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ACONTECIMENTOS DO SER – TOTALIDADE E INFINITO (2017)

MOATI, Raoul. Levinas and the Night of Being. A Guide to Totality and Infinity. Tr. Daniel Wyche. New York: Fordham University Press, 2017

* A questão fundamental da obra Totalidade e Infinto reside na investigação sobre a possibilidade de a moralidade constituir um engano em um mundo ontologicamente definido pela guerra como princípio supremo da realidade.

  • A crença na moral em um contexto de antagonismo universal é apresentada como um paradoxo para uma filosofia que busca elevar a ética ao posto de disciplina primordial.
  • Levinas caracteriza a realidade como ontologicamente alérgica à moralidade, onde o conflito entre seres humanos é a forma exclusiva do real.

* A prevalência da guerra como estrutura última da realidade torna a moralidade incompatível com qualquer ação efetiva, revelando-se não como um acidente transitório, mas como a própria verdade nua e crua do ser.

  • A eclosão do conflito rompe as dissimulações verbais e as ilusões morais para impor a crueza do real.
  • A experiência da guerra é identificada como a experiência pura do ser puro.

* O estado de guerra permanente refuta a moralidade universal e a substitui pela política, entendida como a arte estratégica de prever e vencer o conflito, reduzindo os imperativos éticos a meras funções de prudência e cálculo.

  • A moralidade perde sua univalência ao ser instrumentalizada para a obtenção da vitória sobre o adversário.
  • A inteligência prática, na tradição aristotélica, acaba pervertida pela astúcia e pelo estratagema político.

* A redução da moralidade a um papel de suporte político suspende a incondicionalidade de seus princípios eternos e torna a oposição moral à guerra um fenômeno derisório.

  • A realidade entendida como guerra permanente neutraliza a capacidade da moral de se opor aos fatos.
  • Levinas afirma que a guerra não é apenas uma provação para a moral, mas sua própria negação.

* A lei absoluta que governa indivíduos e Estados sob uma ontologia da totalização estabelece que a paz é apenas um momento provisório e dependente do próprio mecanismo bélico.

  • A paz dos impérios é descrita como um fenômeno que repousa e se origina na estrutura da guerra.

* A lucidez filosófica exige o reconhecimento da possibilidade permanente da guerra como o horizonte último do ser, invalidando qualquer pretensão de encontrar fatos morais substantivos dentro de uma realidade assim estruturada.

  • A visão moral é interpretada como uma distração que oculta a estrutura agonística do real.
  • O julgamento axiológico sobre o real é visto como um abandono da clareza em favor de noções vazias.

* Levinas adota a crítica genealógica de Nietzsche para radicalizar a ideia de que a moralidade é uma ilusão usada para escapar da realidade, embora utilize essa constatação como ponto de partida para um projeto ético que não se reduza a consolo ilusório.

  • O autor evita seguir Heidegger na busca por fragmentos de Heráclito para provar que o ser é guerra, preferindo a constatação da patência do real.
  • A moralidade é tratada, inicialmente, como um conjunto de palavras e decepções sutis praticadas pelos homens.

* A determinação da ética como filosofia primeira só é pensável se não houver rendição prévia a uma moralidade que mascara a realidade da guerra.

  • O tratado reconhece que o estado de guerra suspende obrigações eternas e imperativos incondicionais.

* O desafio central consiste em desvincular o destino da moralidade de sua função histórica como serva da guerra, sem renunciar à lucidez que identifica a guerra como a verdade do real.

  • Questiona-se a possibilidade de reabilitar a moral sem abandonar a clareza necessária sobre a violência estrutural do mundo.

* A existência de uma experiência ética autêntica, que não seja a continuação da guerra por outros meios, exige uma redefinição completa da ontologia para que a moral seja pensado sem ingenuidade.

  • O autor propõe que a reabilitação da moral ocorra no nível da estrutura do ser.

* A moralidade recupera sua prerrogativa apenas quando se demonstra que o conceito de totalidade é insuficiente para esgotar o evento do ser, indicando que a guerra e a história não saturam o horizonte da experiência.

  • A insuficiência da totalização abre espaço para que a moral recupere seus direitos fora da análise da guerra.

* O projeto de Totalidade e Infinto culmina na superposição de uma escatologia da paz messiânica à totalização histórica, baseando-se em uma experiência de ser cujo princípio não se encontra na razão objetiva.

  • A escatologia suspende a continuidade da guerra como quadro ontológico fundamental.

* A escatologia representa a emergência de uma dimensão do ser ligada à transcendência e ao infinito, instituindo uma relação que ultrapassa a totalidade e o destino histórico dos indivíduos.

