), pelo qual o pensamento coloca (stellt) diante (vor) de si o que é pensado, mostrando Heidegger que, enquanto no pensamento antigo e medieval a coisa que se mostra era a base da representação, na filosofia moderna é o “eu penso” que se torna fundamento de toda representação, de modo que a questão do ser passa a ser condicionada pelo “eu penso”, um “eu represento”, sendo o ser condicionado e objetificado por uma subjetividade e simplesmente representado como a determinação mais geral dos entes, sem sentido próprio, um invólucro vazio diante do olhar da mente.

5. A tarefa consiste então em revitalizar a noção de ser como aquela que nos interpela em nossa existência temporal e histórica concreta, tendo Heidegger escolhido, em Ser e Tempo, abordar a questão do sentido temporal do ser mediante inquirição sobre o ente que cada um de nós é, denominado “Dasein”, traduzido literalmente como ser-aí.

  • Em vez de situar a questão do ser na subjetividade humana, isso implica descentrar o conceito de subjetividade humana, uma vez que, em nosso concreto ser-aí cotidiano, não estamos primeiramente encapsulados em alguma “coisa-eu” autoconsciente, mas antes “lá fora”, engajados por coisas, tarefas e outros, sendo o Dasein ser-no-mundo (In-der-Welt-sein) que só a partir daí retorna a si mesmo ao tornar-se reflexivamente autoconsciente.
  • Esse retorno reflexivo a si mesmo carrega consigo um distanciamento entre eu e coisa, eu e outro, eu e mundo, cumprindo o apontamento para nosso ser-no-mundo pré-reflexivo a dupla tarefa de resituar nosso ser em seu engajado ser-com… e de vivificar a questão do ser como uma que interpela nossa própria existência juntamente com o ser das coisas e acontecimentos com os quais nos encontramos pré-reflexivamente engajados, tornando-se a descoberta de nosso ser como ser-no-mundo também a descoberta do ser dos demais entes.

6. Heidegger mostra como o sentido do ser é temporal considerando novamente o ser do Dasein, que possui o caráter de um lançamento (Geworfenheit) e projeção (Entwurf) sobre possibilidades de ser, estando esse lançamento projetivo enraizado na temporalidade como vir a si mesmo (futuridade) ao retomar seu ter-sido (passado), o que abre e estrutura o presente, aparecendo em nosso ser futuro, passado e presente em unidade indissolúvel, sendo o tempo compreendido como fluir de momentos de “agora” derivado dessa unidade.

7. A descoberta explícita do caráter temporal de nosso ser exige que sejamos confrontados com nossa existência de tal modo que nosso engajamento cotidiano com as coisas seja interrompido, que nos encontremos expostos à nossa mortalidade e, com ela, ao ser como tal, e que suportemos essa exposição ao enfrentar nossa finitude, sendo mais autenticamente, o que se torna possível por disposições afetivas fundamentais (Grundstimmungen) — não simples sentimentos, mas disposições que nos tomam e nos expõem ao que revelam — sendo em Ser e Tempo a disposição fundamental da angústia (Angst) a que ilustra isso, e em escritos posteriores outras disposições fundamentais serão exploradas.

8. A etapa seguinte do projeto de Ser e Tempo, anunciada na seção 8 da obra, jamais foi realizada, consistindo a tarefa inicial em mostrar como a temporalidade do Dasein está enraizada na temporalidade do ser dos entes em seu conjunto, temporalidade essa que Heidegger articulou como o horizonte para o qual o Dasein sempre já transcende e do qual retorna a si mesmo, denominando esse horizonte transcendental de “condição de possibilidade” do desvelamento do ser, em conceitualidade que ecoa Kant, ainda que o projeto da ontologia fundamental subverta inteiramente a abordagem subjetiva kantiana, pois o âmbito transcendental da condição de possibilidade da experiência não é a subjetividade transcendental, mas o horizonte temporal do ser como tal, a partir do qual o Dasein se temporaliza e se encontra sempre já “aí”, num mundo, e não “aqui”, numa consciência humana.

9. Heidegger tornou-se, porém, insatisfeito com a abordagem transcendental-horizontal do ser, considerando que a linguagem de Ser e Tempo falhara em dizer o ser em sua verdade e que ainda tomava demasiado emprestado da metafísica, pois a noção de transcendência convida a pensar um sujeito humano que transcende para um horizonte, transformando aparentemente o horizonte do ser em objeto de pensamento, sendo então necessário pensar e articular o ser “diretamente” a partir do horizonte de seu desvelamento, o que Heidegger indica em nota marginal referente à planejada terceira divisão (“Tempo e Ser”) da primeira parte do projeto: “A superação do horizonte como tal. O retorno à proveniência Herkunft]. O presenciar a partir dessa proveniência.”

Presenciar a Partir da Fonte e a Retirada da Fonte

10. Pensar o ser a partir de seu horizonte desvelador e temporal significa compreendê-lo como um presenciar, e não como um ente já presente, ocorrendo o vir-a-presença como desvelamento, o que é como Heidegger repensa a noção de verdade, reinterpretando a noção grega de verdade, ἀλήθεια, em termos de desvelamento (Unverborgenheit), de modo que a verdade do ser seja o desvelamento do presenciar — presenciar que não é coisa nem ente, mas aquilo através do qual os entes se revelam em seu ser, ilustrado pelo exemplo de subitamente se ser tomado pelos movimentos de uma lagarta, ser tocado por seu ser mesmo, que ela é, não havendo primeiro uma representação sensível posteriormente identificada, mas sendo tudo isso — a representação, a identificação e o “você” — já resultado do vir a presença daquilo que então se revela como lagarta e como aquele que a observa.

