User Tools

Site Tools


estudos:kockelmans:1989:2

SZ §§1-4

KOCKELMANS, Joseph. Heidegger’s “Being and Time”: The Analytic of Dasein as Fundamental Ontology. Lanham (Md.): Center for Advanced Research in Phenomenology, 1989.

A necessidade, a estrutura e a primazia da questão do ser («Ser e tempo», §§ 1–4)

I. Reflexões introdutórias

  • A questão do sentido do ser parece familiar porque toda relação com os entes já pressupõe alguma compreensão de que eles são; precisamente essa familiaridade encobre o problema, pois compreender e empregar continuamente o verbo «ser» não equivale a esclarecer o horizonte a partir do qual ele adquire sentido.
  • A analítica do ser-aí (Dasein) prepara a investigação do ser mediante o exame daquele ente para o qual o próprio ser está em questão; suas determinações não formam um inventário de propriedades humanas, mas procuram explicitar as condições de abertura em que qualquer ente pode mostrar-se.
  • A terminologia da existência (Existenz), da disposição (Befindlichkeit), da compreensão (Verstehen), do mundo e dos modos de ser dos entes acompanha uma mudança na pergunta filosófica: importa distinguir a maneira como algo é daquilo que ele é e, por fim, perguntar pelo sentido do ser que torna possíveis essas distinções.

II. Alguns pressupostos

  • A ontologia fundamental reúne a investigação dos modos de ser herdada da filosofia grega e a exigência moderna de esclarecer as condições de possibilidade do conhecimento; a fenomenologia constitui seu modo de acesso aos fenômenos, pois a determinação do método depende da natureza daquilo que se pretende deixar aparecer.
  • O método ontológico não pode ser estabelecido integralmente antes da investigação, já que seu objeto só se esclarece no próprio percurso; a compreensão inicial orienta a pesquisa e deve ser revista à medida que esta explicita seus pressupostos, conforme a estrutura circular da interpretação.
  • A multiplicidade dos modos de ser, como a existência (Existenz), o ser simplesmente dado (Vorhandenheit) e o ser à mão (Zuhandenheit), exige mais do que uma classificação de entes: é necessário investigar o horizonte temporal que permite compreendê-los em sua diferença e unidade.
  • A doutrina tradicional da analogia reconhece relações entre as diversas significações de «ser», mas não esclarece suficientemente o sentido do ser pressuposto por elas; tampouco basta eleger previamente o ente natural como referência privilegiada, sem examinar a compreensão de ser constitutiva do ser-aí.
  • A diferença entre o ente e seu modo de ser pressupõe uma questão mais originária acerca da verdade e do sentido do próprio ser; por isso, a diferença ontológica não se deixa reduzir a uma distinção entre o dado posteriormente na experiência e uma forma conhecida de antemão.
  • O caráter incompleto de «Ser e tempo» deixa em aberto a passagem da temporalidade do ser-aí ao tempo como horizonte do sentido do ser; a analítica existencial prepara essa passagem, mas sua descrição dos modos de ser não constitui, por si, uma resposta à pergunta fundamental.

III. O problema fundamental da filosofia de Heidegger: a questão do sentido do ser

  • A investigação do ser se distingue de uma antropologia filosófica porque a existência humana entra em questão enquanto abertura para a manifestação dos entes; a prioridade da analítica do ser-aí (Dasein) decorre da pergunta pelo ser e não transforma o ser humano em fundamento último de tudo o que há.
  • O esquecimento da questão do ser se consolida quando as interpretações recebidas passam a tratar como evidência aquilo que inicialmente exigia pensamento; a possibilidade de classificar entes e empregar corretamente a palavra «ser» acaba por encobrir a falta de esclarecimento de seu sentido.
  • A alegada universalidade do ser não o converte em gênero supremo nem o torna imediatamente transparente: o ser está pressuposto em qualquer determinação dos entes, mas essa amplitude torna mais urgente esclarecer sua significação.
  • A impossibilidade de definir o ser pelo procedimento lógico de gênero e diferença indica que ele não possui o caráter de um ente; longe de dispensar a investigação, essa impossibilidade exige um modo próprio de formular a pergunta.
  • A aparente evidência do «é» na fala cotidiana convive com a obscuridade de seu sentido; a compreensão prévia que sustenta as relações habituais com os entes fornece, assim, tanto o ponto de partida da questão quanto o indício de que ela ainda carece de direção adequada.

IV. A estrutura formal da questão do ser

  • Toda pergunta envolve aquilo pelo que se pergunta, aquilo que se interroga e aquilo que se procura descobrir; na questão ontológica, pergunta-se pelo ser, interrogam-se os entes quanto a seu ser e procura-se alcançar o sentido do ser.
  • A investigação parte necessariamente de uma compreensão mediana e vaga do ser, presente antes de qualquer formulação conceitual; essa compreensão não oferece a resposta pronta, mas torna possível procurar aquilo cujo sentido permanece encoberto.
  • O ser determina os entes enquanto entes sem ser ele próprio um ente, de modo que sua investigação não pode explicar os entes apenas remetendo-os à origem em outro ente ou empregando conceitos elaborados para objetos determinados.
  • Entre os entes passíveis de interrogação, o ser-aí (Dasein) possui prioridade porque perguntar, compreender e conceituar pertencem ao seu modo de ser; esclarecer o ente que pergunta é, portanto, uma exigência interna da formulação transparente da questão, sem que isso substitua seu verdadeiro alvo.

V. A primazia ontológica da questão do ser

  • As ciências delimitam domínios de entes mediante conceitos fundamentais, cuja revisão pode transformar o curso de suas pesquisas; as ontologias regionais investigam os modos de ser pressupostos nesses domínios, mas continuam sem fundamento suficiente enquanto o sentido do ser permanece impensado.
  • A pergunta pelo sentido do ser alcança as condições prévias tanto das ciências que estudam tipos determinados de entes quanto das ontologias que articulam suas categorias; sua prioridade não decorre de afastamento da experiência concreta, mas de sua incidência sobre toda compreensão dos entes.
  • A pesquisa científica é uma possibilidade do ser-aí (Dasein), embora não constitua sua relação mais originária com o ser; antes de elaborar teorias, o ser-aí já se compreende de algum modo e se relaciona com o próprio ser como uma possibilidade sua.
  • A existência (Existenz) designa esse modo de ser em que o ser está em jogo para o próprio ente que existe; por isso, a ontologia fundamental assume a forma de uma analítica existencial do ser-aí e radicaliza a compreensão pré-ontológica que já orienta sua vida.

VI. A compreensão radical do ser pelo ser humano

  • A compreensão de ser acompanha toda relação ordinária com os entes: antes de qualquer teoria, já se distingue que algo é, como é e de que modo pode ser encontrado, embora o sentido dessa abertura permaneça conceitualmente indeterminado.
  • Essa compreensão pré-conceitual é vaga e geralmente não suscita perguntas porque possibilita a familiaridade cotidiana com as coisas; ainda assim, constitui o dado irredutível a partir do qual a própria questão do ser pode surgir.
  • O ser-aí (Dasein) nomeia ontologicamente a abertura na qual os entes se tornam manifestos, e não uma definição completa do ser humano por suas propriedades; ao deixar-ser (Seinlassen), descobre os entes como aquilo que são, sem criá-los.
  • A manifestação dos entes requer a abertura finita do ser-aí, enquanto essa abertura ocorre em relação com os entes e com o mundo; a investigação da compreensão de ser deve, portanto, esclarecer essa pertença recíproca para alcançar a pergunta pelo próprio ser.
estudos/kockelmans/1989/2.txt · Last modified: by 127.0.0.1