1.2 Experiência do corpo
MERLEAU-PONTY, Maurice. Phénoménologie de la perception. Paris: Gallimard, 1945. (Bibliothèque des Idées).
A EXPERIÊNCIA DO CORPO E A PSICOLOGIA CLÁSSICA
1. A permanência do corpo próprio, que a psicologia clássica lhe atribuía, é incompatível com o estatuto de objeto. Um objeto só é objeto se pode afastar-se e desaparecer do campo de visão, ao passo que o corpo se recusa à exploração e se apresenta sempre sob o mesmo ângulo, numa permanência que está do lado do sujeito, e não no mundo. Ele é aquilo pelo qual há objetos, o meio de comunicação com o mundo, e sua permanência absoluta serve de fundo à permanência relativa dos objetos.
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A perspectiva imposta pela janela, que só deixa ver o campanário, é uma necessidade física de que se pode tirar proveito; ela pressupõe a necessidade metafísica de o corpo impor um ponto de vista sobre o mundo.
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As roupas e os instrumentos incorporados pelo hábito participam da estrutura do corpo, que é o hábito primordial do qual todos os outros dependem.
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O corpo visual se separa dos objetos à medida que se aproxima dos olhos, e a imagem no espelho apenas imita suas iniciativas; a mão direita tocada pela esquerda não é a mão direita que toca, e o corpo, enquanto vê e toca, não pode ser visto nem tocado.
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Os objetos só mostram uma face porque o sujeito ocupa um lugar que não pode ver, e a crença em suas faces ocultas e num mundo que os abrange vem do corpo que os mantém em coexistência consigo.
2. As “sensações duplas”, pelas quais o corpo se reconhece quando uma mão toca a outra, não são duas sensações simultâneas. Trata-se de uma organização ambígua em que as mãos alternam as funções de tocante e tocada. O corpo se surpreende do exterior no exercício de uma função de conhecimento e esboça “uma espécie de reflexão”, o que basta para distingui-lo dos objetos.
3. Dizer que o corpo é um objeto afetivo significa que a dor indica seu lugar e constitui um “espaço doloroso”: “estou com dor no pé” quer dizer que a dor vem do pé, ou que o pé dói, e não que o pé seja causa da dor. A “voluminosidade primitiva da dor” mostra que o corpo não se oferece como os objetos do sentido externo, os quais talvez só se destaquem sobre esse fundo afetivo que lança a consciência para fora de si.
4. As “sensações cinestésicas”, apesar da linguagem inadequada, exprimiam a originalidade dos movimentos do corpo próprio. Eles antecipam diretamente a situação final, e só depois se desdobram num percurso objetivo. O corpo não precisa ser procurado num ponto do espaço e conduzido a outro: está desde o início junto ao termo do movimento, e as relações entre a decisão e o corpo no movimento são relações mágicas.
5. Os psicólogos não tiraram consequências dessas descrições porque se situavam no lugar do pensamento impessoal da ciência, transformando a experiência do corpo em “representação” e “fato psíquico” dentro de um ser universal. O psicólogo, porém, é ele próprio o fato de que trata. A união da alma e do corpo renasce a cada instante sob seu pensamento como possibilidade da própria consciência, e ser uma experiência é comunicar interiormente com o mundo, o corpo e os outros, estar com eles e não ao lado deles.
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A incompletude do corpo, sua apresentação marginal e sua ambiguidade eram tratadas como traços de conteúdos de consciência, enquanto a biologia preencheria a lacuna da cabeça com a réplica das pranchas anatômicas.
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Ao olhar o próprio corpo pelos olhos de outrem e o corpo alheio como mecânica sem interior, o psicólogo perdia contato consigo e se cegava para o comportamento de outrem.
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Ao contrário do físico ou do químico, o psicólogo vivia o psiquismo ao pensá-lo: o fato psíquico deixa de ser evento no tempo objetivo e torna-se fato assumido, surgimento perpétuo que reúne seu passado, seu corpo e seu mundo.
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Retomar os “caracteres” do corpo próprio é refazer com a psicologia moderna o retorno à experiência, como presença sem distância ao passado, ao mundo, ao corpo e a outrem.