11. Para Heidegger, o presenciar precisa ser pensado na voz média, forma verbal nem ativa nem passiva encontrada no grego antigo mas ausente das línguas ocidentais contemporâneas, não havendo nada que presencie, não sendo o presenciar atividade de um sujeito ou ente, mas ocorrendo como a chuva ocorre quando “chove”, sendo em última instância o presenciar sem fundamento, podendo dizer-se que a fonte do presenciar é “abissal” (abgründig), o que se expressa nos versos de Angelus Silesius já citados: “A rosa é sem porquê; ela floresce, porque floresce.”

12. Na sequência dos escritos poiéticos, o pensamento de Heidegger moverá cada vez mais para essa dimensão abissal do ser, para a ocultação que acompanha o desvelamento, para o não dito que se retira no que é dito (o silêncio da rosa, por assim dizer), pensando concomitantemente o ser não primariamente como presenciar, mas como autorretirada (Sichentziehen), de modo que nessa retirada as coisas e acontecimentos aparecem como o que está presente.

  • No estar presente, contudo, os entes (o que aparece) ocultam a ocorrência unitária de ocultação e desvelamento pela qual seu presenciar acontece, aparecendo as coisas, por assim dizer, “planas”, sem deixar seu ser ressoar “sem porquê”.
  • Tornam-se objetos, coisas que se opõem ao olhar, coisas que se pode descrever, contar, classificar e calcular, atributos certamente úteis ao desenvolvimento da ciência e ao trato cotidiano, exceto que, uma vez operando no modo da objetividade, a questão do ser deixa de ter lugar.

A Verdade do Ser como Ereignis: O Evento e a Reviravolta no Evento

13. Pensar a verdade do ser a partir de si mesma, como aquilo de que primeiramente viemos a nós mesmos, exigiria não objetificá-la de modo algum, mas antes tentar articular como o ser ocorre no exato momento em que ocorre, sendo tal pensamento inteiramente sem fundamento, por nada ter já ali a que se agarrar, requerendo um Loswurf, um lançar-se solto, como Heidegger diz em um Caderno Negro inicial, sendo nesse lançar-se solto que Heidegger começa a experienciar e pensar a verdade do ser como evento apropriador, como Er-eignis, no qual o ser dos entes e nós mesmos somos primeiramente apropriados (ereignet), viemos a nosso próprio ser.

  • Essa nova abordagem da verdade do seer não partiria de uma análise do Dasein e implicaria deslocamento ainda maior do ser humano em relação à subjetividade, tendo Heidegger planejado já em 1932 uma nova obra que partisse “da” verdade do ser como evento, encontrando, porém, sua primeira tentativa de configuração somente em Contribuições à Filosofia: Do Evento, escrita entre 1936 e 1938, tendo sido necessário encontrar uma abordagem radicalmente nova e, com ela, uma nova conceitualidade, uma linguagem distinta.

14. Pensar a partir do evento (quando bem-sucedido) não significa retornar a pensar a partir de um horizonte de algum modo “objetivo” em direção a “nós”, sendo atividade e passividade insuficientes para compreender o evento, que ocorre antes na “voz média”, articulando-o Heidegger frequentemente em termos de uma “reviravolta” (Kehre), na qual ser e pensamento não se opõem como algo distinto que se relacionaria um ao outro, mas emergem a um só tempo: o pensamento ocorre como pensamento do ser e o ser emerge como tal somente no pensamento.

  • Heidegger sugere, contudo, certa prioridade do ser ao enfatizar como o pensamento é sempre já uma resposta, como se encontra respondendo a um chamado (do ser) que por sua vez se desvela como chamado apenas na resposta, podendo aproximar-se isso de experiências em que uma ideia “nos vem” a partir de um ser-atento a alguma “região” ainda não articulada, sendo a ideia articulada à medida que nos vem, como se ela própria acenasse a palavra apropriada que eventualmente se poderá (ou não) encontrar, somente nesse encontrar da palavra emergindo propriamente a ideia.
  • Momentos de espanto (Erstaunen) possuem o mesmo caráter de voz média, não começando o movimento do espanto a partir de um senso de si, mas a partir de uma exposição despossuída a alguma “coisa” ou acontecimento que vem à luz, sendo poetas e artistas familiares a essa ocorrência de “voz média”, que cultivam ao buscar a palavra ou o gesto apropriado, ou antes, ao cultivarem um espaço em que a palavra ou o gesto possam encontrar seu caminho.

15. Heidegger fala da reviravolta também em termos da reviravolta no “entre” (Zwischen) da verdade e do ser: o ser da verdade é a verdade do ser; ou articula a reviravolta entre a verdade do ser e o Da-sein: a verdade do ser ocorre no Da-sein assim como o Da-sein ocorre na verdade do ser.

16. A noção de Da-sein desloca-se em Contribuições em relação a Ser e Tempo, sendo reintroduzida a noção de ser humano (Mensch, Menschsein), jogando Heidegger agora com as duas partes do termo “da” e “sein” e pensando ainda mais explicitamente do que em Ser e Tempo o “da” como o “aqui” ou “ali” (em alemão “da” significa ambos), como o sítio de abertura da verdade do ser, articulando ao mesmo tempo o “-sein” o ser dessa abertura: que ela é.

