estudos:romano:si:eu

Invenção do "eu"

ROMANO, Claude. Être soi-même: une autre histoire de la philosophie. Paris: Gallimard, 2018.

1. Reexaminar a história daquilo que Foucault chamou, talvez impropriamente, de “o sujeito” à luz de um conceito anacrônico como o de ipseidade não constitui uma ilusão retrospectiva maior do que a que resulta de interrogar essa história à luz de conceitos como “o eu” ou “a subjetividade”, visto que o “sujeito” nunca significou antes de Kant o que hoje se coloca sob esse termo, e o “eu”, empregado sem escrúpulos por tantos historiadores da filosofia, simplesmente não existe antes de Philippe Desportes na poesia e de Descartes na filosofia.

  • Antes de Kant, “sujeito” designava o hypokeimenon, isto é, o substrato último das coisas, sentido exatamente oposto ao que hoje se atribui ao termo.
  • Nenhuma das noções pré-cartesianas, seja a alma, seja o intelecto, possui características comparáveis às que definem a invenção cartesiana do eu, de modo que o anacronismo cometido ao aplicar retrospectivamente esses conceitos não é menos censurável em um caso do que no outro.

2. A questão decisiva não é tanto a de saber se é lícito aplicar retrospectivamente um conceito, mas a de determinar se tal esclarecimento retrospectivo é de fato esclarecedor, dado que toda uma linhagem de intérpretes, como Pierre Hadot, Richard Sorabji, Anthony Long e Christopher Gill, insistiu em reencontrar no pensamento antigo os vestígios de uma concepção do eu no sentido conferido a esse termo pelas egologias, interpretando a psykhé de Platão, o noûs de Aristóteles e o hegemonikon dos estoicos como figuras sucessivas de um eu suposto pertencer a uma philosophia perennis.

  • Essa aplicação não crítica do conceito central das egologias, frequentemente sob a forma que ele assumiu em Locke, a de um self, desconhece a ruptura profunda que presidiu à introdução do eu na filosofia, ruptura originada na operação gramatical problemática da substantivação de um pronome pessoal.
  • A invenção do eu apoia-se em quatro inovações conceituais decisivas: primeiro, a passagem ao primeiro plano de uma teoria do conhecimento neutra e objetiva, segundo a qual o ego, dado a si mesmo em conhecimento evidente, figura como primeiro cognoscível de direito; segundo, a diferença instaurada por Descartes entre o ego e o homem, e por conseguinte entre o ego e uma parte do homem, sua alma ou seu espírito, de modo que esse eu não é o indivíduo empírico nem nenhuma de suas faculdades psicológicas; terceiro, o fato de esse eu ser dado a si mesmo apenas em primeira pessoa, constituído pela relação singular que mantém consigo mesmo; quarto, o fato de residir nesse eu a condição de nossa identidade a nós mesmos através do tempo, de modo que a identidade ordinária que possuímos como seres humanos singulares não basta para nos identificar, havendo para cada um uma identidade mais profunda, acessível somente em primeira pessoa.

3. Nenhuma dessas determinações fundamentais que regem a invenção do eu, segundo a expressão de Vincent Carraud, possui equivalente no pensamento grego, uma vez que a ideia de uma relação epistêmica privilegiada consigo mesmo é expressamente negada por Platão e Aristóteles, e a questão da identidade pessoal no sentido tornado familiar desde Locke simplesmente não interessa aos gregos ou aos romanos.

  • Christopher Gill, embora defensor do uso heurístico do self, reconhece que a noção de identidade pessoal não possui equivalente real nos escritos antigos.
  • Richard Sorabji, outro defensor do eu, observa que o interesse pela identidade pessoal através do tempo só se torna premente a partir do século III de nossa era ou mais tarde, o que evidencia que o próprio problema ao qual o self pretende responder na filosofia moderna não existe para os filósofos antigos.
estudos/romano/si/eu.txt · Last modified: by 127.0.0.1