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Prova em psicanálise

RICŒUR, Paul. Écrits et conférences I. Paris: Éd. du Seuil, 2008.

A questão da prova em psicanálise

  • A questão da prova em psicanálise nasce com a própria psicanálise, pois Freud sempre buscou apresentar sua disciplina como saber inteligível e verdadeiro, embora ela nunca tenha conseguido explicitar plenamente como suas afirmações se justificam, suas interpretações se autenticam e sua teoria se verifica.
  • A investigação preliminar da prova em psicanálise exige determinar primeiro o que vale como fato psicanalítico e, em seguida, esclarecer a relação entre teoria e experiência analítica, considerada ao mesmo tempo como método de investigação e tratamento terapêutico.

1. Os critérios do fato em psicanálise

  • As discussões epistemológicas tradicionais tendem a aplicar à psicanálise o modelo das ciências de observação, exigindo que seus conceitos teóricos sejam ligados a fatos definidos por procedimentos de verificação e falsificação.
  • A questão decisiva consiste em saber o que, no campo da psicanálise, pode legitimamente ser considerado um fato verificável.
  • A teoria psicanalítica codifica aquilo que ocorre na situação ou relação analítica, de modo que os equivalentes dos observáveis devem ser buscados nessa experiência específica e selecionados por critérios próprios.
  • O primeiro critério restringe o campo analítico à experiência que pode ser dita, pois a técnica da cura pela fala faz do desejo uma significação verbalizável, decifrável, traduzível e interpretável.
  • Os fatos psicanalíticos não são comportamentos observáveis, mas relatos, pois sonhos, sintomas e formações psíquicas só entram na análise enquanto vinculados a verbalizações inseridas numa esfera de motivação e significação.
  • O segundo critério estabelece que a situação analítica seleciona não apenas o que pode ser dito, mas aquilo que é dito a outro, sobretudo na dinâmica do transferência.
  • O objeto do desejo deve ser compreendido como outro desejo, de modo que a estrutura edipiana descoberta por Freud integra a própria constituição triangular do desejo entre dois sexos e três pessoas.
  • A castração simbólica expressa a relação originária do desejo com uma instância de proibição, e o transferência permite examinar artificialmente o drama intersubjetivo que constitui a libido como desejo dirigido a outro.
  • O terceiro critério diz respeito à coerência e à resistência das manifestações do inconsciente, pelas quais Freud distingue a realidade psíquica da realidade material.
  • A noção freudiana de realidade psíquica mostra que fantasias e cenas infantis podem ser clinicamente decisivas mesmo quando sua verdade factual permanece incerta ou indiferente.
  • A realidade psíquica encontra resistência tanto no senso comum quanto na própria teoria psicanalítica, pois parece contrariar a oposição entre princípio de prazer e princípio de realidade.
  • A psicanálise não trata da realidade material observável, mas da realidade psíquica, cujo critério está na coerência e resistência de suas formações.
  • As fantasias derivadas de cenas infantis constituem exemplo paradigmático da realidade psíquica, pois apresentam organização estruturada, típica e limitada, apesar de sua base histórica frágil.
  • A realidade psíquica excede as fantasias arcaicas e compreende o imaginário como campo de mediações do desejo, incluindo os objetos abandonados que reaparecem nas formações sintomáticas.
  • A passagem do objeto abandonado ao objeto substituído revela a substituibilidade dos objetos de amor e a possibilidade de o sujeito ocupar o lugar do objeto, como no narcisismo.
  • A substituibilidade funda uma série de equivalências entre sonho, mito, folclore, sintoma, alucinação e ilusão, cuja realidade consiste em sua significação e em sua aptidão para substituir-se mutuamente.
  • O trabalho do luto mostra que a perda do objeto pertence à realidade psíquica, pois a existência do objeto perdido continua psiquicamente mediante sua interiorização gradual.
  • O luto confirma que a cura analítica não dissolve simplesmente o fantasma em favor da realidade, mas o recupera como fantasma, situando-o no plano do imaginário e mostrando que o relevante é aquilo que o sujeito faz de seus fantasmas.
  • O quarto critério retém da experiência do sujeito aquilo que pode entrar numa história ou narrativa, fazendo das histórias de caso os textos primários da psicanálise.
  • Recordar não significa evocar eventos isolados, mas organizar sequências significativas e conexões ordenadas que dão à existência a forma de uma história.
  • A ordenação narrativa realizada pelo analisando constitui um trabalho, pois a Nachträglichkeit mostra que experiências antigas são reelaboradas depois, à luz de novas situações, adquirindo sentido e eficácia psíquica.
  • A experiência analítica revela, por meio da narratividade, mais um traço daquilo que vale como fato em psicanálise.