  • Esse ser da abertura requer humanos que a sustentem, que estejam aí (da), expostos a um tempo-espaço no qual, em vez de estarem consigo mesmos, são despossuídos (lá fora, no inominável, por assim dizer), podendo por palavra, gesto ou ato “manter aberta” essa abertura, sustentá-la, suportar o acontecer sem fundamento do que vem a ser em vez de dela se afastar.
  • Assim, a verdade do ser ocorre no ser-aí (Da-sein) ao mesmo tempo em que o ser-aí ocorre na verdade do ser, isto é, na ocultação desveladora do ser — enquanto se fala uma palavra, se encontra um olhar, se toma uma decisão, se escreve uma melodia — não havendo, portanto, progressão linear nem da verdade do seer ao Da-sein nem do Da-sein à verdade do seer, pois o seer pensado como evento (Ereignis) não é nada em si que se revelaria depois numa palavra, não ocorrendo nem antes nem depois do Da-sein, mas somente através do acontecer ou apropriação (Ereignung) do Da-sein.

17. Ao pensar a verdade do ser como evento, a preocupação de Heidegger foi sempre pensar não o acontecer deste ou daquele ente ou acontecimento, mas o ser como tal em sua historicidade, sendo sua preocupação a história do ser e as impossibilidades e possibilidades nela latentes.

A Historicidade do Ser e do Pensamento

18. A nova abordagem da questão do ser pensaria o seer mais radicalmente de modo histórico, tanto no sentido de que ao seer pertence uma história (que perfaz diferentes épocas da história ocidental) quanto — talvez ainda mais — no sentido de que o próprio pensamento pertenceria a essa história e contribuiria para lhe abrir caminho, tornando-se assim “seynsgeschichtlich”, “seer-histórico” nesse duplo sentido.

19. Para melhor compreender o que Heidegger entende por historicidade tanto em relação ao pensamento quanto ao ser, é preciso deixar de lado as noções preconcebidas de história como sequência de acontecimentos numa linha temporal, ecoando Geschichtlichkeit tanto a história (Geschichte) quanto o acontecer (Geschehen).

  • Assim como se perde o sentido do ser como evento ao objetificá-lo e concebê-lo em termos de dualidade entre pensador e pensado, sujeito e objeto, perde-se também o sentido da historicidade do ser ao concebê-la de modo objetificante, encontrando-nos sempre já sendo, e também sempre já históricos, no sentido de que, mesmo ao deixarmos de reconhecer nossa historicidade, ocorremos historicamente e pertencemos a uma história do seer.
  • O pensamento seer-histórico tenta pensar a partir da historicidade do ser que sempre já determina quem somos e prefigura como encontramos e interpretamos determinadas coisas e acontecimentos, assumindo essa historicidade do ser diferentes formas em diferentes épocas da história ocidental, compartilhando contudo um traço comum que emerge no pensamento grego antigo.

20. É com os gregos antigos que Heidegger encontra emergindo um modo de pensar e um comportamento diante do ser que conduziria, em última instância, a um distanciamento cada vez maior entre pensamento e pensado, entre pensamento e ser, de modo que os entes (coisas e acontecimentos) acabam sendo-nos meramente desvelados como coisas a calcular, dominar e usufruir, denominando isso, em Contribuições à Filosofia, o abandono dos entes pelo ser (Seinsverlassenheit).

  • Ao mesmo tempo, Heidegger continua a buscar, no início do pensamento grego antigo, outras possibilidades de pensamento, sendo o retorno à fonte, à verdade do ser (a um só tempo desveladora e ocultadora), ao mesmo tempo um retorno ao início da própria historicidade do ser que determina nossa época presente, razão pela qual Heidegger denomina o pensamento seer-histórico também pensamento inceptivo (anfängliches Denken).
  • O fato de o ser em si mesmo ter emergido primariamente como presença, de modo que se tende a orientar-se em relação ao que é presente — coisas, acontecimentos que se podem objetificar —, tem para Heidegger suas raízes no que ocorreu no pensamento grego antigo, ainda que encontre também nos pré-socráticos um sentido de retirada e ocultação que permite um pensamento distinto do ser.
  • O retorno à fonte, a uma ocultação da qual emergem possibilidades de pensamento e de ser, requer, segundo Heidegger, diálogo constante com a mais antiga herança do pensamento grego, de modo que, ao rememorar o primeiro início (grego), possa preparar-se a possibilidade de um outro início, tomando o pensamento heideggeriano do outro início muito de seu impulso também da leitura de Hölderlin.

Hölderlin, Linguagem e História

21. No semestre de inverno de 1934/1935, Heidegger ministrou o curso Os Hinos de Hölderlin “Germânia” e “O Reno” (GA 39), no qual, em diálogo com Hölderlin, encontrará caminhos para uma articulação diferente da questão do ser ao repensar a relação com a linguagem e a história, estando já presentes muitos dos temas de Contribuições à Filosofia nesse curso.

