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estudos:nancy:1991:1.4

Significância

Jean-Luc Nancy, Philippe Lacoue-Labarthe. O título da letra : uma leitura de Lacan. Tr. Sergio Joaquim de Almeida. São Paulo : Escuta, 1991.

1. O dispositivo articulado da letra foi descrito e situado na medida em que confere ao significante sua estrutura, restando por ora esquecer o rodeio poético pelo qual esse significante acaba de transpor a barra, rodeio que não demorará a insistir de novo.

2. A descrição da articulação partilhou-se, todo o tempo, entre dois registros correspondentes a um duplo valor do termo significante: de um lado a ordem do significante enquanto algoritmo, unidade auto-suficiente que desenvolve com autarcia suas propriedades sobre o modo combinatório e localizado, e de outro a operação significante para a qual deve funcionar o algoritmo, manutenção paradoxal sob o significante enquanto conceito saussuriano da imagem acústica, elemento da significação.

3. Trata-se, nesse segundo valor, daquele sentido ativo e produtivo compreendido no particípio presente sobre o qual se forma a palavra significante, valor que definirá, ao final do cálculo algorítmico, aquilo que Lacan chamará de significância, sendo precisamente a propriedade dessa operação, chamada de função propriamente significante, que será questionada no ato mesmo de se estabelecer.

4. A significância é a operação do significante quando ele é passado para o estágio de significado e passa a carregar-se de significação, não sendo absolutamente a própria significação, mas aquilo que a torna possível e tende a constituí-la, sendo o termo, na Instância, empregado para traduzir a Deutung freudiana, faltando ao francês, como falta o prefixo be- do alemão, uma desinência para passar da significância à significação, de modo que a significância opera na borda da significação, tocando naquilo que até então fora excluído da ordem significante.

5. É também por essa razão que o tratamento da significância reinveste, na mesma borda da significação, o valor autônomo e autárquico do significante, ou seja, o valor resistente da barra, que se poderia chamar de não-significante, devendo entender-se que passar para o estágio do significado é sempre passar ao limite do significado, sem ultrapassá-lo, ou ultrapassando-o de forma tão precisa que o significado se esgote e o deslizamento se perpetue, sendo preciso sustentar juntas as teses de que a significância ultrapassa a barra e de que desliza apenas ao longo dela.

6. Tal operação antinômica é atestada pela composição do texto, sendo a operação do significante logo de início anunciada pela introdução do sujeito na problemática, ainda que apenas meia página lhe seja consagrada, bastando a Lacan concordar que o sentido só pode acontecer para e pelo sujeito para depositar toda a produção do sentido na conta de um trópico, o da metonímia e da metáfora, em que a subjetividade não mais interfere.

  • Mas todo este significante só pode operar se estiver presente no sujeito, dirão.

7. A significação como presença do significante no sujeito era o que estava compreendido, mais atrás, na ideia de um acesso ao significado, entrada cuja exibição fora necessariamente diferida, sendo o lugar da significação o sujeito, conforme indica a definição do signo dada por Lacan.

  • O signo é aquilo que representa alguma coisa para alguém.

8. Ao tomar por antecipação os elementos da temática do signo linguístico saussuriano, Lacan descarta a função de signo ou de significação enquanto função representativa, podendo por isso reservar o nome de signo, sob essa definição, para a pura função indicial que ele chama de linguagem-signo dos animais, chegando a identificar o signo com o simples sinal ou com o índice no sentido de Peirce, sendo o signo, aqui, a referência pura contra a qual se colocou a resistência da barra com a autonomia do significante.

9. O significante, ao contrário, preenche a função de significância, na qual não pode haver apresentação do referente, de alguma coisa, abandonando com isso necessariamente também seu correlato, o alguém, de modo que na significância não se apresenta aquilo que, relacionado à referencialidade, assumiria de uma só vez a forma e o estatuto de um sujeito.