  • Essa dimensão liberta o ser da marcha imanente da razão na história.

* O evento ontológico na totalidade caracteriza-se pela mobilização universal dos seres, forçando-os a abandonar sua identidade para servirem a uma ordem objetiva da qual não há escapatória.

  • O indivíduo é transformado em um objeto da história, destituído de rosto e voz.
  • Levinas afirma que a guerra destrói a identidade do Mesmo.

* O ser na história significa a redução do indivíduo a um elo de uma totalidade anônima, onde o sacrifício das aspirações subjetivas é requisitado pelo processo histórico.

  • A mobilização para a guerra é o treinamento na despossessão de si mesmo.

* A escatologia produz o ser como transcendência através da fala, permitindo que os existentes existam na primeira pessoa e suspendam a dispensação teleológica da história.

  • A paz é definida como a aptidão para a fala pessoal contra o proferimento anônimo da história.

* O ato de falar marca a produção do ser além do horizonte da guerra permanente, pois a expressão do Rosto revela o Outro em sua transcendência exterior a qualquer sistema de significação objetiva.

  • O Rosto é uma significação sem contexto, que não se esgota na totalização histórica.
  • A transcendência é intrinsecamente ligada à expressão e à fala.

* A fala representa uma dimensão constitutiva da transcendência do ser, assemelhando-se à coisa em si kantiana situada além da fenomenalidade, mas manifesta como presença expressiva no Rosto.

  • O Rosto fala independentemente de qualquer ato empírico de linguagem, desfazendo a forma intencional que o prenderia a um ego transcendental.

* A libertação do mundo depende de uma visão escatológica e não teleológica do ser, que permita a ocorrência de eventos que não derivem da totalização ou da ontologia da guerra.

  • A ideia do ser transbordando a história só ganha lugar quando a totalização deixa de sufocar a transcendência.

* A paz messiânica só deixa de ser considerada uma opinião subjetiva ou ilusão quando a escatologia é reconhecida como uma relação legítima com o ser, superposta à ontologia da guerra.

  • Filósofos tradicionalmente desconfiam da escatologia, relegando-a ao domínio da opinião contra a verdade objetiva.
  • A superposição destrói a equivalência entre verdade objetiva e ontologia.

* A moralidade torna-se incondicional e universal no momento histórico em que a escatologia da paz messiânica se sobrepõe à ontologia da guerra, rompendo a saturação do real pela totalidade.

  • Este é descrito como um momento decisivo e sem precedentes na estrutura do ser.

* A manutenção da linguagem filosófica e do discurso sobre o ser em Totalidade e Infinto é essencial para evitar que a ética seja pulverizada pela razão objetiva como se fosse misticismo ou arbítrio.

  • O discurso sobre o ser visa liberar os eventos últimos do horizonte da objetividade e da história.

* O advento da paz messiânica requer a abertura da ontologia para a ideia do infinito, que é uma experiência originária de relação com o absolutamente outro que transborda o pensamento.

  • A ideia do infinito na mente precede a distinção entre descoberta própria e opinião recebida.

* A paz escatológica não ocorre dentro da história objetiva revelada pela guerra, mas representa a suspensão da realização histórica por meio de uma relação situada fora do regime de totalização.

  • A superposição significa que a escatologia não é redutível nem à opinião nem à evidência objetiva.

* O acesso ao ser deixa de ser prerrogativa exclusiva da evidência objetiva, permitindo que a relação com o infinito seja um evento originário não inscrito no horizonte da guerra.

  • Levinas nega que a apreensão do objeto seja a forma única de tecer laços com a verdade.

* A insuficiência da totalização para medir o ser exige o conceito de infinito, permitindo que a escatologia institua uma relação além da história e da necessidade objetiva.

  • A totalidade mostra apenas o lado do ser que se revela na guerra.

* A paz messiânica é o cumprimento de uma relação com o ser sob a forma de eventos não totalizáveis e essencialmente noturnos, que suspendem a objetividade histórica.

  • Essa relação situa-se além do horizonte da guerra.

* A existência de um desdobramento noturno do ser impede que eventos não revelados pela evidência objetiva sejam descartados como ilusão, exigindo uma ontologia que acolha o que escapa à totalização hegeliana ou fenomenológica.

  • O que se chama de relação primordial com o ser isenta-se da objetividade como norma universal.
  • O ser revela-se no modo da não adequação.

* A transcendência do ser em sua exterioridade originária requer o conceito de infinito, visto que o ser não é produzido exaustivamente como evidência objetiva.