22. Já em 1934, Heidegger anuncia Hölderlin como o poeta que funda o sítio do futuro seer histórico (dirigindo-se esse “nosso”, no curso, primariamente aos alemães), podendo o poeta fundar esse sentido histórico futuro através de uma disposição afetiva fundamental por estar exposto ao seer de modo singular, interpretando ainda Heidegger a poesia (de Hölderlin) como transmissão dos acenos dos deuses, ligando a questão do início — ou antes, da inceptividade — aos deuses.

23. Todo o curso começa com uma diferenciação entre Beginn e Anfang, ambos traduzíveis por “início”, optando-se por “ponto de partida” para “Beginn” e “início” ou “inceptividade” para “Anfang”, escrevendo Heidegger que onde algo parte é diferente de seu “início”: uma nova condição climática, por exemplo, parte com uma tempestade, sendo seu início, contudo, a transformação antecipatória e completa das circunstâncias do ar; um ponto de partida é o desencadear de algo, o início aquilo de onde ele emerge; a guerra mundial teve seu início séculos atrás na história espiritual e política do Ocidente, tendo partido com combates nos postos avançados; o ponto de partida logo fica para trás, desaparecendo no prosseguir de um acontecer, ao passo que o início, a fonte, somente vem à aparência no acontecer e só está ali plenamente ao seu término.

  • Para Heidegger, a poesia de Hölderlin abre um possível início histórico ainda não aparecido, ao passo que ainda se está no fim do início marcado pelo pensamento grego, situando-se todo o pensamento de Contribuições e dos volumes que se seguem a essa primeira “obra” na transição do primeiro ao outro início.
  • É digno de nota que, no curso sobre “Germânia” e “O Reno” de Hölderlin, o seer histórico que se funda diz respeito ao povo alemão (sendo Contribuições à Filosofia menos explícita a esse respeito, referindo-se à história do Ocidente [das Abendland ] em sentido mais amplo), escrevendo Heidegger aqui que o outro início plenamente começará somente quando fundar o ser de um povo, sem especificar tratar-se primariamente do povo alemão.

24. A poesia de Hölderlin só pode fundar um início se encontrar a escuta adequada, sendo essa a principal preocupação de Heidegger, exigindo a escuta adequada que se compreenda de modo diferente, mais originário, a relação com a linguagem, sendo necessário experienciar e compreender que não somos nós que temos a linguagem, mas a linguagem que nos tem, o que Hölderlin diria, segundo Heidegger, nos versos “Cheios de mérito, e todavia poeticamente, habitam os homens esta terra”, sendo através de disposições afetivas fundamentais que nos encontramos expostos ao seer e experienciamos que o descobrir dos entes, isto é, o aparecer do que é, ocorre na linguagem.

25. A linguagem possui aqui um sentido mais amplo do que comumente lhe seria atribuído, exigindo o mesmo movimento que Heidegger realiza ao situar a origem do pensamento não no pensador, mas em um evento desvelador ao qual nos encontramos respondendo quando uma palavra “nos vem”.

  • Já em Ser e Tempo, Heidegger elaborou a linguagem como atuante no nível mais básico de desvelamento do ser no Dasein, sendo o discurso (Rede) coequiprimordial com a disposição afetiva e o projeto e constituindo a articulação mais básica do ser, não consistindo a linguagem, para Heidegger, em palavras-coisas às quais se atribui arbitrariamente um significado, mas antes o significado “vindo às palavras”, sendo mais básico do que o proferir o escutar.
  • “Escutar… é a abertura existencial do Dasein enquanto ser-com para o outro. A escuta constitui mesmo a abertura primária e autêntica do Dasein para sua possibilidade de ser mais própria, como ao ouvir a voz do amigo que todo Dasein carrega consigo”, elaborando Heidegger, com Hölderlin, como a escuta já é resposta a um chamado silencioso, originando-se a linguagem no silêncio de tal modo que ela ocorre mesmo quando nenhuma palavra é proferida ou escrita: algo como “seer” precisa ter-se reunido nesse silêncio pré-mundano, mais poderoso do que quaisquer forças humanas, para então ser dito como “mundo”, jamais tendo inventado sozinho qualquer humano a linguagem, isto é, sido por si só forte o bastante para romper a força (Gewalt) daquele silêncio, salvo sob a coerção do deus.

26. Pode-se compreender a dimensão originária da linguagem como uma articulação básica daquilo que vem a aparecer, que pode ser proferida em palavras ou não, sendo o esforço de Heidegger sempre o de articular precisamente esse vir à palavra mais originário, o evento da verdade do seer, encontrando na poesia de Hölderlin não apenas um desvelamento dessa ocorrência da linguagem, mas com ela o desvelamento do possível destino de um povo.

27. Para os leitores atentos da poesia de Hölderlin, isso exige, segundo Heidegger, que se deixem sintonizar pela disposição afetiva básica que fala na poesia, de modo a compreender o que o poeta revela — a saber, que os deuses fugiram e que primeiro é preciso experienciar a fuga dos deuses, para que então se possa preparar um novo sítio de decisão para o destino futuro de um povo.