10. Lacan estende sua definição do signo com o complemento de que o estatuto desse alguém é incerto, incerteza do sujeito que exige uma dupla determinação: de um lado o sujeito da significação não é a subjetividade dona do sentido, pois assim como a significação não pode parar e o significado não pode ser subtraído a seu perpétuo deslizar, também o sujeito não pode ser aquele que constituiria o sentido, sendo antes comandado pelo que do significante se apresenta nele.

  • Mas deste alguém, incerto é seu estatuto.

11. Por outro lado, é preciso enunciar a recíproca dessa proposição: o lugar do significante lacaniano é ainda assim o sujeito, sendo numa teoria do sujeito que se assenta a lógica do significante, ainda que o processo da significação seja descrito, nas quatro alíneas dedicadas ao sujeito, como passando sem esse sujeito e fora dele, determinando-se uma função anunciada como interior ao sujeito.

12. Tal função relaciona-se com as intenções e capacidade de um sujeito que é o eu na medida em que a língua é comum entre mim e outros sujeitos, sujeito de todas as operações significantes que pode significar e ser entendido, sendo necessário porém dizer que esse sujeito não é o sujeito lacaniano, o que exige considerar o duplo registro em que o texto atua simultaneamente.

13. Num primeiro registro, o texto encena um sujeito no sentido clássico do termo, capaz de significação ou de querer-dizer, cujo querer-dizer se mede pelo seu contrário, o não-querer-dizer, fundamentalmente pela busca de uma verdade como sentido próprio ou adequação do sentido a uma propriedade, busca que não interessa a Lacan senão na medida em que possa isolar-se em relação à referência e atuar por si mesma, como mostra a história das duas crianças, que continuaria verdadeira mesmo sem acesso possível ao significado.

14. É, portanto, só do jogo dos significantes que se pode esperar a própria significação, sendo retida não a visada do significado, mas a própria função de adequação abstraída de seu contexto, na medida em que o jogo, em seu funcionamento próprio, possibilita um desvio ou alteração por meio da combinação dos significantes, podendo o querer-dizer, na medida do contrato e da garantia da língua comum, utilizar essa língua para significar totalmente outra coisa daquilo que ela diz.

  • Na medida em que uma língua é comum entre eu e outros sujeitos, o querer-dizer pode utilizar esta língua para significar totalmente outra coisa daquilo que ela diz.

15. O totalmente outra coisa caracteriza assim a função significante no lugar do alguma coisa que determinava a função do signo, como ilustra o exercício sobre as possibilidades do significante árvore, em que dizer trepar na árvore em vez de ser incauto produz, além do comunicado dos fatos, um efeito suplementar de zombaria, fazendo entender a verdade entre as linhas por meio do único significante.

16. Tais acrobacias voltam a definir ou a descrever a conotação, regime em que a sequência do texto se desenvolverá, funcionando a significância como regra da generalização da conotação, que deveria ser ao mesmo tempo o desregramento da significação e da função de sujeito, embora o que ainda retenha esse poder de conotação no interior do querer-dizer seja a encenação de um sujeito que pode saber a verdade.

17. Saber a verdade é o que o sujeito lacaniano não pode, sendo um sujeito privado desse saber que pode ser o sujeito de uma conotação pura e simplesmente desligada da denotação, o que obriga a passar ao segundo registro, implícito, deste texto, remetendo a outros textos dos Escritos.

18. Se o problema é ter um sujeito para a teoria da letra, esse sujeito deve ter sido mascarado pelo personagem do querer-dizer, sendo o sujeito para o qual a única verdade é aquela que se enuncia a si mesma na famosa prosopopeia anterior à Instância.

  • Eu, a verdade, eu falo…

19. Essa verdade, cuja teoria comanda a teoria do sujeito, não é aquela que um sujeito pode saber, sendo anterior ou exterior a qualquer saber, identificada com a própria palavra falada, sem outra referência e com a exclusão de toda metalinguagem, dependendo apenas da palavra e mantendo-se somente no espaçamento da estrutura significante, ou no buraco.

