estudos:mitchell:intro-geviert-2015
GESTO E DOAÇÃO (2015)
MITCHELL, Andrew J. The fourfold: reading the late Heidegger. Evanston (Ill.): Northwestern university press, 2015
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Por serem inerentemente relacionais graças ao Geviert, as coisas que permanecem implicam um mundo além de si e o desdobram, de modo que, no seu coisar, desdobram o mundo em que habitam e ao mesmo tempo o complicam com dobras próprias, carregando o peso desse mundo desdobrado e executando-o como performance sustentada pelas próprias coisas.
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Geviert como condição de uma relacionalidade que implica um além.
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Ent-falten como desdobramento do mundo pelas coisas que permanecem.
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Coisas simples e sem artifício como agentes de pregas e dobras do mundo.
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Austragen como execução e sustentação do mundo pelas coisas, recusando o modelo de recipiente indiferente.
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O portar do mundo pelas coisas não é homogêneo, porque cada coisa porta o mundo como uma performance distinta nomeada por Austragen e articulada na língua antiga como bern/bären, de onde se iluminam simultaneamente o “portar” como gerar (gebären) e o “gesto” (Gebärde), de modo que, no coisar, as coisas gesticulam mundo como fardo e como nascimento.
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Austragen como modo de portar que varia de coisa para coisa.
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Bern/bären como raiz linguística que liga portar, gerar e gesto.
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Gebären como portar que inicia, gera e faz nascer.
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Gebärde como nomeação do portar do mundo em forma de gesto.
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Ao implicarem um além, as coisas entram no regime do gesto como transição para fora de si e como performance que excede o próprio executante, de modo que as coisas que gesticulam mundo o sustentam sem fornecer fundamento e operam como interface, num contraporte e aporte (Entgegentragen e Zutrag), tornando-se eixos do girar do mundo e fazendo fluir relações pelas fendas e vias do quatro até articularem o mundo.
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Gesto como performance não confinada ao performer.
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Transição para o fora como estrutura do gesto e da coisa.
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Interface como contraporte e aporte, sem dar chão.
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Relações como fluxo que se desprende das coisas e se distribui pelas vias do Geviert.
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Há um caráter iniciático nas coisas enquanto nascimento de mundo ao redor delas, onde as relações não se restringem a afinidades intelectuais, mas se instanciam corporalmente como significados, conexões, alianças e tendências que fazem nascer um mundo a partir do meio das coisas, de modo que a coisa nasce ao dar nascimento e permanece ligeira porque sustenta e é sustentada por um mundo relacional que impede o congelamento de gesticulações isoladas.
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Relações como significados corporificados e contingências concretas.
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Nascimento de mundo como geração a partir do entre das coisas.
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Nascimento da coisa como juventude, proximidade do começo e do meio que a suporta.
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Permanecer como ligeireza sustentada por um mundo de relações, com curso e varredura.
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Não há aparência sem meio capaz de sustentá-la e o mesmo vale para a coisa, de modo que o mundo é o meio das coisas e não pode ser tomado como recipiente ou totalidade metafísica, pois “mundo” já não nomeia universum, criação (mundus) nem o todo do que preside (kosmos), e sim uma relação mais instanciada com as coisas que gesticulam, na qual o vínculo confia mundo às coisas e abriga as coisas no brilho do mundo, de modo que as coisas gesticulam mundo e o mundo concede coisas.
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Meio como condição de sustentação da aparência e do coisar.
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Recusa do mundo como container, totalidade secular, criação teológica ou kosmos.
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Confiança do mundo às coisas e abrigo das coisas no brilho do mundo.
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Dupla formulação: as coisas gesticulam mundo e o mundo concede coisas.
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Em tandem com o gesto das coisas, o mundo concede como Gönnen, entendido como envio de graça (Gunst) e não como simples fornecimento, e essa concessão é pensada a partir de Heráclito (fragmento 123, physis kryptesthai philei), onde philein é vertido como conceder graça (die Gunst schenken) e onde graça significa conceder e garantir originários (Gönnen e Gewähren), distinguindo-se de benefício e patronagem.
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Gönnen como concessão ligada etimologicamente a Gunst.
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Heráclito (fragmento 123) como campo de elaboração do conceder.
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Philein como conceder graça em vez de “gostar” ou “amar”.
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Graça como Gönnen/Gewähren, não como Begünstigen/Begönnern.
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A concessão originária dá ao outro o que lhe é devido por pertencer à sua essência e por portar sua essência, de modo que a essência concedida floresce em sua liberdade sem acréscimo extrínseco, porque a concessão primeiro deixa o outro ser o outro, oferecendo-lhe o espaço de suas relações e operando como capacidade de esperar, na qual não se exige plena presença e se deixa o outro chegar como chegada.
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Conceder como dar o devido ao outro segundo sua essência.
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Liberdade como florescimento no espaço das relações e do espaçamento.
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Recusa de benefício aditivo: concessão como deixar-ser do outro.
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Esperar como forma de conceder que acolhe chegada sem exigir plenitude.
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Se o mundo concede coisas, então o mundo dá às coisas o espaçamento de suas relações e as boia no entrelaçamento relacional que as porta, de modo que as coisas que gesticulam mundo são concedidas pelo mundo para coisar e são sustentadas pelo que elas mesmas executam, sendo portadas (getragen), num deslocamento do problema da graça do ser (Sein) para a interface entre coisa e mundo.
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Espaçamento do mundo como aquilo que porta a coisa.
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Entrelaçamento de relações como boia e sustentação.
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Coisas concedidas para coisar e sustentadas pelo que executam.
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Continuidade temática: graça e concessão atravessando ser e, depois, coisa-mundo.
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A interface entre coisa e mundo é um encontro sem chão entre gesto e concessão, em que cada um implica o outro por um regime de apropriação (ereignen), de modo que se fala em Welt-Geviert e em Ding-Welt/Welt-Ding para marcar a conjunção inerradicável entre o quatroar do quatro e o mundificar do mundo, e em que a diferenciação (Unter-Schied) apropria coisas aos gestos do mundo e apropria mundo à concessão das coisas.
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Apropriação como efeito da exposição recíproca entre coisa e mundo.
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Welt-Geviert como indicação da conexão entre Geviert e mundo.
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Ding-Welt e Welt-Ding como nomeação da conjunção sem isolamento.
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Unter-Schied como diferenciação que apropria em dupla via: coisas aos gestos do mundo e mundo à concessão das coisas.
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A diferenciação é a própria infiltração do entre, medida conjuntamente pela luminosidade do mundo e pelo brilho simples das coisas, de modo que a gesticulação do mundo pelas coisas se cumpre a partir da graça do mundo e que, por serem suficientes, tais coisas deixam o Geviert do mundo permanecer com elas, enquanto brilho e luminosidade atravessam e medem o entre como limite de diferenciação.
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Infiltração entre coisa e mundo como estrutura do entre.
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Brilho das coisas e luminosidade do mundo como co-medida.
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Graça do mundo como fonte de cumprimento da gesticulação.
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Permanência do Geviert com as coisas como efeito de suficiência e de medida do entre.
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