  • Já nesse curso, Heidegger chama a atenção para a aflição da falta de senso de aflição (Not der Notlosigkeit) em nossa época, destacando repetidamente em Contribuições à Filosofia como é precisamente o reconhecimento dessa aflição que precisa ser primeiramente experienciado, e que permitiria à verdade do seer ressoar mais originariamente.
  • Ao experienciarmos e suportarmos a aflição, descobrimos como o seer ocorre como retirada, sendo o silêncio responsivo a essa retirada e podendo (segundo a esperança de Heidegger) permitir que uma palavra seja proferida no mundo de modo que a verdade do seer encontre um sítio mundano, embora, entretanto, o pensamento que responde à aflição de nossa época não possa fazer mais do que manter-se no espaço da retirada do seer, permanecer, por assim dizer, na corrente de ar da retirada do seer, abrindo-se assim um lugar intempestivo, um “entre” no qual o que pode ou não ocorrer permanece em decisão sem ser decidido, sendo esse “entre” o modo como Heidegger compreende o Da-sein em Contribuições à Filosofia.

28. No curso sobre Hölderlin, Heidegger começa a articular o “entre” como espaço de contenda ou decisão que traz ao encontro deuses e humanos, começando “Germânia” de Hölderlin por dizer que ao poeta não é mais permitido invocar os antigos deuses, os deuses da Grécia, interpretando Heidegger isso como a necessidade de uma renúncia (entrada na aflição), o que abre um espaço de contestação entre o desvelamento de uma prontidão e a falta de um cumprimento, um espaço de retirada que precisa ser sustentado.

  • As palavras que Heidegger aqui encontra — Rufen (chamar), Austragen (levar a cabo ou sustentar), Ausbleib (ausentar-se), Widerstreit (contenda) — são palavras que se reencontram em Contribuições, onde afirmará em diferentes passagens como alguns poucos “criadores” — dispostos pela aflição da falta de aflição — podem responder ao chamado do seer, desvelando esse chamado primeiramente um espaço de decisão quanto ao advento ou ausência dos deuses.
  • Os criadores, die Schaffenden, são (segundo o curso sobre Hölderlin) poetas, pensadores e fundadores de Estados que, dispostos por uma disposição afetiva básica, isto é, respondendo ao chamado dos deuses, criam os espaços para o futuro seer histórico de um povo, parecendo estar a ênfase na necessidade de fundar a história no primeiro plano da leitura heideggeriana de Hölderlin em 1934–1935: “Somente um povo histórico verdadeiramente é um povo. E historicamente ele só o é quando ocorre a partir do fundamento do meio do seer, quando o 'entre' está aí, quando os semideuses, os criadores, efetuam o acontecer da história.”

29. Através de sua leitura de Hölderlin, Heidegger encontra uma disposição básica (Grundstimmung) que fala a um sentido de linguagem e de historicidade que guiam e enquadram o modo como começará a pensar o ser como evento, sendo esse um espaço de tensão entre falta e possibilidade, uma reunião de um “não mais” e um “ainda não”, padecendo o fim de uma época (o primeiro início) e esperando a possibilidade de um outro início, que, segundo Heidegger, Hölderlin experienciou e poetizou.

Questões Norteadoras para a Leitura dos Escritos Poiéticos de Heidegger

30. A leitura dos escritos poiéticos de Heidegger aqui empreendida procura permanecer junto às disposições afetivas subjacentes ao seu pensamento e, a partir delas, traçar deslocamentos em seu pensamento e linguagem segundo questões norteadoras relevantes para os desenvolvimentos de seu pensamento ao longo desses escritos, sendo tais desenvolvimentos bem distantes de uma progressão, tentando Heidegger antes, em uma vertente dominante desses desenvolvimentos, uma regressão cada vez mais profunda ao início, regressão que se revelará crucial no engajamento crítico com Heidegger, sobretudo em relação a GA70–71, contendo os volumes anteriores, todavia, explorações de certos domínios de investigação, incluindo repensar a história do pensamento ocidental por meio de figuras maiores e intensa “crítica” da época presente por meio de noções como maquinação e poder.

31. Um primeiro conjunto de questões (A) orienta uma leitura expositiva dos volumes, enquanto um último conjunto (B) orienta uma abordagem mais íntima e crítica dos textos, sendo as questões do grupo A: como os volumes posteriores se relacionam com a primeira tentativa de um dizer pensante do evento em Contribuições à Filosofia; que deslocamentos há em termos de estrutura e sistematicidade do pensamento heideggeriano; quais são os conceitos e temas dominantes explorados em cada volume e que deslocamentos há em conceitualidade e ênfase temática; como Heidegger articula a relação ou diferenciação entre ser e entes; e como se transforma a noção de Da-sein — sendo as questões do grupo B: como se pode ou deve engajar o pensamento heideggeriano em seus escritos poiéticos; o que ocorre ao considerá-los em seu contexto historiográfico e biográfico; e quais aparecem como os limites ou delimitações do pensamento de Heidegger e como engajá-los.

32. Quanto à primeira questão, muitos (inclusive a presente autora) chamaram Contribuições à Filosofia de segunda obra maior de Heidegger após Ser e Tempo, conferindo-lhe seu caráter de primeira da série um estatuto especial, parecendo Besinnung e A História do Beyng mover-se de fato dentro de certa articulação estrutural de Contribuições, a saber, sua “divisão” em “fugas” (Fugen) que compõem a estrutura (Gefüge) do volume, mudando isso, porém, com GA70, onde Heidegger parece realizar um novo início na busca de uma linguagem “do” evento, chegando a criticar tanto, em volumes posteriores, sua primeira tentativa em Contribuições, por não ser suficientemente originária, que se torna questionável, vista internamente, denominar Contribuições à Filosofia a segunda obra maior de Heidegger.