20. É esse mesmo buraco que o texto destina ao sujeito, quando a função de significar totalmente outra coisa é apresentada não como disfarce do pensamento do sujeito, mas como indicação do lugar desse sujeito na busca do verdadeiro, não tendo o sujeito propriedade nem interioridade que pudesse mascarar, desviando-se a verdade lacaniana absolutamente do modelo da adequação.

  • Não se trata de disfarçar o pensamento, no mais das vezes indefinível, do sujeito, mas de indicar o lugar de tal sujeito na busca do verdadeiro.

21. O sujeito não seria capaz de significar esse totalmente outro sem se alterar e, num dizer ousado, alienar-se a si próprio, tomando seu lugar, por sua vez, na única estrutura significante, definindo-se o sujeito como aquilo que o significante representa, o que compõe o círculo em que a lógica do significante e a teoria do sujeito implicam-se uma na outra.

  • O significante é aquele que representa um sujeito para um outro significante.
  • O sujeito é o que o significante representa e não poderia representar nada que não fosse para um significante.

22. Essa posição do sujeito na cadeia é situada por Lacan naquilo que a linguística designa como shifter, classe especial de unidades gramaticais cuja significação geral não pode ser definida fora de uma referência à mensagem, sendo o pronome pessoal o exemplo mais tocante, pois, enquanto sujeito do enunciado, não significa o sujeito da enunciação, mas o designa sem significá-lo.

23. Desta forma, o sujeito exposto como sujeito da enunciação deve ser remetido a este outro sujeito que, tomado na separação entre sujeito do enunciado e da enunciação, se impõe como puro significante, remate desta destruição-reconstrução do conceito de sujeito enquanto sujeito da teoria dos jogos, puro lugar ou pivô de um cálculo.

  • A teoria dos jogos, melhor chamada de estratégia, é o exemplo em que se aproveita o caráter inteiramente calculável de um sujeito estritamente reduzido à fórmula de uma matriz de combinações significantes.

24. Esse sujeito da estratégia não é outro senão o próprio Outro, sítio prévio do puro sujeito do significante, isto é, o menos um impronunciável como tal, sendo o sujeito lacaniano instituído no e pelo significante, de modo que a entrada no sujeito não pode ser senão uma entrada no significante, sendo a pontuação do sujeito, tal como a da significância, também mítica, excluindo o sujeito lacaniano o sujeito substancial do querer-dizer, ao menos enquanto sujeito psicológico, existencial ou antropológico.

25. Retornando ao texto, a passagem pelo sujeito introduz na função propriamente significante, a representação de um significante para um outro, sendo a verdadeira função do sujeito aquela que se analisa nos dois elementos da conotação, a metonímia e a metáfora, tropos que revelarão, numa releitura à luz da teoria freudiana, a lógica do significante como lógica do desejo.

26. Na apresentação desses dois tropos por Lacan, nota-se uma mistura entre a taxionomia da retórica clássica e a análise jakobsoniana dos dois aspectos da linguagem, não se mantendo metonímia e metáfora numa acepção retórica estrita nem facilmente definível.

27. A metonímia é introduzida pelo paradigma das trinta velas, visando Lacan, sob esse nome, a série dos termos da combinação própria da linguagem, o discurso enquanto concatenação de entidades sucessivas e preponderância da contiguidade, podendo-se dizer que a metonímia é o tropo sintagmático ou a figura do sintagma.

28. Nesse exemplo, a figura oferece-se à leitura como um barco, segundo jogo de palavras que marca que, na metonímia, a coisa não deve ser tomada no real, não sendo o barco o significado do rodeio metonímico, mas o próprio rodeio, a conexão entre os significantes navio e vela, o que Lacan chama de palavra a palavra, fórmula que exclui da figura o sentido ligado à realidade.