2. Procedimento de investigação, método de tratamento e termos teóricos

  • A segunda questão preliminar da prova em psicanálise concerne à relação entre a teoria e o que vale como fato, em contraste com as ciências de observação que conectam termos teóricos a observáveis por regras de interpretação.
  • O estatuto epistemológico da teoria psicanalítica deve ser pensado a partir da definição freudiana da psicanálise.
  • A psicanálise é definida por Freud como procedimento de investigação dos processos psíquicos, método de tratamento dos distúrbios neuróticos e conjunto de concepções psicológicas desenvolvido como disciplina científica.
  • A relação triangular entre investigação, tratamento e teoria substitui, na psicanálise, a relação simples entre teoria e fatos própria das ciências de observação.
  • A relação entre investigação e tratamento é epistemologicamente difícil, pois a investigação privilegia relações de significação entre produções psíquicas, enquanto o tratamento privilegia relações de força entre sistemas.
  • O procedimento de investigação aproxima-se das disciplinas textuais de interpretação, já que sonhos e sintomas são tratados como formações suscetíveis de tradução, decifração e inserção numa cadeia de atos psíquicos.
  • A noção ampla de texto abrange sonho, sintoma, devaneio, mito, lenda, provérbio, jogo de palavras, chiste, complexo de Édipo e produções artísticas como sistemas de signos interpretáveis.
  • A redução da psicanálise a uma hermenêutica textual seria insuficiente, pois a significação manifesta e a significação latente são separadas por mecanismos de deformação, como condensação e deslocamento.
  • A distorção psíquica obriga Freud a recorrer a metáforas quase físicas, especialmente a do recalque, que organiza as demais metáforas energéticas da deformação.
  • A metáfora do investimento acrescenta uma dimensão econômica e dinâmica ao aparelho psíquico, entrelaçando tradução, substituição, sobredeterminação, condensação, deslocamento, recalque, disfarce e censura.
  • A complexidade semimetafórica dos conceitos freudianos decorre da junção entre procedimento de investigação e método de tratamento, que exige pensar simultaneamente texto e força.
  • O tratamento deve ser entendido como o conjunto da técnica analítica, isto é, como trabalho de luta contra as resistências, não como mera cura médica nem como simples interpretação intelectual.
  • A coordenação prática entre interpretação e manejo das resistências media teoria e fatos em psicanálise, obrigando a teoria a articular significação e força num mesmo modelo.
  • A metapsicologia freudiana deve ser examinada em relação com a experiência e a prática analíticas, pois isolá-la conduz a avaliações prematuras e truncadas.
  • Duas teses opostas, mas complementares, sustentam que a teoria freudiana é inadequada à experiência analítica e, ao mesmo tempo, indispensável como ponto de partida para sua reformulação.
  • O modelo teórico de Freud não integra de modo coerente significação e força, interpretação textual e manejo das resistências.
  • Freud tende a subordinar experiência e prática à teoria, reconstruindo a interpretação segundo modelos positivistas, naturalistas e materialistas próximos das ciências naturais de sua época.
  • Habermas denuncia corretamente a autocompreensão cientificista da psicanálise como ciência da natureza, pois técnica e experiência exigem um modelo estrutural traído pelo modelo energético.
  • O modelo energético já impõe à experiência freudiana categorias como energia quantificável, estímulo, tensão, descarga, inibição e deslocamento, mantendo sua soberania mesmo nas formulações tópicas e metapsicológicas posteriores.
  • A especificidade do fato psicanalítico perde-se quando se esquece sua quadrupla propriedade de ser dito, dirigido a outro, fantasiado e narrado numa história de vida.
  • As metáforas econômicas não podem eliminar as metáforas exegéticas nem converter-se literalmente em teoria energética, pois os mecanismos inconscientes devem ser compreendidos como símbolos quebrados, linguagem privatizada e dessimbolização.
  • A aproximação da psicanálise às ciências sociais críticas não deve apagar a necessidade de partir de Freud, porque o modelo econômico conserva a alienação pela qual o funcionamento mental simula o funcionamento de uma coisa.
  • Reformulações fenomenológicas, linguísticas ou baseadas na linguagem ordinária falham quando excluem a simulação da coisa e não integram uma etapa explicativa no processo de dessimbolização e ressimbolização.
  • A filosofia da ação distingue motivos e causas, atribuindo aos motivos o estatuto de razões de agir e às causas o estatuto de antecedentes de eventos naturais.
  • A tentativa de reformular a psicanálise como simples extensão do vocabulário da ação ao inconsciente reduz a novidade freudiana ao uso de expressões como agir inconscientemente ou sem saber.
  • Embora conteúdos inconscientes possam receber nomes semelhantes aos conteúdos conscientes, a passagem ao inconsciente exige explicação própria, pois motivos inconscientes funcionam como causas autônomas.
  • Freud ignora legitimamente a oposição entre motivo e causa, pois sua explicação trata de fatores causalmente relevantes ligados à origem, gênese, função e significação dos fenômenos psíquicos.
  • A explicação psicanalítica exige causas para alcançar motivos, pois os conceitos analíticos pertencem simultaneamente à ordem do texto e da significação e à ordem da energia, da resistência e da força.
  • A teoria psicanalítica não pode ser reformulada externamente por conceitos estranhos, porque a autocompreensão alienada exige o desvio da explicação causal.
  • O modelo econômico freudiano pode ser criticado por obscurecer a situação analítica, mas qualquer modelo puramente compreensivo que exclua a fase econômica desconhece os próprios fatos revelados pela análise.