33. Uma das críticas retrospectivas de Heidegger a Contribuições será a de que permanece demasiado estrutural e orientada em torno de uma diferenciação entre pergunta diretriz e pergunta fundamental (Leitfrage und Grundfrage), diferenciação que diz respeito à diferença entre o questionamento metafísico do ser (da eidade) dos entes e o questionamento mais originário da verdade do seer, podendo notar-se, a partir de GA70, como Heidegger tenta afastar-se de qualquer forma de estrutura, agrupando seus pensamentos sob certos títulos que, contudo, não compõem estrutura representável alguma, deixando ele de lado, tanto quanto possível, qualquer ordem ou estrutura antecipatória e o pensamento representacional.

34. O que “organiza” o pensamento de Heidegger são antes disposições afetivas das quais surgem palavras, temas, focos de investigação, sendo surpreendente a criatividade de sua linguagem, o modo como experimenta novas palavras e campos semânticos, e como certos conceitos que pareciam centrais recuam enquanto outros emergem, podendo conjecturar-se que isso se relaciona em parte com os pensadores e poetas que lê, observando-se um deslocamento de linguagem que reflete, em certa medida, o deslocamento de foco das preleções sobre Nietzsche para as preleções sobre Hölderlin e depois sobre Parmênides e Heráclito, apontando outros campos temáticos diretamente para a guerra e para reflexões críticas sobre a época (de Heidegger), aplicando-se isso sobretudo a Besinnung, A Superação da Metafísica e A História do Seer, exigindo a proximidade dos Cadernos Negros com esses escritos poiéticos que também sejam considerados.

35. A quarta questão norteadora, referente à diferença entre ser e entes, constitui questão norteadora desde o início do engajamento com Contribuições à Filosofia, a saber, a questão da “fundamentação” (Begründung), enfatizando Heidegger em Ser e Tempo a diferença ontológica entre ser e entes (Sein und Seiendes) para marcar a diferença entre o pensamento metafísico tradicional, que questiona o ser a partir dos entes, e sua própria questão do ser como tal, falando, contudo, em Contribuições, da simultaneidade de ser e entes, pensada, porém, a partir da verdade do seer.

  • Não há desvelamento do ser sem um sítio concreto, uma abertura sustentada somente por entes como palavras, atos e obras de arte, falando Heidegger, nesse contexto, de um “abrigar” (Bergung) da verdade do seer nos entes, podendo esse abrigar ser considerado sob dois aspectos: primeiro, a própria tentativa heideggeriana de dizer “do” evento, de deixar o ser mesmo acontecer, constitui, se bem-sucedida, um abrigar do desvelamento do ser, estando o sentido de ser que vem à linguagem em seus escritos ali abrigado, em palavras, desde que encontrem escuta responsiva.
  • Segundo, Heidegger compreende todo o seu projeto de escrita poiética como transicional do primeiro ao outro início, exigindo esse outro início, que inauguraria nova época para um povo, um abrigar que fundamente essa época, permanecendo os escritos poiéticos, quanto a essa fundamentação histórica de um desvelamento do ser para um povo, transicionais, tentando articular e manter aberto o “entre” já mencionado, esse espaço — ou antes, tempo-espaço — de um “não mais” e “ainda não”, espaço intempestivo de decisão para a possibilidade de um outro início que se abre para Heidegger em sua leitura de Hölderlin.
  • Nos escritos poiéticos posteriores (a partir de Sobre o Início), Heidegger articulará esse “entre” recorrendo à diferenciação entre ser e entes, jogando com a sobreposição semântica entre Unterschied, Unterscheidung e Abschied, isto é, “diferença”, “diferenciação” e “despedida”, sendo a centralidade desses conceitos outra razão pela qual importa traçar a articulação heideggeriana da diferença entre ser e entes.

36. O que nomeia o “entre” é a noção de Da-sein, que sofre um deslocamento em Contribuições em relação a Ser e Tempo e que Heidegger tenta pensar de modo cada vez mais radical após Contribuições, no sentido de pensá-lo cada vez menos com orientação primária ao ser humano, chegando a criticar, em O Evento, a noção de Da-sein em Contribuições, ao dizer que ali é certamente pensado essencialmente a partir do evento, mas ainda de modo unilateral com referência ao ser humano.

  • Isso, somado ao fato de que Dasein em Ser e Tempo designa primariamente o ser humano a ponto de convidar a uma interpretação equivocada como sujeito, são as razões pelas quais se acredita dever traduzir Da-sein por “ser-aí”, sendo o ser-aí o sítio aberto, o tempo-espaço da ocultação desveladora do ser, da retirada e do acontecer do evento, não ocorrendo tudo isso sem o humano, sem uma constância (Inständigkeit) sintonizada ou ek-sistência, um “ser” na abertura do “aí” do seer.
  • Dizer “do” evento é um esforço de dizer o que se dá numa escuta responsiva ao que interpela o pensamento, não havendo, nessa dimensão de pensamento criativo, diferenciação entre pensamento e pensado, entre sujeito e objeto, mas um evento de reviravolta no qual diferenciação e encontro de várias dimensões vêm a ser, destacando Heidegger em Contribuições ora o “Da-”, o desvelamento da verdade do ser, ora o “-sein”, o ser do aí, que é como os humanos são quando permanecem na abertura da verdade do ser, mas em nenhum lugar de Contribuições se encontra o que dirá em O Evento: experienciado em termos da historicidade do ser, “Da-sein” é o nome para o seer pensado a partir do acontecer essencial de sua verdade, pensando nesse volume posterior Heidegger o Da-sein mais radicalmente a partir da verdade do seer e não primariamente em relação ao ser humano.