  • A escatologia revela o ser como não abarcável dentro de uma totalidade.

* O léxico do ser é mantido em 1961 para demonstrar que os eventos últimos do ser não procedem da ontologia da guerra, diferenciando-se do projeto de 1974 que buscará o para além do ser.

  • Em Totalidade e Infinto, a ética e a ontologia não são mutuamente exclusivas.

* A manutenção do léxico do ser não compromete a crítica a Heidegger, pois Levinas sustenta que nem a totalização nem a compreensão ontológica saturam o horizonte do ser.

  • O autor evita ceder o horizonte do ser exclusivamente à ontologia fundamental.

* Existem eventos noturnos do ser que a compreensão ontológica é estruturalmente incapaz de captar, pois ocorrem em horizontes alheios ao desvelamento.

  • Levinas propõe que a ontologia fundamental impede a elucidação exaustiva do ser ao restringir eventos à compreensão.

* A consciência não se limita à representação ou à luz da adequação, mas realiza eventos noturnos, como o acolhimento do rosto e a obra da justiça, cuja significação última não reside no desvelar.

  • A fenomenologia é um método, mas o trazer à luz não constitui o evento último do ser.

* Levinas critica tanto a fenomenologia transcendental quanto a ontologia fundamental por circunscreverem o ser ao destino da verdade como vinda à luz ou adequação.

  • Em ambos os casos, o ser é limitado pelos poderes humanos de intelecção.

* Mesmo na fase tardia de Heidegger, onde o poder parece dar lugar ao mistério ou à errância, a inteligibilidade continua dependente de uma referência aos poderes humanos sobre o ser.

  • O desvelamento do ser permanece confinado ao registro da luz e da verdade.

* A descoberta filosófica é sempre secundária em relação aos eventos noturnos do ser, que se produzem de forma independente e clandestina antes de qualquer desvelamento.

  • Toda revelação do ser funda-se em uma experiência esquecida e transbordante.

* Os dramas noturnos do ser designam eventos que partem de uma consciência capaz de acolher a excessividade do infinito em sua não adequação originária aos poderes de constituição.

  • A ideia do infinito é o próprio modo de ser, a infinição, do infinito.

* A fenomenologia tradicional amputa a dimensão noturna da consciência ao esquecer que todo conhecimento intencional pressupõe a ideia do infinito como não adequação.

  • Há uma experiência mais originária para a consciência do que a constituição transcendental.

* O acolhimento do Outro em seu excesso não é uma queda na obscuridade ou confusão, mas o ingresso no ensino e na interlocução, onde a compreensão do ser funda-se na primazia metafísica da fala.

  • A revelação do Outro-existente é anterior à questão do sentido do ser.

* A compreensão do ser é inerentemente uma interlocução endereçada a alguém, o que impede a tematização totalizante do Outro, que é, primordialmente, um interlocutor.

  • Não há linguagem de tematização sem a dimensão originária do endereçamento.

* O objetivo de Levinas é renunciar à ontologia fundamental como formato exclusivo da ontologia, seguindo um drama noturno que escapa aos poderes de Dasein e da subjetividade.

  • A exterioridade do ser à intelecção coincide com a ética como revelação do rosto.

* Levinas recomenda buscar na consciência um evento que a transborde e não se formule em termos de poder, separando o evento do ser da verdade para situar esta última em uma economia geral do ser.

  • A verdade é apenas um momento dentro da economia geral do ser.

* Categorias como o rosto, o eros e a fecundidade referem-se a regimes de ser que não se reduzem à compreensão ou aos projetos do existente, excedendo o regime constituinte do poder.

  • A infinitude do ser manifesta-se no rompimento com a exigência fenomenológica da verdade como adequação.

* A consciência realiza um movimento originário de acolhimento do excesso do ser antes de qualquer dedução transcendental, o que Levinas chama de quebra da estrutura formal do pensamento em eventos dissimulados.

  • A consciência transborda seu próprio jogo de luzes para permitir a passagem dos eventos últimos.

* A economia geral do ser não é exaurida pela subjetividade transcendental, pois a verdade como adequação é apenas um momento moldado pelo desdobramento noturno do ser.

  • Nem Husserl, nem Heidegger, nem Sartre medem a totalidade da expansão do ser.

* O evento originário do ser reside no transbordamento das capacidades humanas de compreensão, concretizando-se na relação com o rosto, na carícia do eros e na fecundidade.

  • Tais relações situam-se além da face e não podem ser descritas como atos intencionais que visam objetos ou realizam projetos.

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