3. Verdade e verificação

  • A questão precisa da prova nos escritos psicanalíticos de Freud deve ser enfrentada após a análise dos fatos psicanalíticos e da relação entre teoria, investigação e tratamento.
  • A questão da prova só pode ser colocada adequadamente quando se esclarecem os critérios do fato psicanalítico e a mediação entre teoria e experiência analítica.
  • A prova em psicanálise envolve duas questões distintas: a pretensão de verdade dos enunciados psicanalíticos e o tipo de verificação ou falsificação de que são capazes.
  • A pretensão de verdade dos enunciados psicanalíticos não deve ser medida apenas por graus de verificabilidade, mas especificada qualitativamente conforme a natureza própria dos fatos psicanalíticos.
  • Se a experiência analítica repousa no desejo que chega ao discurso, sua verdade própria é a de um dizer verdadeiro, definido negativamente contra distorção, disfarce, falsificação, ilusão e má compreensão.
  • A passagem da má compreensão ao reconhecimento constitui o itinerário típico da experiência analítica e define o limiar de veracidade pelo aumento da capacidade de autorreflexão do sujeito.
  • A pretensão de verdade da psicanálise situa-se também na comunicação intersubjetiva, pois a má compreensão de si mesmo envolve a má compreensão de outrem e exige reconhecimento de si por meio do reconhecimento do outro.
  • A verdade psicanalítica enfrenta sua maior dificuldade diante do fantasma, mas a cura pode ser entendida como trabalho de luto que recupera o fantasma como fantasma e o desloca do alienante ao simbólico.
  • A narratividade reconcilia ficção e verdade ao reconstruir uma história coerente a partir dos fragmentos dispersos da experiência, fazendo da explicação psicanalítica uma explicação narrativa da história de caso.
  • A explicação psicanalítica de caso reorganiza fatos num todo inteligível, no qual segmentos causais são integrados numa estrutura narrativa singular.
  • A inteligibilidade narrativa aproxima a psicanálise das ciências históricas, embora o critério de adequação seja difícil porque a vida humana ordinária permanece fragmentada, incompleta e desconexa.
  • A dimensão crítica da narratividade deve ser preservada contra a redução persuasiva ou adaptativa da análise, pois a perlaboração reconquista o poder de narrar a própria história.
  • A verificação dos enunciados psicanalíticos deve corresponder à sua pretensão de verdade, e os meios de prova residem na articulação entre teoria, hermenêutica, terapêutica e narração.
  • A estrutura narrativa resume a pretensão de verdade da psicanálise, mas seus meios de prova dependem também de enunciados não narrativos inseridos como segmentos explicativos na autocompreensão.
  • A explicação psicanalítica possui três níveis não narrativos: generalizações clínicas, proposições em forma de lei sobre segmentos típicos de conduta e hipóteses gerais sobre o funcionamento do aparelho psíquico.
  • As generalizações já aparecem na explicação ordinária da conduta, pois motivos como ciúme ou fantasias típicas tornam uma ação particular inteligível por sua inserção numa classe repetível.
