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Ego sum

Jean-Luc Nancy, Ego Sum. Paris: Flammarion, 1979.

Prefácio à edição inglesa

1. Escrito trinta e cinco anos antes, o livro conserva uma vitalidade que dispensa sua releitura pelo próprio autor, não apenas porque toda releitura revelaria inevitavelmente falhas e marcas de época, mas sobretudo porque a obra jamais cessou de se retrabalhar, repetir e renovar interiormente, permanecendo numa região obscura da experiência em que continua a ressoar e a produzir novos desdobramentos.

2. Ego sum poderia agora receber apenas um ponto de exclamação — “Ego sum!” — porque a evidência de “eu sou” nada acrescenta ao próprio ser daquele que o enuncia: para um ente falante, dizer que é coincide com o modo pelo qual existe seu próprio ser, de maneira que a transitividade de “ser”, em oposição tanto à cópula intransitiva quanto à substantivação do Ser, somente se efetiva no dizer ou na fala.

  • O Dasein humano é enquanto existe transitivamente seu próprio ser, e essa transitividade não se oferece fora do ato de dizer.
  • A enunciação “eu sou” não comunica primeiramente uma informação sobre um sujeito já constituído, mas realiza linguisticamente a própria existência daquele que fala.

3. Se “ser” nomeia de maneira inominável o ato pelo qual a existência se encontra existindo, simultaneamente recebida na totalidade dos entes, reunida, lançada e exposta, “falar” designa, para o existente falante, o ato e o modo dessa exposição, de tal forma que dizer “ser” constitui igualmente seu ser-dizente: existe-se na medida em que se diz que se é.

4. É como linguagem que há “ser”, razão pela qual não há propriamente “Ser”, mas o dizer “ser”, equivalente à tautologia segundo a qual os entes são; esse dizer constitui o ato pelo qual o existente ex-siste e faz sentido, sendo o sentido inseparável de um envio ou remissão a outro, ainda que esse outro seja o mesmo considerado ou endereçado como outro.

5. Quando Descartes declara “eu sou”, manifesta-se necessariamente como outro, pois a própria enunciação introduz no “eu” uma alteridade constitutiva entre aquele que fala e aquele que é implicado no ato da fala.

6. Uma extrapolação a partir de Heidegger permite reencontrar Descartes pelo lado oposto daquele que Heidegger julgava dever identificar como o subjectum indevidamente compreendido como uma “coisa-eu individual simplesmente presente” (vereinzelten vorhandenen Ichding), pois no próprio Descartes coexistem as duas possibilidades características de toda grande filosofia: encerramento e desclosão.

  • “Eu sou” simultaneamente se põe como uma Ichding e se expõe como ser-dizente.
  • A ambivalência aparece também na diferença linguística entre o alemão Ich e o francês je/moi: enquanto Ich pode funcionar tanto como “eu” quanto como “mim”, o francês mantém em je a função exclusiva de indicador da instância de enunciação.
  • O je francês dificilmente pode ocupar a posição substancial de um substantivo, ao passo que das Ich, como em Freud, pode designar aquilo que em francês se traduz por le Moi.

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7. A substância pensante somente pode ser reconhecida como substância por meio de suas múltiplas atribuições — duvidar, afirmar, negar, conhecer, querer, imaginar, sentir, amar e odiar —, mas tais atribuições não são propriedades de um subjectum ou suppositum previamente subsistente, e sim ações de um “eu” que não existe independentemente delas.

  • O ser do “eu” está indubitavelmente incluído em cada uma dessas ações enquanto aquilo que nelas age.
  • O agente não deve ser entendido como sujeito substancial da ação, mas como o próprio agir enquanto efetivamente age.
  • Não pode haver dúvida sem um “eu” que duvida, mas tampouco pode haver “eu” fora do ato de duvidar, afirmar, amar ou realizar qualquer outra dessas ações.

8. O sentido de “ser” não deve ser confundido com um “sentido do Ser”, pois consiste no próprio ato de fala que atravessa todas as atribuições do existente, inclusive quando aparentemente nada se diz: mesmo no simples sentir, o “eu” de “eu sinto” é silenciosamente pronunciado como saber-se-sentindo ou sentir-se-sentindo daquele existente que sente e, sentindo, sente também a si mesmo.

