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estudos:niederhauser:niederhauser-2013-morte-e-falecimento

MORTE E FALECIMENTO

JAN2021

A distinção feita por Heidegger entre falecimento e morte visa deixar claro que os pressupostos científicos ónticos sobre a morte no sentido comum não são a preocupação principal e não influenciam diretamente sua investigação ontológica. O que costumamos chamar de morte é o que Heidegger denomina falecimento em *Ser e Tempo*. No entanto, só podemos compreender o falecimento — a morte óntica, por assim dizer — por causa da morte ontológica. Heidegger deseja revelar plenamente o fenômeno da morte a fim de mostrar, assim, que só podemos nos relacionar com a morte da maneira como o fazemos porque estamos sempre já voltados para ela e, mais precisamente, porque nosso próprio ser é estruturado por ela. É isso que ele chama de “ser-para-a-morte” e essa mesma estrutura é o próprio cuidado. (SZ: 329/315) (…)

Assim, a morte ontológica tem, de fato, a ver com a finitude mortal. Ainda assim, a morte não é simplesmente o fim da “vida” de alguém. Para Heidegger, em Ser e Tempo, a morte não é externa a nós, não é um evento no futuro que ocorre em algum momento ou outro. Pelo contrário, a morte é inerente ao Dasein. A morte existe assim que o Dasein existe. (…) A morte não é o nada para nós. (…) Assim que o Dasein existe, ele se encontra em uma relação inerente com sua morte, que não é a cessação da “vida” do Dasein, mas o limite onde o Dasein começa. É justamente por causa dessa relação com a morte que, em primeiro lugar, podemos compreender e nos comover com a morte dos outros. O Dasein existe assim que a morte existe também significa que a morte existe assim que o Dasein existe. (…) Dito de outra forma, a experiência que Heidegger busca no contexto da morte é uma experiência do pensamento, uma experiência do ser, não uma experiência do domínio empírico.

(…) Afirmar que a morte não significa nada para nós seria uma afirmação sem sentido para Heidegger. Para ele, a morte sempre já determina as possibilidades do Dasein, uma vez que o Dasein, assim que existe, está direcionado para sua possibilidade mais própria; é a morte que co-constitui os horizontes de compreensão do Dasein. É a partir dessa mesma orientação que o Dasein recebe seu significado, no sentido de que essa orientação para… permite revelar os seres e seu mundo. (…) O estar-no-mundo, como mostro com mais detalhes a seguir, é autenticamente realizado pelo Dasein somente no autêntico estar-para-a-morte. (…)

Por fim, é crucial observar que, embora a morte seja central para todo o projeto filosófico de Heidegger, ele não defende o suicídio. O que ocorre é exatamente o contrário. O suicídio não desempenha nenhum papel em *Ser e Tempo* e mal é mencionado na filosofia posterior. Mas, nos Prolegômenos, Heidegger aponta muito claramente que o suicídio perverte a morte, pois o suicídio transforma a morte em algo “à mão”, em uma atualidade. Como Heidegger ressalta, isso transforma também o ser em uma atualidade e deixa de compreender nossa existência como possibilidade, mas como algo “à mão” sobre o qual acreditamos exercer controle total (GA20: 439/317f). Observe que Heidegger aqui também estabelece explicitamente a conexão entre morte e ser, e que o caráter de possibilidade da morte é crucial para compreender o caráter de possibilidade do ser. Além disso, isso significa que, ao manter e viver de acordo com o caráter de possibilidade da morte — que, de certa forma, paira sobre nós —, o Dasein passa a compreender que o próprio ser é possibilidade. Essa percepção inicial será crucial para o restante do caminho do pensamento.

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