  • A passagem das generalidades às leis corresponde à explicação por motivos inconscientes e pelos mecanismos de distorção que tornam irreconhecível o processo motivacional.
  • As proposições metapsicológicas sobre pulsão, representantes pulsionais, destino das pulsões e aparelho psíquico constituem um metalinguagem da psicanálise, sem referência narrativa manifesta.
  • Em Freud, o compromisso narrativo e o compromisso explicativo se dissociam e se reencontram nas histórias de caso, de modo que a prova psicanalítica depende da articulação entre teoria, interpretação, tratamento e narração.
  • A objeção mais forte contra a psicanálise sustenta que seus enunciados seriam não falsificáveis e, por isso, não verificáveis, já que teoria, método, tratamento e interpretação pareceriam confirmar-se em bloco.
  • A acusação grosseira de sugestão analítica pode ser deixada de lado quando se pressupõem as respostas técnicas e profissionais de Freud contra esse risco.
  • A acusação mais sutil de circularidade deve ser enfrentada hermeneuticamente, pois o problema não é evitar o círculo, mas impedir que ele se torne vicioso mediante critérios cumulativos e convergentes.
  • A validação psicanalítica confirma sua pretensão de verdade por um processo complexo de convergência entre critérios parciais e heterogêneos.
  • Uma boa explicação psicanalítica deve ser coerente com a teoria freudiana ou com o sistema da escola psicanalítica em questão.
  • A coerência com a teoria não é exclusiva da psicanálise, pois toda explicação depende de uma correlação entre aparato conceitual e fatos, embora o paradigma energético freudiano pareça cada vez menos capaz de cobrir todos os fatos psicanalíticos.
  • Uma boa explicação psicanalítica deve satisfazer às regras de universalização dos procedimentos de investigação que decodificam o texto do inconsciente, substituindo o texto ilegível dos sintomas e sonhos por um texto inteligível.
  • O segundo critério inclui a consistência intratextual e intertextual, pois a interpretação se expande analogicamente dos sonhos e sintomas para lendas, chistes e expressões culturais, embora essa extrapolação mantenha valor problemático.
  • O critério interpretativo pode corrigir e abalar a teoria, pois novos fatos revelados pelos procedimentos de investigação e tratamento podem desafiar o modelo de distribuição energética.
  • Uma boa explicação psicanalítica deve ser economicamente satisfatória, incorporando-se à perlaboração do analisando e tornando-se fator terapêutico de melhoria.
  • Uma boa explicação psicanalítica deve elevar uma história particular de caso à inteligibilidade narrativa esperada de um relato que possa ser seguido e que se explique a si mesmo.
  • O aparelho da prova em psicanálise resulta do reforço mútuo entre critérios de validação heterogêneos, cumulativos e complexos, adequados tanto à especificidade do fato psicanalítico quanto à relação entre teoria, investigação e tratamento.
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