9. A estrutura do “eu” deve então ser estendida a toda existência sensível, pelo menos às existências animal e vegetal e possivelmente também ao mineral enquanto exposto a ações exteriores e interiores, afastando-se assim de Descartes e Heidegger precisamente mediante possibilidades abertas por ambos; toda existência, por ser plural/singular, encontra-se exposta, e essa exposição é sempre mútua segundo regimes distintos através dos quais circula um sentido do mundo.

  • A unidade desse sentido decorre apenas de ele concernir a um único mundo, sem eliminar sua heterogeneidade interna.
  • Tal heterogeneidade dissemina-se como os cinco sentidos, os diversos reinos da natureza, aos quais se acrescenta o reino técnico, e a multiplicidade das milhares de línguas faladas.

10. Embora o “eu” somente exista quando articulado e pareça, portanto, privilégio do animal falante, seu ser-dizente permite compreender que esse “ser”, enquanto falar a si mesmo e uns aos outros e produzir sentido para si e entre si, diz respeito por meio da boca humana à totalidade do existente, sem constituir uma significação arbitrariamente imputada pelo homem aos seres incapazes de falar.

  • O sentido é dito de todos os entes a todos os outros por uma fala que não pertence exclusivamente ao ser humano, mas é por ele portada em favor da totalidade, do mesmo modo que outros entes portam a concreção mineral, a profusão cromática, a emoção sonora e inúmeras outras modalidades de manifestação.
  • O devir técnico do mundo, as metamorfoses da vida e das espécies, as transformações das relações no universo e os deslocamentos da energia participam desse ser-dizente.
  • A técnica constitui sentido em estado puro porque opera continuamente remissões entre instâncias — calor, pressão, movimento, produção, transporte —, enquanto a linguagem representa a primeira qualificação técnica do existente falante.

11. Permanece-se ainda no horizonte cartesiano enquanto “eu sou” oferece a evidência matricial de um conhecimento matemático cuja calculabilidade serve ao domínio orientado por finalidades humanas, mas a proliferação tecnológica contemporânea de fins que sucessivamente se convertem em meios para novos fins cada vez mais afastados de qualquer finalidade última conduz para além de Descartes e Heidegger, intensificando o sentido do “eu sou” e revelando o caráter principialmente inacabável do ser-dizente e da existência do mundo.

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12. A expressão “pela boca do ser humano” introduz o motivo da boca, que desde a escrita do livro jamais deixou de acompanhar o pensamento, embora tenha sido pouco desenvolvido, como se permanecesse à espera de uma ocasião singular capaz de desencadear uma verdadeira épica da boca.

13. A boca concentra diversos movimentos fundamentais da existência corporal: por ela passam a respiração e o som, e no som tece-se o sentido imaterial dos fonemas, de suas ressonâncias, harmônicos e ruídos de fundo; por ela entram os alimentos cuja digestão metaboliza energias que sustentam músculos, nervos, hormônios, gestos, ações, paixões e palavras; e por ela se abre um dos grandes orifícios de um corpo que somente existe por permanecer integralmente exposto aos influxos, afluxos e refluxos de suas extremidades e vísceras, incessantemente envolvido nos impulsos e repulsões das massas entre as quais foi lançado.

  • A boca é simultaneamente passagem de ar, produção sonora, incorporação material e abertura corporal ao exterior.
  • Nela, o “eu” se lança para fora, ora proclamado em grito, ora abafado, tornando-se expressão corporal de uma existência essencialmente exposta.

14. A boca, como orifício de borda carnosa e elástica, desenha os contornos móveis da abertura de um sentido sempre outro e singular, lançado e suspenso de maneiras diversas, interrompido antes de qualquer acabamento para que a própria suspensão conserve intensificada a força de seu impulso.

15. Sem simplesmente destruir a representação de um “mim” posto diante de si e assim encapsulado em si mesmo, porque se conhecem os riscos envolvidos na perda completa dessa objetualidade, torna-se possível passar lenta e quase insidiosamente dessa representação para outra experiência, não representacional, fundada na boca como fala, endereçamento, canto e beijo.

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16. Impõe-se ainda uma observação suplementar acerca da surpresa.