37. Um exame cuidadoso de como Heidegger pensa o Da-sein é importante sobretudo em vista da regressão ao início realizada em seus escritos poiéticos, regressão que busca palavras no limite das palavras e talvez mesmo além desse limite (sugerindo isso a noção do Seinlose, o “sem-ser”, introduzida em 1941), parecendo que, nessa regressão, toda “atividade” do pensamento buscaria apagar-se a si mesma na resposta à palavra do próprio ser, como se não se permitisse emergir uma consciência do próprio pensar, permanecendo orientado à doação do que vem ao pensamento, podendo aventar-se (aludindo à “Carta sobre o Humanismo”) que Heidegger “desumaniza” o Da-sein, ao mesmo tempo em que diria ser precisamente ao desumanizar o Da-sein que os humanos encontram um ser mais originário.

38. Tendo sido abordadas até aqui as questões que norteiam a interpretação expositiva dos escritos poiéticos de Heidegger, demarcam-se espacialmente as observações relativas às questões restantes a fim de destacar uma abordagem distinta, menos acadêmica no sentido tradicional, sendo essas questões tratadas nos capítulos que se seguem a cada um dos capítulos de interpretação expositiva dos diferentes escritos poiéticos.

39. Sobretudo na leitura de Das Ereignis, impôs-se a sensação de que uma leitura estruturada do texto não consegue penetrar realmente no que ali ocorre, podendo certamente tentar-se encontrar estruturas, relacionar o que Heidegger escreve às obras anteriores e aos cursos publicados e assim obter percepção de alguns de seus desenvolvimentos como pensador — trabalho parcialmente realizado nos capítulos expositivos deste livro, útil, espera-se, à recepção e discussão acadêmicas do pensamento heideggeriano —, não se prestando, porém, seu pensamento em Das Ereignis verdadeiramente a leituras acadêmicas, sendo o trabalho com a linguagem realizado nesse volume tão distante dos discursos acadêmicos, tão ousado e estranho, tão solitário e íntimo, que qualquer “busca de estrutura” assemelha-se a procurar conchas vazias lançadas à praia, como que perdendo o que ali está verdadeiramente em jogo.

  • Considere-se o que Heidegger escreve no volume: “Todo descobrir, todo ensinar, mas também todo despertar, todo impulsionar deve manter-se afastado; do mesmo modo qualquer 'ordenação' de 'conteúdos'. Somente a palavra pura que repousa em si mesma deve ressoar. Nenhum ouvinte deve ser pressuposto e nenhum espaço para o pertencimento-escutante Gehören].”
  • Sendo evitar a ordenação de conteúdos e o escrever tendo alguém em mente precisamente o que se deve evitar nesse dizer poiético, permanece a questão de como responder enquanto leitor dessa obra, dizendo Heidegger que se deveria deixar-se interpelar pela “palavra pura que repousa em si mesma”, não sendo essa palavra, adverte, uma que se deva atribuir a ele, mas antes a palavra do seer tal como emerge no engajamento heideggeriano com o início, palavra, ademais, que fala através do silêncio, palavra proferida para ninguém.

40. Nesse ponto, ocorre um recuo na leitura de Heidegger, encontrando-se perpetuamente relançada à questão de como ler o que ele escreve, abrindo-se nesse recuo espaços de interpretação que estão a um só tempo na atração de seu texto e dele afastados, abrindo-se um “entre” de tipo diferente do “entre” dos inícios heideggerianos, e voltando-se a atenção ao que costumeiramente não se traz à leitura de Heidegger: sua vida e o contexto histórico em que escreve.

41. Das Ereignis foi escrito em 1941–1942, começando já a renovada abordagem da questão da verdade do seer como evento no volume anterior, Sobre o Início (1941), sendo agora o evento abordado em termos de início ou inceptividade (Anfang), trabalhando Heidegger para permanecer próximo ao início como fonte silenciosa da qual a palavra do seer poderia acontecer.

  • É notável como esses volumes contêm apenas referências mínimas aos marcadores do fim da época da metafísica, diferentemente de Besinnung (1938/1939), A Superação da Metafísica (1938/1939) e A História do Seer (1938–1940), onde as referências à maquinação, à vivência e ao poder são dominantes, repetindo Heidegger, nos volumes posteriores, antes repetidamente o descenso ao abismo, à fonte silenciosa do ser.
  • Considerando-se que, ao mesmo tempo, a Segunda Guerra Mundial assola a Europa, esse retraimento revela-se particularmente notável.

42. Não se pretende “psicologizar” Heidegger, nem reduzir seu pensamento a reações à situação de sua época, e, no entanto, a guerra e o movimento nacional-socialista devem ter exercido efeito sobre ele, não se acreditando poder chegar a conclusões reais a esse respeito, separando-se por isso essa investigação de uma leitura mais imanente dos textos poiéticos de Heidegger, talvez só sendo possível aqui formular questões, questões que já vislumbram um horizonte do qual emergem, horizonte constituído em parte pelas próprias linhagens e circunstâncias pessoais.

