AÍ (2015, 136-139)
SHEEHAN, Thomas. Making Sense of Heidegger: A Paradigm Shift. Lanham: Rowman & Littlefield, 2015
O Da de Da-sein nunca deve ser traduzido como “aqui” ou “aí”, como é habitual na literatura acadêmica atual (por exemplo: ser-aí). Heidegger insiste que “Da ≠ ibi und ubi” (o Da de Da-sein não é um advérbio locativo: “aqui” ou “aí”). Em vez disso, o Da deve sempre ser interpretado como “abertura” ou “o aberto” no sentido de o homem ser lançado para o aberto, “(ser) trazido para a sua abertura, mas não por sua própria vontade”. “O Da significa abertura apropriada — a clareira apropriada do (ou seja, para) ser.”
“Da-sein” é uma palavra-chave do meu pensamento e, portanto, motivo de grandes mal-entendidos. Para mim, “Da-sein” não significa o mesmo que “Aqui estou!”, mas sim — se me permitem expressá-lo em um francês talvez impossível — être le-là. E o le-là é precisamente ̓Αλήϑεια: revelação — abertura.
Heidegger fala de “nossa questão sobre a abertura como tal (Da-sein)” e escreve que o Da de Dasein
deve designar a abertura onde as coisas podem estar presentes para os seres humanos e os seres humanos para si mesmos….
ser humano, como tal, distingue-se pelo fato de que ser, em sua maneira única, é ser essa abertura.
O ser humano ocorre de tal forma que ele ou ela é o “Da”, ou seja, a clareira do ser.
GA9: 325.20–21 = 248.11–12: “Der Mensch west so, daß er das ‘Da,’ das heißt die Lichtung des Seins, ist.” Zollikoner Seminare 351.14–17 = 281.31–282.1: “Die [Offenständigkeit] des Da-seins ‘ist’ das Ausstehen [= sustentando] der Lichtung. Lichtung und Da-sein gehören im vorhinein zusammen und die bestimmende Einheit des Zusammen ist das Ereignis.” GA14: 35.23 = 27.33: “(die) Lichtung des Da-seins.”
O Da refere-se àquela clareira na qual as coisas se apresentam como um todo, de tal forma que, neste Da, o ser das coisas abertas se mostra e, ao mesmo tempo, se retira. Ser este Da é uma determinação do homem.
GA45: 213.1–4 = 180.6–9. GA66: 321.12 = 285.28: “Das Da lichtet sich im Da-sein.”
(A existência) é ela própria a clareira.
selbst die Lichtung ist.” GA66: 328.1–2 = 291.13–14: “Das Da-sein ist der aus dem Er-eignis ereignete geschichtliche Grund der Lichtung des Seyns.” Em itálico no original. GA 69: 101.12–13: “Die Lichtung—sein—in sie als Offenes sich loswerfen = das Da-sein.” GA 66: 129.5 = 109.7–8: “das ‘Da’, die Lichtung.” Heidegger chegará a dizer que o Da “gehört zum Sein selbst, ‘ist’ Sein selbst und heißt darum das Da-sein”: GA 6:2: 323.14–15 = 218.4–5.
A clareira: o Da — é em si mesmo ex-istência.
“Die ‘Seinsfrage’ in Sein und Zeit,” 9.23: “die Lichtung: das Da — ist selbst das Dasein.” Ver GA14: 35.23–24 = 27.31–33. GA 3: 229.10–11 = 160.32–33: “ist der Mensch das Da, mit dessen Sein der eröffnende Einbruch in das Seiende geschieht.” GA70: 125.12: “(die) Lichtung des Da-, die als Da-sein west.”
O ponto é experimentar o Da-Sein no sentido de que o próprio ser humano é o Da, ou seja, a abertura do ser, na medida em que uma pessoa se compromete a preservá-lo e, ao preservá-lo, a desdobrá-lo (ver Sein und Zeit, p. 132f. [= 170f.]).
GA15: 415.10–13 = 88.18–21: “É preciso experimentar o Da-sein no sentido de que o ser humano é o próprio ‘Da’, ou seja, a abertura do ser para ele, ao se comprometer a preservá-la e, ao preservá-la, a desdobrá-la.” (Vgl. “Sein und Zeit,” S. 132f.)
A existência deve ser entendida como ser-a-clareira. Da é especificamente a palavra para a extensão aberta.
GA15: 380.11–12 = 69.4–5: “Dasein muss als die-Lichtung-sein verstanden werden. Das Da é, na verdade, a palavra para a vastidão aberta.” Em SZ 147.2–3 = 187.13–14, Heidegger fala de “(die) Gelichtetheit, als welche wir die Erschlossenheit des Da charakterisierten.” GA66: 100.30 = 84.11: “Das Offene der Lichtung.”
A existência (das Da-sein) é a maneira pela qual o aberto, a clareira, ocorre, dentro da qual o ser como clareado se abre à compreensão humana.
GA49: 60.25–27: “Das Da-sein ist vielmehr die Weise, wie das Offene, die Lichtung west, in der ‘das Sein’ als gelichtetes dem menschlichen Verstehen sich öffnet.”
Ser — a clareira — ser lançado na clareira como o aberto = ser o Da.
GA69: 101.12: “Die Lichtung — sein — in sie als Offenes sich loswerfen = das Da-sein.”
A distinção entre ex-sistência como pessoal/existencial e ex-sistência como estrutural/existencial (que, infelizmente, Heidegger tende a confundir) ganha destaque na discussão de Heidegger sobre “decisão” ou “resolução” (Entschluss) em Ser e Tempo § 62. Minha existência é sempre exclusivamente minha, e esse fato implica que a responsabilidade de escolher como vou viver recai exclusivamente sobre mim e sobre mais ninguém. Tenho uma escolha: posso abraçar minha estrutura dinâmica e mortal como existência, juntamente com tudo o que isso implica, ou posso fugir dela. Quando a existência (pessoal) abraça sua existência (estrutural), diz Heidegger, a pessoa é “autêntica”, a autora responsável por sua própria vida finita. Quando a existência foge de sua existência, ela é “inautêntica”, na medida em que se recusa a compreender e abraçar plenamente a si mesma e “tornar-se o que já é”.