17. Um grande filósofo, assim como um grande artista, atravessa séculos e continentes sem ser reduzido às circunstâncias de sua época, como testemunham Anaximandro, Wu Daozi e o rei Davi; Descartes, que acreditava ou fingia acreditar que os antigos haviam possuído e ocultado uma verdade cuja redescoberta lhe incumbia, atravessa ele próprio o espaço-tempo com velocidade singular, fazendo de seu nome, seu retrato e da fórmula cogito ergo sum um emblema quase incomparável da memória filosófica, simultaneamente luminoso, ofuscante, decisivo, bandeira e pressuposto do pensamento.

18. O momento decisivo de Descartes reside menos no cogito, ergo…, cuja forma sugere uma dedução, do que no ego sum não deduzido, pois na segunda Meditação o movimento fundamental não consiste numa inferência lógica, mas num salto em que a própria dúvida irrompe subitamente como indubitável e absolutamente certa: “eu sou”.

  • A cogitatio que conduz a essa evidência permanece incluída nela, mas não como premissa explicitamente articulada.
  • O “portanto” pode ser considerado virtualmente presente na enunciação, porém permanece envolvido, porque a certeza emerge como evidência experimentada e não como conclusão demonstrativa.

19. “Eu sou” surpreende a si mesmo porque surge onde nada semelhante era esperado: em meio à dúvida levada até suas últimas consequências, quando nada parecia escapar à suspensão, o próprio gesto de duvidar revela-se subitamente certo em sua evidência peculiar, pois não se pode duvidar desse gesto sem ao mesmo tempo confirmar aquele que duvida.

20. Não é um “mim” tomado como possível referente de um sujeito que resiste à dúvida, mas o próprio “eu” que profere as palavras, pois esse “eu” não constitui um referente e sim um falante que diz “eu”; ao dizer “eu sou”, tautologiza sua própria primeira pessoa, já contida no latim sum, e encontra sua certeza inabalável precisamente no fato de ser aquele que diz “eu sou”.

  • A certeza não repousa sobre a identificação de uma substância previamente conhecida, mas sobre o ato mesmo de enunciação.
  • A irrupção dessa certeza contrasta radicalmente com a dúvida obstinada que imediatamente a precede.

21. “Eu sou” é certo e, entretanto, surpreende precisamente no interior da busca por algo seguro depois de se ter estabelecido conscientemente que nada estava assegurado como objeto de conhecimento certo, pois aquele que duvida descobre inesperadamente que seu próprio ser não pode ser colocado em dúvida.

22. Ainda não se sabe quem, o que ou qual é esse “eu”, determinação que somente virá depois, mas já é absolutamente certo que ele é; o “eu” torna-se, assim, sua própria surpresa, contendo a cogitatio sem ainda conhecê-la plenamente como tal, pois o pensamento recebe a si mesmo inicialmente na forma dessa inesperada irrupção de sua própria existência.

23. O caráter de surpresa cuidadosamente produzido na segunda Meditação, no qual a evidência irrompe não de uma argumentação, mas de uma experiência, explica em grande medida a força histórica extraordinária de ego sum: a fórmula explode como um clarão e ocupa o lugar antes pertencente ao “é” de Parmênides, cujo sujeito era o próprio Ser, ainda quase não constituído como sujeito, mas como o próprio “ser” apropriando-se de seu ser independentemente de qualquer outro ente.

24. Ao primeiro espanto, “é”, de Parmênides, segue-se o segundo, “eu sou”, e depois um terceiro, “nós existimos”, associado a Hegel e Heidegger, no qual o “eu” é conduzido para fora da simples enunciação individual — já que dizer “nós” pressupõe operações indefinidamente complexas — e o próprio “Ser” é retirado da subsistência em direção ao nada ou à abertura do ex-, isto é, a um fora propriamente infinito.

25. Toda surpresa implica que algo ou alguém estivesse oculto, e ego sum levanta sucessivamente as máscaras de “Monsieur Descartes”, de “Polybius, o Matemático”, do cavaleiro heroico, do bom cristão filho de Deus, do súdito fiel do rei e, sobretudo, a máscara de um cogito concebido como substância pensante isolada, separada da substância extensa e pairando acima dela, pois o ponto decisivo consiste em apreender pensamento e extensão unidos num unum quid indivisível e indissociável que vive concretamente como engenheiro, viajante, médico, cavalheiro e filósofo.

  • Esse unum quid dedica-se a seus afazeres como qualquer pessoa, dissolvendo a imagem de uma interioridade pensante inteiramente separada do mundo.
  • O “eu” revela-se já lançado para fora, exposto e surpreendido pela agitação do grande mundo exterior.
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