  • No caso da autora, nascida alemã na Itália e tendo ido estudar na Alemanha em 1985, crescer na Itália proporcionou certa distância dos eventos que mancharam o povo alemão, tendo se tornado mais viva a consciência dos efeitos do nacional-socialismo alemão somente durante os estudos em Friburgo, quando se percebeu o quão pouco seu pai falava daqueles tempos.
  • Nascido em 1920, seu pai foi poupado do combate ativo na frente devido à sua visão muito ruim, tendo falecido antes que a consciência do passado alemão amadurecesse o suficiente para desejar romper o silêncio sobre a questão, restando na memória fragmentos de histórias contadas por ele, mas jamais tendo havido conversa sobre as questões mais profundas relacionadas à guerra, como o sentimento de culpa que ela e seus irmãos carregam em relação a um passado anterior ao próprio nascimento.
  • Revelou-se mais tarde que seu pai (supostamente) tinha pais judeus e que a família ocultara suas raízes judaicas não apenas do governo, mas também do próprio filho (o pai da autora) até este estar prestes a casar-se, o que não aliviou o desconforto quanto aos eventos do nacional-socialismo alemão, acreditando-se agora não haver solução para esse desconforto, devendo ele ser sustentado como parte da própria história, trazendo-se essa questão à tona não para realizar uma autoexposição pública, mas para que o leitor tenha ciência de que esse desconforto é trazido à leitura de Heidegger, à questão de como lê-lo à luz dos tempos históricos em que viveu.

43. A questão de como ler os escritos poiéticos de Heidegger não se limitará à sua relação com eventos historiográficos e biográficos, havendo outra dimensão de questões (não desvinculada) a desenvolver, concernente à linguagem e ao pensamento e ao limite em que Heidegger os situa, convergindo aqui algumas vertentes exploradas nos capítulos expositivos do livro, particularmente a diferença entre ser e entes e a questão da fundamentação, pretendendo-se ainda retomar crítica já formulada em artigos anteriores e em parte compartilhada com outros estudiosos de Heidegger, a saber, o enquadramento da questão do ser em termos da história do ser.

  • O “entre” do primeiro e do outro início, no qual se move o pensamento heideggeriano em seus escritos poiéticos, abre-se na sintonia com um sentido de aflição e retirada que reclama um outro início ainda não presente, possibilidade de outro início que se abre — como já apontado — na poesia de Hölderlin, sendo esse um espaço de tensão, de indecisão no duplo sentido de encontrar-se em meio a uma decisão e de não poder tomar decisão alguma.
  • Heidegger situa a linguagem nessa tensão, e sua busca por uma palavra, por um ente que mantenha aberto esse espaço, parece ao mesmo tempo resistir a um “deixar solto” (Loslassung) de algo, sendo essa uma expressão que se encontra em Heidegger em relação à “maquinação”, modo de desvelamento do ser que caracteriza o fim do primeiro início (o fim da metafísica), onde os entes são abandonados pelo ser, perdidos na circulação autoperpetuante da produtividade.
  • Para Heidegger, a possibilidade de fundamentar a verdade do seer nos entes parece estar ligada precisamente a não “deixar solto”, mas a manter-se no campo ou ressonância das reverberações abissais do seer em sua retirada, falando embora da simultaneidade de ser e entes, não podendo a verdade do seer encontrar sítio algum aberto sem entes, sem palavras, gestos, atos ou coisas concretamente ditas ou escritas, sendo sua busca sempre a de manter aberta a dimensão abissal do ser, a palavra ainda não dita.

44. A questão, para Heidegger, é então permanecer próximo à fonte, vindo à mente nesse contexto algo dito certa vez por uma amiga chinesa, com quem se estudou juntas em Friburgo e que não era grande simpatizante de Heidegger, havendo algo em seu pensamento que muito a perturbava, tendo ela dito aproximadamente o seguinte: “Heidegger sempre quer ir contra a correnteza do rio, lutando para voltar à fonte de onde o rio corre. Por que ele simplesmente não deixa ir e segue a correnteza do rio até o mar aberto?”

  • De fato, por que não? E se Heidegger tivesse deixado ir? Poderia ele deixar ir? Talvez em algum momento tenha deixado ir, e o que emergiu foi seu pensamento da Gelassenheit, frequentemente traduzida como “serenidade” ou “desprendimento”, ocorrendo isso ao final dos escritos poiéticos e podendo ser lido, como se mostrará, como um desenvolvimento deles.
  • De algum modo, Heidegger parece emergir do retraimento silencioso na fonte sem imagem do seer com uma cosmologia, a quadratura de deuses e mortais, terra e céu, permanecendo em aberto se logra ali abrigar um mundo em palavras, e se as coisas emergem em suas singularidades e na unicidade de seu ser a partir de seu dizer da quadratura.

45. Unicidade e singularidade são palavras que, em seus escritos não públicos, Heidegger reserva ao seer pensado como evento, implicando isso, embora, os entes, sendo seu ser sempre buscado a partir da fonte retirante do ser, parecendo que Heidegger jamais pôde “deixar ir” o pertencimento-escutante à fonte silenciosa do evento de modo a abrir o ser a uma pluralidade no sentido do acontecer das coisas em suas constelações únicas, constituindo esse limite de seu pensamento, ao mesmo tempo, o que há de mais forte nele, um poder de pensamento que continua a interpelar muitos de nós de modos que vão de um desejo entusiástico de seguir a uma aversão quase visceral, não sendo fácil pensar com Heidegger.

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