29. Essa literalidade que se deve atribuir à figura é, para Lacan, o pouco de sentido produzido pelo fato de não existir significação que não remeta a uma outra significação, não sendo a metonímia uma figura que manteria salvo o sentido, mas o sintagma como eixo segundo o qual o sentido se empobrece ou se esgota na letra do discurso.

  • A metonímia é este efeito tornado possível pelo fato de não existir significação alguma que não remeta a uma outra significação e no qual se produz o denominador mais comum das duas, isto é, o pouco sentido.

30. A metonímia realiza assim o golpe aplicado por Lacan à linearidade saussuriana, sendo o rodeio que rompe o sintagma e o pulveriza em significantes isolados, cada um remetendo a outro significante segundo um tropo que é uma metáfora no sentido mais amplo, de tropo paradigmático.

31. Quanto à metáfora, o exemplo tomado de Hugo através de Quillet parece difícil de classificar em sentido estrito, retendo-se sobretudo o traço que realiza a passagem do animado para o inanimado, sendo Quillet e Lacan fiéis a um emprego amplo do termo, designação geral do efeito de sentido figurado.

  • Seu feixe não era nem avaro nem odioso.

32. Essa metáfora visa à outra série de Jakobson, a dos termos que marcam a linguagem enquanto seleção, o discurso como concorrência de entidades simultâneas e preponderância da similaridade, sendo a metáfora o tropo paradigmático por meio do qual a mensagem faz surgir por antecipação os paradigmas de sua ocorrência.

33. Não é acaso que Lacan acolha, com a acepção corrente de metáfora, o gênero literário privilegiado para seu exercício, a poesia circunscrita pelas referências a Hugo e ao surrealismo, poesia do Verbo e do poder das palavras, verificando-se que as referências literárias e o estilo de Lacan pertencem à mais decisiva constituição de seu discurso, tecido ele próprio numa poética da metáfora.

34. A metáfora articula-se no jogo da substituição de um significante por outro, evitando Lacan apresentá-la como processo que manteria salvo o sentido, sendo o sentido próprio, no exemplo de Booz, abolido, sem que o abolido jamais ressurja em pessoa, produzindo-se apenas um retorno paradoxal do abolido através da própria abolição, que é não-sentido e autoriza o sentido.

  • A metáfora posiciona-se no ponto exato em que o sentido se produz no não-sentido.

35. Esse não-sentido deve ser tomado não como contrassenso, mas como negativo do sentido, momento de sua perda ou ausência, sendo Booz exemplar não só como nome próprio mas como nome de um pai que deve ser morto, conforme o evento mítico em que Freud reconstruiu o mistério paterno, trazendo a significação de Booz como pai a paternidade de toda significação, engendrada pelo não-sentido, no puro significante.

36. A fórmula de Lacan para a metáfora, uma palavra por outra, significa tanto uma substituição de significantes quanto uma espécie de teleologia interna da ordem significante, por meio da qual o sujeito insiste no significante, mesmo que essa teleologia esteja destinada a perpetuar-se sem que jamais aconteça o telos de um sujeito substancial, mestre do sentido.

  • Uma palavra por outra.

37. A metáfora reúne assim em si mesma a função do sujeito e a da palavra, sendo o lugar em que esta se apossa daquele e o literaliza sob as espécies de uma singular literalidade significante, sendo a palavra, nessa instância suprema, o Witz tal como Freud o soube ler, ao mesmo tempo primeiro motivo pelo qual Freud intervém no texto de Lacan e último elemento da exposição teórica da letra.

38. Essa letra ainda precisa passar, indicando a metonímia, ao lado da metáfora, que a substituição de uma palavra por outra deve fornecer os rodeios do palavra a palavra para se produzir, manifestando a metonímia uma servidão inerente à ordem do significante para que o sentido aconteça, servidão de que a própria metonímia tem a astúcia.

39. A letra é escrava de uma verdade, cuja enunciação, a partir da qual se ordena todo o jogo trópico e toda a teoria do sujeito, acarreta toda a lógica da letra numa nova articulação do discurso que Lacan denomina a verdade freudiana.

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